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Maria do Carmo Dias Batista
AME da EBP/AMP
Coordenadora da Comissão de Orientação
das XIV Jornadas da EBP-SP

O que é um argumento?

A princípio, argumento é uma discussão em defesa ou refutação de uma ideia, de uma tese, de um texto, de um manifesto. Faz-se por meio de um conjunto de razões ou provas reunidas em construção lógica, para chegar a uma conclusão, ou, ainda, no lugar dessa construção, pode ser composto de perguntas e respostas.

Quer convencer, tornar crível, persuadir.

Em nosso caso, fazer crer que o tema e o título das Jornadas podem propiciar efeitos de formação em psicanálise e aglutinar em torno deles (do tema e do título) nossa comunidade de trabalho. Com tal finalidade, fornece elementos para ampliação do debate e desdobramento de novos textos, a serem eventualmente apresentados em plenárias ou mesas simultâneas das Jornadas.

O tema das XIV Jornadas teve origem em uma supervisão de Veridiana Marucio, Diretora da Seção São Paulo, com Jacques-Alain Miller, em novembro de 2025. Disse ela dos temas propostos até então pela Diretoria, entre os quais o supereu. Somente este contou com o ânimo de Miller, arrancando sua conjectura sobre um possível título: « Ah! Le mal fait e le bienfait du surmoi ». Em seguida, perguntou como ficaria a frase em português e Veridiana respondeu que talvez ficasse estranha… Ela, então, propôs “O malmequer e o bem-me-quer do supereu”. JAM disse não acompanhar essa construção, acrescentando que o mais importante seria manter, no título, as duas faces do supereu, ou seja, também o bem-feito e não somente o malfeito pelo qual é tão conhecido.

Depois de muitas discussões e mais de 40 propostas de títulos em torno da frase e do comentário de Miller, o núcleo das Jornadas, formado pela Diretoria, pela Coordenadora das Jornadas e pela Coordenadora da Comissão de Orientação, chegou ao título: “Bem-feito, supereu!”

Bem-feito, como adjetivo, indica o bem realizado, bem executado [bienfait].

Bem feito, sem o hífen, como interjeição, é a exclamação irônica que se faz quando advém uma desdita [mal fait] a alguém por culpa própria.

O ponto de exclamação ao final reitera a ironia.

O título, portanto, mostra a dupla face, bem/mal, do supereu, com ironia, graça, equívoco, contradição do hífen, e, certamente, fracasso em obter uma frase impecável no português.

Ainda sobre hifens, o tradutor de Freud no texto “O Eu e o Id”[1], pela Companhia das Letras, prefere usar Super-eu [Uber-ich, no original], com hífen e maiúscula, por manter em destaque o “Eu” do original. Optamos por utilizar supereu, como está no Vocabulário da Psicanálise de Laplanche e Pontalis[2], e em toda a obra de Lacan traduzida pela Zahar. Além disso, a grafia supereu facilita a remissão ao francês surmoi. O prefixo “super” [Über – Sur – Super] tem aqui acepção de “em cima de”, como em “sobrepor” ou “supercílio” e não o sentido de abundância ou excesso.

Uma definição de supereu

No texto “O Eu e o Id” [1923], da segunda tópica (ou segunda topologia), Freud define o supereu (ou ideal do Eu, como usa indistintamente nesse texto) como instância formada pela “gradação do Eu, por uma diferenciação em seu interior”[3]. Uma parte do Eu se opõe à outra, julga-a de forma crítica e a toma como objeto. Essa acepção foi também tratada em outros textos como “Introdução ao narcisismo” [1914] e “Psicologia das massas e análise do Eu” [1921]. A diferenciação ocorre por cisão da identificação primitiva ao pai, que fica isolada, e “não se inscreve nas numerosas identificações do Eu, fundando uma instância psíquica diferente, o supereu. Este se posiciona como ‘juiz’ do Eu”.[4] Encarna os objetos primitivos, coloca-se como guardião da Lei e proíbe sua transgressão.

Tratar do supereu é um respeitável programa de trabalho para os seis meses que nos separam das Jornadas. Aqui, neste argumento, discutiremos, um tanto ligeiramente, sua origem, a relação com a Lei, com os imperativos, com a voracidade, com a voz, com a sublimação e, finalmente, o que de bem pode fazer o supereu (o bem-feito!), ou seja, como ajuda a psicanálise e o psicanalista.

