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AND YET, AND YET…

by secao_sp in Biblioteca em Tempo Real

(Imagem: amp.businessinside.com)

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Silvia Jacobo – Associada ao CLIN-a

Tu materia es el tiempo,

el incesante tiempo,

eres cada solitario instante.

Jorge Luis Borges

Borges sonhava o seu Paraíso como uma espécie de biblioteca, mas não como uma biblioteca infinita, já que considerava que havia algo incômodo e enigmático em todo infinito, ele a imaginava feita “sob medida do homem, uma biblioteca que permitisse o prazer da releitura, o sereno e fiel prazer do clássico e as agradáveis surpresas do achado e do imprevisto[1]”.

A descoberta, o imprevisto, fazem parte de uma biblioteca viva que promove o laço, que procura e supõe um leitor na subjetividade da sua época, um leitor que se surpreenda e que, como Lacan dizia, referindo-se aos seus Escritos, ponha a sua parte.

Revisitar “A Erótica do Tempo”, seminário proferido por Jacques-Alain Miller durante o X Encontro Brasileiro do Campo Freudiano, no Rio do Janeiro, em abril de 2000, foi um achado num momento em que a irrupção da pandemia perturbou a experiência subjetiva do espaço e do tempo. Esta fala de Miller constitui uma bússola que orienta a elaboração necessária neste tempo estranho de compreender que, às vezes, volta para o limite do instante de ver.

Miller retoma “flashes” da história, da geometria, da física, da matemática e da filosofia para dar conta do modo como a espacialização do tempo implicou o seu domínio, para finalmente demonstrar a relação conflitiva entre o tempo e o verdadeiro: “Aproveitamos a ocasião para notar nas formas imemoriais o esforço para subtrair do tempo o verdadeiro, e projetá-lo na atemporalidade (…) como se o esplendor do verdadeiro exigisse sua retirada do tempo[2]”.

Vale dizer que a história do tempo acha seu sentido na eternidade, demonstrando que o que está em jogo é como subtrair o ser ao tempo, trata-se da operação de uma “foraclusão do tempo”.

A leitura deste seminário nos aproxima às valiosas referências literárias, filosóficas e científicas e revela a profunda implicação ética do tratamento do tempo em nossa prática.

A sessão analítica não se presta à espacialização do tempo, rejeita o contínuo, o homogêneo e linear e dá lugar ao tempo que ex-siste à cronologia.

Miller desenvolve o tempo da retroação que objeta o tempo linear e destaca que a atualização do passado no presente constitui a invenção freudiana do inconsciente. Ante a atemporalidade do inconsciente, Lacan introduz a temporalidade do sujeito marcada pela fugacidade e a evanescência, (…) “o sujeito é a temporalização do par significante[3]”. Assim, o sujeito do desejo é como essa báscula incessante entre o ser e o nada que desliza na cadeia significante[4]”. A temporalidade do sujeito é a do instante, um presente do qual se subtraiu toda a duração.

No entanto, se o inconsciente freudiano não conhece o tempo, a libido, ao contrário, o conhece. Miller destaca o tempo do Eros no nível do amor, do desejo e do gozo e contrapõe a temporalidade fugaz do sujeito à densidade do objeto a.

O objeto a dá ao tempo uma espessura, uma consistência, uma inércia, uma duração e constitui o fator que desregula o desenrolar uniforme do tempo.

A duração, então, “acompanha o fato de sofrer e de experimentar o prazer, de gozar, razão pela qual Lacan teve que acrescentar ao status do sujeito o de falasser. O falasser não é o sujeito, é o corpo como falante[5]”.

O tempo afeta o corpo, o tempo faz sintoma. Miller o destaca na operação histérica, que obtém uma continuidade do desejo por meio da suspensão do gozo, a procrastinação no obsessivo que faz da suspensão o gozo mesmo, a precipitação na mania e o tempo eterno na melancolia. Resulta precioso se deter nas outras formas em que Miller descreve o modo em que o tempo afeta o corpo: a suspensão, a surpresa, a espera e o acontecimento imprevisto.

O tempo se experimenta em função dos modos de gozo, a densidade do presente está dada pela satisfação pulsional de cada um.

A inquietante estranheza que provocou a irrupção do real da pandemia e do confinamento tem revelado o nó entre o tempo e a satisfação; a angústia se apresenta na iminência, na presença do sem limite em que os semblantes vacilam e o Outro se apresenta inexistente.

