Comentário sobre “Intuições Milanesas II”. In Opção Lacaniana online nova série. Ano 2, nº 6, novembro 2011, p.1-21

Gabriela Ponte Rodrigues (Associada ao CLIN-a)

“Ao lado do corpo anatômico, seria possível colocar em questão o corpo vivo, distingui-lo dele. Sobre o corpo vivo, na medida em que ele fala e que a palavra condiciona seu gozo, talvez fosse possível dizer que ele faz o destino. Mas nessa passagem do seu Seminário, Lacan realiza um deslocamento de “a anatomia é o destino” para o “inconsciente é a política”. E o explica: “o que liga os homens entre eles, o que os opõe, deve ser motivado pela lógica que tentamos articular” – e naquele tempo, se tratava da lógica da fantasia. “O inconsciente é a política” provém do que liga e opõe “os homens” – entre aspas – entre eles, ou seja, o inconsciente provém do laço social.” (p.4-5)

A importância do registro do laço social para o falante está na necessidade de interpretações sobre o sobre o acontecimento de corpo, que localiza a política como a marca da língua que recorta a carne do corpo vivo, se servindo dos orifícios corporais recheados pelos objetos eleitos através da fixação, enquanto grampo da palavra ao corpo. São estes pedaços de corpos que se desprendem do corpo e ganham algum tipo de contorno no laço social.

Retomando a fantasia, é nesta cena que está colocada a união do acontecimento de corpo e da política como forma de tentativa de ordenação da experiência gozoza, que daria acesso a ilusão de uma noção de unificação corporal.

Para concluir, um corpo vivo que fala, goza e faz o destino; e recorre ao discurso do outro no laço como suplência ao insuportável da relação que não há, encontrada nos recortes da experiência pulsional. O efeito do circuito pulsional, ganha sentido e limite através desta palavra advinda do discurso do outro. (Guardado, 2003)¹ Seria o amor o único capaz de fazer com que o falante na civilização possa sair de si mesmo e das amarras das coordenadas significantes para construir uma suplência através do laço social que diga sobre a particularidade de seu gozo?


¹GUARDADO, C. R. (2003) in “O inconsciente é a política” BROUSSE, M. H. 2003 12pg