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Uns Traços – A histeria solitária

by secao_sp in Jornada 2018

Tarsila do Amaral – Em exposição no MASP

Kátia Ribeiro Nadeau – Associada da CLIPP

“Minha alma tem o peso da luz. Tem o peso da música. Tem o peso da palavra nunca dita, prestes quem sabe a ser dita. Tem o peso de uma lembrança. Tem o peso de uma saudade. Tem o peso de um olhar. Pesa como pesa uma ausência. E a lágrima que não se chorou. Tem o imaterial peso da solidão no meio dos outros”

(Clarice Lispector)

O sintoma histérico tem nos orientado a partir de Freud, que segue no caminho dos traços e das marcas do surgimento do gozo como efeitos da marcas da linguagem no corpo.

Com Lacan, a partir das elaborações em seus últimos seminários, a histeria ganha novos rumos.

Se o sintoma histérico tem seu eixo central ancorado e organizado no amor ao pai, como repensar e atualizar a histeria hoje, orientando-se pelo real? Como pensar a lógica da histeria que não seja exclusivamente definida pela sua relação ao amor ao pai, mas pelos diferentes vínculos com o significante?

Se a referência paterna servia para velar o poder do significante, a histeria hoje está mais perto do acesso aos poderes do significante.

Como fazer de um trauma um sintoma? Seria no percurso do sofrimento indizível que se vale do corpo para falar. O sujeito histérico faz um uso muito interessante da estruturação de um corpo que sustenta o pai, como defesa frente ao real do gozo feminino. Se o sintoma histérico coloca em questão a confrontação sem mediação com o gozo fálico, o sintoma se vale do corpo para falar.

O problema, e também o novo sobre a histeria, começa onde já não há crença no pai, no amor ao pai como aquele que porta um sentido capaz de resolver o enigma do gozo e do desejo, deslocando o sujeito histérico de sua posição de fazer existir o pai ideal pela via do amor.

A estrutura histérica hoje, desconectada do sentido, nos convoca a repensar o sintoma sexual desprovido de sentido e reduzido à pura repetição de UM gozo.

Seguindo Miller[1], trata-se de uma torção do significante, que assume não mais sua vertente de significação, de sentido, de metáfora, mas passa a ser significante do gozo. Deste modo, a função do significante é aparelhar o gozo, lhe dar substância, lhe conferir materialidade.

O sintoma histérico se sustenta hoje muito mais na materialidade do significante do que na produção de sentido; ao se separar dele, segue sozinho ao sustentar enlaçados os registros do Real-Simbólico-Imaginário.

Lacan[2] em sua referência no Seminário 23, ilustra, a partir da personagem de uma peça de teatro inspirada no caso Dora “O retrato de Dora” de Heléne Cixous, algo muito interessante e diferente. Trata-se do conceito de histeria rígida, uma histeria já sem o apoio do sentido, sem um parceiro e sem um Outro interpretante. O conceito precisa um ponto de amarração que prescinde do amor paterno, sem um enodamento suplementar.

Na histeria sem o Nome-do-Pai encontraremos um corpo que fala sem interpretação ou deciframento sobre a condição traumática da não relação sexual. A histeria solitária e rígida ainda possui formas de responder ao trauma sexual pela via do significante, mas sem o Outro como intérprete, usando da palavra, do corpo e da fala em seu limite.

A histeria, que ainda porta os segredos do desejo, já não está necessariamente referenciada a um Outro, à metáfora ou à metonímia.

Freud funda a psicanálise com a histeria e Lacan o segue em seu primeiro ensino, privilegiando o pai e o simbólico. A partir de seu último ensino, separa-se de Freud e o real entra jogo na histeria, o gozo escapa ao falo como significante, ressitua o lugar do pai como semblante e o lugar do falo que como significante só pode dar conta parcial do gozo.

A histeria hoje se apresenta em sua solidão de acontecimento de corpo, de um sintoma não mais articulado como significação do Outro, desligado do simbólico e sustentado no real. “O ESP DE UM LAPS” sem nenhum alcance de sentido ou interpretação, mais distante do simbólico, mais perto do corpo: isso não quer dizer, isso goza. Sustentado no real, se satisfaz sozinho.

Se o ensino de Lacan vai do sujeito do inconsciente ao ser falante, nosso desafio e esforço estão sempre relançados no trabalho de respondermos, à altura de nossa época, como analisar, como fazer com esses seres falantes solitários.

Como abordar os “solitários” em seu ponto de gozo pulsional sem o Outro?

Que a psicanálise possa aí nomear e reconhecer o mais íntimo e próprio de cada ser falante em sua diferença absoluta, mobilizando a paixão histérica pela solidão, a paixão de ser única(o), a paixão de ser exceção até o laço possível que inclui a diferença de cada UM.

 


[1] Miller, J.A.  “O Inconsciente e o corpo falante”. Apresentação do tema do X congresso da AMP /2016. In: Scilicet: O corpo falante – Sobre o inconsciente no século XXI. São Paulo: Escola Brasileira de Psicanálise, 2016.
[2] Lacan, J. “O Seminário, livro 23 – O Sinthome” (1975-1976). Rio de Janeiro: Zahar, 1007.

 

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Editorial #Cupid #07

by secao_sp in Jornada 2018

Imagem: Instagram @street_art_graffiti

Por Milena Vicari Crastelo

Estamos a poucos dias de nossas VIII Jornadas da EBP-SP- Amor e sexo em tempos de (des)conexões e é com grande satisfação que apresento a vocês nosso último #CUPID!

Ao longo desses meses, nós nos debruçamos sobre esse tema em atividades preparatórias, cartéis, leituras solitárias, escrita endereçada às mesas simultâneas e escrita endereçada ao Boletim, onde vocês puderam encontrar com textos, entrevistas, poesias, resenhas – uma escrita causada.

Fernanda Otoni, em nossa primeira atividade preparatória e que vocês puderam ler em nosso segundo Boletim, nos disse: ” A lógica do encontro se articula, indiscutivelmente, com as conexões e desconexões, com o que não existe e o que insiste, com os fios que tecem um laço e o furo que desse laço participa. O binário Amor e Sexo interroga essa costura. Nem sempre amor e sexo andam juntos, aliás reunir esses dois em um instante é raro! O que verificamos, não raro, é a experiência de amar desconectada do sexo e a experiência do sexo sem amor. Mesmo quando se ama e se faz sexo com o parceiro, a disjunção está lá.” E nos colocou a questão: ” É possível o encontro entre amor e sexo?”

Nessa fase preparatória vocês puderam ler em nossos Boletins as contribuições de nossos colegas que revelam mais uma vez o desejo decidido pela psicanálise. Agora os convido para mais uma leitura do nosso #CUPID, a última antes do nosso grand finale!

