skip to Main Content

Camila Popadiuk
Membro da EBP/AMP
Coordenadora Geral das XIV Jornadas da EBP-SP

“Do amor à morte”[1] é o título de uma conferência de Miller, na qual ele se apoia em dois textos freudianos – “Psicologia das massas e análise do eu” e “Mal-estar na civilização” – para destacar a forte ligação entre o amor e a pulsão. Neste caminho de Freud, do amor à morte, como pontua Miller, percorremos a gênese do supereu: inicialmente articulada à dependência do amor[2] e à “introjeção simbólica do Outro”[3] e, posteriormente, retomada do lado do gozo[4]. Esta última perspectiva será desenvolvida por Lacan, que inclui a voz insensata como condição para a constituição do supereu.

O título das Jornadas – Bem-feito, supereu! – joga com um equívoco homofônico entre bem feito/bem-feito. Por um lado, bem feito! pode ser entendido como expressão de uma satisfação punitiva, revelando o lado sádico do supereu, sua dimensão maldosa e cruel. Por outro, bem-feito remete à qualidade de algo bem realizado. No entanto, quando colocado ao lado do supereu, surge a pergunta: seria possível conceber uma função ou um efeito do supereu nessa perspectiva, isto é, atribui-lhe algo da ordem do bem-feito?

Bem-feito! – seguido do ponto de exclamação – pode ainda adquirir o valor de uma ordem quando lhe acrescentamos o tu deves, uma “modalidade do supereu”,[5] resultando na seguinte fórmula: Tu deves fazer bem-feito! Temos, assim, duas leituras que condensam certos pontos nodais do supereu: a “neutralidade nociva”[6], a função de “regra de conduta”[7] e sua dimensão de voz de comando.

Quanto à leitura que afasta o supereu de sua função punitiva e de seu imperativo de gozo, aproximando-o do bem-feito, poderíamos talvez concebê-lo como aliado do analista, como propõe Adriana Campos. Apoiada em Lacan, ela destaca que a prescrição – Diga tudo o que se passa na sua cabeça – comporta um imperativo que convida à associação livre. Ao suspender a crítica e a vigilância, a regra fundamental abre a via para o gozo da fala[8] e produz, como efeito, uma atenuação da potência superegoica. Na mesma direção, pode-se considerar que o ato criativo, no campo da arte, é um imperativo que impulsiona e faz o artista agir em direção à produção de sua obra[9]. A regra fundamental e o ato criativo implicam, portanto, em uma injunção, mas que não conduz necessariamente ao gozo mortífero. Coloca-se então a pergunta: esses imperativos têm a mesma natureza que o imperativo superegoico?[10]

Em seu texto “O humor”, Freud já indicava que há “muito a aprender sobre a natureza do Super-eu”[11], ao lhe atribuir também um “modo carinhoso e consolador ao Eu amedrontado”[12]. Ele diz:

[…] conhecemos o Super-eu como um senhor severo. Talvez se diga que não harmoniza muito bem com isso o fato dele consentir em possibilitar um pequeno ganho de prazer ao Eu. […] Mas atribuímos – sem saber exatamente por quê – um alto valor a esse prazer não tão intenso, sentimo-lo como particularmente libertador e exaltador[13].

Assim, propõe-se, por um lado, interrogar a natureza do supereu e de certos imperativos que parecem ir em direção ao bem-feito; e, por outro, considerá-lo a partir dos três registros indicados por Miller: no imaginário, como “figura obscena e feroz”; no simbólico, como “lei insensata”; e no real, como não sendo “outra coisa senão o objeto a como voz”[14].

Retomo a fórmula tu deves fazer bem-feito! para sublinhar que, na perspectiva do supereu ligada ao gozo, não se trata de ir em direção ao bem. Ao contrário: quanto mais o sujeito se submete a essa ordem, mais o supereu vocifera e o sentimento de culpa que surge como mal-estar é justamente a expressão de que não se alcança tal exigência e que ela não cessa de reclamar mais. Esse é o circuito do supereu: um movimento perpétuo que retorna sempre ao ponto de partida e cuja ética é a de fazer o sujeito ceder de seu desejo[15].

