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A Comissão de Referências Bibliográficas já começou a degustar o tema destas Jornadas: Bem-feito, supereu! Nada como um bom aperitivo para abrir nosso apetite… de saber! Para este boletim localizamos algumas citações da convidada: Carolina Koretzky.

As primeiras referências abordam o conceito do supereu em nossa época. Em seguida, um recorte do relato de passe da convidada, onde localiza-se no sujeito o empuxo superegoico frente ao enigma do desejo materno. Por fim, deixamos aqui a indicação de leitura de um caso apresentado por Carolina, El historiador del detalle[1], onde é possível acompanhar a localização do supereu materno e como a analista pode incluir o sublimatório do supereu, manejando-o.

Contemporaneidade

É precisamente em torno da questão do supereu que esse comentário dos dois mitos culmina no final do Seminário XVIII, e Lacan retomará no início do Seminário XX, o supereu como imperativo de gozo. ‘Qual é a prescrição do supereu? Ela se origina precisamente nesse Pai original, mais do que mítico, nesse apelo como tal do gozo puro, isto é, à não castração’ [Seminário XVIII]. O imperativo de gozo puro exige a não castração, que obriga a gozar sem falta e a renovar sem cessar a satisfação no desconhecimento da dimensão da perda. Essa leitura de Lacan nos introduz às consequências no social de um supereu que não é mais pensado a partir da introjeção parental – supereu simbólico que andaria de mãos dadas com o ideal – mas um supereu ligado ao gozo que se alimenta da renúncia pulsional e que exige sempre mais[2].

 

‘Gulodice’ e ‘ordem de ferro’, eis duas formas do supereu na época da evaporação do Pai da tradição. Lacan, em seu retorno e releitura de Freud, nos permite fazer face às mudanças do século XXI. Assim, a demanda de certos sujeitos que vêm hoje nos ver não é, sem dúvida, tanto a de afrouxar a pressão de sua alienação ao desejo do Outro a fim de subjetivar a lógica do que se articula neles à sua revelia […]. Talvez esses sujeitos venham cada vez mais buscar um espaço outro, um ‘respiro’, onde se abrigar de um Goza! que nunca satisfaz a sua fome[3].

 

No lugar da lei, uma ordem de ferro, como se a lei se opusesse à ordem de ferro. Ou seja, tal como dizemos: ‘O Deus que expulsamos pela porta entra pela janela’, há algo dessa ordem. Uma vez expulso o pai simbólico da tradição, o regresso seria ainda mais feroz do que a lei desse pai expulso[4].

Passe

Eu percebi a ambiguidade nessa frase materna: ‘Eu falei com você e você quis viver’. Eu interpretava a frase em seu aspecto superegoico, até feroz. Eu não queria mais ter que querer viver, mas sim viver, sem esse esforço constante que me obrigava todas as noites a responder à mesma pergunta: então, esse dia foi ou não intensamente vivido?[5].

 


[1]              KORETZKY, C. El historiador del detalle. In: MILLER, J.-A. La conversación clínica del UFORCA. Olivos, AR: Grama. 2020. p.125-144.

[2]              KORETZKY, C. Du nouage par le social. Mental – Revue internationale de psychanalyse. Eurofédération de psychanalyse: Difpop/Pollen, nº 50: Gourmandise du surmoi, p.67-72, Novembro, 2024. [tradução nossa]

[3]              Idem. [tradução nossa]

[4]              KORETZKY, C. Subjetividades Contemporáneas. In: Psicoanálisis Lacaniana, 2026. Acesso em 30/01/2026. Disponível em: https://psicoanalisislacaniano.com/2026/01/30/ckoretzky-subjetividades-contemporaneas-20260130. [tradução nossa]

[5]              KORETZKY, C. Partir/chegadas (com comentários de J.-A. Miller). In: Correio: Revista da Escola Brasileira de Psicanálise. São Paulo: EBP, n.95, p.97-111, Outubro, 2025.

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