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Veridiana Marucio
Membro da EBP/AMP
Diretora Geral da Seção SP

Logo após o fim das últimas Jornadas, ao apagar das luzes da festa de encerramento, quando ainda estávamos entre o cansaço e a alegria do que havíamos vivido, percebemos que não havia muito tempo para esperar. Era preciso, quase imediatamente, correr para tomar algumas decisões. Mal terminava um encontro… e nós já estávamos construindo outro.

Começamos, então, a nos perguntar: onde serão as próximas Jornadas? Vamos mudar de local? Precisamos de um espaço maior? Quem vai coordenar? E, sobretudo: qual será o tema? Antes mesmo de fechar completamente um ciclo, já nos víamos implicados no seguinte.

Foi nesse movimento que, entre os jogos de amor e as parcerias contemporâneas, me veio à cabeça uma frase conhecida: “faça amor, não faça a guerra”. Ela surgiu como um clichê, mas rapidamente se transformou em questão.

Naquele momento, ainda não estávamos atravessados, como agora, por novos episódios de violência no cenário internacional. Poderia isso se tornar um tema para as Jornadas? E como isso se articularia com o tema da diretoria — ler um sintoma na época em que o Outro não existe? Num mundo em que a guerra muda de escala e de forma, atravessando territórios e redes, o que disso chega até nós, na clínica?

 

Foi então que me lembrei de uma cena. Durante uma tradução de Marie-Hélène Brousse, nos vimos, de repente, sem palavras. Havia algo do que ela dizia sobre a guerra que resistia à tradução. E ela disse: “vocês, brasileiros, não têm vocabulário sobre a guerra”.

Talvez não tenhamos mesmo. E talvez essa não seja a melhor ideia, apesar de sua pertinência. Então, falaremos de quê? O que poderia ser um tema atual?

Diante das crises econômicas, políticas e migratórias, vemos os discursos ideológicos retornarem com força, acompanhados por novas formas de violência e pelo crescimento de movimentos nacionalistas. São discursos que dividem, que organizam identidades rígidas — nação, etnia, ideologia — e que acabam por alimentar o ódio. Por que não, então, falarmos do ódio?

A psicanálise nos permite ler como o sujeito, em grupo, se deixa capturar por identificações coletivas e como, nesse movimento, algo do ódio ganha consistência. Podemos estar permanentemente conectados, constantemente informados, cercados de testemunhos e de memória, e ainda assim isso não basta para conter o ódio. Passaríamos, assim, do amor ao ódio — duas paixões trabalhadas por Lacan.

Troquei essa ideia com algumas pessoas, conversei também com a nossa convidada, e, a princípio, parecia uma via interessante de trabalho. Mas, durante uma supervisão com J.A. Miller, ao comentar sobre essa proposta, ele não deixou de observar: “não acho que seja um tema muito clínico… não sou a favor. Vocês têm outra coisa em mente?”

Outras possibilidades também haviam sido trazidas pelas colegas de diretoria. A transferência negativa havia sido considerada, assim como o supereu. O segundo, no entanto, apontava para algo ainda pouco explorado no campo freudiano e que se articula com o tema da diretoria. Ao final, após a conclusão da supervisão, uma última orientação: les bienfaits et les mal faits du surmoi.

Como transmitir isso? A expressão comporta uma ambiguidade difícil de traduzir: entre o “bem-feito” e o “malfeito”, traz também uma pluralidade de possibilidades. Ao tentar dizer isso em português, não sem impasses, fomos levados a uma solução que é também um equívoco produtivo: Bem feito!

Para lançar algo desse paradoxo nesta breve apresentação parto de Freud[1]. Para ele, a civilização contém a agressividade, mas ao preço de instaurar uma instância interna que vigia e pune sem cessar. Mais ainda, ele indica que, no inconsciente, desejar equivale a agir, de modo que o sujeito permanece culpado tanto por satisfazer quanto por renunciar.

Vemos então que essa é uma lógica sem saída e é justamente isso que interessa a Lacan. Ao retomá-la, ele destaca o caráter obsceno e insaciável do supereu, que se apresenta menos como um conceito estabilizado e mais como um paradoxo cujos efeitos é preciso acompanhar.