É precisamente nesse sentido que Miller coloca em evidência a descoberta freudiana de que “o supereu engorda com a satisfação pulsional à qual se renunciou: […] quanto mais se renuncia, o gozo pulsional, longe de se desvanecer, nutre o supereu, e se goza nesse lugar”.[16] Esse é o paradoxo do supereu, ponto ao qual Miller nos conduz, não sem nos advertir que a ética da psicanálise não é a ética do supereu e que esta, por sua vez, tampouco é a ética do bem. Como ele afirma, “o paradoxo do supereu reside no fato de que o sujeito está ligado a alguma coisa que não lhe faz bem e que não contribui ao seu bem-estar. O supereu deve então ser incluído na mesma série da pulsão de morte e do masoquismo primordial”[17].

Posta essa breve abertura do título das Jornadas, não pude deixar de notar que o caminho traçado pela Diretoria da Seção SP coincide com o caminho de Freud: do amor, tema das jornadas precedentes, à morte, que se apresenta aqui sob a forma do supereu.

É nesse horizonte que se situam estas Jornadas: demonstrar, a partir da clínica, as formas de incidência do supereu: suas diferentes vertentes, injunções e paradoxos, bem como suas formas contemporâneas de tirania, e mostrar como, sob transferência, é possível operar um deslocamento nesse modo de satisfação para que o sujeito não fique a sua mercê.

Trata-se também de interrogar, como assinala Carolina Koretsky, quais são as “consequências no social de um supereu que não é mais pensado a partir da introjeção parental – supereu que caminharia lado a lado com o ideal – mas um supereu ligado ao gozo que se nutre da renúncia pulsional que exige sempre mais”[18]. Nessa perspectiva, busca-se então elucidar os efeitos do funcionamento superegoico na constituição do sintoma[19] nos dias de hoje. A este respeito, destaco uma orientação clínica de Lacan:

Todo analista será solicitado a dar [à voz do Outro] seu lugar e a seguir suas encarnações diversas, tanto no campo da psicose como, no mais extremo do normal, na formação do supereu. Ao situar a fonte a do supereu, talvez muitas coisas fiquem mais claras[20].

Esperamos que esse trabalho possa trazer novas iluminações sobre o tema do supereu!

As XIV Jornadas Bem-feito, supereu! acontecerão nos dias 16 e 17 de outubro de 2026 no Hotel Meliã-Paulista. É uma grande alegria anunciar Carolina Koretzky, (AME, membro da ECF e da AMP) como nossa convidada.

Daqui até lá, teremos três preparatórias, nas quais serão apresentados os três eixos temáticos que servirão de orientação para a escrita dos casos clínicos, a serem enviados até o dia 12 de setembro para a Comissão de Orientação. Os textos selecionados comporão as mesas simultâneas da Jornada clínica que acontecerá na sexta-feira, 16 de outubro, no período da tarde. A formação de cartéis, como dispositivo de trabalho, é sempre muito bem-vinda. Inscrevam-se nesses pequenos grupos! Enviem suas contribuições clínicas!

A Comissão de Arte escolheu a obra Fratura, de Fernanda Leal, para compor o cartaz das Jornadas. Uma escolha que convida a refletir sobre o supereu como aquilo que surge do furo e, ao mesmo tempo, como uma defesa frente a ele, tal como indica Miller, à luz do último ensino de Lacan quando ele afirma que o lugar do sujeito é o lugar do gozo e que é precisamente aí que surge a defesa primordial frente a ele[21]. É também, como ele diz, o “lugar de onde podem se elevar, se inscrever e se construir as outras instâncias da tópica freudiana: o eu e o supereu”[22], bem como o lugar “onde, eventualmente, se alojará o sujeito suposto saber”[23]. A obra do cartaz evoca ainda o ato criativo como um saber-fazer com isso e faz alusão ao bom uso do supereu como um efeito da experiência analítica, já que dele não nos livramos.

