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Do justo lugar ao objeto no cartel(1)

by Redação Carta de São Paulo in CARTA DE SÃO PAULO, Sem categoria

Niraldo Santos

(Associado da CLIPP)

Como o mais-um um pode ser um agente provocador e, ao mesmo tempo, trabalhador? Miller(2) nos diz que uma elaboração é sempre provocada, uma vez que a vocação do ser humano está para a preguiça. A partir da teoria dos Discursos em Lacan, Miller nos aponta o discurso que melhor corresponde ao mais-um.

“O mais-um tem a incumbência de uma direção”(3). Miller nos diz que há uma tendência a exercer esta incumbência como senhor. Porém, caso ocupe este lugar, o trabalho se resumiria a uma produção de saber que já estava lá. Por outro lado, caso o apelo ao mais-um seja àquele que sabe ou saberia, produzirá $, o apelo ao mais-um como analista.

Então, para Miller, o discurso que melhor corresponde à função do mais-um é o da histérica: “é preciso não esquecer que Lacan dizia que era quase a (estrutura) do discurso da ciência”(4). No discurso histérico, $ que se dirige a S1 para produzir S2, o agente se permite ocultar, em seu vazio, a causa do desejo, sob as aparências de agalma: $ sobre a. O que fazer do a no cartel?

Miller sugere uma alteração no discurso histérico, colocando a como elemento pulsional que se dirige a $ antes deste último se dirigir a S1 e produzir S2: “Esvazio o a de seu lugar estatutário. Seria a ascese do mais-um. O mais-um não deve se esgotar encarnando a função do mais-um. Ele não é o sujeito do cartel; cabe a ele inserir o efeito de sujeito no cartel”(5).

Para Miller, de a a $ há trabalho de transferência, mas prolongando-a no cartel, transforma-se em transferência de trabalho: “Dar então o justo lugar ao objeto no cartel exige que o mais-um não se aproprie do efeito de atração, mas que o refira a outro lugar – entre nós, a Freud e a Lacan”(6).

Quatro jovens psicanalistas formularam o pedido para integrarmos um cartel sobre a transferência. Dentre estas integrantes, duas não frequentam a EBP. Por que me escolheram para mais-um? Não se tratou de uma questão de experiência ou inexperiência. Uma interpretação possível: a extimidade do mais-um, “não-membro”.

Lacan(7) refere que o mais-um fica encarregado de dar um destino ao trabalho de cada um, sendo este destino a Escola. Uma condição de partida em nosso cartel, e que foi prontamente aceita: declarar o cartel junto à EBP.

Para Seldes(8), o cartel “possui a característica essencial de ser o órgão de trabalho da Escola onde se considera o um por um, junto ao coletivo, (…) com os outros, pois a Escola inclui também quem não é membro de Escola”.

Ao final, mesmo após duas integrantes do cartel terem se tornado mães, com tudo o que isso demanda, a participação se manteve ativa, via Skype, e pôde testemunhar o efeito de “aguilhão” que este dispositivo tem em relação à Escola e ao ensino de Lacan, não sem contribuir com a formação permanente de cada um de nós.

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1 Trabalho realizado como produção do cartel “Transferência”, composto por Camila Popadiuk, Cristiane Mendes, Lucia Dezan, Tatisa dos Santos e Niraldo Santos (mais-um).

2 Miller, J.-A. Cinco variações sobre o tema da elaboração provocada. In: Jimenez, S. (org). Rio de Janeiro: Campus, 1994.

3 ________ Ibid.

4 ________ Ibid. p. 5.

5 ________ Ibid. p. 6.

6 ________ Ibid. p. 8.

7 Lacan, J. “Ato de fundação”. In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003.

8 Seldes, R. “A dimensão política do cartel”. Disponível em: http://ebp.org.br/acaodobradica/wp-content/uploads/2011/11/Dobradica_Edicao_Especial_novembro_2011_Boletim_Eletronico_Carteis_EBP.pdf

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Um pequeno ensaio sobre o ódio

by Redação Carta de São Paulo in CARTA DE SÃO PAULO, Sem categoria

Maria de Fátima S. Luzia (Associada ao CLIN-a)

“Não se odiaria, se não se tivesse que se odiar a si mesmo ao mesmo tempo”

Nimier 1951

O que nos faz odiar?

Amar e odiar demais, signos de um tempo que nos mostram o quanto podemos ser mortíferos na relação com esses afetos.

Em sua “Introdução ao Narcisismo”, Freud desenvolve sua teoria ao redor de um lugar mítico de puro prazer, onde as pulsões se satisfazem autoeroticamente. Mas logo nos convoca a pensar que este lugar aloja também o desprazer e é através dele que o dentro e o fora se estabelece, esse excesso hostil de libido liberada retorna e é percebida como estranha e invasiva.

Lacan aponta que o ódio tem um excedente que vai além da relação imaginária, dizendo que ele é mesmo o que mais se aproxima do ser onde se situa a ex-sistência; nasce juntamente com o sujeito na sua entrada na linguagem, que é traumática e que o marca em sua existência de ser na forma de repetição.

O sentido original do ódio designa essa relação com o mundo exterior alheio e portador de estímulos; assim o exterior, o objeto, o odiado, seriam idênticos no início, se depois o objeto é fonte de prazer, podendo ser amado, novamente vai coincidir com o alheio e odiado. O amor antes derivado do Eu originário de prazer, aqui é pensado como posterior ao ódio na relação narcísica com o Outro.

Freud nos relata que quando a relação com um objeto de amor é rompida, não é raro o ódio tomar o seu lugar, como objeto estranho e invasivo.

Como podemos articular os modos de gozo e seus afetos excessivos com o Outro da modernidade?