Esta experiência interpela o falasser no seu modo de satisfação, revela o real do gozo e confronta-o com o impossível de suportar.

Concluo com as palavras do artista “(…) and yet, and yet… negar a sucessão temporal, negar o eu, negar o universo astronômico, são desesperos aparentes e consolações secretas. (…) O tempo é a substância da qual estou feito. O tempo é um rio que me arrebata, mas eu sou o rio, é um tigre que me destroça, mas eu sou o tigre, é um fogo que me consome, mas eu sou o fogo. O mundo, desgraçadamente, é real, eu, desgraçadamente, sou Borges[6]”.

 


[1] Borges, J.L. Disponível em :   https://borgestodoelanio.blogspot.com/2015/07/jorge-luis-borges-alma-de-los- libros.html (tradução livre).
[2] Miller, J-A. “A Erótica do tempo”. Rio do Janeiro: Latusa, 2000, p.21.
[3] Ibid, p. 63.
[4] Ibid, p. 64.
[5] Ibid, p. 67.
[6] Borges, J.L.“Obras completas ll” “Nueva refutación del tiempo”. Barcelona: Emecé Editores, 1989. p.135 (tradução livre).
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Do confinamento dos corpos ao desconfinamento da pulsão

by secao_sp in Biblioteca em Tempo Real

Imagem: Instagram @art.upon.contemporary

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Camila Popadiuk
Associada ao CLIN-a
O pulso – Titãs
O pulso ainda pulsa
O pulso ainda pulsa
Peste bubônica, câncer, pneumonia
Raiva, rubéola, tuberculose e anemia
Rancor, cisticercose, caxumba, difteria
Encefalite, faringite, gripe e leucemia
E o pulso ainda pulsa
O pulso ainda pulsa
Hepatite, escarlatina, estupidez, paralisia
Toxoplasmose, sarampo, esquizofrenia
Úlcera, trombose, coqueluche, hipocondria
Sífilis, ciúmes, asma, cleptomania
E o corpo ainda é pouco
O corpo ainda é pouco
Assim
Reumatismo, raquitismo, cistite, disritmia
Hérnia, pediculose, tétano, hipocrisia
Brucelose, febre tifoide, arteriosclerose, miopia
Catapora, culpa, cárie, cãibra, lepra, afasia
O pulso ainda pulsa
E o corpo ainda é pouco
Ainda pulsa
Ainda é pouco
Assim

Em certo tom chistoso, essa música poderia atualizar-se assim: O pulso ainda pulsa/E o corpo ainda é pouco/Ainda pulsa/Ainda é pouco/ “histeria”, “gripezinha”, Covid e pandemia.

Desde que iniciamos o distanciamento social como saída necessária à crise sanitária atual, esta música cantada pela voz pulsante de Arnaldo Antunes se apresenta frequentemente em minha cabeça. Lembro-me que ela também se fez presente em uma das questões de biologia na ocasião do vestibular. Biologia, aquela disciplina, que dentre tantos conteúdos ensinados, o que mais me intrigava era a finitude da vida em sua relação com o acometimento do corpo pelas doenças. Mais tarde, graças à psicanálise, este interesse particular enveredou-se em uma nova noção da morte, para além da morte biológica, a morte referente à lógica significante, implicando neste affaire[1], o corpo.

Sob a perspectiva da psicanálise, o que ata a vida ao corpo é o gozo, propriedade do ser falante. Deste modo, a escolha pelo texto “Biologia lacaniana e acontecimento de corpo”[2], de Jacques-Alain Miller, dispensa justificativa prévia. Neste texto, ele afirma que há uma definição de sintoma que fora negligenciada, isto é, o sintoma como acontecimento de corpo. A fim de sustentar esta tese, ele retraça de maneira meticulosa o percurso conceitual da pulsão na obra de Freud e no ensino de Lacan, neste, conceitualizada como gozo. J.-A. Miller culmina na seguinte perspectiva que ele chamará de “biologia lacaniana”: “a vida condição do gozo, a condição de corpo, a condição significante”[3].

