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Os instintos e seus destinos.[i]

by secao_sp in textos_jornada

Fátima Luzia[ii]

O que os homens desejam?

Freud necessitava de uma teoria que pudesse dar conta do que pulsa no homem – o desejo de satisfação. Em 1915 escreve o texto “Teoria das pulsões e seus destinos”.

Ele localiza a pulsão entre o somático e o psíquico, diz que tem força constante, estabelece que ela funciona num circuito pulsional, e é nele que localiza a satisfação.

Poético e ao mesmo tempo preciso, Freud considera a pulsão como “representante psíquico dos estímulos oriundos do interior do corpo que alcançam a alma”[iii], e diz que elas têm destinos diferentes para alcançar a satisfação, sempre faltante. Buscam para isso um objeto, que é o mais variável da pulsão: tanto pode ser uma parte do corpo, como um objeto do mundo.

Mas o que tem a ver a pulsão com o amor e o des-amor?

Freud nos relata que um dos destinos da pulsão é a transformação em seu contrário. Que pode ser encontrada na transformação do amar em odiar, sendo comum encontrar ambos dirigidos para o mesmo objeto.

E continua nos situando sobre os afetos, onde o amor e o ódio têm origens diferentes e tiveram uma evolução própria, antes de se tornarem um par de opostos, na relação prazer-desprazer.

O amor para Freud é originalmente narcísico, sendo que em seus estágios preliminares do incorporar é sádico-anal e mal se distingue do ódio, em sua relação com o objeto.

“Enquanto relação com o objeto, o ódio é mais antigo que o amor, ele brota do repúdio primordial do Eu narcísico perante o mundo externo portador de estímulos”.[iv]

Quando se rompe a relação de amor com um determinado objeto, não é raro o ódio tomar o seu lugar, ele é fortalecido pela regressão do amor ao estágio sádico preliminar, onde o “odiar assume um caráter erótico e a continuidade de uma relação amorosa é garantida”.[v]

Esses objetos, diz Freud, têm uma intima relação com a vida sexual, mas recusa a conceber o amor como uma pulsão parcial. “As designações de amor e ódio não se aplicam às relações das pulsões com seus objetos, mas estão reservadas à relação do Eu-total com os objetos”.[vi]


[i] FREUD, S. “As pulsões e seus destinos (1915)”. In: Obras Completas, v 12. São Paulo: Companhia das Letras, 2010, p 51-81.
[ii] Associada ao Clin-a
[iii] Idem, p 57
[iv] Idem, p 79
[v]Idem, p. 80
[vi] Idem, p 77
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Resenha: Um tipo especial de escolha de objeto feita pelos homens [i]

by secao_sp in textos_jornada

Aparecida Berlitz [ii]

Freud inicia o texto diferenciando a forma de dizer sobre o amor dos escritores e dos cientistas. O primeiro utiliza a sexualidade para criar prazer intelectual e estético, que resulte algum impulso oculto nas mentes humanas. O segundo considera “a ciência a renúncia mais completa ao principio do prazer”. [iii]

Freud nos apresenta quatro tipos de escolha amorosa:

A primeira seria a escolha do homem por uma mulher comprometida, o que ele considera a condição de “um terceiro prejudicado”, ou seja, uma relação trialgular. Como num momento do Complexo de Edipo, em que o filho rivaliza com o pai para ter a mãe.

A segunda, o “amor à cortesã”, é uma forma que conjugaria com a primeira, pois a mulher casta não pode ser levada a condição de objeto de desejo, e sim a outra, sexualmente de má reputação. Esta forma de amor advém do Completo Materno, que designaria a fixação das fantasias dos meninos na puberdade e que mais tarde darão vazão na vida real.

Em outra forma, do amor normal, a mulher aparece como objeto amoroso de maior valor, pela sua integridade sexual e sua fidelidade. Nesta relação há um gasto grande de energia mental, com a exclusão dos demais interesses. Qualquer mudança de ambiente leva ao desamor e a procura de um novo objeto de amor. Estas características são de natureza compulsiva e formarão series amorosas.

A quarta forma de conexão é a de “salvar” a mulher amada. “O homem se convence de que ela precisa dele, que sem ele perderá todo o controle moral e, rapidamente descerá para o nível lamentável.” [iv]

Em tempos de conexão (des)conexão, como é o amor para os homens? Que dimensão o amor toma nas parcerias amorosas na comtemporaneidade?