Na rubrica #Orientação, Heloisa Telles em seu texto De que conexão se trata? pinça o significante (des)conexão: “Introduzido no título para levar a um debate do tema em consonância com a “subjetividade da época”, tal como proposto no argumento das jornadas, este significante porta em si mesmo uma problemática que alude tanto a questões de estrutura, tal como a psicanálise nos ensina, como às transformações que supomos existir nos modos de se estar no mundo e com os outros.”

Em Relações abertas – odisseias contemporâneas Patricia Badari aponta para a multiplicidade das relações ou não relações amorosas e retomará alguns destes formatos de relações para formular uma questão, centrando-se, neste texto, em suas observações “entre alguns casais héteros e neuróticos ao abrirem suas relações”, tocando em um ponto que nomeou de “sujeito-mulher” nestes casais.

Em #Amor e Sexo Lucila Darrigo em seu texto Fazer laço, fazer par constata que não se faz mais casal como antigamente e se pergunta “O que mudou? O que mudou na civilização contemporânea que afetou os diferentes semblantes de casal de outrora? Semblantes, claro, porque, em tempo algum, um casal de seres falantes se formou regido por leis naturais de encontro entre os sexos”.

Marcelo Augusto Fabri de Carvalho em #Conversa.com entrevista Flávio Ricardo Vassoler que discorre sobre a relação entre o erotismo/morte e o amor/laço social; ele nos alerta para o fato de o Brasil ser o país que mais mata transexuais no mundo, sendo que também lidera o ranking de buscas por pornografia transexual.  Fala também  sobre os efeitos do empuxo ao gozo e do discurso capitalista nos seres humanos na contemporaneidade.

Em # A Psicanálise e o Contemporâneo, Teresinha Prado traz à cena as bonecas de silicone em tamanho humano, as Dolls, que dá título ao seu texto. E segundo ela “As Dolls servem como objetos de acesso ao gozo autoerótico, marcado pela recusa a localizar, no corpo de uma mulher, o objeto a. Deste modo, nega-se a castração, gozando-se apenas do objeto da fantasia e recusando o Outro, de modo père-verso (père-vers). E aqueles que reivindicam, a partir de tais objetos, condições humanas, tomam-nos do mesmo ponto em que a verossimilhança captura, por sua perfeição que nega a falta, a castração, o Outro”.

Felipe Bier em seu texto Do desejo que resta profanar coloca uma questão muito instigante em relação ao desejo quando se pergunta se “o mal-estar não teria causa no fato de que, como as pornstars, o contemporâneo oferece uma experiência que não esconde nada, e portanto torna impossível o desejo?”

Nossa colega Clara Holguin, da NEL, fecha essa sequência de nosso Boletim, com seu texto A mãe, uma figura que não se adéqua aos paraísos fálicos. Ela nos faz pensar como seria possível articular “A queda do falocentrismo” e “Que mães hoje”, e abre uma nova frente de investigação para nós psicanalistas, nos convocando a continuar o trabalho rumo ao Encontro Brasileiro!

Ainda no # Match, o acolhimento apresenta um tour por Sampa, “da imperdível e contemporânea Bienal de S. Paulo, passando pelo mestre do renascimento, Rafael, dando um pulinho para ver obras da Tate London, passando pela arquitetura e por um dos signos da ditadura, o AI-5″.

Desejo a todos uma boa leitura e até breve!!!

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Relações abertas – odisseias contemporâneas

by secao_sp in Jornada 2018

Imagem: Evolution, part II, Adey. Instagram: @avant.arte

Por Patricia Badari

Se hoje encontramos inúmeras opções de gênero, no que diz respeito às relações ou às não relações amorosas as opções também são múltiplas.

Em uma pesquisa básica no Google é possível encontrar algumas especificações: pansexuais, vegansexuais, assexuais, otakus ou herbívoros, monogamish, poliamorosas, flexissexuais, relações híbridas, LAT (living apart together), swingers, amigos coloridos, sexless… E vale dizer que cada uma destas tem suas variações, muitas vezes se conjugam e dizem de relações héteros, homo e/ou bissexuais.

Variações, formas mutantes e plurais. Estratégias para a construção de novas relações sexuais e, inclusive, de novos laços amorosos que não se deixam capturar pelos ideais, pelos modos sociais estabelecidos, programados e cristalizadores.

Retomarei alguns destes formatos de relações citados acima, em especial, as relações ditas monogamish (“monogamia aberta”, na qual o casal decide o tipo de contato sexual, a frequência, etc. do encontro com outras pessoas), a relação flexissexual (na quais se pode ter relação com outras pessoas de diversos gêneros, com o consentimento do parceiro hétero) e o swinger (relação sexual com outras pessoas em lugares específicos para isso).

Retomo-as para formular uma questão, dentre muitas que poderíamos fazer sobre essa variedade de relações. Mas será sobre o que tenho observado entre alguns casais héteros e neuróticos ao abrirem suas relações que me centrarei neste texto. E, especialmente, no que chamarei de “sujeito-mulher” nestes casais.

Muitos deles, ao abrirem a relação, seja para fazerem swing ou outro tipo de parceria, introduzem com certa frequência uma outra mulher e não um homem. Quando há também um homem é comum que este venha quase como um pacote no acordo com o casal com o qual irão fazer o swing ou outro tipo de encontro. Poucos são os homens que dizem querer transar com o outro homem nestas circunstâncias, geralmente são as mulheres que transam com ele, embora não seja seu interesse maior e sim a mulher em questão. E este interesse, muitas vezes, não é por uma relação amorosa com a outra mulher, nem por titubear ou colocar em questão sua escolha hétero, homo ou bissexual. Algumas mulheres dizem que têm uma excitação sexual na presença de certas mulheres e querem experimentar. E, tampouco, trata-se para algumas delas de não terem desejo ou satisfação com o homem parceiro. Amam e os desejam. Querem seguir com seus homens, com a satisfação que obtém na relação sexual com estes e no amor, namoro, casamento, filhos… com eles.

Em alguns casos, esta mulher do casal de relação aberta não exige que seja a única a se adaptar às condições de satisfação desse homem. Algumas vezes só exige que seja a única amada: uma mulher e um homem para o amor e muitas mulheres para o sexo é o que pode comportar algumas dessas relações atuais. Don Juan de calças e de saias; em direção ao sem limite; tentativa de livrar-se da exigência que pode ali surgir de que seja toda para ele; exigência de amor, estrutural ao gozo feminino; ou até mesmo um gozo que não se compartilha com o homem, pois se trata de um outro gozo… O que está colocado aí, para o casal, para cada um dos sujeitos e, em especial, para o “sujeito-mulher”?