Origens do supereu: o monumento

“Assim (como o pai) você deve ser”.

“Assim (como o pai) você não pode ser, isto é, não pode fazer tudo o que ele faz. Há coisas que continuam reservadas a ele”.[5]

A prescrição da primeira frase, seguida da proibição na segunda, mostram, em Freud, o funcionamento por imperativos do supereu: deve! não pode! Porém, mais importante, as frases marcam a origem do supereu na identificação primária da criança ao pai, “o pai da pré-história pessoal”.[6] A frase prescritiva ordena uma identificação simples e positiva, e a frase com a proibição indica uma reação, uma “enérgica formação reativa”[7] ao Id. Essa dupla face do supereu forma-se na repressão ao complexo de Édipo.

Depois da dissolução do complexo de Édipo, há, no Eu, uma substituição da posição objetal dos pais. De objeto da libido, pai e mãe passam a figurar como duas identificações. Essa substituição deixa resíduos e, do conteúdo restante, surge o ideal do Eu, o supereu[8]. Mesmo devendo sua existência a essa reviravolta, o supereu se empenha na repressão ao complexo de Édipo. Diz Freud em “O Eu e o Id”:

“O supereu conservará o caráter do pai, e quanto mais forte foi o complexo de Édipo tanto mais rapidamente (sob a influência de autoridade, ensino religioso, escola, leituras) ocorreu sua repressão, tanto mais severamente o supereu terá domínio sobre o Eu como consciência moral, talvez como inconsciente sentimento de culpa”[9].

Na gênese do supereu temos ainda de considerar a longa imaturidade-dependência infantil do humano e, como vimos, o seu complexo de Édipo. O supereu representa a introjeção das influências parentais e de suas proibições. Sua função é impor limites, cobrar condutas e gerar sentimentos de culpa ou orgulho, regulando a relação do sujeito com as normas sociais e culturais.

A vertente “ideal do Eu”, como quer Freud ao ligar os conceitos[10], satisfaz a tudo o que se espera de “elevado” no ser humano, ou seja, o “bem-feito” do supereu, sua função civilizatória. Como substituto ao anseio dos pais, contém o princípio gerador de todas as religiões, o sentimento de humildade, inspira professores e autoridades a continuar a tarefa dos pais, exerce a censura moral e forja o sentimento de culpa – religião, moral, sentimento social, ciência e arte: as conquistas éticas do humano nele têm sua gênese psíquica[11].

Freud, ao discorrer sobre As Relações de Dependência do Eu, na parte V de “O Eu e o Id”, chega a uma preciosa sinopse sobre as origens e as funções do supereu:

“O supereu deve sua especial posição no Eu […] a dois fatos: é a primeira identificação, acontecida quando o Eu ainda era fraco, e é o herdeiro do complexo de Édipo, ou seja, introduziu no Eu os mais imponentes objetos. [Ele] conserva por toda a vida o caráter que lhe foi dado por sua origem no complexo paterno, ou seja, a capacidade de confrontar o Eu e dominá-lo. É o monumento que recorda a anterior fraqueza e dependência do Eu e que mantém seu predomínio sobre o Eu maduro”[12].

Supereu: Lei e identificação ao pai

O sujeito, desde antes de sua primeira “respiração”, pura carne voraz, antes dos balbucios de lalíngua, está submetido à Lei simbólica. A fala e a linguagem são sua maneira de existir, de encontrar um lugar no mundo e, óbvio, são fundamentais para a psicanálise. Lacan, no início de seu ensino, instaura o supereu em uma posição essencial para a aquisição da linguagem. Como diz Adriana Campos, “o supereu é a marca da inscrição do sujeito na Lei da linguagem, é ‘o caroço’ da linguagem. Pelo fato de ser a primeira inscrição e, por esse motivo, não estar submetido à dialética simbólica, comporta um aspecto insensato, feroz e ilegal”[13].