Lacan nos dirá que o laço social é realizado pela via de quatro discursos; no entanto, o discurso capitalista apresenta um funcionamento diferente, o sujeito se consome completado pelo objeto a, não há resto, não passa pelo circuito pulsional.

Que consequências tem esse discurso no modo de gozo atual?

Amar e odiar demais são premissas modernas que deixam o sujeito no transbordamento de seu gozo e cada qual vai dar um tratamento singular a isso.

Aniquilar, humilhar o outro, tem sido comportamentos corriqueiros de adolescentes atendidos num Capsi. O prazer em ver o outro fragilizado, atemorizado, se torna um objeto precioso para seu ato de terror.

Suicídio, anorexia, violência, toxicomania, games: são modos de gozo que esses adolescentes buscam para estar no mundo, ou fora dele?

Rafael, menino abandonado na caçamba quando bebê; ser esse resto se torna o seu dito. Menino fotógrafo, que tem em suas imagens destorcidas algo de singular, estranho e belo, mas sua satisfação pulsional não se encontra aí.

Roubar, bater, humilhar, estuprar… o colocam no lugar do objeto resto da caçamba que insiste em repetir de forma mortífera, mas ao tentar destruir o outro é a si mesmo que destrói.

Indagado sobre esse lugar, produz um desenho onde, entre uma cadeira e um banco para duas pessoas, há uma fogueira; o seu lugar é o do Um, não sentaria no banco pois há o risco do outro ocupar o lugar ao lado. A fogueira arde entre o lugar do Um e o do Outro, que se encontra vazio. Refratário à palavra, o lugar do Um parece ser sua escolha. Hoje vive nas ruas de São Paulo.

Lacan toma a ideia do discurso que deve ser considerado um laço, que aponta uma rede articulada de significantes e, portanto, faz referência a construir algo sobre uma falta.

Como podemos pensar o ódio na relação de um discurso totalizante, que não é construído sobre uma falta?

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Lacan, J. O Seminário, livro 20 mais, ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

Freud,S. “Sobre narcisismo: uma introdução”. Obras Completas de Freud. Vol. XIV. Rio de Janeiro: Imago.

_______ “Os instintos e suas vicissitudes”. Ibid.

_______ “O mal estar na civilização”. Ibid. Vol. XXI.

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A presença do discurso do analista faz (des)conexão com o discurso institucional?(1)

by Redação Carta de São Paulo in CARTA DE SÃO PAULO, Sem categoria

Natália Cassim

“Nós não fazemos diferença, em psicanálise,

entre a realidade psíquica e a realidade social.

A realidade psíquica é a realidade social”

J. –A. Miller(2)

O Hospital de Amor é uma instituição de saúde filantrópica brasileira especializada no tratamento e prevenção de câncer com sede em Barretos-SP, e era nomeada Hospital de Câncer de Barretos anteriormente. Em uma manobra institucional rígida, o significante câncer foi apagado em decorrência da imposição do novo significante: amor. O sujeito está excluído desta associação significante, uma vez que essa decisão não foi discutida em nenhum âmbito. No lugar da “morte” (câncer) impôs-se a “vida” (amor). Uma tensão que se acirra entre morte x vida sem advir o sujeito, o falar sobre e diante disso.

A partir daí aceitou-se o convite da instituição, que era elaborar um trabalho com os colaboradores da pediatria do hospital Infantil. Um dos efeitos do discurso institucional foi percebido no impacto da morte dos pacientes, que era recalcado em decorrência do amor, e não era verbalizado. Este engodo retorna na forma de adoecimento. Em 2003, diz Laurent: “Neste primeiro sentido de torção, há de início a instituição. O sintoma vem em segundo lugar, (como) consequência do funcionamento institucional(…)”(3).

A partir disso, foi realizado um diagnóstico inicial, ouvindo um a um dos colaboradores, operando um espaço que movimentou os corpos e deu voz às palavras que não se ouviam. Emergiram questionamentos sobre a fantasia que estava recalcada (morte x vida) aparecendo um dizer que implicou o sujeito/instituição. Afirma Viganó que “o analista se encontra no lugar de escutar aquilo que se diz, na estrutura mesma do dito – qualquer que seja a intenção do sujeito (…)”(4).

O discurso institucional que se ampara no discurso do mestre, espera uma resposta assertiva dos colaboradores. Afirma Pommier que “o mestre recobre a posição do sujeito que ignora seu próprio saber (…)”(5). Se o sujeito do inconsciente tende a ser excluído na instituição, o ato analítico, por sua vez, o incluí, na medida em que favorece o bem dizer.

A instituição demanda da praticante da psicanálise uma contabilização dos colaboradores atendidos; a sustentação do discurso analítico faz desconexão com a fala rechaçada pelo mestre que tudo normatiza, sustentando a lógica do um a um. A sustentação deste trabalho fez circular um novo discurso que incidiu na introdução de um novo saber, um novo amor, no qual o dizer dos colaboradores pôde incluir a morte e não rechaçá-la, imperativamente, em função do “amor”.

Conclui-se que o enigma com relação à mudança de nome da instituição recorreu ao domínio do mestre inscrito no acirramento da morte x vida; uma vã tentativa de suavizar/apagar o câncer com amor. Se o sujeito nunca é mais do que suposto, é a aposta no laço com a singularidade que pode permitir uma localização digna a essa nova nomeação, que pode dar lugar a um novo amor-hospital. Frente a essa abertura, que se enlaça ao desejo da praticante, tem-se a presença do entusiasmado na construção do “saber fazer” dentro da instituição.

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1 N.A.: Texto elaborado a partir das discussões no cartel: “Trânsferências: (Des)conexão?