[i] FREUD, S. “Um tipo especial de escolha de objeto feita pelos homens” (Contribuições à psicologia do amor I, 1910). In: Obras Completas. Rio de Janeiro: Imago, v. XI, p 147-57.
[ii] Associada ao CLIN-a
[iii] Idem, p 149
[iv] Idem, p 151
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TRECHOS DOS SEMINÁRIOS DE JACQUES LACAN (POR TEMAS)

by secao_sp in textos_jornada

Sobre o AMOR:

Imaginário e simbólico:

“Sartre observa muito justamente que, no vivido do amor, oque exigimos do objeto pelo qual desejamos ser amados não é um engajamento completamente livre. o pacto inicial, o você éminha mulher ou você é meu esposo, ao qual faço frequentementealusão quando lhes falo doregistro simbólico, não tem verdadeiramentenada na sua abstração corneliana para saturar as nossasexigências fundamentais. É numa espécie de enviscamento corporalda liberdade que se exprime a natureza do desejo. Queremosnos tomar para o outro um objeto que tenha para ele o ·mesmovalor de limite que tem, em relação à sua liberdade, o seu própriocorpo. Queremos nos tornar para o outro não somente aquilo emque a sua liberdade se aliena – sem nenhuma dúvida, é precisoque a liberdade intervenha, porque o engajamento é um elementoessencial da nossa exigência de sermos amados – mas é precisotambém que seja muito mais do que um engajamento livre. É preciso que uma liberdade aceite se renunciar a si mesma paraestar, a partir de então, limitada a tudo que podem ter de caprichoso,de imperfeito, e mesmo de inferior, os caminhos para osquais a arrasta o estar cativado por esse objeto que somos nósmesmos.” (Seminário 1, p.248)

“Se o amor está inteiramente preso e enviscado nessa intersubjetividadeimaginária, na qual desejo centrar a atenção de você,ele exige, na sua forma acabada, a participação no registro dosimbólico, a troca. liberdade-pacto, que se encarna na palavra dada.Aí se escalona uma zona em que vocês poderão distinguir planosde identificações, como dizemos na nossa linguagem frequentemente imprecisa, e toda uma gama de nuanças, todo um lequede formas que agem entre o imaginário e o simbólico.” (idem)

Função simbólica:

“Nunca se fala tanto nos termos mais crus do amor do que quando a pessoa é transformada numa função simbólica. Vemos aqui funcionar em estado puro o móvel do lugar ocupado pela visada tendencial na sublimação, ou seja, que aquilo que o homem demanda, em relação ao qual nada pode fazer senão demandar, é ser privado de alguma coisa de real. (…) essa demanda derradeira de ser privado de alguma coisa de real é essencialmente ligada à simbolização primitiva que se encontra inteiramente na significação do dom de amor.” (Seminário 7, p.186)

Homem/mulher, casamento:

“O amor que a mulherdá a seu esposo não visa ao indivíduo, nem mesmo idealizado – eis o perigo daquilo que se denomina a vida em comum, a idealização,não dá para sustentar – visa, porém, a um ser para além. Oamor sagrado propriamente falando, aquele que constitui o laço matrimonial,vai da mulher àquilo que Proudhon denomina todos oshomens. Assim como, através da mulher, são todas as mulheres quea fidelidade do esposo visa.” (Seminário 2, p.327)

“(…) para que a situação seja sustentável, é preciso que a posiçãoseja triangular. Para que o casal se mantenha no plano humano,é preciso que aí esteja um deus. É ao homem universal, ao homemvelado, do qual todo ideal é apenas substituto idolátrico, que sedirige o amor, este famoso amor genital do qual fazemos festas e chacotas.” (Idem, p.330)

“Que não apenas como La Rochfoucauld disse, “há bons casamentos, masnão os há deliciosos”, podemos acrescentar que, desde então, tudo sedeteriorou um pouco mal, já que não os há tampouco bons, digo, dentro da perspectiva do desejo. Seria, todavia, um pouco inverossímil quetais propósitos não possam ser postos no primeiro plano, numa assembleiade analistas. Isso não faz de vocês os propagandistas de uma eróticanova, isso lhes situa o que vocês têm a fazer em cada caso particular:têm a fazer exatamente o que cada um tem a fazer para si e pelo motivoque o leva a maior ou menor necessidade de sua ajuda, ou seja, aguardandoo astronauta da erótica futura, soluções artesanais.” (Seminário 9, 14 de março de 1962 – tradução livre)

