Biblioteca em Tempo Real

Reinventar a ideia de contágio: uma convocação ética

Bianca Dias[*]

Diante das imagens de horror que nos são arremessadas cotidianamente desde o início da pandemia, cabe uma pergunta que é um chamado e um desvio: invocar o que há de silêncio nessas imagens e recuar frente ao excesso que delas provém, de forma a não sermos por elas destruídos.

No ensaio “Sideração”, Marie-José Mondzain localiza o que ela chama de uma indústria do espetáculo que anuncia e teatraliza o apocalipse. Como resistir estando diante do terror do inominável ao que a autora denomina uma espécie de imagem epiléptica da própria sociedade?

Foto: Mauricio Sakamoto
Foto: Mauricio Sakamoto

BIBLIOTECA EM TEMPO REAL

 Milena Vicari Crastelo – EBP/AMP

Como pensar o tempo em tempos do Coronavírus? Como manter o laço mesmo em isolamento? Como se servir do virtual sem que ele substitua o encontro dos corpos?

Muitas questões se colocaram desde que fomos invadidos pelo COVID-19 – inimigo invisível, que chegou sem pedir licença, operando uma mudança radical em nossas vidas. Fazendo referência ao texto de Lacan de 1945: “O tempo lógico e a asserção de certeza antecipada”[1], o instante de ver foi como um relâmpago que imediatamente nos arremessou ao tempo para compreender.

Imagem: Instagram @rguidon
Imagem: Instagram @rguidon

5 CENTÍMETROS POR SEGUNDO

Niraldo de Oliveira Santos – EBP/AMP

A Comissão de Biblioteca da Escola Brasileira de Psicanálise, Seção São Paulo, determinada a manter palpitante nossa relação com os livros em tempos de isolamento social decorrente do Covid-19, lançou a tarefa de escolhermos um texto e comentá-lo a partir do momento atual. Prontamente, escolhi o texto “Transitoriedade” (Freud, 1916), inserido no volume “Arte, literatura e os artistas”, da editora Autêntica[1].

Trata-se de um pequeno texto no qual Freud descreve um passeio “em meio a uma florescente paisagem de verão”, na companhia de um conhecido poeta e de um amigo. Hoje sabemos que se tratava do poeta Rainer Maria Rilke, e que o amigo “taciturno” era, na verdade, Lou Andreas Salomé, a companheira de Rilke, que tempos depois se tornou psicanalista. Este acontecimento se dá em agosto de 1913, um ano antes da eclosão da primeira guerra mundial.

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PERGUNTAS PARA OS TEMPOS DO VÍRUS – O QUE PODEMOS EXTRAIR DE “REFLEXÕES PARA OS TEMPOS DE GUERRA E MORTE”, DE FREUD

Fabiola Ramon – EBP/AMP

Esse tempo de compreender sobre o impacto do coronavírus, experimentado por nossa comunidade analítica, nos leva até alguns textos de Freud. Um deles é “Reflexões para os tempos de guerra e morte” (1915), composto por dois ensaios: “A desilusão da guerra” e “ Nossa atitude para com a morte”, escritos seis meses após o início da primeira guerra mundial (1914-1918), certamente também em um tempo de compreensão da ruptura ocasionada pelo acontecimento mais brutal e mortífero vivido pela civilização ocidental desde o início da revolução industrial até aquele momento.

Nesses ensaios, Freud faz uma leitura inicial atenta dos impactos da guerra e da presença ostensiva da morte advinda disso. Apesar de mostrar-se impactado pela devastação de tal acontecimento, Freud se apresenta extremamente implicado em extrair consequências para a psicanálise. Sabemos a importância dessas consequências para suas formulações psicanalíticas, que seguiram sendo extraídas ao longo de muitos anos, uma delas é o conceito de pulsão de morte.

Imagem: Divulgação Netflix
Imagem: Divulgação Netflix

DO CONFINAMENTO DOS CORPOS AO DESCONFINAMENTO DA PULSÃO

 Camila Popadiuk
Associada ao CLIN-a

Em certo tom chistoso, essa música poderia atualizar-se assim: O pulso ainda pulsa/E o corpo ainda é pouco/Ainda pulsa/Ainda é pouco/ “histeria”, “gripezinha”, Covid e pandemia.

Desde que iniciamos o distanciamento social como saída necessária à crise sanitária atual, esta música cantada pela voz pulsante de Arnaldo Antunes se apresenta frequentemente em minha cabeça. Lembro-me que ela também se fez presente em uma das questões de biologia na ocasião do vestibular.

Imagem: Instagram @art.upon.contemporary
Imagem: Instagram @art.upon.contemporary

AND YET, AND YET…

Silvia Jacobo
Associada ao CLIN-a

Borges sonhava o seu Paraíso como uma espécie de biblioteca, mas não como uma biblioteca infinita, já que considerava que havia algo incômodo e enigmático em todo infinito, ele a imaginava feita “sob medida do homem, uma biblioteca que permitisse o prazer da releitura, o sereno e fiel prazer do clássico e as agradáveis surpresas do achado e do imprevisto”.

(Imagem: amp.businessinside.com)
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