Logo no início do texto, ele faz a seguinte afirmação: “Nós não sabemos o que é a vida. Nós só sabemos que não há gozo sem a vida. E por que não formular esse princípio sob esta forma de que a vida é a condição do gozo? Mas não é tudo. Trata-se precisamente da vida sob a forma do corpo. O gozo em si é impensável sem o corpo vivo, o corpo vivo que é a condição do gozo”[4]. E mais a frente, ele diz: “Admite-se que o sintoma é gozo, satisfação substitutiva de uma pulsão, como diz Freud […] Na medida em que o sintoma constitui um gozo no sentido de satisfação de uma pulsão e, na medida em que o gozo passa pelo corpo, que ele é impensável sem o corpo, o corpo como forma ou melhor, como modalidade, como modo da vida, a definição do sintoma como acontecimento de corpo é inevitável”[5].

Estas duas passagens condensam a densidade deste trabalho realizado por Jacques-Alain Miller e que vale a pena ser revisitado. O que nos interessa neste momento em particular é a articulação da disrupção do gozo ao novo modus operandi em que nos encontramos: o confinamento dos corpos.

A pulsão, ao realizar seu circuito, marca o corpo e o investe de uma satisfação paradoxal, diferenciando-se por isto mesmo do organismo vivo da biologia. De um lado, tem-se o corpo imaginário, cuja jubilação “não é uma satisfação de uma completude natural, mas uma satisfação ancorada em uma falta e estabelecida sobre uma discordância”[6] e de onde poderia supor a proveniência do Um, dado a “evidência imaginária da unidade do corpo”. De outro, tem-se o corpo simbólico, atravessado pelo significante, provando “que é no nível da linguagem que eles alcançam a unidade do elemento, do significante Um, porque na natureza, eles alcançam apenas a unidade do Todo. O que viria ao apoio da tese de Lacan que alcançamos o Um a partir do significante e não a partir da natureza”[7].

Já o corpo vivo, ele não é nem o corpo simbolizado, nem o corpo imagem. É vivo. Trata-se, com efeito, do corpo afetado pelo gozo, precisa J.-A. Miller[8]. Ele assinala a importância de se dar sentido ao adjetivo “vivo”, “mas também alcançar por qual viés, por qual incidência o afeto do gozo advém ao corpo.”[9] E, sob esta perspectiva, ele ressalta as condições que estão aí em jogo: a condição de corpo e a condição de significante, se considerarmos a “fórmula de Lacan que o significante é causa do gozo”[10]. Ele avança, concluindo logicamente que “se o sintoma é uma satisfação da pulsão, se ele é gozo condicionado pela vida sob a forma do corpo, isto implica que o corpo vivo é predominante em todo sintoma”[11].

J.-A. Miller reitera que Freud “nota que a psicanálise não se interessa à substância viva, mas às forças que operam na substância viva, e são as pulsões”[12]. Daí o interesse da psicanálise em explorar a relação do ser falante com seu corpo que, em última instância, implica sua relação subjetiva com a morte, isto é, com a pulsão de morte[13].

O isolamento dos corpos escancarou aquilo que a pulsão comporta de mais original: a busca por uma satisfação fora do sentido. A ilusão do tempo em abundância, tão amplamente difundida no início do confinamento – através de soluções revestidas de entretenimentos dos mais variados possíveis – apenas denota a dificuldade de cada um de lidar com o vazio estruturante. As inúmeras propostas de como preencher o tempo indicam, justamente, a presença deste vazio. E o gozo do corpo, pela via do excesso – largamente manifesta em diversos pequenos enunciados – coloca, ao mesmo tempo em evidência, a presença deste vazio, na medida em que se tenta tamponá-lo, e o embaraço de se ter um corpo que goza.

Desde o confinamento, há aqueles que passaram a beber todos os dias, outros fizeram da limpeza da casa e dos corpos um ritual obsessivo; alguns outros não cessam de comer – um deles inclusive chegou a dizer: “dá-lhe pulsão oral: quando dou para comer e fumar… tá compulsivo!”. Há também aqueles que se tornaram “esportistas”, cultivando a beleza do corpo. Têm também aqueles que fizeram da chamada de vídeo a condição de uma conversa, conservando o enquadramento pelo olhar. Têm outros tantos que nunca se sentiram tão protegidos dentro de casa, amenizando uma fobia social que, doravante, travava obstáculos.