É dar do que não se tem; objeto fetiche:

“O que intervém narelação de amor, o que é demandado como signo de amor nunca passade alguma coisa que só vale como signo. Ou, para ir ainda mais adiante,não existe maior dom possível, maior signo de amor que o dom daquiloque não se tem. Mas vamos observar bem que a dimensão do dom sóexiste com a introdução da lei. Como nos afirma toda a meditaçãosociológica, o dom é algo que circula, o dom que vocês fazem é sempreaquele que receberam. Mas quando se trata do dom entre dois sujeitos,o ciclo de dons vem ainda de outra parte, pois o que estabelece arelação de amor é que o dom é dado, se podemos dizê-lo, em troca denada.” (Seminário 4, p.142)

“No ato do amor, é a mulher que recebe realmente,ela recebe bem mais do que dá. Tudo nos indica, e a experiênciaanalítica o acentuou, que não existe posição mais captadora, até mesmomais devoradora no plano imaginário. Se isso é invertido na afirmaçãocontrária, que a mulher se dá, é na medida em que deve ser assimsimbolicamente, a saber, que ela deve dar alguma coisa em trocadaquilo que recebe, isto é, o falo simbólico.Aí está, pois, o fetiche, nos diz Freud, representando o falo comoausente, o falo simbólico. Como não ver que é necessária esta espéciede inversão inicial para que possamos compreender coisas que, docontrário, seriam paradoxais? Por exemplo, é sempre o menino que éfetichista, nunca a menina. Se tudo residisse no plano da diferença,ou mesmo da inferioridade imaginária, entre os dois sexos, seria depreferência naquele que é realmente privado do falo que o fetichismose deveria declarar mais abertamente. Ora, não é nada disso. O fetichismoé excessivamente raro na mulher, no sentido próprio e individualizado em que ele se encarna num objeto que podemos considerarcomo respondendo, de uma maneira simbólica, ao falo como ausente.” (Idem, p.156/157)

“Não é à toa que lhes repiso desde sempre que o amor é dar o quenão se tem. É esse, inclusive, o princípio do complexo de castração.Para poder ter o falo, para poder fazer uso dele, é preciso, justamente,não o ser.Quando voltamos às condições em que parecemos sê-lo – porquetambém o somos, não há dúvida disso quanto ao homem, e, quanto àmulher, voltaremos a dizer por que incidência ela é levada a sê-lo -,pois bem, é sempre muito perigoso.” (Seminário 10, p.122)

“Como é que o a,objeto da identificação, é também o a, objeto do amor? Ele o é na medidaem que arranca metaforicamente o amante, para empregar o termomedieval e tradicional, do status em que ele se apresenta, o deamável, eromenos, para transformá-lo em erastes, sujeito da falta, mediante o que ele se constitui propriamente no amor. É isso que lhe dá, seassim posso dizer, o instrumento do amor, uma vez que se ama, que seé amante – voltaremos a isso – com aquilo que não se tem.” (Idem, p.131-132)

E desejo sexual:

“O desejo, seja ele qual for, em estado de desejo puro, é algo que,arrancado do terreno das necessidades, ganha uma forma de condiçãoabsoluta em relação ao Outro. Ele é a margem, o resultado da subtração,por assim dizer, da exigência da necessidade em relação à demandade amor. Inversamente, o desejo apresenta-se como aquilo que, nademanda de amor, é rebelde a qualquer redução a uma necessidade,porque, na realidade, não satisfaz a nada senão ele mesmo, ou seja,ao desejo como condição absoluta.É por essa razão que o desejo sexual entra nesse lugar, na medidaem que se apresenta em relação ao sujeito, em relação ao indivíduo,como essencialmente problemático, e nos dois planos da necessidadee da demanda de amor.” (Seminário 5, p.395)

“Há, por um lado, a posição do Outro como Outro, como lugar dafala, aquele a quem é endereçada a demanda, aquele cuja irredutibilidaderadical manifesta-se por ele poder dar amor, isto é, algumacoisa que é tão mais totalmente gratuita na medida em que não existenenhum suporte do amor, já que, como eu lhes disse, dar amor é nãodar nada que se tenha, pois é justamente por não se o ter que se tratade amor. Mas há uma discordância entre o que há de absoluto nasubjetividade do Outro que dá ou não dá amor e o fato de que, parahaver acesso a ele como objeto de desejo, é necessário que ele sefaça totalmente objeto. É nesse desvio vertiginoso, nauseante, parachamá-lo por seu nome, que se situa a dificuldade de acesso naabordagem do desejo sexual.”(Idem, p.397)