Então, é o próprio simbólico a introduzir a insensatez da Lei, tendo como núcleo o supereu. No caroço, na raiz do imperativo, a Lei se reduz a um inexplicável “Tu deves!”, sem qualquer sentido, e, por isso, caprichoso e tirânico. Assim, ao mesmo tempo, o supereu é a Lei e sua destruição.[14] Diz Lacan no Seminário 1:

“[…] o supereu acaba por se identificar àquilo que há somente de mais devastador, de mais fascinante nas experiências primitivas do sujeito. Acaba por se identificar ao que chamo figura feroz, às figuras que podemos ligar aos traumatismos primitivos, sejam eles quais forem, que a criança sofreu”[15].

Como vimos, a identificação ao “complexo paterno” é anterior ao declínio do Édipo, anterior à formação do supereu. A Lei simbólica se instaura desde o princípio, porém, segundo Freud, o supereu somente é incorporado como instância psíquica a partir do complexo de Édipo, mais precisamente, de sua dissolução.

No mito, quando Édipo, movido pelo desejo de saber e tendo realizado o maior desejo do humano, o incesto, descobre a tragédia de sua vida até então bem-aventurada, e enuncia me phynai (preferiria não ser, preferiria não ter nascido), cegando-se, funda a Lei da proibição do incesto. Em Totem e Tabu, o assassinato do pai (da horda) “é de revolta, de necessidade […], proveniente de uma conjuração”[16]. Como salienta Carolina Koretzky[17], Lacan, no Seminário 18, contrapõe Édipo a Totem e Tabu. Diz ele: “[…] a função-chave do mito se opõe rigorosamente nos dois. Lei desde o começo, no primeiro, tão primordial que exerce suas represálias mesmo quando os culpados só a violam inocentemente, e é a Lei, ainda, a saída da profusão do gozo. No segundo, [ao contrário], originalmente gozo, depois Lei […]”[18].

Continuando com Carolina Koretzky: “Passar do mito de Édipo ao mito de Totem e Tabu implica, pois, passar da mãe – como o próprio modelo de objeto perdido – à mulher, o que constitui uma mudança profunda em relação à Lei e ao que funda o pacto social”.[19]

Lacan, no Seminário 7, diz: “Mas, atenhamo-nos ao supereu edipiano. Que ele nasça no declínio do Édipo quer dizer que o sujeito incorpora sua instância. Isso deveria colocá-los na trilha”[20].

A incorporação do supereu equivale à incorporação dos objetos primários e a trilha, para Lacan, é a trilha da melancolia, paradigma freudiano das manifestações clínicas do supereu, junto com a neurose obsessiva. Ainda em Freud, à clínica do supereu correspondem: “Os arruinados pelo êxito”, “Os criminosos por sentimento de culpa” e “As neuroses de destino”. Fenômenos nos quais a palavra tem um peso oracular, a Lei insensata se apresenta como um destino implacável e, como afirma Lacan, a voz do imperativo é instaurada no lugar do Outro.

Supereu: os imperativos

A nossa época, marcada pelo declínio das referências paternas e pela queda dos ideais, pode ser considerada a época dos imperativos, na qual “o imperativo superegóico se desenvolve em sua dimensão de puro imperativo de gozo, de puro capricho, esvaziado de toda a relação com a moral”.[21] Época das depressões e das infinitas apropriações das categorias da doença mental, com o imperativo “eu sou isso, essa sigla”: TDAH, TOC, Bipolaridade, Bulimia, Toxicomanias, Alcoolismo, Obesidade, Consumismo, Compulsões. Época da revolução bariátrica e das canetas emagrecedoras. Das cirurgias plásticas e dos procedimentos dermatológicos deformadores. Do Triunfo da Religião.[22] Da Deep Web. Da pornografia. Da psicose ordinária.

Época, conforme Laurent Dupont, de uma “clínica do significante-mestre instável […] que provoca flutuação. […] o significante-mestre não é mais tão mestre para ancorar o sujeito, tornando-o ainda mais flutuante”[23].

Freud já se perguntava de onde o supereu tira forças para o domínio sobre o Eu, para “o caráter coercitivo que se manifesta como imperativo categórico”[24]. Da proximidade com o Id, no nó das pulsões. Nomeadamente, tira forças da pulsão de morte.