Algumas destas manifestações claras da pulsão sinalizam seu caráter insaciável, cuja satisfação exigida e a satisfação obtida não se sobrepõem, atestando assim, que a pulsão não visa o objeto, mas que ao contorná-lo, ela retira uma satisfação de seu próprio circuito. Já a consistência maciça do sintoma, sustentado pela fantasia, revela também a gramática pulsional privilegiada de cada um, se admitimos que “o sintoma é gozo, satisfação substitutiva de uma pulsão”[14].

Neste contexto onde a suspensão física do encontro dos corpos instalou-se em prol da preservação da vida, parece que a intrusão do gozo passou a se manifestar mais abertamente. A vida a ser preservada é aqui entendida como a vida enquanto condição do gozo, cujo corpo é seu suporte. Já o confinamento, ele é uma resposta que por si só certifica a presença do real que nos assola, isto é, do vírus. E quanto mais o acento é colocado na vida, mais a pulsão dá suas caras, mais o gozo invade o corpo. Poderíamos assim pensar que o confinamento dos corpos levou a um desconfinamento da pulsão.

Este encontro repentino com o real e o confinamento como uma resposta põe à mostra a relação que cada um tem com seu corpo, e, tão logo, com o objeto que aí está em jogo. A suspensão do encontro espacial colocou mais ainda[15] em evidência isso que pulsa em uma temporalidade fora de medida, mas que até então estava regulada pelos hábitos da vida cotidiana. O gozo, antes moderado pelo encontro físico dos corpos, parecia deixar disperso isso que se encontra confinado no corpo. Para alguns, é apenas o retorno com força de um gozo já familiar. Para outros, o despertar diante da estranheza que invade o corpo.

Para finalizar e a título de prevenção, sirvo-me novamente de outra música de Arnaldo Antunes intitulada “Lavar as mãos”:

Uma
Lava outra, lava uma
Lava outra, lava uma mão
Lava outra mão, lava uma mão
Lava outra mão
Lava uma
Depois de brincar no chão de areia a tarde inteira
Antes de comer, beber, lamber, pegar na mamadeira
Lava uma (mão), lava outra (mão)
Lava uma, lava outra (mão)
Lava uma
A doença vai embora junto com a sujeira
Vermes, bactérias, mando embora embaixo da torneira
Água uma, água outra
Água uma (mão), água outra
Água uma
A segunda, terça, quarta, quinta e sexta-feira
Na beira da pia, tanque, bica, bacia, banheira
Lava uma mão, mão, mão, mão
Água uma mão, lava outra mão
Lava uma mão
Lava outra, lava uma

[1] Fr. Affaire; Port. Negócio. Valho-me do equívoco presente em francês, isto é, à faire – a fazer.
[2] Jacques-Alain Miller. “Biologie lacanienne et événement de corps”. In: La Cause freudienne Paris, Navarin / Le Seuil, nº44, 2000. Versão em CD (As páginas da versão em CD não correspondem à versão impressa). As passagens que serão citadas neste texto são traduções livres.
[3] Ibid, p. 13.
[4] Ibid, p. 5.
[5] Ibid, p.18.
[6] Ibid, p. 20.
[7] Ibid, p. 7.
[8] Ibid, p. 12
[9] Ibid.
[10] Ibid, p. 13.
[11] Ibid.
[12] Ibid, p. 11.
[13] Ibid, p. 16.
[14] Ibid, p. 18.
[15] Referência à tradução em português do título do seminário Encore, de J. Lacan, que carrega o equívoco “no corpo”.
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PERGUNTAS PARA OS TEMPOS DO VÍRUS – O QUE PODEMOS EXTRAIR DE “REFLEXÕES PARA OS TEMPOS DE GUERRA E MORTE”, DE FREUD

by secao_sp in Biblioteca em Tempo Real

Imagem: Divulgação Netflix

Imagem: Divulgação Netflix

Fabiola Ramon – EBP/AMP

 Aventuro-me, sob o impacto da guerra, a lembrar-lhe duas teses formuladas pela psicanálise e que, sem dúvida, contribuíram para sua impopularidade.

A psicanálise inferiu dos sonhos e das parapraxias das pessoas saudáveis, bem como dos sintomas dos neuróticos, que os impulsos primitivos, selvagens e maus da humanidade não desaparecem em qualquer de seus membros individuais, mas persistem, embora num estado reprimido, no inconsciente e aguardam as oportunidades para se tornarem ativos mais uma vez. Ela nos ensinou, ainda, que nosso intelecto é algo débil e dependente, um joguete e um instrumento de nossos instintos e afetos, e que todos nós somos compelidos a nos comportar inteligente ou estupidamente, de acordo com as ordens de nossas atitudes [emocionais] e resistências internas[1].