2 MILLER,J.A. Intervenção no PIPOL 4. In: Marie-Hélène Brousse, “A transferência nos dispositivos da psicanálise aplicada”, Entrevários: Revista de Psicanálise. CLIN-a. São Paulo. 2009, p. 25.

3 LAURENT, É. “Dois aspectos da torção entre sintoma e instituição”, Os Usos da Psicanálise – Primeiro encontro do Campo freudiano. Rio de Janeiro: Contra Capa. 2003, p. 87.

4 VIGANO, C. “O uso da transferência na instituição”, Seminário proferido em Mendrizio – Itália. 1996, p. 1.

5 POMMIER, G. “Freud Apolítico?”. Porto Alegre: Artes Médicas. 1989, p. 45.

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A psicanálise na era do homem-empresa e do significante “neuro”(1)

by Redação Carta de São Paulo in CARTA DE SÃO PAULO, Sem categoria

Daniela de Camargo Barros Affonso (EBP/AMP)

A questão que me propus trabalhar neste cartel – “A psicanálise nos tempos das novas formas de autoritarismo” – origina-se da ideia de que as formas conhecidas do autoritarismo se tornaram insuficientes para explicar o enfraquecimento da democracia. Para Laval e Dardot, em A nova razão do mundo: ensaio sobre a sociedade neoliberal(2), apesar de existirem mais países formalmente democráticos, há uma desconfiança generalizada entre governantes e governados. Se a democracia liberal estava longe de ser perfeita, ainda havia disparidade entre a expressão da vontade popular e a lógica econômica da acumulação do capital. O neoliberalismo produz a liquidação deste jogo, que permitia ações limitantes dos efeitos negativos do capitalismo.

Parte daí o interesse da psicanálise neste debate. Pensar que a psicanálise é exclusivamente uma experiência do um a um, alheia ao mal-estar do social, é um erro, diz Miller(3), lembrando que a própria existência da psicanálise vincula-se à democracia, único regime garantidor da liberdade de expressão.

O neoliberalismo não se reduz a uma política econômica, é uma racionalidade que incide na existência, transformando a subjetividade. Se “deve renunciar à prática da psicanálise todo analista que não conseguir alcançar em seu horizonte a subjetividade de sua época”(4), é imperativo pensar as formas desta neo-subjetividade. Cabe ressalvar que o termo subjetividade não é sinônimo de sujeito: “(…) é necessário distinguir a subjetividade historicamente produzida pelos dispositivos de poder, lugar de onde a política advém, e o surgimento da existência sexuada, falante e mortal, que por estrutura não pode ser produto de nada”(5). O conceito de sujeito do inconsciente é a chave que abre a possibilidade de localizar a psicanálise como instrumento para pensar os impasses da civilização, já que há algo irredutível a qualquer representação.

Ao liquidar o conflito entre as exigências da pulsão e as da civilização, esta nova gestão ambicionaria superar a contradição entre os valores hedonistas do consumo e os ascéticos do trabalho. A empresa passa a ser “uma maneira de ser”, em que toda a atividade do indivíduo é concebida como um processo de valorização do eu a ser transposto para todos os âmbitos da existência.

Este sujeito requer um discurso que implica técnicas cujo objetivo é fazer eclodir o homem-empresa – as “asceses do desempenho”: coaching, programação neurolinguística, análise transacional. Identifica-se o desempenho ao gozo. O indivíduo é confrontado com o universo da disfunção sempre que se vê incapaz de se “superar” e se “autorrealizar”. A tecnologia entra para resgatar o homem-empresa. As novas formas de autoritarismo estariam, assim, bem delineadas.

Por que caminhos a ciência se aliou a esta tecnologia e como a psicanálise se posiciona neste contexto? Miller(6) retrata como a psicologia adotou um simulacro do discurso da ciência transformando-se em cognitivista. Passou da observação dos comportamentos à dos neurônios, através da ressonância magnética. Somos dotados de um imaginário poderoso do simbólico, em que o significante mestre é “neuro”. O real se tornou neuro-real.

A mistura explosiva do discurso da ciência e do capitalismo rompeu os fundamentos mais profundos da tradição(7). É sob a forma de cientificismo e do comércio aberto por suas tecnologias que a ciência pode fazer laço com o século XXI(8).

Há toda uma linha da neurociência que tenta provar as teses psicanalíticas, sob o slogan “Freud está de volta!”. Mark Solms, criador da “neuropsicanálise”, é o principal expoente dessa tentativa de localizar os conceitos freudianos no sistema nervoso central. Para Bassols(9) esta extensão dos pressupostos da ciência a todo o âmbito do humano é uma ideologia reducionista, a “fantasia da época”.

Há duas correntes nas neurociências: a que quer localizar as funções subjetivas em alguma parte do cérebro e outra – com a qual a psicanálise pode dialogar – que está descobrindo a impossibilidade de efetuar tal localização. Haveria um “real” de certa

parte da ciência que crê na existência de um saber já inscrito no real genético e neuronal, e outro real, de outra parte da ciência, cuja ideia se aproxima àquela da psicanálise.

Se certo cientificismo negligencia a incidência da linguagem sobre o falasser, cabe à psicanálise não tergiversar quanto a isso. Advertidos de que as irrupções do real não podem ser reabsorvidas por nenhuma construção discursiva, os psicanalistas podem direcionar sua escuta mais além dos enunciados do homem-empresa. A psicanálise se vê diante do desafio de não se deixar engolir pelo cientificismo reducionista do significante “neuro”. Cabe estabelecer um debate vivo com o campo científico, na busca permanente de desnaturalizar a subjetividade atual, apontando para seu caráter contingente.