Hainamoration:

“(…) quanto mais o homem se possa prestar, para a mulher, à confusão com Deus, quer dizer, aquilo de que ela goza, menos ele odeia e menos ele é – e uma vez que, depois de tudo, não há amor sem ódio, menos ele ama”. (Seminário 20, p.95)

Mal-estar; ame o próximo como a si mesmo:

Em primeiro lugar o próximo é um ser malvado, cuja naturezaprofunda vocês viram ser desvelada em sua escrita. Mas não é sóisso. Freud diz mais (…) meu amor é algo precioso, não vou dá-lo inteiramente a cada umque se apresente como sendo o que é, só porque ele se aproximou.Encontram-se aqui observações de Freud que são justíssimas, eque apresentam uma inflexão emocionante no que se refere ao quevale a pena ser amado. Ele revela como se deve amar o filho deum amigo, pois, se desse filho o amigo for privado, o sofrimento seráintolerável. Toda a concepção aristotélica dos bens está aí viva nessehomem verdadeiramente homem, e que nos diz as coisas mais sensíveise mais sensatas sobre o que vale a pena partilhar com ele,esse bem que é o nosso amor. Mas o que ele elude é que talvez sejajustamente ao tomar essa via que percamos o acesso ao gozo.É da natureza do bem ser altruísta. Mas o amor ao próximonão é isso. Freud faz com que se perceba isso, sem articulá-lo plenamente. (…) cada vez que Freud sedetém, como que horrorizado, diante da consequência do mandamentodo amor ao próximo, o que surge é a presença dessa maldadeprofunda que habita no próximo. Mas, daí, ela habita também emmim. E o que me é mais próximo do que esse âmago em mim mesmoque é ode meu gozo, do que não me ouso aproximar? Pois assimque me aproximo – é esse o sentido do Mal-estar na civilização -surge essa insondável agressividade diante da qual eu recuo, queretorno contra mim, e que vem, no lugar mesmo da Lei esvanecida, dar seu peso ao que me impede de transpor uma certa fronteira no limite da Coisa.(…) o gozo de meu próximo, seu gozo nocivo, seu gozomaligno, é ele que se propõe como o verdadeiro problema para omeu amor. (Seminário 7, p.227-229)

Civilização; sublimação:

“Para tratar do amor, assim como para tratar da sublimação, é preciso lembrar o que os moralistas anteriores a Freud (…) já articularam plenamente, e cujo saber não convém considerarmos ultrapassado: o amor é a sublimação do desejo. Resulta daí que não podemos, de modo algum, servir-nos do amor como primeiro nem como último termo, por mais primordial que ele se afigure em nossa teorização. O amor é um fato cultural (…). Isso deve incitar-nos a dispor de outra maneira os suportes do que temos a dizer acerca da conjunção do homem e da mulher no ponto em que o próprio Freud o diz, assinalando que esse desvio poderia ter-se produzido de forma diferente.” (Seminário 10, p.198)

Amor e transferência:

“Para os que ouviram meu discurso sobre O banquete, o texto deDora – naturalmente, primeiro convém vocês se familiarizarem comele – pode lembrar a dimensão sempre evitada quando se trata datransferência, a saber, que a transferência não é, simplesmente, aquiloque reproduz e repete uma situação, um ato, uma atitude, um traumaantigo. Há sempre uma outra coordenada, que enfatizei a propósitoda intervenção analítica de Sócrates, ou seja, nominalmente, no casoque estou evocando, um amor presente no real. Nada poderemoscompreender da transferência se não soubermos que ela também éconsequência desse amor, desse amor presente, e os analistas devemlembrar-se disso no correr da análise. Esse amor se faz presente de diversasmaneiras, mas que ao menos eles se recordem disso, quando eleestiver ali, visível. É em função desse amor, digamos, real que se instituio que é a questão central da transferência, aquela que o sujeito formulaa si mesmo a respeito do ágalma, ou seja, o que lhe falta, pois écom essa falta que ele ama.” (Idem, p.122)