 

Esse tempo de compreender sobre o impacto do coronavírus, experimentado por nossa comunidade analítica, nos leva até alguns textos de Freud. Um deles é “Reflexões para os tempos de guerra e morte” (1915), composto por dois ensaios: “A desilusão da guerra” e “ Nossa atitude para com a morte”, escritos seis meses após o início da primeira guerra mundial (1914-1918), certamente também em um tempo de compreensão da ruptura ocasionada pelo acontecimento mais brutal e mortífero vivido pela civilização ocidental desde o início da revolução industrial até aquele momento.

Nesses ensaios, Freud faz uma leitura inicial atenta dos impactos da guerra e da presença ostensiva da morte advinda disso. Apesar de mostrar-se impactado pela devastação de tal acontecimento, Freud se apresenta extremamente implicado em extrair consequências para a psicanálise. Sabemos a importância dessas consequências para suas formulações psicanalíticas, que seguiram sendo extraídas ao longo de muitos anos, uma delas é o conceito de pulsão de morte.

No primeiro ensaio, Freud aborda sobre a civilização e as pulsões. Naquela mesma época ele estava às voltas com seu trabalho primoroso sobre as pulsões, “As pulsões e seus destinos” (1915).

O segundo ensaio localiza a pergunta que Freud está a fazer sobre o lugar da morte para o ser falante e a forma como essa questão se reordena em uma situação de guerra. Trata-se da morte em larga escala, sendo produzida pela guerra. A guerra traz uma dimensão da morte como algo furtuito, presença constante, o que se opõe à ideia civilizatória. A assunção da morte na guerra faz Freud se perguntar sobre o lugar desta no inconsciente e no desejo humano, que segundo ele, é um desejo de assassinato.

Nosso inconsciente é tão inacessível à ideia de nossa própria morte, tão inclinado ao assassinato em relação a estranhos, tão dividido (isto é, ambivalente) para com aqueles que amamos, como era o homem primevo. Contudo, como nos distanciamos desse estado primevo em nossa atitude convencional e cultural para com a morte![2]

Freud destaca que a guerra traz à luz a não-relação, no caso a não possibilidade de relações entre nações ditas civilizadas, fazendo irromper o ódio e o asco entre elas. O mal, que habita cada ser falante, é encarnado no Estado, nesse Outro que “não pode abster-se de praticar o mal, de uma vez que isso o colocaria em desvantagem” [3]. Ele nos mostra que o impacto da baixa moralidade revelada pelo Estado e a brutalidade dos indivíduos que, legitimados pelo Estado, agem na contramão da civilidade, despertam a desilusão. Freud escancara que a ideia de que a civilização “pacifica” a pulsão é furada, é uma ilusão.

Freud articula ilusão e negação da morte. Quando a morte aparece sem véu, a desilusão aparece também, uma desilusão frente aos semblantes que sustentavam a ideia de progresso e desenvolvimento da civilização, que esteavam a ideia de Estado civilizado, calcados na ciência, na moral e na razão.

Um ponto importante que podemos extrair desse texto é que a guerra coloca em jogo o campo do Outro, em sua radicalidade, expondo a fragilidade dos semblantes que sustentam o lugar do Outro na civilização.

Podemos resumir a questão que o texto traz a partir de uma frase de Éric Laurent em “A sociedade do sintoma”. Freud identifica que o que está em jogo naquele momento é “o sentimento de inutilidade da civilização em face desse suicídio coletivo europeu”[4].

Se havia ilusão, era porque o Outro se mostrava bem consistido e Freud assinalava algo da inconsistência do Outro, exposta pela guerra.

Ele apontou a fragilidade dos semblantes e a guerra como uma maquinaria de morte produzida pela própria civilização, destacando que os sujeitos estão concernidos nisso. Se estão concernidos, é porque a dimensão do desejo estava em jogo.

Em uma guerra, o inimigo, este Outro encarnado e, ao mesmo tempo, reflexo do Eu, tem uma inscrição, encarna uma alteridade e uma identidade. Esse Outro deseja, e, se ele deseja, possibilita a assunção da angustia e a colocação do sintoma. A guerra deu uma face para a morte. E Freud seguiu perseguindo isso.