A partir daí, podemos avançar um pouco mais e considerar que o supereu não se reduz à sua face tradicionalmente descrita como obscena e feroz, podendo ser compreendido como uma exigência que se exerce no campo da linguagem. Ele não está fora da linguagem, mas é efeito dela e se manifesta como uma pressão que incide sobre o sujeito.

Mas como pensar que algo da linguagem se manifesta como pressão? A via aberta por Lacan permite situar que a entrada na linguagem implica uma perda de gozo, ao mesmo tempo em que produz um resto que insiste. Esse resto, que não se deixa simbolizar completamente, retorna como exigência. Nesse sentido, o supereu pode ser pensado como efeito da linguagem, mas articulado a um gozo que ela mesma produz como exterioridade.

Nesse ponto, a distinção entre ideal do eu e supereu torna-se fundamental. O ideal do eu está ligado à identificação e à consistência imaginária, oferecendo ao sujeito um modelo, um ponto de orientação a partir do qual ele se reconhece, mas que nunca alcança. Quando o sujeito fala a partir do ideal, ele se inscreve em um discurso já dado, sustentado por significantes que o precedem, e sua fala tende a recobrir a divisão subjetiva, produzindo uma certa estabilidade.

O supereu, por sua vez, opera de outra maneira: não organiza o discurso nem oferece um modelo, mas se impõe como uma exigência, muitas vezes sem mediação. Lacan o aproxima da voz enquanto objeto e, nesse movimento, indica que o objeto a pode, em certos momentos, assumir uma função ainda mais radical que a do supereu, o que permite situar sua dimensão por vezes mais direta e até mais cruel[2].

Nessa perspectiva, o supereu não é apenas uma instância que proíbe ou idealiza, mas também uma força pulsional que empurra o sujeito em direção a um gozo impossível de alcançar. Lacan afirma ainda que o supereu não tem nada de natural[3] e, ao mesmo tempo, ele é a marca desse impossível, algo de que não há como escapar. Bem feito!

É por isso que a análise não se orienta pelo ideal. O analista não ocupa o lugar do ideal do eu, embora o analisante, sobretudo no início, tenda a colocá-lo ali — e o mesmo vale para o lugar do supervisor.

Poderíamos, então, ser levados a pensar que o analista ocuparia o lugar do supereu. Mas não é disso que se trata. Ainda assim, o supereu se infiltra, se imiscui no dispositivo analítico e também na prática de supervisão. Como indica Lacan[4], nesse movimento, o supereu pode funcionar como aliado, na medida em que também desaloja o sujeito de sua economia de prazer.

Por minha parte, eu diria que há um efeito superegoico em estudar o supereu. Lacan se pergunta: “o que é essa força demoníaca que empurra a dizer algo, ou seja, a ensinar?”[5] E responde que é disso que acaba por se dizer que se trata do supereu.

Lacan nunca  deixou de expressar o peso dessa tarefa. Podemos então nos perguntar se não teria sido necessário manter essa força em funcionamento e se ele não teria se servido dela para responder ao que tinha que fazer, à carga que lhe coube? E nós, podemos extrair daí algum ensinamento? Veremos o que nos aguarda nas XIV jornadas da Seção SP. Bem-feito supereu!

 


[1]              FREUD,S. O mal-estar na civilização. In: ______. Obras completas, volume 18: o mal-estar na civilização, novas conferências introdutórias à psicanálise e outros textos (1930-1936). São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

[2]              LACAN, J. O Seminário, livro 10: A angústia. (1962-1963). Rio de Janeiro: Zahar, 2005. Lição de 16 de jan.

[3]              LACAN, J. O Seminário, livro 24: L’insu que sait de l’une-bévue s’aile à mourre (1976-1977). Tradução não oficial. [S.l.: s.n.], [ano].

[4]              LACAN, J. Sur le plaisir et la règle fondamentale. Intervenção (1975). Lettres de l’École Freudienne, Paris, n. 24, 1978.

[5]              LACAN, J. O Seminário, livro 24: L’insu que sait de l’une-bévue s’aile à mourre (1976-1977). Tradução não oficial. [S.l.: s.n.], [ano].

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