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1 N.A.: Versão reduzida do trabalho fruto do cartel “A posição da psicanálise diante da política na atualidade”, apresentado nas Jornadas de Carteis da EBP-SP em 29/9/2018.

2 Dardot, P. e Laval, C. A nova razão do mundo: ensaio sobre a sociedade neoliberal. SP: Boitempo, 2016.

3 Miller, J.-A. “Conferência de Madrid”. In Lacan Cotidiano N° 700.

4 Lacan, J. “Função e campo da fala e da linguagem”. In Escritos. RJ: Jorge Zahar Ed., 1998, p. 322.

5 Entrevista com Jorge Alemán em http://subversos.com.br/uma-esquerda-lacaniana-entrevista-com-jorge-aleman/.

6 Miller, J.-A. “Neuro, le nouveau réel”.In La cause du désir, 98 – Folies dans la civilisation.

7 ________ “O real no século XXI”. In Scilicet – Um real para o século XXI.

8________ “Cientificismo, ruína da ciência”. In Scilicet – Um real para o século XXI.

9 Bassols, M.. “As neurociências e o sujeito do inconsciente”. In Opção Lacaniana online nova série, nº 17.

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O cartel e a psicologia das redes sociais(1)

by Redação Carta de São Paulo in CARTA DE SÃO PAULO, Sem categoria

Rodrigo Lyra Carvalho (EBP/AMP)

O título dessa Jornada traz três termos objetos usuais de nossa atenção: massas, grupos e cartéis. Rede social é o que perturba a lista, o unheimlich, o estranho familiar.

A ideia de rede ocupou lugar central no ensino de Lacan. Em 1968 ele afirmou que havia entrado “na psicanálise com uma vassourinha que se chamava estádio do espelho” (10/1/1968). A função era varrer as tendências que essencializavam a subjetividade e transmitir o eu como uma montagem múltipla, uma conexão de distintos elementos. O ser falante só existe em rede que poderíamos chamar de social, pois não é apenas biológica.

O termo rede social nos convoca por um motivo suplementar, menos familiar e mais estranho: as últimas décadas foram marcadas, com a disseminação da internet, por um exponencial desenvolvimento de hardwares e softwares que impactaram o modo como as redes se constituem, como, nelas, os seres falantes se constituem e se organizam.

Dentre os aspectos das novas redes, destaco a disputa pela atenção dos usuários, o que se chama no Vale do Silício engajamento. Trata-se de aumentar o tempo que passamos on line e a quantidade de dados fornecidos. Nessa disputa, são empregados todos os recursos disponíveis para a produção da adição.

Sentimos participar de uma rede aberta, não editada, composta pela voz daqueles que escolhemos seguir. Contudo, a mediação está em cada gesto de comunicação e passa a ser comercializada. Entre nós e cada amigo, notícia, propaganda, postagem de um movimento social ou político, há uma mediação invisível.

Um fator vem sendo documentado sobre o esforço das redes sociais de aumentar o engajamento. Na versão light, isso seria obtido na medida em que os algoritmos oferecem mais material que dê prazer. Na prática, o conteúdo alarmista e a radicalização são estratégias mais eficazes.

É um cenário para o qual contribuem tanto um longo processo cultural – o enfraquecimento da função paterna –, quanto o advento das tecnologias. O laço social e a política tendem à horizontalidade e à busca de acomodação entre grupos identitários. Não cabe a nós, psicanalistas, abraçar a nostalgia ou festejar as boas novas, mas refletir sobre as condições mínimas para que as dificuldades estruturais sejam encaradas com o saber fazer mais sensível possível.

É nesse ponto que o cartel pode nos orientar. Ele tem em sua base a ideia freudiana que se revela na “Psicologia das massas”, mas está em toda a obra: não existe diferença essencial entre a psicologia do eu e a psicologia do grupo.

Lacan radicaliza essa noção ao mostrar que não se trata apenas de aproximar a psicologia do eu à psicologia do grupo, mas de perceber que nem um nem outro são processos autônomos, não existem “em si”. Um ser falante não se define por sua substância, mas por seu lugar em uma complexa rede de relações.

O cartel é a encarnação institucional e epistêmica dessa perspectiva. Traduz a convicção de que o sujeito e seu saber não são entidades fechadas, separadas de sua rede. O saber que interessa, capaz de colonizar algo do real da experiência, não é propriedade de um indivíduo, nem tem a feição abstrata de uma informação incorpórea.

Habituamo-nos a pensar o cartel como poderosa ferramenta contra o discurso do mestre. Mas se o discurso da psicanálise foi construído por Lacan como o avesso do discurso do mestre, é preciso perceber que o discurso dominante, que serve como Outro da psicanálise, não se organiza de forma oposta à sua, como Miller sustentou em “Uma fantasia”(2).

É necessário pensar nas mutações contemporâneas da propagação do saber e buscar no ensino de Lacan as pistas para enxergar formas distintas de manejá-lo, para que seja possível subverter não o discurso do mestre, mas a degradação e a mercantilização da experiência de fazer rede. Embora em aparência o cartel seja homólogo ao tipo de reunião promovida de forma corriqueira nos laços sociais atuais – instável, temático, provisório, sem hierarquia -, ele preserva a potência subversiva ao apontar um modo de fazer rede que serve como condutor das pequenas construções singulares.

Os frutos de um cartel são feitos em nome próprio, pois o saber não é anônimo, mas nem por isso serão a revelação do que reside na mente isolada do psicanalista. O produto de um cartel é a narrativa de uma experiência de interação das conexões feitas ao longo dos encontros. Penso que essa dimensão deveria fazer parte dos trabalhos produzidos: que não se falasse apenas dos temas estudados, mas da própria experiência de tê-los estudado no dispositivo.