“(…) na medida em que o desejo intervém no amor e é umpivô essencial dele, o desejo não diz respeito ao objeto amado.Enquanto essa verdade primordial, a única em torno da qualpode girar uma dialética válida do amor, for colocada por vocês nacategoria de um acidente, de uma Erniedrigung [humilhação] davida amorosa, de um Édipo segurado pelos pés, pois bem, não compreenderãoabsolutamente nada da maneira como se deve formular apergunta referente ao que pode ser o desejo do analista; é que é precisopartir da experiência do amor, como fiz no ano de meu Semináriosobre a transferência, para situar a topologia em que essa transferênciapode se inscrever.” (Idem, p.170)

“Fui levado aabordá-lo após ter colocado que a transferência é aquilo que manifesta naexperiência a atualização da realidade do inconsciente, no que ela é sexualidade.Encontro-me parado no que comporta essa afirmação mesma.Se estamos certos de que a sexualidade está presente em ação natransferência, é na medida em que em certos momentos ela se manifestaa descoberto em forma de amor. É disso que se trata.” (Seminário 11, p.165)

“Aquilo que surge no efeito de transferência se opõe à revelação. Oamor intervém em sua função aqui revelada como essencial, em sua funçãode tapeação. O amor, sem dúvida, é um efeito de transferência, mas em suaface de resistência. (…) o sujeito enquanto assujeitado ao desejo doanalista, deseja enganá-lo dessa sujeição, fazendo-se amar por ele, propondopor si mesmo essa falsidade essencial que é o amor.” (Seminário 11, p.239-240)

Amor, gozo e desejo:

“Só o amor permite ao gozo condescender ao desejo.” (Seminário 10, p.197)

“A necessidade em que se acha Freud de se referir à relação do Ichcom o real para introduzir a dialética do amor – enquanto que, propriamentefalando, o real neutro é o real dessexualizado – não interveio nonível da pulsão. É isto que será para nós o mais enriquecedor, no que concerneao que devemos conceber da função do amor – a saber, de sua estruturafundamentalmente narcísica.Que haja um real, isto não é absolutamente duvidoso. Que o sujeitosó tenha relação construtiva com esse real na dependência estreita do princípiodo prazer, do princípio do prazer não acossado pela pulsão, aí está (…) o ponto de emergência do objeto do amor.Toda a questão é saber como esse objeto de amor pode vir a preencherum papel análogo ao objeto do desejo – sobre que equívocos repousa apossibilidade para o objeto de se tornar objeto de desejo.” (Seminário 11, p.176)

“Onível do Ich é não-pulsional, e é aí – eu lhes rogo que leiam atentamente otexto – que Freud funda o amor. Tudo que é assim definido no nível doIch só toma valor sexual, só passa da Erhaltungstrieb, da conservação, aoSexualtrieb, em função da apropriação de cada um desses campos, suaapreensão, por uma das pulsões parciais(…). Aí está então aonde Freud entende assentar as bases do amor. É somentecom a atividade-passividade que entra em jogo o que é propriamenteda relação sexual (…). Ora, a relação atividade-passividade, cobrirá ela a relação sexual? Eulhes rogo que se refiram a tal passagem do Homem dos Lobos, por exemplo,ou a tais outras repartidas nas Cinco Psicanálises. Freud ali explica emsuma que a referência polar atividade-passividade está ali para denominar,para recobrir, para metaforizar o que resta de insondável na diferença sexual (…). Certamente, na relação sexual entram em jogo todos os intervalos dodesejo. Que valor tem para ti meu desejo? Questão eterna que se põe nodiálogo dos amantes. (Idem, p.181-182)

Relação sexual:

“Dessa conjunção do sujeito no campo da pulsão com o sujeito talcomo ele se evoca no campo do Outro, desse esforço para se reunir, dependeque haja um suporte para a ganzeSexualstrebung.Não há outro. É somenteaí que a relação dos sexos é representada no nível do inconsciente.Para o resto, a relação sexual fica entregue ao aleatório do campodo Outro. Fica entregue às explicações que se lhes deem. Fica entregue àvelha de quem se precisa – não é uma fábula vã – para que Daphnis aprendacomo se tem que fazer para fazer amor.” (Idem, p.188)

“S de A barrado é uma coisa bem diferente de Φ. Não é com isso que o homem faz amor. No final das contas, ele faz amor com seu inconsciente, e mais nada. Quanto ao que fantasia a mulher, se é mesmo isso que nos foi apresentado pelo filme, é alguma coisa que, de todo modo, impede o encontro. (…) O grande A é barrado porque não há Outro – não aí onde há suplência, a saber o Outro como lugar do inconsciente, esse de quem eu disse que é com isso que o homem faz amor, em outro sentido da palavra com e que é o parceiro – o grande A é barrado porque não há Outro do Outro.” (Seminário 23, p.123)