Portanto, desde Freud, o imperativo do supereu Tu deves! obedece à lógica do imperativo categórico kantiano, ou seja, “Tu deves agir de maneira tal que a máxima de tua vontade possa sempre valer como princípio de uma legislação que seja para todos”. Kant visa ao bem comum. Ou ao Bem Supremo, como diz Lacan. No contemporâneo, o imperativo poderia expressar-se em linguagem tecnológica, de computação: “Nunca ajas senão de modo que a tua ação possa ser programada”. Desse modo, para Lacan, o contemporâneo estaria, como está, acentuadamente desprendido do Bem Supremo[25].

“A efetuação de uma subjetividade que mereça ser chamada de contemporânea, de um homem de nossos dias, que tem a sorte de ter nascido em nossa época, não pode ignorar esse texto [Crítica da razão prática]. […] é preciso ter atravessado a prova de sua leitura para medir o caráter extremista, e quase insensato, do ponto em que nos acua algo que possui, contudo, sua presença na história – a existência, a insistência da ciência”[26].

Kant publicou a Crítica da Razão Prática em 1788. Sete anos depois, em 1795, foi lançado o livro A Filosofia na Alcova, do marquês de Sade. Estamos na época da Revolução Francesa. O livro preconiza incesto, adultério, roubo, e a queda dos imperativos da Lei moral kantiana. Seu imperativo: “Tomemos como máxima universal de nossa ação o direito de gozar de outrem, quem quer que seja, como instrumento de nosso prazer”[27]. Sade responde a Kant com o Ser Supremo em Maldade.

No escrito Kant com Sade, Lacan articula os dois imperativos, responde à moral kantiana com a antimoral sadiana e concentra-se no imperativo sadiano: Goza! Que nunca se satisfaz. Diz ele, ainda no Seminário 7[28]: “Em suma, Kant tem a mesma opinião de Sade. Pois, […] para abrir todas as comportas do desejo, o que Sade nos mostra no horizonte? Essencialmente a dor. A dor de outrem e, igualmente, a dor própria do sujeito […].

Supereu: voracidade, gulodice, glutonaria

Lacan utiliza o significante gourmandise (voracidade, gulodice, glutonaria) duas vezes a propósito do supereu:

1ª) Em Televisão, diante da afirmação de J.-A. Miller de que gozamos tão mal porque existe repressão ao sexo, por culpa da família e da sociedade, Lacan responde dizendo ser o recalque o gerador da repressão e não o contrário. Essa foi a virada da segunda tópica. Em seguida, diz: “a gulodice pela qual Freud denotou o supereu é estrutural – não é um efeito da civilização, mas um mal-estar (sintoma) na civilização[29]. Lacan faz, portanto, uma aproximação entre o recalque e a voracidade do supereu, ambos estruturais, primários, e não produtos da cultura. Reaparece a identificação primária ao pai na origem do supereu.

2ª) No Seminário 18, ao falar do mito de “Totem e Tabu”, Lacan afirma que, nele, “o pai goza de todas as mulheres, até ser abatido pelos filhos, sem que tenha havido entendimento prévio entre eles, de modo que nenhum deles sucede o pai em sua glutonaria de gozo”[30]. Ao invés disso, os filhos devoram o pai em comunhão totêmica. O contrato social ninguém tocará na mãe se produz a partir daí. Onde estaria a manifestação do supereu? Tanto na glutonaria de gozo do pai totêmico quanto na Lei estabelecida pelos filhos com o imperativo Nemo matrem tanget.

Miller[31] esclarece que, em Televisão, quando Lacan nomeia de gulodice a exigência de gozo do supereu, responde à frase freudiana de “O mal-estar”, “cada renúncia à satisfação pulsional reforça a severidade do supereu”[32]. Quanto mais severo o supereu, mais guloso, mais ordena o gozo.

O supereu é, ao mesmo tempo, legislador e transgressor. Lacan se vale dos mitos de “Édipo” e de “Totem e Tabu”, no Seminário 18, para ilustrar o paradoxo do supereu, como já havia feito antes com Kant e Sade. Na época do declínio do pai, fica patente a glutonaria, a voracidade do gozo, como forma de apresentação do supereu.