O cartel é hoje nossa grande referência, campo de estudos sobre modos de experimentar a rede e, ainda assim, produzir uma singularidade que não possa ser rapidamente absorvida, vendida e manipulada pela lógica dos algoritmos. Não é apenas um dispositivo que favorece o estudo e as atividades institucionais, é a pesquisa, em ato, de um novo modo de tecer o laço. O cartel é a nossa rede social.

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1 N.E.: Este texto é um resumo da Conferência proferida na Jornada de Cartéis da EBP-Seção São Paulo, em 29.09.2018.

2 MILLER, J.-A. “Uma fantasia”. Disponível em: http://2012.congresoamp.com/pt/template.php?file=Textos/Conferencia-de-Jacques-Alain-Miller-en-Comandatuba.html

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Abertura da Jornada de Cartéis EBP-Seção SP(1)

by Redação Carta de São Paulo in CARTA DE SÃO PAULO, Sem categoria

Ariel Bogochvol (EBP/AMP)

A Jornada de Cartéis é o momento institucional privilegiado para apresentação e discussão dos produtos dos cartéis.

Os cartéis foram propostos por Lacan no Ato de Fundação da EFP, em 1964, como os órgãos principais de um organismo cuja finalidade era realizar “um trabalho que, no campo aberto por Freud, restaurasse a lâmina cortante de sua verdade.” (2) A nova Escola deveria funcionar segundo o “princípio de uma elaboração apoiada em pequenos grupos.”(3)

Inspirou-se nos pequenos grupos criados por Bion e Rickman em instituições para recuperação de militares durante a 2ª guerra. O novo organismo nascia em meio a uma guerra interna na psicanálise para combater os “desvios e concessões que amortecem o seu progresso” (4), a IPA, em prol da verdade e da causa freudiana.

Três a cinco pessoas mais-uma se reúnem por um tempo não maior do que dois anos e fazem juntamente um trabalho que deve produzir trabalhos próprios, de cada um, autorais. Após cumprir sua missão, o cartel se dissolve e permuta. É uma proposta de organização sócio-política e de produção de saber. Uma escola de orientação lacaniana deveria funcionar num regime de cartelização generalizada.

Todas as escolas de orientação lacaniana tentam atingir esse objetivo. É uma forma de organizar o poder e a produção de saber contraposta à forma vigente na IPA. Os cartéis não estão assentados na hierarquia, combinam pessoas de diversos percursos, permutáveis entre si e criam novas combinatórias de cartelizantes e mais-uns. Uma instituição fundada nestes moldes é, potencialmente, mais produtiva, criativa, ágil, combativa.

Os cartéis se alicerçam em “furos” do poder e do saber. O poder é “fraco”: o mais-um não deve ocupar o lugar de líder, Um. O saber é “esburacado”: o mais-um não deve adotar a posição de mestre ou universitário, mas de não-suficiência. Os cartelizantes devem estar lastreados no desejo de saber e em um saber-fazer distinto do aluno ou discípulo. São condições necessárias (não suficientes) para a constituição e sustentação do cartel numa lógica diferente dos modos habituais de transmissão de psicanálise.

São mais de 50 anos desde a sua proposição. Há uma história dos cartéis – instalação, difusão, crises, recomposições – nas várias escolas e instituições que gravitam em torno do ensino de Lacan. No caso da EBP, não se pode dizer que ela esteja baseada em cartéis, mas que aspira estar. Não há cartelização generalizada, apenas uma parcela dos membros trabalha em cartéis, e verifica-se, em relação à proposta original, um deslocamento do seu lugar e função.

Os cartéis da EBP não ocupam o lugar de “órgãos de base” (com exceção do cartel do passe), mas de “órgãos dobradiças”. Não cumprem a função de reger o funcionamento da Escola, mas de articular o interior com o exterior, membros e não membros, psicanalistas e não psicanalistas. Predominam cartéis inscritos sob a rubrica “conceitos fundamentais”, que reúnem pessoas com pouco percurso na psicanálise lacaniana.

Na Seção SP funcionam 28 cartéis; 24 trabalhos foram encaminhados e todos serão apresentados na Jornada. O critério de seleção foi que o trabalho deveria ser efetivamente de cartel, debatido entre os cartelizantes e o mais-um.

A Jornada ocorre em meio ao processo eleitoral, num momento de grave crise no país, com riscos da eleição de um presidente ultra-direitista, elevado à categoria de mito nas redes sociais. E coincide com um dia de mobilização de massas, o movimento “ele-não”, deflagrado pelas mulheres.

Esta manifestação tem relação direta com o tema da conferência de abertura de Rodrigo Lyra, diretor de intercambio e cartéis da EBP, nosso convidado. Organizada na rede digital, sem líderes fortes, sem obedecer a partidos, mulheres e não mulheres vão às ruas em defesa da democracia. É uma demonstração do poder de mobilização das novas formas do laço social.

Ao lado das antigas formas de organização das massas e dos grupos, centradas no líder erigido em Ideal, cujos participantes se identificam uns com os outros, surgem outras formas. Alguns se reúnem a partir da fantasia e do gozo, outros em nome da

perplexidade. No Brasil, as manifestações de 2013, convocadas por via digital, não se deram em nome de uma liderança ou palavra de ordem comum, mas de uma proliferação de palavras de ordem.(5)

Como as mutações do laço social provocadas pela globalização e pelo desenvolvimento tecno-científico afetam a psicologia das massas, redes sociais, grupos, cartéis?

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1 N. E.: Jornada de Cartéis da EBP-Seção SP, ocorrida dia 29.09.2018

2 Lacan, J., “Ato de Fundação”. In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar

3 ______, Ibid.