Podemos dizer que há preferência por outra(s) mulher(es), tanto por parte do “sujeito-homem” como por parte do “sujeito-mulher” do casal. E interrogo o porquê disto, para além da coleção de conquistas, e levanto algumas hipóteses a serem verificadas no caso a caso.

Poderíamos começar com uma hipótese, retomando alguns aspectos de dois casos de Freud e o que Lacan trabalhou sobre eles – o caso Dora e da Bela Açougueira – e nos perguntar em que medida isto tem a ver com a questão da Outra mulher para uma mulher? Ou mais precisamente para a histérica. Trata-se menos, para a histérica, da relação com o outro enquanto objeto e de uma escolha decidida pela homossexualidade e sim uma pergunta ao outro sobre a causa de seu desejo, sobre o feminino, tal como o fez Dora à sra. K e a Bela Açougueira à amiga. Trata-se mais de uma relação com o desejo do Outro, pois na medida em que se identifica com a outra mulher identifica e localiza seu próprio desejo, sobretudo seu desejo como insatisfeito para que o casal, em alguns casos, siga se amando loucamente como nos disse Lacan no Seminário 5.

E o “sujeito-homem” ou obsessivo, em nossa hipótese inicial? Qual a parte que lhe cabe nesse jogo? Talvez este homem do casal, tal qual o amado açougueiro, tenha seu desejo secreto – um pequeno detalhe, um belo traseiro, um fetiche… – um pedaço de corpo apartado do próprio corpo da mulher, um pedaço de corpo que condensa, circunscreve e localiza seu gozo. E um sujeito pode encontrar-se com este objeto que lhe satisfaz sob o corpo de uma ou de certas mulheres, pois o verdadeiro parceiro do homem é o objeto de que uma mulher, como um pedaço de corpo, é o representante. No entanto, este traço de algo que uma dada mulher porta e que resvala no desejo de um homem pode ser o que lhe desarranja a vida e lhe causa angústia ao lhe remeter ao que há para além do pedaço de corpo.

Mas, em que medida esse arranjo do casal é objeto de uma fantasia masculina e reforça o desejo masculino: “sonho de corpos femininos enlaçados que não demandariam nada aos homens, e por essa razão, os liberaria de um dever que viria pesar sobre o desejo”[1]? Isto pode sustentar para ele uma imagem viril e sem nenhum incômodo. Introduzir outro homem aí lhe colocaria em risco ou confundido com uma escolha decidida homo ou bissexual? Ou, estaria este homem submetido ao supereu feminino, goze!

Entretanto, ao seguirmos nossa hipótese inicial, em se tratando da pergunta sobre o desejo, quais as diferenças que poderíamos pensar sobre essa mulher, no casal que abre sua relação, em comparação a Dora e a Bela açougueira? Por que elas passam ao ato sexual e as histéricas de Freud não? Estariam atuando suas fantasias? Muitas delas se engancham nesta fantasia masculina para acessarem a outra mulher. Outras, não fazem uma escolha decidida pela homossexualidade, tal como o fez “A jovem homossexual” – outro caso de Freud que nos serve de paradigma, mas podemos pensar que mesmo assim, pode estar colocada a questão de desafio ao Pai, em alguns casos.

Nossas histéricas de hoje jogam sua partida a céu aberto. Podemos dizer, como nos aponta M. Hèléne Brousse, que muitas das nossas histéricas contemporâneas não precisam de seus homens, não precisam de um Sr. K, um açougueiro, um pequeno outro suporte de sua identificação para aí se reconhecer, para na posição deles endereçarem a pergunta sobre o seu desejo à Outra mulher. Elas não precisam “passar por eles, pelo amor e pelo desejo deles por outra para ter acesso a uma feminilidade idealizada”[2]. Acessam diretamente a outra mulher, mas muitas vezes sem formularem uma pergunta. Seguem diretamente a uma resposta, depois outra, e outra, e outra sem fim. Provavelmente se o “sujeito-homem” deste casal dissesse: “esta mulher não é nada para mim”, tal como disse o Sr. K outrora, não levaria uma bofetada.

Entretanto, minha questão que segue sem resposta é sobre o que está colocado aí, mesmo quando uma mulher passa pelo amor e pelo desejo de um homem, mas se endereça à outra mulher. Tratar-se-ia de um novo sintoma histérico? Em alguns casos sim. Seria uma “resposta pelo modo de gozo à falta a ser do sujeito”[3]. Em outros, pode tratar-se de uma precariedade da significação fálica e o sujeito pode ficar perdido entre o que poderia vir organizar: o falo e A mulher. E, dada a desordem, saem em uma errância.

Poderíamos, também, levantar como hipótese a ser verificada na clínica se, em alguns casos, se trataria da outra mulher não como suporte da feminilidade idealizada e sim como o acesso a um gozo Outro, tal qual o homem pode ser para uma mulher? Algumas mulheres passariam pelo corpo de outra mulher para ter acesso ao gozo Outro? Isto seria possível? Tratar-se-ia do corpo do Outro[4] – passar pelo corpo do Outro, seja ele de que gênero for? Passar pelo corpo do Outro, seja ele homem ou mulher por não se tratar da anatomia, para aí encontrar algo da causa do desejo, o que poderia retirar o sujeito do gozo do corpo próprio ou do gozo da fantasia e aceder a um gozo Outro?

Sabemos que nunca encontramos o que fomos buscar e, sim, algo que sempre nos ultrapassa – um desencontro, a ausência de uma programação natural que uniria, por exemplo, um homem e uma mulher, três, quatro… pessoas. A surpresa pode emergir e atrapalhar, perturbar e apagar as condições prévias e fazer com o que escapa do sentido dessas relações abertas, o determinante de um ato – o que faz desse ato um ato bem sucedido. “Se nada acontece como estava previsto é porque, pelo contrário, as coisas caminham bem”[5].

No entanto, que “cartas de amor” podem ser escritas? O amor não existe sem a palavra e é preciso compor uma escrita e um dizer com valor de exceção; registrar uma escritura, um amor como um ato ou efeito de excetuar-se da regra geral, apesar de este amor muito singular não poder, jamais, ser usado como um bom exemplo ou modelo universal de amor. Podem ser escritas “Cartas” que são signos de que trocamos de lugar, de posição em nosso discursar e que deixamos de ser uns desterrados do amor.