Nesse sentido, o que vivemos com o coronavírus não é exatamente uma guerra, mas uma outra experiência. Apesar de chamarmos o vírus de inimigo, ele não se coloca como alteridade, não é o reflexo de nós mesmo, não deseja, apesar de fazermos algumas tentativas, um tanto quanto complicadas, de dar um corpo e uma inscrição simbólica a isso que não deseja. A morte nos invade vindo por meio de um vírus, que toma o nosso corpo, pois somos seu hospedeiro. Qual é a cara da morte que o vírus faz aparecer?  Como a marca da morte em tempos de pandemia nos afeta hoje?

Ante a esse vírus que nada deseja e que apenas faz uso do nosso corpo, há possibilidade do sujeito se implicar nisso de alguma forma?

Lembrou-me do episódio Metalhead, da série distópica inglesa “Black Mirror”, que um cão-robô amoral persegue uma sobrevivente solitária. Parece não haver nenhuma saída, nada a fazer frente ao robô. Metalhead é programado para caçar e matar. De forma surpresiva, a sobrevivente consegue livrar-se do primeiro robô, mas assim que o faz, uma série deles, tal qual vírus, aparece para exterminá-la. Estavam lá desde o início, programados para isso. Metalhead é o encontro certo com a morte.

Em tempos do Outro que não existe, do Outro desconsistido, não é a desilusão o sentimento que compartilhamos. Do que se trata, então? Apatia? Pânico? Depressão? Indiferença? Impotência?

O que a presença fortuita da morte de hoje nos traz de perguntas e como essas perguntas poderão incidir sobre a psicanálise?

Quais saídas a civilização encontrará para se haver com seu mal atual? Quais saídas estamos buscando para não ficarmos, tal como no episódio de Black Mirror, assujeitados frente a isso que nada deseja, mas que porta em si o signo da morte? Por quais vias buscaremos saídas? Faremos disso sintoma?

Se seguirmos com Freud e Lacan, o melhor a fazer é não paralisarmos frente a esse Metalhead, mas acompanharmos esse tempo fazendo perguntas sem pressa para encontrar respostas.


[1] Carta de Freud a Frederik Van Eeden, elaborada alguns meses antes de escrever seus ensaios. Dr. Van Eeden era um psicopatologista holandês que não aceitava as hipóteses de Freud. Esta carta foi publicada como apêndice do texto principal. In: Freud, S. (1914). Obras completas. Rio de Janeiro: Ed Imago, 1996, vol. XIV, p.311.
[2]  Freud, S. (1914). Obras completas. Rio de Janeiro: Ed Imago, 1996, vol. XIV, p. 309.
[3] Ibid, p. 289.
[4] Laurent, É. A sociedade do sintoma. Rio de Janeiro: contracapa, 2007, p. 164.
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5 CENTÍMETROS POR SEGUNDO

by secao_sp in Biblioteca em Tempo Real

Niraldo de Oliveira Santos – EBP/AMP

A Comissão de Biblioteca da Escola Brasileira de Psicanálise, Seção São Paulo, determinada a manter palpitante nossa relação com os livros em tempos de isolamento social decorrente do Covid-19, lançou a tarefa de escolhermos um texto e comentá-lo a partir do momento atual. Prontamente, escolhi o texto “Transitoriedade” (Freud, 1916), inserido no volume “Arte, literatura e os artistas”, da editora Autêntica[1].

Trata-se de um pequeno texto no qual Freud descreve um passeio “em meio a uma florescente paisagem de verão”, na companhia de um conhecido poeta e de um amigo. Hoje sabemos que se tratava do poeta Rainer Maria Rilke, e que o amigo “taciturno” era, na verdade, Lou Andreas Salomé, a companheira de Rilke, que tempos depois se tornou psicanalista. Este acontecimento se dá em agosto de 1913, um ano antes da eclosão da primeira guerra mundial.

Chama a atenção de Freud o fato de o poeta admirar a beleza da natureza ao redor, sem poder retirar satisfação disso. Perturbava-o a ideia da efemeridade daquela beleza, destinada a desaparecer com a chegada do inverno, “assim como toda beleza humana e tudo o que é belo e nobre que o homem criou e poderia criar”. O que desanimava o poeta era o destino determinante da transitoriedade.