4______, Ibid.

5 Laurent, É.“Paixões religiosas do falasser”. In: Opção Lacaniana. Revista Brasileira Internacional de Psicanálise. N. 75/76.

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Comentário sobre o Seminário, livro 11¹

by Redação Carta de São Paulo in CARTA DE SÃO PAULO, Sem categoria

Sandra Arruda Grostein (EBP/AMP)

Este texto é um breve comentário sobre uma passagem do Seminário 11, de Lacan, visando uma atualização do que era proposto nos anos 60, nos seguintes termos:

“Esse objeto paradoxal, único, especificado, que chamamos de objeto a – retomá-lo seria repisá-lo. Mas eu o presentifico… sublinhando que o analisando diz a seu parceiro, ao analista:

Eu te amo, mas, porque inexplicavelmente amo em ti algo que é mais que tu – o objeto a minúsculo, eu te mutilo.”(2)

Além disso, quando ocorre a virada, o analisante diz:

Eu me doo a ti, mas esse dom de minha pessoa, mistério! Se transforma inexplicavelmente em presente de uma merda.”(3)

Para comentar estes dois parágrafos do Seminário sobre os quatro conceitos fundamentais da psicanálise, recorreu-se a dois destes conceitos: a transferência e a pulsão.

Buscou-se atualizar o conceito de transferência a partir da releitura destes dois parágrafos à luz de dois textos mais recentes – “O ultimíssimo Lacan”, do Curso de Miller de 2011(4), e o texto apresentado por Éric Laurent em Barcelona em 2018 e publicado em Opção Lacaniana(5).

Do texto de Laurent destaca-se aquela proposição que está em sua subdivisão denominada: “Da transferência sem Nome-do-Pai à transferência sem o Outro.”(6)

Neste texto, Laurent está tratando do conceito de transferência tanto na psicose quanto nos tratamentos dos sintomas atuais; para tanto, algo que foi proposto por Freud como o pivô da experiência psicanalítica, isto é o amor de transferência, sofre uma báscula que a proposição acima nos ajuda a acompanhar. Ao recuperar no texto lacaniano a articulação “reconhecer que há ali (na transferência) um momento muito significativo da passagem de poderes do sujeito ao Outro – o lugar da fala, virtualmente o lugar da verdade”(7), como tratar então o lugar da fala se consideramos a transferência sem o Outro?

Miller observa que, no ultimíssimo Lacan, a transferência deixa de ter o mesmo lugar de importância para a experiência analítica; no entanto, a ideia de que o analisante mutila o analista com a sua transferência amorosa, permite pensar que algo do objeto destacado é que está associado à mutilação. A face pulsional da transferência se mantém até o último momento do ensino de Lacan, deixando para trás a relação com o Outro do significante.

A transferência pode ser abordada tanto da perspectiva do significante qualquer quanto da perspectiva do objeto a; de um lado temos o analista mutilado e de outro o analisante com seu dom – merda.

Algo se processa nesta troca que pode ser entendido como a formulação deste artifício que é a experiência analítica, onde o amor é elevado à categoria de conceito, cuja troca se dá no campo pulsional. A face de gozo da transferência, Lacan começa a esboçar com a frase em questão, isto é, amar é subtrair algo do outro, para transformá-lo em causa de desejo e dejeto.

O que é possível retirar do parceiro para que se configure uma psicanálise é o objeto pulsional que o analisante localiza no analista e este, por sua vez, pode sustentá-lo como semblante.

Portanto, a face da transferência que permanece até o último Lacan, é aquela que para Freud se apresentava mais como resistência do que como amor. O analista, ao apelar ao desejo do analista, pode isolar o objeto a e, desta maneira, colocar a maior distância possível do I (Ideal do Eu) que o analista é chamado a encarnar.

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1 N.E.: Extrato da apresentação da Noite “Ensino dos AMEs”, ocorrido na EBP-Seção SP em 26 de setembro de 2018.

2 Lacan, J. O Seminário livro 11 – Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 1988. p. 254

3 ______ Ibid.

4 Miller, J.-A. El ultimísimo Lacan. Buenos Aires: Paidós, 2013. p. 143.

5 Laurent, É. “Disrupção do gozo nas loucuras sob transferência”. In: Opção Lacaniana n. 79. São Paulo: Eolia, 2018.

6 _______ Ibid., p. 55

7 Lacan, J. Op. cit., p. 258

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O narcisismo ontem e hoje

by Redação Carta de São Paulo in CARTA DE SÃO PAULO, Sem categoria

Rosângela Carboni Castro Turim (associada da CLIPP)

O tema da atividade Leituras na Biblioteca da Seção São Paulo “Freud e o amor”, que aconteceu na CLIPP, no dia 13 de setembro, coordenada por Perpétua Medrado, com a convidada Marizilda Paulino, foi “Introdução ao Narcisismo”(1), texto de Freud de 1914. Marizilda resgatou o conceito trazido para a psicanálise por Freud, contextualizando na clínica das psicoses e nas parcerias (escolha objetal).

O termo narcisista atualmente faz parte do nosso vocabulário, está incluído na cultura. Derivado do mito grego de Narciso, Freud retoma o termo narcisismo utilizado por P. Näcke “para designar a conduta em que o indivíduo trata o próprio corpo como se este fosse o de um objeto sexual”, porém afirma que “o narcisismo não seria uma perversão, mas o complemento libidinal do egoísmo do instinto de autoconservação, do qual justificadamente atribuímos uma porção a cada ser vivo”.

