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Perspectivas do tema

Por Heloisa Prado da Silva Telles (EBP/AMP) pela Comissão de Orientação

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“Quem fala só tem a ver com a solidão”

Se Lacan[1] situa a solidão intrinsecamente referida ao parlêtre é para indicar, sobretudo, que “quando alguém se põe a falar, não encontra somente o fato de que o Outro está ausente, que ele não responde, mas descobre também alguma coisa que é efeito desta ausência. Este efeito é que o saber, o que é possível saber de si, do mundo, do inconsciente, rompe-se. […]”[2], ou seja, trata-se de “solidão de ruptura de saber”[3]. Esta referência implica uma orientação precisa: poderíamos pensar que, com a psicanálise, tratar-se-ia de “promover a relação, a troca, a comunicação”[4]. Ao contrário, a solidão dá acesso, justamente, ao que é “impossível de intercambiar, comunicar, o que não se pode falar”, a isto que advém “quando se é confrontado não somente com a falta do Outro, com sua ausência, mas com a falta que somos nós mesmos em relação a nós”[5].

Solidões e estruturas clínicas

A experiência da solidão somente pode existir referida ao Outro da palavra e da linguagem, uma vez que está articulada a uma presença ou uma ausência do Outro simbólico. Nela, portanto, é a separação do Outro que está em causa e não sua recusa, uma vez que “supõe um laço com a pergunta pelo desejo do Outro”[6], um Outro que poderia solucionar a falta inerente ao sujeito da palavra. Os desdobramentos possíveis deste operador – o laço com o Outro – permitem que situemos a solidão nas estruturas clínicas como paixão – na neurose –, ou mais precisamente “dor de existir” – na psicose. Estas balizas fundamentais são apresentadas por Miquel Bassols e elucidam, ainda, que se a “paixão do neurótico obsessivo pela solidão consiste em poder manter, como parceiro, uma unidade imaginária do falo”, a paixão histérica pela solidão “é a paixão da exceção, a paixão de ser o único ou a única”. Se ambas as paixões referidas à neurose implicam um “laço com a função do Outro”, na psicose a solidão está mais referida ao silêncio das pulsões ou à experiência de uma solidão extrema, tal como a de Schreber de “ter sido deixado pelas mãos de Deus na sua dor de existir”[7].

Solidão não é isolamento

Esta tese de La Sagna – ao fazer ver que o isolamento, diferentemente da solidão, implica exclusão do Outro – não somente lança luz acerca do autismo, como permite ler, para além da estrutura clínica em questão, que “isolar-se é evitar a solidão”[8]. Busca-se o isolamento recorrendo a um objeto que estimule, um droga, uma fantasia ou um delírio, “sem que se tenha a mínima realização da solidão”[9]. Quando estamos na solidão, “temos uma fronteira comum com o Outro”, enquanto que o “isolamento é um muro”, e se “estamos em uma época de construção de isolados” isto decorre do fato de que “não se sabe mais onde começam e onde terminam as fronteiras”[10].


[1]Lacan, J. O Seminário, Livro 20: Mais, ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2008 (terceira edição), p. 128.
[2]La Sagna, P. “D l’isolement à la solitude”. La Cause freudienne, n. 66. Paris: ECF, 2007, p. 49. Tradução livre.
[3]Lacan, J. O Seminário, Livro 20: Mais, ainda. op.cit. 128.
[4] La Sagna, P. op. cit. p. 45.
[5]La Sagna, P. ibid.
[6]Bassols, M. “Soledades y estruturas clinicas”. Freudiana: EEP (Escuela Europea de Psicoanálisis, Catalunya), n. 12.
[7]Bassols, M. “Soledades y estruturas clinicas”. op. cit.
[8]La Sagna, P. “D l’isolement à la solitude”. La Cause freudienne, n. 66. Paris: ECF, 2007, p. 44.
[9]La Sagna, P. op. cit.
[10]La Sagna, P. op. cit.