Amor e identificação:

“Os objetos que estão no campo do Lust têm uma relação tão profundamentenarcísica com o sujeito que, no fim das contas, o mistério dapretensa regressão do amor à identificação encontra sua razão na simetriadesses dois campos que lhes designei por Lust e Lust-Ich. O que não podemosguardar do lado de fora, temos sempre sua imagem do lado de dentro.É mesmo tola assim, a identificação ao objeto do amor. E não vejo por queisso criou tanta dificuldade, e ao próprio Freud. Isso, meu caro, é o objetodo amor.” (Seminário 11, p.229)

Amor e castração:

“O amor à verdadeé o amor a essa fragilidade cujo véu nós levantamos, é o amor ao que averdade esconde, e que se chama castração.Eu não deveria ter que lembrar estas coisas, que são de algum modotão livrescas. Parece que é entre os analistas, entre eles especialmente que,em nome de certas palavras-tabu com que se lambuza o seu discurso,jamais se entende o que é a verdade – é, a saber, a impotência.Ali é que se edifica tudo o que concerne à verdade. Que haja amorà fraqueza, está aí sem dúvida a essência do amor. Como já disse, o amoré dar o que não se tem, ou seja, aquilo que poderia reparar essa fraquezaoriginal.” (Seminário 17, p.49)

“A pai-versão é a sanção do fato de que Freud faz tudo se ater nafunção do pai. E o nó bo é isso.O nó bo é apenas a tradução do que me foi lembrado ainda ontemà noite: que o amor e, ainda por cima, o amor que podemos qualificarde eterno, se endereça ao pai, em nome disso, de ele ser o portador da castração. Pelo menos é o que Freud apresenta em Totem e tabu com areferência à primeira horda. Na medida em que são privados de mulher,os filhos amam o pai.Eis alguma coisa totalmente singular e perturbadora, sancionadaapenas pela intuição de Freud.Tento dar outro corpo a essa intuição em meu nó bo, que é muitoapropriado para evocar o monte Nebo onde, tal como se diz, a Lei foientregue – essa que não tem absolutamente nada a ver com as leis domundo real, uma vez que essas leis são, aliás, uma questão que permaneceinteiramente em aberto. A Lei da qual se trata, nesse caso, é simplesmentea lei do amor, isto é, a pai-versão.” (Seminário 23, p.146-147)

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“Só o amor permite ao gozo condescender ao desejo”[i]

by secao_sp in textos_jornada

Jovita Carneiro de Lima

“O amor me pegou
E eu não descanso enquanto não pegar
Aquela criatura” [ii]

O gozo é do corpo próprio, o desejo é do sujeito, efeito da articulação significante tributária da submissão à linguagem. Entre eles, o amor como ponte, como o que faz laço, como o que “pega”.

O gozo não descansa, tem a mesma batida sempre, é autoerótico, é atributo do corpo vivo. No entanto, a partir da ação da linguagem sobre o corpo, da entrada no campo do Outro, perde-se o acesso direto ao gozo. Ser falante implica em necessitar do amor para alcançar o gozo. Inversamente, enquanto localizado no corpo, o gozo deverá passar pelo amor para encontrar o desejo ou, como diz Lacan “propor-me como desejante, eron,é propor-me como falta de a e é por essa via que abro a porta para o gozo do meu ser”[iii].

No ensino de Lacan o Seminário 10 é, digamos o ponto alto do objeto a senão vejamos: é o que anuncia a presença da angústia, afeto que não engana e sinal do real; é resto que cai do corpo e deixa bordas pulsantes; é marca singular de gozo e é segundo Lacan, o que dá acesso ao Outro.

Então, como é que o amor entra nessa história? Como engano, diz Lacan, como véu, cuja fórmula escreveu i(a). É a imagem, por onde o corpo é apreendido em sua forma, que vem esconder o estatuto de resto, de dejeto do objeto mais-de-gozar, tornando-o brilhante e belo, amável, para além da criatura que se procura na pista escura, sempre extraordinária, para quem nela vê um traço do seu gozo singular.


[i] Lacan, J. – Seminário Livro 10: A angústia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, p. 197.
[ii] Caetano Veloso/Cássia Eller – Gatas Extraordinárias: Álbum: Sem você meu mundo ficaria completo. Universal Music.
[iii] Cf. Lacan, J. – Op. cit., p. 198
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