A partir da noção de aparelho psíquico e dualidade das pulsões (sexual e autoconservação) sob os princípios do prazer, da constância e da realidade, Freud pergunta qual seria o destino da libido retirada dos objetos nos parafrênicos. E desenvolve, a partir da dualidade libido do Eu e libido do objeto:“a libido retirada do mundo externo foi dirigida ao Eu, de modo a surgir uma conduta que podemos chamar de narcisismo”. Segundo ele, a megalomania seria a ampliação e a explicitação de um estado que já havia existido antes e o consequente abandono do interesse pelo mundo externo (pessoas e coisas).

No entanto, Freud retoma a oposição entre os instintos sexuais e os instintos do eu observadas na análise das neuroses de transferência (neurose obsessiva e histeria), para desenvolver a teoria da libido do Eu a partir do estudo das parafrenias e das neuroses narcísicas (melancolia, paranoia e esquizofrenia). Denominava neuroses atuais: a neurastenia, hipocondria e neurose de angústia. O hipocondríaco, segundo Freud, retira o interesse e a libido dos objetos do mundo exterior e concentra ambos no corpo. E relaciona a hipocondria com a parafrenia naquilo que ambas dependem da libido do Eu, enquanto as outras (neuroses de transferência) dependem da libido de objeto.

Freud, com a observação da vida psíquica das crianças, forma a ideia de um “originário investimento libidinal do Eu, de que algo é depois cedido aos objetos, mas que persiste, relacionando-se aos investimentos de objeto”. As primeiras satisfações sexuais autoeróticas são experimentadas em conexão com funções vitais de autoconservação. O bebê tem originalmente dois objetos sexuais: ele mesmo e a mulher que o cria. Na oposição entre libido do Eu e libido do objeto, “quanto mais se emprega uma, mais empobrece a outra”. No enamoramento, haveria um empobrecimento libidinal do Eu em favor do objeto.

Freud questiona “de onde vem a necessidade que tem a psique de ultrapassar as fronteiras do narcisismo e pôr a libido em objetos?” E responde: “Um forte egoísmo protege contra o adoecimento, mas afinal é preciso começar a amar para não adoecer, e é inevitável adoecer, quando, devido à frustração, não se pode amar”. A escolha objetal se dá, ou uma pessoa ama, para Freud, conforme o tipo narcísico (o que ela mesma é, foi ou gostaria de ser, ou ainda a pessoa que foi parte dela mesma) ou conforme o tipo de apoio (a mulher nutriz ou o homem protetor).

Atualmente, ao se tratar da vida amorosa dos humanos, parece improvável que as escolhas objetais se reduzam ainda a esta categorização.

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1 FREUD, S. “Introdução ao narcisismo”. In: Obras Completas, volume 12, Companhia das Legras, São Paulo, 2010. (Publicado originalmente em 1914)

 

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Escola-sujeito: questões sobre o sujeito¹

by Redação Carta de São Paulo in CARTA DE SÃO PAULO, Sem categoria

Paola Salinas (EBP/AMP)

Este texto se insere no trabalho de conversação do Conselho da EBP-Seção SP a partir do texto “Teoria de Turim”(2). Decantaram-se significantes que orientaram as apresentações feitas, a saber, o coletivo, o Ideal, a interpretação e o sujeito. O termo sujeito que compõe a expressão Escola-sujeito é o que me coube abordar.

Não se trata de um fechamento de uma sequência, mas da manutenção de uma abertura de questionamento no centro da discussão.

Escolhi “questões sobre o sujeito” para tomar a expressão Escola-sujeito a partir de questões e de uma hipótese: a Escola-sujeito é efeito de um ato. E ainda, a Escola-sujeito é um efeito, não está dada.

Subjetivar a Escola

Ao falar da formação da SLP Miller afirma que cabe ao conceito de Escola ser desenvolvido a céu aberto, “… porque [a Escola] deve ser subjetivada por uma comunidade que não pode se constituir a não ser no próprio movimento dessa subjetivação”(3).

– A subjetivação dessa coletividade é condição para sua constituição em um movimento logicamente concomitante.

– A dimensão de subjetivação da comunidade analítica pode ser “aplicada” a outros aspectos ou momentos da comunidade que não sua instauração?

Temos a Escola-sujeito como efeito da subjetivação, somente depois objetivada como sujeito de direito. O sujeito é o efeito lógico de uma subjetivação, que pode se dar por um ato ou uma interpretação.

Interpretar a Escola

A interpretação faz surgir a Escola-sujeito como efeito, embora separe os sujeitos dos significantes mestres do ideal e comporte algo de disrupção. Contudo, a interpretação pode se colocar para a Escola como ato que engendra um antes e um depois e se articula a escansão do tempo lógico de determinada comunidade.

Sujeito suposto saber

A Escola surge como sujeito na medida em que inaugura um novo sujeito suposto saber, quando é passível de lhe ser endereçada uma suposição de saber.

Tanto a instituição do SsS, quanto seu questionamento por exemplo na Assembleia(4), colocam a dimensão de dois atos que como consequência podem produzir o efeito Escola-sujeito.

Escola-sujeito inconsistente

Por ser uma série na qual falta uma lei de formação, é possível pensar o Um da Escola, mas não o Todo da Escola.

a) “Não há todo da Escola. A Escola é, por excelência, um conjunto antitotalitário, regido pela função (…) S (A)/. Depreende-se disso que, paradoxalmente, o único enunciado capaz de coletivizar a Escola é o que a afirma não ser não toda. Deduz-se ainda que instituir uma Escola, constituir as solidões nas comunidade da Escola, não é nada mais que subjetivá-la”(5).