 


[1] BROUSSE, M.-H. “A homossexualidade feminina no plural ou quando as histéricas prescindem de seus homens testas de ferro”. Disponível em: http://almanaquepsicanalise.com.br/wp-content/uploads/2015/08/brousse.pdf. P. 2.
[2].____________ Op. cit.  p. 3.
[3] ____________ Op. cit. p. 8.
[4] MILLER, J.-A. “Em direção à adolescência”. Disponível em: http://minascomlacan.com.br/publicacoes/em-direcao-a-adolescencia/
[5] BRODSKY, G. “O princípio da dissimetria”. In: Opção Lacaniana, n. 37. São Paulo: Eolia, setembro de 2003. P. 35.
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#Amor e Sexo – Fazer laço, fazer par

by secao_sp in Jornada 2018

Giambologna (detalhe). Instagram @avant.arte

Por Lucila M. Darrigo

Não se faz mais casal como antigamente.

Não se trata de nostalgia mas de uma constatação.

O que mudou? O que mudou na civilização contemporânea que afetou os diferentes semblantes de casal de outrora? Semblantes, claro, porque, em tempo algum, um casal de seres falantes se formou regido por leis naturais de encontro entre os sexos.

A utopia heterossexual de “antigamente” se definia pela crença em um pai que distribuía os sexos e que garantia que ela, fêmea, havia sido feita para ele, macho, em uma correlação direta com o princípio da ordem natural ou mesmo de uma ordem justa, esclarece Laurent em “Sociedade do sintoma”.(1)

A ciência desorientou nossa relação com o outro. No contemporâneo, nenhuma norma consegue estabilizar o “empuxo a gozar”. Não se busca mais a felicidade como queriam os iluministas. Hoje, as relações estão atravessadas pela busca de um gozo que seja o definitivo.

A prática da psicanálise se ocupa dos sujeitos em sua singularidade. Por isso mesmo, nos interessam as modalidades de encontro entre dois seres falantes, não importando qual seja o sexo deles.

No Seminário 20, Lacan diz que quando se ama, não se trata de sexo e que a ligação sintomática entre um homem e uma mulher – o amor – vem suplementar a não-relação sexual. São duas colocações que nos provocam a pensar…

A ideia de parceria que aparece mais para o final do ensino de Lacan, e que é levado adiante por Miller, nos orienta. Christine Alberti diz que fazer par vai mais longe do que o amor. “Não é necessário amar ou desejar para fazer parceria. Podemos fazer par em torno de uma causa, de um objeto comum, do ciúme, bem como de uma separação.”(2)

Para dissimular a não-relação, cria-se uma multiplicidade de laços e o parceiro do sujeito não é o outro sexual enquanto tal. Desta forma, na clínica, trata-se de se questionar e verificar o parceiro de gozo com o qual o sujeito joga sua partida.

O real é a não-relação e o encontro comporta sempre algo de auto-erótico, solitário, autístico. O gozo é sempre auto-erótico no sentido de que se goza no próprio corpo e não no corpo do outro.(3)

Se o gozo é auto-erótico, como conceber o laço com o outro?

A relação com o outro está sempre mediada e passa necessariamente, no melhor dos casos, por um sintoma.

A novidade do último ensino de Lacan, retomado por Miller, é   que o sintoma se inscreve a partir da “não-relação sexual” como “acontecimento de corpo” antes de mais nada.(4)

Então, o conceito parceiro-sintoma vem responder ao problema da inexistência do outro pela via do corpo justamente porque a referência ao corpo é ineliminável.(5)

Não há como tirar o corpo fora.

Em seu curso “Parceiro-sintoma”(6), Miller esclarece como Lacan chegou ao conceito de parlêtre:

Gozo do corpo e gozo do significante estão conectados. São dois aspectos da mesma coisa. Não existe, para o ser falante, gozo antes do significante. É justamente esta concepção do significante conectado ao gozo do corpo que leva Lacan a substituir o sujeito por parlêtre.

O par sujeito-Outro de até então é substituído pelo par parlêtre-parceiro-sintoma, um parceiro de gozo.

Cada um tece seu nó(*)

Orientada pelo desenvolvimento de Patricia Bosquin-Caroz(7), vamos pensar no que faz laço, no que conecta dois parlêtres.

Alguma coisa da ordem do real, do impossível, faz obstáculo ao acesso direto ao outro. Desta maneira, cada um passa necessariamente por um terceiro termo que faz mediação, junção, conexão entre um e outro.

Dentre os conectores, temos especialmente:

– o falo, o mais clássico, quando homem e mulher se relacionam com o significante fálico mas de maneiras diferentes: o homem na vertente do ter e a mulher do ser. Esta é uma mediação sempre manca, além de o falo ser um obstáculo ao encontro;

– um objeto pulsional, onde cada um se ligará ao objeto pulsional de seu fantasma, do qual o parceiro será o suporte. A melhor expressão deste tipo de conexão encontramos no Seminário 11: “Eu te amo mas porque, inexplicavelmente, amo em ti algo mais do que tu – o objeto a minúsculo, eu te mutilo.”(8)

Atualmente, podemos fazer par com objetos de uma natureza totalmente diversa, espécies de derivados dos objetos pulsionais. Diferentemente do objeto pulsional que assegura um modo de relação de um com outro, o objeto gadget revela cruamente o irredutível da não-relação.

Só é possível fazer par – isso que tem sempre um caráter enigmático para cada um – pela invenção.

Como não há relação, a psicanálise reintroduz o amor no centro de seu discurso. Fala-se de amor em uma análise e é falando que temos a oportunidade de inventar um laço com o outro.

A fórmula de cada casal/par é inventada uma a uma.

Fazer par passa por uma contingência pois, como destaca Lacan no Seminário 20, “aí não há outra coisa senão encontro, o encontro, no parceiro, dos sintomas, dos afetos, de tudo que em cada um marca o traço do seu exílio da relação sexual.”(9)

Dois parlêtres fazem par, cada um  falando a língua de seu inconsciente. Há encontro quando as línguas singulares ressoam. São ligações inconscientes. Quando o nó sintomático se tece, o par se faz.

Dito de outro modo, o par se faz a partir de seu sinthoma, com aquilo que de lalangue marcou cada um. Se a relação sexual não existe, se não há fórmula que a escreva, a ligação sintomática, esta sim, existe. O sintoma faz laço.

No texto “O laço entre o amor e a coragem”(10), Fernanda Otoni esclarece de forma clara e articulada o que faz laço: “ao encontro do real do gozo com a miragem do objeto é preciso incluir um ponto de basta – o selo de um significante qualquer que o localize, o fixe, o ordene junto a um corpo que tende a escapar.”

“O falo é esse conector privilegiado mas qualquer gambiarra que venha no lugar tem função de amarração. É o que a clínica do parlêtre nos ensina.”