O imperativo de gozo: Goza! produz o empuxo a gozar cada vez mais. Trata-se da ordem de ferro, particularmente eficaz na neurose obsessiva: trabalhe! não admita falhas! submeta-se!

Supereu: a voz

J.-A. Miller, na conferência “Do supereu à voz como objeto a-fônico”, diz que o supereu freudiano é o nome mais próximo da divisão do sujeito no sentido de Lacan ($). O supereu em Freud pode ser a causa de fenômenos clínicos derivados dessa divisão, tendo o fantasma como paradigma. Fantasma que se poderia traduzir como “Um sujeito é barrado”, em jogo com “Uma criança é espancada”[33].

Na clínica do início da análise, o momento em que fica patente a divisão ($) do sujeito é aquele onde o supereu intervém na experiência. É o inerte, o congelado, o não-dialetizado na palavra do analisante[34]. O momento afônico.

A voz está em primeiro plano no supereu, diz Miller[35]. Lacan, no Seminário 16, é enfático: “É impossível conceber a função do supereu sem compreender o que acontece com a função do objeto a efetivada pela voz como suporte da articulação significante, a voz pura, tal como é instaurada […] no lugar do Outro […]”[36].

Fundamental saber se a voz está ou não no lugar do Outro para se falar de supereu e, ainda, levar em conta que a voz habita a linguagem, assombra-a, é o suporte gozoso da articulação significante.

A voz dos imperativos do supereu aparece, paradoxalmente, nos momentos de eclipse do sujeito, um sujeito, cito Miller, “absorto e eclipsado nos enunciados do supereu, com eles confundido durante toda a sua existência”[37] … até que seja capaz de produzir uma enunciação.

Sigamos com Lacan: “Uma voz não é assimilada, mas incorporada. É isso que pode conferir-lhe uma função que serve de modelo para o nosso vazio”[38]. O vazio da castração. Portanto, a voz não se escuta no registro sonoro, é próprio dela ser áfona. É a operação de castração simbólica que esvazia a voz de sua substancialidade sonora e abre passagem à função significante[39].

Desse modo, há uma relação estreita entre a voz e o que vem do Outro. Lacan aponta: “Há alguma coisa na voz que se especifica topologicamente, uma vez que em parte alguma o sujeito fica mais interessado no Outro do que através desse objeto a[40]. Refere-se aqui à topologia do furo em uma esfera dobrada sobre si mesma. Algo semelhante ao órgão auditivo.

Supereu e sublimação

Apenas umas poucas palavras para situar a relação do supereu com a sublimação, um dos destinos da pulsão.

A sublimação consiste em desviar as forças pulsionais sexuais para um alvo não sexual, para atividades socialmente valorizadas como a arte, a ciência e o esporte. É preciso destacar sua ligação com o desejo, motor da criação, e com o humor, que minora o sofrimento [41].

Depois da introdução da pulsão de morte, por Freud, a sublimação passa a ser vista como liberadora das pulsões agressivas do supereu, as quais lutavam contra a libido, deixando o Eu exposto a maus-tratos e morte.

Lacan, no Seminário 7[42], relaciona a sublimação à libido objetal, coisa não evidente, pois, a princípio, a formação de um ideal sublimatório pareceria descartar a libido. Porém, a sublimação satisfaz a pulsão, deslocando o alvo.

Da relação entre sublimação e supereu se disse pouco. Lacan, ainda no Seminário 7, aponta o Mal-estar na civilização como um desregramento no qual o supereu encontra em si mesmo seu próprio agravamento por ruptura dos freios que o sustentavam. No interior desse desregramento, no fundo da vida psíquica, as tendências podem encontrar sua justa sublimação[43].

O bem-feito do supereu: conclusão

Afinal, pode o supereu fazer algo bem-feito?

Como fazer bem-feito com esses elementos díspares que o caracterizam?  Em Freud, cito Paula Maia: “[…] Pai edipiano, ameaça de castração e lei interditora”. Em Lacan: “Pai real/originário, castração estrutural e Lei insensata do gozo”[44].

Como pode fazer bem-feito se habita o paradoxo legislador-transgressor?

Entre Lei, voracidade, voz, e os imperativos (Tu deves!), o que do supereu pode vir em auxílio do sujeito, de sua análise ou mesmo da psicanálise?