Freud aponta dois movimentos psíquicos diante de tal circunstância: um doloroso fastio diante do mundo e a rebelião contra a realidade existente. Para ele, “a exigência de eternidade deve claramente ser um êxito da nossa vida desejante”. Apesar da transitoriedade em geral ser um fato, Freud contesta o poeta pessimista, que desvaloriza o belo pela sua condição transitória: “A limitação das possibilidades de fruição eleva sua preciosidade”; e acrescenta: “Se existe uma flor que brota apenas uma única noite, então seu florescimento nos parece não menos vistoso, suntuoso”.

Estamos no mês de abril. É primavera no hemisfério norte e, no Japão, um fenômeno transitório é vivido em toda a sua plenitude: o tempo de apreciar as flores das cerejeiras, chamadas de sakura. De um rosa pálido, frágeis e de vida curta, as sakura  tornaram-se um símbolo do Japão. Os japoneses divulgam, a cada ano, o dia e a hora exata para cada região do país em que ocorre o ápice da floração das cerejeiras. Na cidade de Kyoto, o ritual de visitar as flores do monte Yoshino, coberto por mil pés de cerejeiras, é repetido anualmente desde o século VIII[2]. Em regiões de muita neve, as árvores chegam a ser protegidas no inverno por uma espécie de capa em forma de cone feita de palha, para evitar que os galhos se quebrem com o peso da neve. Eles não são apenas apaixonados pela beleza emanada,  mas também pelo que o hanami[3] representa. É precisamente porque as flores delicadas murcham e caem fácil e rapidamente que são tão amadas. É uma noção chamada mono no aware, algo como uma “agridoce consciência da impermanência das coisas”[4]. Crença de que essa impermanência precisa ser valorizada e não lamentada.

A enorme quantidade de cerejeiras plantadas no Japão atesta esse amor – são  igualmente belas as árvores de ume, um tipo de ameixa japonesa, que florescem no mesmo período. Quando as cerejeiras florescem, as pessoas param de olhar para baixo e olham constantemente para cima; os trabalhadores, normalmente com pressa, param para tirar uma foto. As flores de cerejeira também desaparecem com encanto – primeiro com as flores chovendo lentamente no ar, ou como apresentado de modo poético em um filme de anime “as flores de cerejeira caem a uma velocidade de 5 centímetros por segundo[5]“. O estágio final das sakura termina com tapetes rosáceos ​​nas ruas e a superfícies das águas cobertas com mantas igualmente em cor-de-rosa, que fluem levando as pétalas. Luto que se repete?

Freud, em seu texto, mostra-nos o quanto uma interferência afetiva pode perturbar o julgamento diante do belo, como aconteceu com seu amigo poeta, e atribui isso a uma “revolta psíquica contra o luto”, que desvaloriza a fruição do que é belo. De acordo com Freud, ao final do luto, quando os objetos nos quais investimos nossa libido são destruídos ou perdidos, nossa capacidade de amor (libido) é liberada novamente. Mas, para isso, o tempo de elaboração é um fator fundamental para que seja possível substituirmos esses objetos por outros, não sem dor: “Vemos que a libido se prende aos seus objetos e também não quer desistir dos perdidos, mesmo quando já preparou o substituto. Eis aí o luto”. Nos dias atuais, em alguma medida, estamos em luto. Alguns dentre nós temos a clareza de que (já) perdemos a liberdade de ir e vir; outros, nem tanto.

A efêmera floração das cerejeiras – que têm seu retorno, pontualmente, a cada início da primavera – é um fenômeno da natureza que segue suas leis. E quanto ao Covid-19, que ainda não nos parece transitório, trata-se de um real sem lei? Para Bassols[6], “o real do ser falante, (…) seguindo o último ensino de Lacan, é um real sem lei”. Já o Covid-19, “este segue uma lei implacável, ele segue a lei da natureza que é preciso saber decifrar para enfrentá-lo”. Para tanto, afirma Bassols, há um real do tempo que é decisivo para que isto se dê.

Antes de encerrar seu texto otimista a respeito da transitoriedade, Freud nos lembra que, apesar de nossa libido ficar empobrecida em relação aos objetos em algumas circunstâncias, ela ocupa com tanta intensidade o que ficou em nós, permitindo que “(…) o carinho por quem é próximo e o orgulho pelo que temos em comum subitamente se fortaleçam”. E acrescenta: “(…) pois ainda somos jovens e cheios de vida para substituir os objetos perdidos por novos objetos possíveis, preciosos ou mais preciosos ainda”.