Assim, instituir uma Escola é subjetivá-la, permitir o efeito de Escola-sujeito.

b) Tomemos a Declaração da Escola Una de 2.000(6). Tratar-se-ia naquele momento de um reposicionamento da Escola-sujeito, a partir do significante Una colocado à comunidade para demarcar à época o Um da orientação? Podemos entender tal declaração como um momento lógico não somente de interpretação, mas de engendramento da Escola-sujeito como efeito? Tratou-se de um ato.

Em Ponto de Basta(7), Miller retoma Lacan e demarca a necessidade dos analistas estarem à altura da subjetividade de sua época. A relação à subjetividade da época importa à Escola, e nela estão em jogo determinantes simbólicos e satisfação. Tal relação do analista com a época traz efeitos ao coletivo? Se pudermos verificar efeitos, seriam da ordem da Escola-sujeito?

Indico um ponto abordado no dia 17/10: subjetividade, época e ato, como convite a avançar na discussão viva que a Conversação do dia 8/11 promete.

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1 N.E.: Atividade “Escola – sujeito”, realizada na EBP-Seção SP em 17.10.2018.

2 Miller, J.-A. “Teoria de Turim”. Opção Lacaniana on line, n 7, nov 2006.

3 _________. Ibid.

4 _________. Ibid.

5_________. Ibid.

6 Textos estatutários. Anuário da EBP, 2008-2009

7 _________ “Ponto de Basta”. Opção Lacaniana. Ed Eolia, n 79, julho de 2018.

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Supervisão e passe: descontextualizados da experiência analítica

by Redação Carta de São Paulo in CARTA DE SÃO PAULO, Sem categoria

Maria do Carmo Dias Batista (EBP/AMP)

A “Proposição de 9 de outubro de 1967” está inscrita em um contexto científico, como aponta Miller nos capítulos XXI e XXII de “O Banquete dos Analistas”(1). Esta inscrição permitiria à “Proposição” ser avaliada em termos de fracasso ou sucesso, bem como a experiência do passe dela decorrente.

Lacan, no Seminário 24(2), identificado à escrita joyceana, atribui o fracasso à experiência do passe, pois o elemento de “iniciação” tendia a prevalecer sobre o científico e uma espécie de “comunhão da verdade” – criticada por ele por oposta à verdade mentirosa, conceito relativo ao passe trabalhado em 1976(3) –, poderia vir a substituir a transmissão inspirada na ciência.(4) O passe é um procedimento de avaliação da experiência de uma análise e responde à ambição de inscrever a psicanálise na ciência, declinada “com todas as suas letras na Proposição”(5). A psicanálise, não sendo inefável, mas uma experiência de fala, tem estatuto científico.

O estatuto da psicanálise como inefável a coloca apartada. É a extraterritorialidade da psicanálise e dos psicanalistas, alijados da transmissão científica atual, dominada por gadgets. A marca da exclusão atinge os psicanalistas e os psicanalistas amam a segregação!(6)

Há um incomunicável na experiência analítica, porém a entrada e o final da análise são passíveis de formalização. Trata-se de entregar o íntimo com palavras, e ser interpretado, o que se restringe ao consultório do analista, a uma situação que Lacan chamou de convencionada, em que aparecem as emergências da verdade.

Como tirar do contexto as emergências da verdade? As verdades válidas na experiência podem estar tanto no contexto da análise como descontextualizadas. Fora do contexto, podem se dar de forma teórica, na literatura e na ciência, ou prática, na supervisão e no passe.

Na supervisão, a experiência vai para uma situação cuja convenção é completamente diferente. O passe é uma descontextualização prática inventada por Lacan que se liga a um dispositivo construído, vinculado à experiência analítica. Ambos se prestam a um tratamento simultâneo e comparativo. Na supervisão, toma-se o texto sem o paciente e, no passe, sem o psicanalista. O passe é um tipo de supervisão: o paciente no passe faz supervisionar seu analista! A supervisão supõe que o essencial de uma análise seja preservado como relato, ainda que o analista supervisor não compartilhe com o supervisionado o contato vívido com o paciente.

No passe voltamos a encontrar o elemento da mediação, de maneira calculada. O dispositivo do passe implica uma interposição, materializando a transmissão ao encarnar o mensageiro, o mediador.

Da mesma forma que o supervisor não vê o paciente, o cartel do passe não vê o candidato e o passe parece modelado segundo a prática da supervisão. O paciente em geral não está informado de que o analista supervisiona seu caso. No passe, o candidato não se relaciona com psicanalistas como tais. Ambas as práticas evitam “instituir” o psicanalista do psicanalista. Na experiência analítica, entretanto, o sujeito não deve tratar com outro psicanalista. Existe o psicanalista do psicanalista na experiência analítica, indicando que não se faz uma análise sem relação com a psicanálise, ela é parte do contexto da experiência.

O final da análise e o dispositivo do passe, este fora do contexto, modificam essa relação, marcando o predomínio da instituição, da Escola de Lacan, na saída da análise. O passe vai do contexto (consultório do analista) para fora do contexto (cartel do passe – Escola – público).

Isso se pareceria com as etapas da ciência para atingir/outorgar seus graus: mestrado, doutorado, livre-docência?

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1 MILLER, J.-A. (1989-1990) El Banquete de los analistas. Buenos Aires, Paidós, 2000, p. 380.

2. LACAN, J. (1976-1977) O seminário – livro 24. L’insu que sait de l’une-bévue s’aile à mourre. Lição de 12 de fevereiro de 1977. Inédito.

3 LACAN, J. “Prefácio à edição inglesa do Seminário 11”. In: Outros Escritos, Rio de Janeiro, JZE, 2003, p. 569.

4 MILLER, J.-A. Op. Cit., p. 380.

5 Idem, p. 383.

6 MILLER, J.-A. Op. Cit., p. 383.

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