 


(*)a partir da tradução livre de “tisser son noeud”. Lacan introduz essa ideia no Seminário 21, ainda inédito (lição 18/12/73)

(1)Laurent, E. “A sociedade do sintoma”, 2007, Rio de Janeiro:Contra Capa livraria
(2)Alberti, C. “Mais longe que o amor” texto publicado no boletim das VIII Jornadas da Seção SP – Cupid3)
(3)Miller, J.A. “uma conversa sobre o amor” in Opção Lacaniana online nova série, ano 1, n 2, julho 2010, p.27
(4)Mandil,R. Editorial in “O sexo e seus furos”; 2002; Revista  Clique n2; Belo Horizonte:Instituto de psicanálise e saúde mental de MG, p.6-8
(5)Miller, J.A. “Uma partilha sexual” in op.cit. p.15
(6)Miller, J.A. “El partenaire-síntoma”(curso de 1997-1998);2008; Buenos Aires: Paidós
(7)Bosquin-Caroz, P. “Tisser son noeud” in La cause du désir n92; revue de psychanayse; 2015; France:Navarin editeur, p.19-21
(8)Lacan, J. “O seminário” livro 11:Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise; Rio de Janeiro:Jorge Zahar ed.; 2008,p. 255
(9)Lacan, J. “O seminário” livro 20: Mais, ainda. Rio de Janeiro:Jorge Zahar ed., 2008 p.156
(10)Otoni-Brisset, F. “O laço entre o amor e a coragem” in
http://ebp.org.br/sp/o-laco-entre-o-amor-e-a-coragem-fernanda-otoni-brisset. p.5
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#Conversa.com – Flávio Ricardo Vassoler por Marcelo Augusto Fabri de Carvalho

by secao_sp in Jornada 2018

Imagem: Instagram @artsheep

Flávio Ricardo Vassoler, escritor e professor, é doutor em Teoria Literária e Literatura Comparada pela FFLCH-USP, com pós-doutorado em Literatura Russa pela Northwestern University (EUA). É autor das obras O evangelho segundo Talião (nVersos, 2013), Tiro de misericórdia (nVersos, 2014) e Dostoiévski e a dialética: Fetichismo da forma, utopia como conteúdo (Hedra, 2018), além de ter organizado o livro de ensaios Fiódor Dostoiévski e Ingmar Bergman: O niilismo da modernidade (Intermeios, 2012) e, ao lado de Alexandre Rosa e Ieda Lebensztayn, o livro Pai contra mãe e outros contos (Hedra, 2018), de Machado de Assis.

Marcelo de Carvalho: Em artigo publicado no jornal O Estado de São Paulo (01/07/18), você comenta a tradução de novas edições de textos clássicos da literatura erótica: 120 dias de Sodoma (Sade), História do olho (George Bataille) e Três filhas da mãe (Pierre Louys), articulando a sexualidade e a violência. Bataille escreve, em outra obra sua (O erotismo), que “o sentido último do erotismo é a morte”. São textos de diferentes momentos históricos, cuidam de gozo, fantasia, violência, morte e interessam à psicanálise. Pensando no tema das Jornadas da EBP (Escola Brasileira de Psicanálise/seção SP), “Amor e sexo em tempos de (des)conexões”, qual seria, na sua opinião, a relação entre o erotismo/morte e o amor/laço social? 

Flávio Ricardo Vassoler: Quando desvelamos os segredos das camarilhas dos poderosos através do buraco da fechadura, deparamos com uma associação umbilical entre sexo e poder. Levantamos a saia, então, de Calígula, Luís XIV, Beria (braço direito de Stálin), Kennedy, o filho de Saddam Hussein, entre tantos outros exemplos tão pervertidos quanto paradigmáticos.

O sexo, historicamente, tende a ejacular uma verdadeira microfísica do poder – o poder sobre o próprio corpo e, principalmente, sobre o corpo alheio. O poder da submissão que, no limite (com ou sem consenso), se irradia até práticas de aviltamento radical da alteridade: dor, humilhação, prostração e flagelamento para se chegar à petite mort, expressão sintomática de que os franceses lançam mão para falar sobre o gozo como uma fusão entre êxtase e violência esbaforida – e mórbida. Temos aqui uma síntese vertiginosa da empiria orgíaca em Sade, Bataille e Louÿs.

O amor, por sua vez, pressupõe, ao menos arquetipicamente, o entrelaçamento entre o eu e o tu. Pitágoras, certa vez, disse que o amigo é um segundo eu. Kierkegaard redarguiu, séculos depois, que o amigo é o primeiro tu. Com a competição encarniçada que nos socializa, o amor desponta sob o prisma da excepcionalidade. Não à toa, então, o caráter emancipatório do ato sexual – uma bela oportunidade de comunhão – se vê revertido em sadismo e achincalhamento do outro quando a deformação do poder revela sua capilaridade microfísica.

Marcelo de Carvalho: Você menciona, ao final do artigo, que, aqui no Brasil, segundo a ONG Transgender Europe, vivemos no país que mais mata transexuais no mundo, sendo que também, segundo o site de vídeos eróticos Redtube, o Brasil lidera o ranking de buscas por pornografia transexual (dados de 2017). Como poderíamos relacionar estas duas informações? Seria exato pensarmos que não existe diferença entre aquilo que é do mundo virtual e do mundo dito “real”?

Flávio Ricardo Vassoler: A subjetividade é plástica e indômita, a despeito dos discursos e práticas identitários que se querem (e nos querem) estanques e unidimensionais. O resultado da pesquisa divulgada pelo site erótico Redtube nos revela que, sob o respeito diurno, autoritário e hipócrita à identidade historicamente hegemônica, há toda uma gama de práticas desviantes e noturnas que, longe do olhar/juízo alheio, busca, com sofreguidão, suas formas de expressão.

Não à toa, é bem possível encontrar homoerotismo sob a farda e a batina – se os militares e o clero proscrevem a homossexualidade, os desviantes uniformizados bem podem tornar sorrateiras suas práticas nas antecâmaras de casernas e sacristias. O mesmo raciocínio vale para a hipocrisia matrimonial, instituição que tanto vem municiando a ironia literária. Maridos/pais são tidos como arquétipos de poder/sexualidade, mas, como bem nos mostra o Redtube, o aviltamento do feminino em si mesmo – a noção de que o eu precisa reproduzir o arquétipo autoritário in toto para ser aceito – pode levar o indivíduo a exprimir sua subjetividade indômita como o reverso de seu papel social diurno. É assim que garotas de programa e transexuais relatam que muitos homens casados e com filhos querem ocupar o polo tido como passivo – tradicionalmente, o “feminino” – nas relações sexuais contratadas.

Marcelo de Carvalho: A contemporaneidade traz desafios para a psicanálise, a começar pela radical transformação de um supereu que, se na passagem do século 19 para o século 20, era interditor (“Não goze!”), hoje traz, ao contrário, o imperativo oposto (“Goze!”). Lacan inclusive associa este imperativo superegoico, no seu texto “Kant com Sade” (Escritos, 1966), com o que Kant chama “imperativo categórico”. Qual a sua opinião sobre os efeitos deste empuxo ao gozo e do discurso capitalista nos seres humanos? 