Para concluir, vejamos o que diz Lacan em uma aula dada quando do seu retorno do Japão – uma viagem que lhe trouxe “algumas experiências”: “O desejo, com efeito, é o fundo essencial, o objetivo, a meta e também a prática de tudo que se anuncia aqui, neste ensino, acerca da mensagem freudiana”[7]. Podemos dizer, com Freud e com Lacan, que sim, somos jovens, o desejo rejuvenesce e há muitas coisas que desejamos que, assim como as sakura, sejam transitórias.


[1] Freud, S. “Transitoriedade (1916). In: Arte, literatura e os artistas. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2018.
[2] Sakurai, C. “Os japoneses”. São Paulo: Contexto, 2014. p, 18.
[3] Literalmente, significa “ver flores”; porém, o termo alude ao hábito de apreciar as flores das cerejeiras, sentados sob as árvores.
[4]Cherry blossom season in Japan: the love of the ephemeral”. Wonderland Japan – Wattention. Acessado em 14.04.2020.
[5]5 centimeters per second”. Dirigido, produzido e escrito por Makoto Shinkai. Lançamento, 2007. https://en.wikipedia.org/wiki/5_Centimeters_per_Second
[6] Bassols, M. “A lei da natureza e o real sem lei”. Correio Express Extra. Revista Eletrônica da Escola Brasileira de Psicanálise. Publicado em 26/03/2020.
[7] Lacan, J. “O Seminário, livro 10: a angústia”. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2005, p. 236.
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BIBLIOTECA EM TEMPO REAL

by secao_sp in Biblioteca em Tempo Real

Imagem: Instagram @rguidon

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BIBLIOTECA EM TEMPO REAL

 Milena Vicari Crastelo – EBP/AMP

Como pensar o tempo em tempos do Coronavírus? Como manter o laço mesmo em isolamento? Como se servir do virtual sem que ele substitua o encontro dos corpos?

Muitas questões se colocaram desde que fomos invadidos pelo COVID-19 – inimigo invisível, que chegou sem pedir licença, operando uma mudança radical em nossas vidas. Fazendo referência ao texto de Lacan de 1945: “O tempo lógico e a asserção de certeza antecipada”[1], o instante de ver foi como um relâmpago que imediatamente nos arremessou ao tempo para compreender.

Marie-Hélène Brousse em seu texto Os tempos do vírus se pergunta: Diante do vírus, o que se passa? E nos dirá: “Não se trata, portanto, de uma sucessão cronológica que nivela o tempo como um continuum. A ênfase é colocada sobre o que Lacan chama, então, uma “descontinuidade tonal” ou uma “sucessão real”, cada momento podendo ter ou não ter lugar, se resolver ou não, no seguinte. […] O tempo para compreender, de fato, exige uma reconfiguração de enquadres extremamente estreitos da realidade psíquica. Estes últimos permitem, em tempos normais, que os corpos falantes organizem sua vida cotidiana pela rotina de automatismos adquiridos a partir dos discursos que os constituem.” [2]

Essa rotina foi abruptamente interrompida, quebrada, o Real mostrou sua face de maneira devastadora, não temos mais esse tempo para organizar nossa vida cotidiana, mas seguimos – operando com as invenções – fazendo uso da tecnologia, que pode nos aproximar, mesmo em isolamento, e permitir que algum laço se faça, vamos inventando modos inéditos e inusitados de fazer laço.

Nesses tempos que correm sem o encontro dos corpos, nossa biblioteca se coloca a trabalho, a partir do desejo de cada um dos que compõem a comissão, trazendo suas elaborações e contribuições da leitura de textos de Freud, Lacan, de psicanalistas e também de outros campos do saber.

Os textos circularão na nossa Biblioteca em Tempo Real através das mídias digitais. Boa leitura!


[1] Lacan, Jacques. “O tempo lógico e a asserção de certeza antecipada. Um novo sofisma. In: Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 1998, p. 197-213.
[2]  Brousse, Marie-Hélène. “Os tempos do vírus. In: Correio Express Extra n° 07, Abril de 2020, disponível em: https://www.ebp.org.br/correio_express/2020/04/04/os-tempos-do-virus/
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