Satisfação

Lacan, no texto “Observações sobre o relatório de Daniel Lagache”[45], utiliza o termo lugar de Mais-Ninguém para ali isolar a defesa primordial do sujeito, defesa ligada ao supereu. Uma clareira na floresta das pulsões, ou, como ele escreve “círculo queimado na mata das pulsões”[46].

O círculo é o lugar de uma ausência. Diz Lacan: “essa ausência do sujeito coerente é o que melhor caracteriza a organização do Id […]. Toda coisa é chamada para esse lugar para ser lavada da falha […]. Nesse lugar de Mais-Ninguém só se faz ouvir o silêncio da pulsão de morte”[47].

Cito Licene Garcia: “arrisco a dizer que esse círculo […] é o lugar do qual se decantaria a letra, na medida em que, ao demarcar uma borda, delimita um dentro e um fora topologicamente a partir do furo. Uma vez que é somente do lugar de Mais-Ninguém que cada um está sozinho em seu modo de gozar”.

E, no mesmo texto, Sérgio Laia, “um tratamento conduzido por um analista pode transmutar o lugar nenhum, marcado e assolado pela segregação e pelo negativo, em lugar de mais-ninguém, eivado de gozo, ou seja, de uma satisfação não-negativizável”.[48]

Portanto, no lugar da ausência, do furo, da marca inaugural da linguagem no corpo, onde se inscreve a identificação primária ao pai e se engendra o supereu, pode também surgir uma satisfação.

O que nos leva à questão: seria possível satisfação sem supereu?

Seria possível satisfação sem os ecos da pulsão de morte?

Gozo feminino

Paula Maia propõe que o supereu, embora não equivalha ao gozo feminino, tem afinidades com ele: “O supereu é um comando que enuncia uma ordem que visa ao gozo pleno. Se o gozo feminino é um real sem lei, […] o sujeito masculino tenta fazer disso uma lei de ferro”[49].

É o gozo feminino como lei de ferro que tem afinidades com o supereu.

Por isso, dizem à boca pequena ser o supereu feminino, veiculado pela mãe ou pelo desejo da mãe… Sigo com Paula Maia. Nas meninas, por serem sempre castradas, e pelo fato de a dissolução de seu complexo de Édipo só ocorrer com a maternidade, “o supereu jamais se torna tão inexorável, tão independente de suas origens afetivas, como se requer que seja no homem”, ela cita Freud, questionando também a solidez da moral feminina[50].

O gozo reenvia ao desejo da mãe como função simbólica irrefreável. Teria a mulher supereu? Ou sua dificuldade com o universal o impediria?  Miller diz que essa pergunta é apenas um disfarce diante do problema fundamental do gozo feminino, pois pode demonstrar “a ubiquidade do gozo quando não se localiza como gozo fálico”[51].

O gozo feminino estaria em toda parte? Ubíquo?

Regra Fundamental

No artigo “O supereu, aliado do analista”[52], Adriana Campos fala, “quando o analista enuncia a regra fundamental da psicanálise a alguém que lhe solicita ajuda, isso equivale a dizer [cita Lacan em 1975]: ‘será necessário sofrer um pouco para fazer alguma coisa em conjunto. […] Ao mesmo tempo, o analista encontra um aliado no supereu’” .[53]

Nada menos evidente! A regra fundamental diga tudo o que lhe vier à cabeça sem qualquer censura ou restrição é, justamente, um convite a falar, a liberar a palavra, a distanciar-se dos comandos do supereu.

Porém, segundo Lacan, ao prescrever a regra fundamental ao paciente, o analista estimula o princípio do prazer e, portanto, instiga-o a distanciar-se da armadilha do gozo masoquista do sintoma e da repetição, para aproximar-se do gozo da associação livre, da palavra, “pois a função da palavra não está somente ligada à estrutura da linguagem, mas também à substância do gozo”, conforme J.-A. Miller[54].

Ao mesmo tempo, ao enunciar a regra, o analista emite o imperativo: Diga tudo o que lhe vier à cabeça! Fala como o supereu, incita ao Goza! E promete um gozo específico, o da palavra[55].