Flávio Ricardo Vassoler: Há um teor emancipatório na reversão da interdição para a sanha por prazer, sobretudo se pensarmos nas proibições historicamente configuradas para o prazer feminino. Ainda assim, como a sua questão bem trouxe à tona, a noção imperativa do gozo não pode deixar de ser associada às tendências do turbocapitalismo contemporâneo, que, em sua sociopatologia, coisifica o prazer como um nicho de mercado e fustiga o desejo como ciranda de consumo.

Se, como pensou José Ortega y Gasset, “eu sou eu e minhas circunstâncias”, a liberdade sexual desponta como a possibilidade de o ser acompanhar a névoa de sua condição. No entanto, se passamos a ser sujeitados por um processo de gozo coercitivo que baliza a nossa possibilidade de felicidade, o desejo se torna cativo do labirinto de sua expressão imperativa. Mais uma vez, a expressão francesa petite mort dá o tom para que pensemos sobre o caráter mórbido da sexualidade coisificada, de modo que, em meio à sociedade gozosa, os crescentes índices de depressão e infelicidade nos apresentem as metamorfoses da castração.

 

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# A Psicanálise e o Contemporâneo – Dolls

by secao_sp in Jornada 2018

Imagem: Instagram @davidzwirner

Por Teresinha N. M. Prado

No início deste ano foi aberto em Paris, enquadrado como ‘sala de jogos’, Xdolls[1], um estabelecimento que aluga bonecas de silicone em tamanho humano, para uso recreativo.

O local é extremamente organizado: situado em um apartamento de 70m2, cujo endereço é mantido em segredo, 3 quartos são equipados com material descartável, uma tv com vídeos pornôs e óculos de realidade virtual como opcional. O agendamento de horários é feito por internet, os clientes acessam e pagam online (89 euros por uma hora sozinho com a boneca; 149,00 por 2 horas; 120,00 para um casal por uma hora; mais 19 euros para incluir realidade virtual na brincadeira…).

Tão logo foi aberto, já começou a gerar polêmicas: trata-se de uma espécie de ‘lanhouse’ sexual ou deve ser julgada como uma casa destinada à prestação de ‘serviços’ sexuais, como um bordel?

A reação de alguns grupos (especialmente o partido comunista francês e uma associação feminista) está longe de considerar a iniciativa como um playground sexual, com acusações que vão desde a denúncia de prostituição, atribuindo às bonecas o papel de ‘robôs sexuais’, à afirmação de que promoveriam uma banalização da exploração sexual, incentivando o estupro de mulheres e até a pedofilia…

Considerando o teor do debate que se instaura, chama a atenção o fato de que essas bonecas de silicone sejam tomadas por sua verossimilhança visual com um ser humano. Como entender essa atribuição?

As dolls desse estabelecimento, idênticas a seres humanos em tamanho reduzido, são inanimadas. Contudo, existem atualmente bonecas ainda mais semelhantes: falam, sorriem, interagem, aprendem… e podem ser compradas com alguns cliques do mouse. É o caso das Sexbots[2], cópias perfeitas de seres humanos, programadas exclusivamente para servir, sem desejo, sem tpm, sem caprichos… feitas para atender ao gozo masturbatório, sem oferecer constrangimentos.

Como no mito grego de Pigmaleão e Galatea, a criação humana, esse objeto sem vida vai se aproximando cada vez mais da perfeição imagética e, neste caso, também tátil, a ponto de fazer crer que se trata realmente de um ser vivo?

Em diversos momentos da história da humanidade são conhecidos episódios em que essa semelhança produziu inquietação. Na era das luzes, o fascínio pelas máquinas e mecanismos permitiu a criação de autômatos extremamente semelhantes a seres humanos. É o que vemos no premiado filme de Scorsese: “A invenção de Hugo Cabret”, baseado em livro de mesmo título, que narra a saga de um menino órfão na tentativa de dar vida ao autômato que seu pai, um relojoeiro, deixou-lhe de herança. Também imortal é a imagem da boneca Olímpia evocada por Freud em seu texto “O estranho”, ao referir-se ao conto de Hoffmann “O homem de areia”. Também nesse conto, um momento de desencadeamento do delírio de Natanael gira em torno da descoberta de que Olímpia, a mulher por quem se apaixonara, não passava de um autômato, cujos olhos seu mestre, o diabólico assassino (Coppellius/Copolla), retirou para consertar.

O ponto comum nos exemplos acima é o fascínio da imagem. Contudo, na contemporaneidade, há que acrescentar outro elemento decisivo para a efetividade de seu efeito: uma boneca absolutamente idêntica (em imagem e textura) a uma mulher não está acessível a todos; para que se tenha acesso a esse objeto capaz de realizar muitas fantasias é preciso pagar por ele: seja pela via da aquisição efetiva (compra), seja pelo direito de usufruto pontual (mediante locação, no caso do estabelecimento Xdolls). Deste modo, acrescenta-se à relação com esse objeto de fascínio o fator consumo.

Lacan, no Seminário 17, refere-se a uma “mutação do discurso do mestre, que lhe daria seu estilo capitalista”[3]. Essa mutação consiste na inversão entre o significante-mestre e o sujeito, deixando-o à mercê dos objetos mais-de-gozar, os gadgets, produzidos por esse discurso e referendados pelo saber difundido pela ciência. Uma das decorrências dessa produção desenfreada de objetos, é um empuxo ao consumo, igualmente desenfreado. Ao contrário de manter o vazio, o lugar da falta, esses gadgets visam a tamponar, obstruir qualquer possibilidade de surgimento de um furo. A ciência destitui o saber referenciado no impossível da relação sexual, e em troca oferece suas produções de mais-de-gozar, objetos destinados à difusão de um gozo que pode ser difundido em catálogos, e adquirido.