Tu deves – uma das expressões do supereu, que a Comissão de Boletim tomou emprestada para dar nome ao boletim das Jornadas. Ao acrescentar as reticências, Tu deves… ganha o valor de um convite… à leitura, à escrita, à participação. O primeiro número de Tu deves… estará disponível a partir de 16 de abril de 2026.

Tu deves… se inscrever nas XIV Jornadas da Seção SP: as inscrições já estão abertas. Para maiores informações, sigam nossas páginas no Instagram (@jornadasebpsp) e no Facebook (Jornadas Ebp-Sp), ou acessem o site da Seção SP.

Tu deves… ir à festa, se divertir, dançar, cantar. A festa Cante com Sade será no sábado, 17 de outubro, das 20h às 2h da manhã, na Casa Bartira, em Perdizes. Em breve, a Comissão de Acolhimento e Festa divulgará mais informações sobre a venda dos ingressos e de tudo que Cante com Sade nos reserva!

Finalmente, agradeço à Diretoria da Seção São Paulo pela confiança depositada em mim ao me convidar para coordenar estas Jornadas. Expresso também minha satisfação em trabalhar com Maria do Carmo Dias Batista, coordenadora da Comissão de Orientação. Faço também um agradecimento muitíssimo especial a todos os setenta e cinco colegas que aceitaram compor as nove comissões de trabalho e que, certamente, tornarão possível a realização destas Jornadas.

Que a exigência de um trabalho bem-feito seja nossa aliada!

Obrigada.


[1]              MILLER, J.-A. Do amor à morte. Opção Lacaniana on-line, [s. l.], n. 2, ano 1, jul. 2010.

[2]              Ibid., p. 2.

[3]              Ibid., p. 12.

[4]              Ibid.

[5]              CAMPOS, S. Supereu/Uerepus: das origens aos seus destinos. Belo Horizonte: Escola Brasileira de Psicanálise, 2015. p. 161.

[6]              LACAN, J. O seminário, livro 3: as psicoses (1955-1956). Rio de Janeiro: Zahar, 1988. p. 319.

[7]              Ibid.

[8]              CAMPOS, A. Le surmoi, un allié de l´analyste. La cause du désir, n. 118, p. 43-48, 2024. (Tradução nossa).

[9]              REINOSO, V. H. L´impératif de l´acte créatif. Mental, n. 50, p. 107-112, nov. 2024. (Tradução nossa).

[10]             Ibidem., (Tradução nossa).

[11]             FREUD, S. O humor (1927). In: Freud, S. Obras completas, volume 17: Inibição, sintoma e angústia, O futuro de uma ilusão e outros textos (1926-1929). São Paulo: Companhia das letras, 2014. p. 330.

[12]             Ibid.

[13]             Ibid, p. 239.

[14]             MILLER, J.-A. La clinique du surmoi. Mental, n. 50, p. 20-22, nov. 2024. (Tradução nossa).

[15]             MILLER, J.-A. Jogar a partida. Opção Lacaniana, São Paulo, n. 90, p. 16-17, out. 2025.

[16]             MILLER, J.-A. Do amor à morte. Opção Lacaniana on-line, [s. l.], n. 2, ano 1, p. 13, jul. 2010.

[17]             MILLER, J.-A. La clinique du surmoi. Mental, n. 50, p. 18, nov. 2024. (Tradução nossa).

[18]             KORETSKY, C. Du nougae par le social. Mental, n. 50, p. 72, nov. 2024. (Tradução nossa).

[19]             MILLER, J.-A. Jogar a partida. Jogar a partida. Opção Lacaniana, São Paulo, n. 90, p. 17, out. 2025.

[20]             LACAN, J. Introdução aos Nomes-do-Pai. In: LACAN, J. Nomes-do-Pai. Rio de Janeiro: Zahar, 2005. p. 71.

[21]             MILLER, J.-A. Todo mundo es loco. Ciudad Autónoma de Buenos Aires: Paidós, 2015. p. 322. (Tradução nossa).

[22]             Ibid.

[23]             Ibid, p. 323. (Tradução nossa).

Back To Top