Tempo, ato e passagem

 Rômulo Ferreira da Silva (AME da EBP e da AMP)
Imagem: Instagram @art.upon.contemporary

Os fundamentos do ato analítico estão expostos por Lacan no texto “O tempo lógico e a asserção da certeza antecipada”[1], como citado no argumento do Eixo 02 das Jornadas da EBP-SP. O sofisma dos três prisioneiros na busca de descobrir a cor do disco que cada um porta em suas costas, tendo como parâmetro apenas as cores dos outros dois parceiros, muito nos esclarece sobre o tempo e o ato na psicanálise.

Mesmo que o final da experiência analítica não estivesse em perspectiva nessa época, tal como apresentado na “Proposição de 09 de outubro de 1967”[2], quando a questão do passe se apresentou, o ponto de passagem de um estado a outro na posição do analisante se colocou para Lacan.

O tal do atravessamento do Rubicão já estava posto desde então: se o prisioneiro acerta a cor do disco, ganha a liberdade, se erra, permanecerá cativo em sua neurose, procrastinando seu ato para todo o sempre.

Em se tratando da experiência analítica, há um ato inaugural, no qual, o suposto analisante se dirige a um analista. Esse ato se refere a um antes e um depois, pois, começa-se sempre por “Era uma vez…” e nunca se sabe onde isso poderá chegar.

Na busca de um saber sobre a cor de seu disco, a transferência estabelece o estádio no qual a partida se desenrolará. Instantes de ver e tempos para compreender se alternam na pressa para que o momento de concluir não tenda ao infinito.

Há que concluir!

É interessante que os três prisioneiros tenham chegado à conclusão lógica, portanto, pela via do saber, sobre a cor de seus discos, e mesmo assim, não tenham se autorizado, de imediato, a enunciar sua conclusão.

O autorizar-se de si mesmo, requer ainda, “alguns outros”. O “si mesmo” inclui o Outro.

O momento de concluir possibilita o desaparecimento do Outro na “certeza antecipada”, na qual, o sujeito sucumbe. No ato, o sujeito já não está lá. O ato é sem o Outro e sem sujeito. Um acontecimento no puro espaço de tempo, e pronto!

O prisioneiro só saberá algo de seu ato no ao depois. Formidável essa referência do Eixo 2 para nossas Jornadas!


[1] LACAN, J. (1945). “O tempo lógico e a asserção da certeza antecipada”. In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998.
[2] LACAN, J. (1967). “Proposição de 9 de outubro de 1967 sobre o psicanalista da Escola”. In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003.