Ao mesmo tempo em que Lacan estabelecia as bases dessa mutação, sua teorização também ia se modificando. A partir da constatação do lugar e da ação do novo mestre, o capitalista, auxiliado pelo discurso universitário, que forneceu os fundamentos para um consumo ‘orientado’ pela ciência, já na década de 70 Lacan identificou e previu mudanças na subjetividade que nos tempos atuais se tornaram evidentes: o que muitos autores denunciam ao falar da queda dos valores e das referências, da efemeridade das relações (líquidas), uma exigência de buscar felicidade a curto prazo e ausência de projetos ou ideais de futuro. Refiro-me à pluralização dos Nomes-do-pai, que se enuncia no que Lacan chamou de père-version (especialmente a partir do Seminário 21: Les non-dupes errent, título que evoca essa pluralização pelo trocadilho com Les non-dupes errent, os não-tolos sendo os ‘tolos do pai’, sem o que seu destino é a errância), que desmistifica a ideia de perversão ao associá-la ao pai, destacando que o que nomeia não é a autoridade do pai simbólico, mas uma operação meio capenga, que permite que o sujeito tenha acesso à lógica fálica e à posição de falante pelo modo particular como o pai real (que não se trata aqui do pai da horda primitiva, mas daquele que toma uma mulher como objeto causa de seu desejo e faz dela seu sintoma), ocupando o que seria uma posição de exceção, que parece remeter ao fato de servir de conector para que ela “se torne esse Outro para ela mesma, como o é para ele”[4]. Isto também aparece no Seminário 20, em que Lacan discute os fundamentos e decorrências do famoso enunciado “não há relação sexual”, em que afirma que “o ato de amor é a perversão polimorfa do macho”[5]. Em 1975 Lacan é bastante claro ao associar a perversão paterna e ao que é necessário para que um pai possa fazer sua função[6], e evoca o fato de que um pai deve falhar em ocupar essa função, caso contrário, como no exemplo de Schreber, é o que conduz ao pior: “nada é pior do que o pai que profere a lei sobre tudo”[7].

Assim, a partir dos anos 70 é possível evidenciar no ensino de Lacan as relações entre a ascensão do discurso capitalista, a pluralização dos nomes-do-pai, a noção de père-version e o imperativo de gozo na sociedade contemporânea, uma vez que essa ‘versão do pai’ descrita por ele se orienta pelo gozo e não propriamente pelo desejo.

Voltando à questão dessas bonecas ‘hiper-verossímeis’, há em seu uso uma semelhança com o que Miller destacou em torno da pornografia, ao falar de sua ‘vacuidade semântica’, que remete a um gozo autoerótico, sem Outro: “A escopia corporal funciona na pornografia como uma provocação a um gozo destinado a se fartar sob o modo do mais-gozar, modo transgressivo em relação à regulação homeostática e precária em sua realização silenciosa e solitária”.

Neste caso, vemos a junção de uma fantasia autoerótica com um objeto de consumo. Como diz Lacan, na “Conferência de Milão” (1972), “Isso se consome tão bem, que isso se consuma”.

As Dolls servem como objetos de acesso ao gozo autoerótico, marcado pela recusa a localizar, no corpo de uma mulher, o objeto a. Deste modo, nega-se a castração, gozando-se apenas do objeto da fantasia e recusando o Outro, de modo père-verso (père-vers). E aqueles que reivindicam, a partir de tais objetos, condições humanas, tomam-nos do mesmo ponto em que a verossimilhança captura, por sua perfeição que nega a falta, a castração, o Outro.

 


[1] https://www.20minutes.fr/paris/2221815-20180215-paris-silicone-essuie-tout-20-minutes-visite-premiere-maison-close-poupees-sexuelles
[2] https://www.youtube.com/watch?v=6vN0cs_-RSs;
[3] Lacan, J. (1992[1969-70]). O seminário, livro 17: o avesso da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, p.160.
[4] Lacan, J. (1998[1960]). “Diretrizes para um congresso sobre a sexualidade feminina”. In Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, p.741. A relação de implicação entre o que Lacan diz nesses dois momentos é minha, uma vez que algo deve funcionar no sentido de impelir uma mulher a ocupar esse lugar para um homem.
[5] Lacan, J. (1985 [1972-73]). O Seminário, livro 20: mais, ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, p.98.
[6] Lacan, J. [1974-75]. “RSI” (inédito), aula de 21/01/75.
[7] Idem, ibidem.
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Do desejo que resta profanar

by secao_sp in Jornada 2018

Imagem: Instagram @avant.arte

Por Felipe Bier Nogueira

Os temas propostos pelas Jornadas 2018 da EBP, Seção São Paulo, são ao mesmo tempo uma provocação e também um diagnóstico sobre o que é o contemporâneo e como a psicanálise se propõe a encará-lo. Algo deste diagnóstico passa pelo que é explícito no eixo das jornadas: o que é laço contemporâneo em tempos de hiper-conexão? A saber, haveria uma outra margem às infinitas possibilidades de vínculos, construções, identidades que nossos tempos promovem? Em linha com o famoso dito de Lacan, a resposta parece ser positiva, pois a não-existência da relação sexual se impõe como marcador mais notório do vazio em torno do qual as angústias contemporâneas circundam. A hipótese forte do pensamento psicanalítico, portanto, se posiciona à outra margem do problema quando se aferra ao que há de desconexão no mercado de links contemporâneos. Vemos assim o problema a partir do laço que foi desfeito, mais comumente traduzido como declínio do Nome-do-pai. Todavia seria possível avançarmos para além desta segunda margem – para além do que está solto e do que não existe – em direção ao que se afirma como esteira dos afetos contemporâneos, que talvez não esteja nem do lado do Pai, nem do lado do vazio? Nesta terceira margem, o que podemos ver daquilo que é re-ligado, reativado de um dispositivo normativo, e que daria lastro à experiência contemporânea após a falência do mito familiar?

Já em 1921, Walter Benjamin ensaiaria uma resposta no provocativo texto intitulado “O capitalismo como religião”. O escrito do autor faz parte de um largo legado sobre a relação da política com seus pontos de exceção: o próprio nazismo, que vitimou o autor, enxergado desde então como expressão máxima de um estado de exceção. Pois bem, “O capitalismo como religião” antecede o nazismo e, ainda mais surpreendentemente, também é anterior ao hiper-capitalismo que vivemos hoje. Mas, já na década de 1920, Benjamin atentava ao mal-estar que se transformaria na norma em nossos tempos. Produzido na mesma década em Freud operou sua virada em direção ao tema, Benjamin ancora-se neste mal-estar e reflete sobre os rumos desta civilização que, ao invés de apontar para um futuro hiper-moderno, prometido pelas utopias burguesas, parece dar sobrevida ao arcaísmo da religião na manutenção de seu mecanismo central – a sacralização – que agora incide na forma-mercadoria. Os sujeitos que se imaginavam libertos pelo capital veem-se sob o império de um deus sem misericórdia, que exige seu culto 24 horas por dia, 7 dias por semana, seja via trabalho, seja via consumo, para a geração de objetos cujo usufruto, Benjamin argumenta, escapa à lógica do desejo.