Semblante

Será que podemos dizer de um certo “fazer-se de supereu”, semblante do analista do qual se deveria prescindir com a condição de se servir dele? Lembro-me de um flash clínico. Durante uma sessão, a analisanda diz ter sonhado com a frase: “Mas, a analista [diz o nome] não me deixaria fazer isso![56] Essa analista sabe fazer o semblante de supereu.

Qual a diferença com o ato analítico?

É preciso estar alerta para a confusão possível com certa ambição do analista de fazer-se de mestre e, também, com a transferência negativa.

Portanto, nesta conjectura, o supereu pode fazer bem-feito em, pelo menos, quatro condições da experiência analítica:

  1. Prover o lugar da satisfação não-negativizável;
  2. Esclarecer o gozo feminino como lei de ferro;
  3. Auxiliar na regra fundamental;
  4. Possibilitar o semblante “fazer-se de supereu”.

Termino este argumento em companhia de Carolina Koretzky e de sua hipótese sobre o que faria alguém buscar a psicanálise em nossa época:

“A demanda de certos sujeitos que hoje nos procuram não é tanto a de afrouxar o cerco de sua alienação ao desejo do Outro, a fim de subjetivar a lógica do que neles se articula sem o seu conhecimento… Talvez venham cada vez mais à procura de um espaço outro, uma ‘respiração’, onde possam se refugiar de um Goza! que nunca se satisfaz”[57].

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EIXOS

MESAS SIMULTÂNEAS

JORNADA CLÍNICA

EIXO 1

 Apresentação: EBP-SP – 20/5/2026

MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS PARADIGMÁTICAS DO SUPEREU

EIXO 2

Apresentação: EBP-SP – 17/6/2026

A FEROCIDADE DO SUPEREU E O EMPUXO AO GOZO

EIXO 3

Apresentação: EBP-SP – 12/8/2026

PARADOXOS DO GOZE! NA CULTURA

 


[1]              FREUD, S. “O Eu e o Id” [1923-1925]. Obras Completas. Tradução Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, Vol. 16, 2011, p. 34.

[2]              LAPLANCHE, J.; PONTALIS, J. B. Vocabulário da Psicanálise. Tradução Pedro Tamen. São Paulo: Martins Fontes, junho de 1992, p. 497.

[3]              FREUD, S. Idem.

[4]              CAMPOS, A. Ce qui commande le surmoi – Impératifs et sacrifices au XXIe siècle. Presses Universitaires de Rennes : Rennes, 2022, p. 173. Tradução livre.

[5]              FREUD, S. “O Eu e o Id”, op. cit., p. 43.

[6]              Idem, p. 38-39.

[7]              Idem, p. 43.

[8]              LAPLANCHE, J.; PONTALIS, J. B. Vocabulário da Psicanálise, op. cit., p. 222.

[9]              FREUD, S. Idem.

[10]             Segundo Miller, a diferença entre eles é que o ideal do Eu sustenta uma função de idealização e o supereu de interdição. MILLER, J.-A. “Clinique du surmoi”. Mental – Revue International de Psychanalyse. Euro Fédération de Psychanalyse, numéro 50, Paris, novembre 2024, p. 14. Tradução livre.

[11]             FREUD, S. “O Eu e o Id”, op. cit., p. 46-47.

[12]             FREUD, S. “O Eu e o Id”, op. cit., p. 60.

[13]             CAMPOS, A. Ce qui commande … op. cit., p. 174.

[14]             Idem, p. 56.

[15]             LACAN, J. O Seminário – livro 1. Os escritos técnicos de Freud [1953-1954]. Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1983, p. 123, apud. Adriana Campos, op. cit. p. 56.

[16]             LACAN, J. O Seminário – livro 18. De um discurso que não fosse semblante [1971]. Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Tradução Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2009, p. 150.

[17]             KORETZKY, C. « Du nouage par le social ». Mental – Revue International de Psychanalyse. Euro Fédération de Psychanalyse, numéro 50, Paris, novembre 2024, p.70. Tradução livre.

[18]             LACAN, J. O Seminário – livro 18, op. cit., p. 148-151.

[19]             KORETZKY, C. op. cit., p. 71.

[20]             LACAN, J. O Seminário – livro 7. A ética da psicanálise [1959-1960]. Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1997, p. 368.

[21]             CAMPOS, A. op. cit., p. 119.

