Flashes da comissão de orientação

Imagem: Instagram @contemporary_art
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Eixo 4 – Ato analítico e política do sintoma

Por Patricia Badari (EBP/AMP)

Corpo-máquina[1], corpo-imagem[2], corpo biológico sem laço com o corpo do falasser, identificação do corpo do falasser ao organismo – é o que evidenciamos mais e mais no mundo contemporâneo.

Estes corpos, cada um deles, o que são? A que respondem ou do que se defendem? São produtos do mercado, produtos do discurso da ciência? São efeitos da pretensa separação do laço entre o corpo biológico e o corpo do falasser? São respostas à violenta irrupção do gozo no corpo falante – um gozo que é subvertido pelo desconhecido que invade e que aparece sem sentido e sem lei?

Para a psicanálise o corpo é o “(..) corpo marcado por acontecimentos de gozo, por traumas de lalíngua (…)”[3], não há corpo biológico sem o corpo do falasser, não há um sem o outro.

E neste sentido podemos dizer que a psicanálise em ato é a política do sintoma, o avesso da biopolítica?


[1] LAURENT, É. O avesso da biopolítica. Uma escrita para o gozo. Coleção Opção Lacaniana. Vol. 13. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2016, p. 15.
[2] Ibid.
[3] Ibid. p. 57.

BIBLIOGRAFIA:
LACAN, J. “Radiofonia”. In Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. 2003.
_________. O seminário, livro 20, mais, ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.
MILLER, J.-A. “O inconsciente e o corpo falante”. Disponível em: https://www.wapol.org/pt/articulos/Template.asp?intTipoPagina=4&intPublicacion=13&intEdicion=9&intIdiomaPublicacion=9&intArticulo=2742&intIdiomaArticulo=9

Eixo 3 – Ato analítico e civilização

Por Cristiana Chacon Gallo (EBP/AMP)

 Dirijo minha questão a este eixo, partindo do ponto levantado acerca da convergência entre o discurso da civilização e o da psicanálise na atualidade, numa referência a Miller em “Uma fantasia”[1].

Seguindo com Miller nesta conferência, temos esclarecido “que esses diferentes elementos estão dispersos na civilização e que só na psicanálise, na psicanálise pura, esses elementos se ordenam em discurso”[2].

Acredito que o que aí se destaca como psicanálise pura vem conversar com as articulações feitas por Éric Laurent em seu texto “Política do passe e identificação dessegregativa”[3], de onde destaco, sobre o dispositivo do passe, que: “Trata-se sobretudo, de examinar as singularidades do desejo produzido e a do ato analítico”[4].

Ao final do texto, Laurent apontará para a questão exposta neste eixo no que se refere a “levar a psicanálise à política”[5], acrescentando tratar-se de “levar a ética da identificação dessegregativa a esse campo”.[6]

Apresentando a Escola como “laboratório de produção de identificações dessegregativas”[7], falará dos analistas, encontrando apoio em “nosso discurso”, ao pensar em uma direção ao discurso do mestre ou à política.

Num primeiro momento, me fiz a questão: “psicanálise em ato” e “levar a psicanálise à política”, se equivalem?

Se o “nosso discurso” traz o esforço de buscar dizer o indizível, tal como o de falar de uma “identificação dessegregativa”, caberá nesta ida à política considerar o esforço de transmissão do novo em relação ao próprio desejo?

Será que poderíamos dizer que para além de: “uma psicanálise é o que se espera de um psicanalista”, haveria um giro a mais a se fazer em termos do que esperar, particularmente ao conjugarmos a “psicanálise em ato” no campo da civilização?

Não que isto seja exatamente novo, pois a indicação de Lacan quanto ao “analista estar à altura de sua época” aponta para a constante atenção aos termos dos discursos em circulação, mas talvez os tempos atuais tragam um forçamento a mais, uma vez que os riscos de esgarçamento no tecido dos laços sociais se apresentam de maneira sensível.

Se a Escola é “laboratório”, o que levar do que aí se tece em termos dos laços?


[1] MILLER, J-A. “Uma fantasia”. In Opção Lacaniana, n. 42, fev. 2005
[2] Ibid., p. 10.
[3] LAURENT, É. “Política do passe e identificação dessegregativa”. In Opção Lacaniana, n. 82, abr. 2020.
[4] Ibid, p. 53.
[5] Ibid., p. 56.
[6] Ibid., p. 56.
[7] Ibid., p. 56.

Eixo 5 – A passagem de psicanalisante a psicanalista

Por Veridiana Marucio (EBP/AMP)

O passe como ato político

A psicanálise, por garantir um futuro aos nossos sintomas e não a sua erradicação, é o avesso do discurso do mestre contemporâneo, e é essa a relação que a sustenta. O que nos dá testemunho dessa afirmativa é o Passe.

É no dispositivo do Passe que se aloja o irredutível, aquilo que não se traduz em palavras, mas que faz ouvir sua presença e que se pode verificar a mutação subjetiva do sujeito quanto a sua relação com seu gozo.

Esse saber-fazer, resultante de uma cura, tem efeitos de reconhecimento não somente na Escola, mas também fora dela. Essa versão do Passe, na dimensão do impossível e do incurável se distancia radicalmente de todo ideal e se mostra contrário a toda forma de saber institucionalizado.

Sustentar esse dispositivo como lugar de endereçamento daqueles que se aventuram a testemunhar a passagem de psicanalisante a psicanalista e lugar de leitura deste irredutível é político! É político pois faz valer a exceção e desloca a política do discurso do mestre, trazendo a política do desejo.