Ato analítico e supervisão

Sofia Guaraguara (NEL, NLS e AMP)
Imagem: Pixabay

Partirei de uma pergunta: o que é um psicanalista? Talvez seja uma pergunta aberta…

A este respeito, Miller, em Donc, pontua: “por isso Lacan chama de inocente o analisante que começa, esse que não sabe o que já está escrito no ticket de entrada para a análise”[1]. Isto é, para que haja um analista é necessário um percurso analítico que reduza sua inocência.

Como assinala Miller, “na conclusão do tratamento está o que o analista extrai, o que ele alcançou, o que lhe saiu mal, o ponto em que permaneceu o analisante”[2]. Desde então, cada um descobre sua resposta singular, particular, isto é, seu estilo, seu sinthome que se foi desvelando em sua análise, decifrando seu inconsciente e com a leitura de seu corpo falante.

Poderíamos dizer que o desejo de saber está latente na formação contínua de cada analista.

Ato analítico

Para que haja ato analítico, há de existir um analista. Retomo uma citação do argumento das Jornadas[3]: “A tarefa do psicanalista é a psicanálise, diz Lacan, e o ato é aquilo mediante o qual o psicanalista se compromete a responder por ela”[4]. Deste modo, o ato analítico marca um antes e um depois.

Em uma frase fundamental, Freud diz: “Pouco a pouco aprendi a utilizar essa dor despertada como bússola”[5]. Poderíamos dizer que ele se deixou ensinar, passou da observação à escuta da palavra. Antes disso, Freud observava, depois decifrava, interpretava, tratava o sintoma.

Supervisão

A docilidade do analista permite consentir ao controle, isto é, saber-se dividido pelo desejo.

“Isto é de fato decisivo: o controle, para nós, é um controle desejado”[6]. É sua consequência que permite retificar, esclarecer e constatar o ato analítico. É o que intervém tanto no caso, como o que incide na formação contínua do analista.

A análise e a supervisão são pilares fundamentais da formação do analista, junto à Escola: “E o analista pode querer essa garantia, o que, por conseguinte, só faz ir mais além: tornar-se responsável pelo progresso da Escola, tornar-se psicanalista da própria experiência”[7].

Em poucas palavras, a docilidade do analista também permite consentir ao controle, e o ato analítico é produto da análise.

Tradução: Eduardo Vallejos
Revisão: Felipe Bier e Emelice Prado Bagnola

[1] MILLER, J.-A. “La lógica de la cura”. In: Donc. Buenos Aires: Ed. Paidós, p.18. Tradução livre.
[2] Ibid., p. 19.
[3] Citado por Carrijo da Cunha, L.F. Argumento das X Jornadas da EBP-SP – “Psicanálise em ato”. In: Argumento – X Jornadas – Seção São Paulo (ebp.org.br)
[4] LACAN, J. “A Psicanálise, razão de um fracasso”. In: Outros escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 2003, p.341-349.
[5] FREUD, S. (1895). Estudos sobre a histeria. Ed. Cia das Letras, p. 163.
[6] MILLER, J.-A. “Trois points sur le contrôle”. In : Édito, L´Hebdo-Blog 159, 23 de janeiro de 2019. Disponível em: Trois points sur le contrôle – L’HEBDO-BLOG
[7] LACAN, J. “Proposição de 9 de outubro de 1967 sobre o psicanalista da Escola”. In: Outros escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 2003, p. 248.