[22]             LACAN, J. O Triunfo da Religião, precedido de Discurso aos Católicos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2005.

[23]             KORETZKY, C. « Du nouage par le social ». In. : Mental – Revue international de psychanalyse, n. 50, novembre 2024, apud. DUPONT, L. “La mentalité, le S1 et la certitude”. In. : Mental, n. 49, juin 2024, p. 126. Tradução livre.

[24]             FREUD, S. “O Eu e o Id”, op. cit., p. 43.

[25]             LACAN, J. O Seminário – livro 7. op. cit., p. 99.

[26]             Idem, p. 98.

[27]             Idem, p. 100.

[28]             Idem, p. 102.

[29]             LACAN, J. “Televisão” [1973]. In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003, p. 529/530.

[30]             LACAN, J. O Seminário – Livro 18, op. cit., p. 148.

[31]             MILLER, J.-A. « Clinique du surmoi », op. cit., p. 19.

[32]             FREUD, S. “O mal-estar na civilização” [1930-1936]. In.: Obras Completas. São Paulo: Companhia das Letras. Volume 18, 2010, p. 97/99.

[33]             MILLER, J.-A. “Del superyó à la voz como objeto a-fônico”. In.: Freudiana. Revista de la ELP, número 98, parte I, 2023. Tradução livre.

[34]             MILLER, J.-A. Idem.

[35]             Idem.

[36]             LACAN, J. O Seminário – Livro 16. De um Outro ao outro [1968-1969]. Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2008, p. 250.

[37]             MILLER, J.-A. Idem.

[38]             LACAN, J. O Seminário – Livro 10. A Angústia [1962-1963]. Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2005, p. 301.

[39]             CAMPOS, A. Ce qui commande… op. cit. p. 145.

[40]             LACAN, J. O Seminário – Livro 16, op. cit., p. 249.

[41]             MENDES, E. Pulsão e Sublimação: a trajetória do conceito, possibilidades e limites. Consulta em 8.3.2026. http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-73952011000200007https://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-73952011000200007.

[42]             LACAN, J. O Seminário – Livro 7. A Ética da Psicanálise, op. cit., p. 121.

[43]             LACAN, J. Idem, p. 178/179.

[44]             MAIA, P. “Supereu na diferença sexual e a ubiquidade do gozo”. Trabalho apresentado nas Jornadas de Cartéis de 2025 da EBP-SP. Coordenação Mirmila Musse. São Paulo, 06.12.2025.

[45]             LACAN, J. “Observações sobre o relatório de Daniel Lagache” [1960]. In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998, p. 673.

[46]             GARCIA, L. “Um-dizer sobre o impossível de dizer”. Trabalho apresentado na Jornada de Cartéis de 2025 da EBP-SP. Coordenação Mirmila Musse. São Paulo, 06.12.2025.

[47]             LACAN, J. [1960]. op. cit., p. 674.

[48]             LAIA, S. “Por que as psicoses… ainda”. Texto de orientação para as 26ªs Jornadas da EBP-MG, Belo Horizonte, 2023. apud. GARCIA, L. op. cit., p. 2.

[49]             MAIA, P. op. cit., p. 2.

[50]             FREUD, S. “O Eu e o Id”, op. cit., p. 298, apud. Maia, P. op. cit., p. 2

[51]             MILLER, J.-A. « Clinique du surmoi », op. cit., p. 24.

[52]             CAMPOS, A. « Le surmoi, un allié de l’analyste ». In. : La Cause du désir – Revue de psychanalyse. Paris : Navarin Éditeur, n. 118, décembre 2024, p. 43. Tradução livre.

[53]             LACAN, J. « Sur le plaisir et la règle fondamentale ». In. : Lettres de l’École freudienne de Paris, n. 24, juillet 1978, p. 23. Tradução livre.

[54]             MILLER, J.-A. Coisas de fineza em psicanálise. A orientação lacaniana. Aula de 06.05.2009. Curso Inédito.

[55]             CAMPOS, A. [2024] op. cit., p. 44.

[56]             Relato durante reunião da Comissão de Orientação das Jornadas da EBP-SP 2026.

[57]             KORETZKY, C. « Le nouage par le social », op. cit., p. 72.

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