Daí a importância de o filósofo Giorgio Agamben retomar a questão no texto “Elogio da profanação”, recolocando-a perante oitenta anos de reflexões sobre nosso mal-estar. Profanar, afirma o autor, desde a jurisprudência romana, está em oposição ao sagrado, à religio, que em sua raiz etimológica – religare – carrega a ideia de um tipo específico de ligação. Profanar, portanto, atentaria menos contra a transcendência e mais contra o que há, na religião, como operação fundamental, que é: retirar algo da esfera humana e posicionar esta coisa além dos limites de seu usufruto. A provocação de comparar o capitalismo com uma religião estaria portanto em fase com o entendimento mais preciso de nosso modo de produção, no qual mercadorias são produzidas não para o uso, mas para sua circulação como portadoras de valor. O capitalismo como religião não tem transcendência – portanto não tem um deus -, mas se apoia sobre o mecanismo mais profundamente vinculado à religião: a subtração das formas de usar do que é humano. Aqui tocamos numa terceira margem, que corre abaixo da queda do Pai e sustenta o contemporâneo.

Profanar seria um ato de desejo, na medida em que reclama um objeto subtraído. Quando Agamben afirma que o dispositivo moderno que mais se apresenta como improfanável talvez seja a pornografia, algo disso ressoa no campo da psicanálise e torna o argumento mais claro: o autor aponta para a contradição entre infinita oferta de produtos, identidades e práticas, e um apagamento do sujeito e declínio do desejo. No argumento, o erotismo tem papel central: uma mudança estrutural é sentida na própria pornografia enquanto forma. A transição é patente se comparamos a fotografia erótica de finais do século XIX, em que as modelos agem como se “a objetiva as tivesse surpreendido […] na intimidade do seu boudoir” (AGAMBEN, 2007, p.77) à situação contemporânea, quando as pornstars oferecem seu corpo como telas em branco. Nestas telas é difícil distinguir do que se goza: o pornográfico contemporâneo faz gozar por revelar algo recalcado, ou por colocar-se como corpo-mercadoria, aberto à inscrição de qualquer gozo?

A questão se liga à ideia de semblante em Lacan, e mesmo esta variação na pornografia acompanha a oscilação do conceito em sua obra: primeiro, algo do jogo de mascarada do feminino – e portanto ligado aos trâmites do desejo calçado no simbolismo -; depois, aquilo que vem à tona a partir do seminário De um discurso que não fosse semblante, no qual o conceito de verdade já não se opõe ao semblante. Este movimento em sua obra, sabemos, acompanha o declínio da hegemonia do simbólico na clínica; mas, em face dos comentários de Agamben, faz pensar: o mal-estar não teria causa no fato de que, como as pornstars, o contemporâneo oferece uma experiência que não esconde nada, e portanto torna impossível o desejo?

Ao colocar a pornografia e o corpo feminino em discussão, Agamben tem em mente o que da Lei cai com a nova religião capitalista neste trânsito de um semblante a outro: no fundo, trata-se de afirmar que hoje é impossível o Nome-do-pai agir em uma sociedade em que o semblante nada esconde, apenas revela. Ou seja, coloca-se em questão o estatuto central da castração como operador do inconsciente nos tempos em que qualquer tipo de encontro está a um clique de distância. Em termos claros, falamos da castração e de sua capacidade de nortear a fantasia a partir de uma subtração do gozo. Os tempos de hiper-exposição e hiper-consumo afirmam o corpo como mercadoria, e portanto o mercado aberto de possibilidades no qual um corpo que não se põe ao uso, mas é plataforma performática dedicada a um Outro que não existe. A questão que emerge é: não seria a própria noção de inconsciente que vacila e que nos impele a cogitar um inconsciente real?

A transição de uma noção de semblante a outra – da mascarada para a esteira do gozo – mostra-se assim não só um movimento teórico, mas também um acompanhamento do sintoma contemporâneo. Neste sentido, o che vuoi clássico do neurótico também se transforma em che fare, o que fazer ante o oceano de objetos a que não são mais causa de desejo? A queda do Nome-do-pai, portanto, revela uma forma de esposamento do real, fazendo ressoar o que em 1921 apontava Benjamin, “Deus não está morto, mas foi incorporado ao destino do homem” (AGAMBEN, 2007, p.70): a saber, o que o Pai da horda escondia por trás da castração – o gozo – agora está a céu aberto.

Daí, talvez, a provocação de Lacan: a psicanálise funciona? Com Miller, devemos entender a questão envolvendo uma nova posição do inconsciente no contemporâneo: um inconsciente que, sob análise, não mais descobre uma verdade, mas sim um gozo[1]. Aqui também fazem sentido as mudanças nos sintomas: não mais a velha angústia, mas processos de contenção e marcação deste gozo em um corpo que mal e mal pertence ao sujeito ou revela algo de seu ser. Deste ângulo, o corpo da pornstar e o corpo do cutting adolescente são quase dois lados da mesma moeda.

Diante da rotação que sofre o conceito de semblante, é curioso voltar a um dos capítulos essenciais de Lacan sobre o problema do falso: no “Bezerro de Ouro” do Seminário 5, Lacan se utiliza da passagem bíblica para afirmar a necessidade de se encarar o falo como significante para além de seu componente imaginário. O mito edipiano, naquele momento, era sustentado pela capacidade de profanar o ídolo paterno e assim fundar o desejo. Assim, se podemos falar em decadência, que seja a do sentido e, quem sabe, do próprio desejo em benefício de gramáticas do gozo. O falo, por sua vez, parece ter dado uma volta em seu eixo e, em plenos tempos hiper-contemporâneos, voltado à sua posição de ídolo – como o bezerro de ouro bíblico -, afirmando performaticamente seu poder extraordinário de capturar corpos, tal qual o Pai da horda primitiva. Seria nesta precária captura de corpos que se constituiríam os frágeis laços do moderno? Em alguma medida, as psicologias comportamentais, as teorias identitárias – como a queer e/ou o feminismo -, ao ancorarem-se sobre o direito por uma pluralidade de gozos, não estariam assumindo que o ídolo fálico é realidade, que a premissa de que o cerco de mercantilização é inevitável e que, neste horizonte fechado, é melhor que encontremos os corpos que mais nos apetecem?

O diagnóstico de Benjamin e Agamben passa pela grave constatação de que há algo de radicalmente diferente no sistema capitalista: ao envolver trabalho e consumo num ciclo infernal, o capital sequestra o desejo. A pergunta que resta para a psicanálise é: como denunciar o culto ao bezerro de ouro sem o recurso nostálgico à figura do Pai simbólico? Tanto Lacan quanto, posteriormente, Agamben, apontam para um uso específico do sintoma contemporâneo como solução: seria interessante pensar, com ambos, o sinthoma como a maneira com que Joyce profanou o laço provido pelo Nome-do-pai. Ao invés de refundar miticamente o desejo, a psicanálise talvez precise afirmar formas de desejar que não passem pelo Nome-do-pai e tampouco pela mercadoria: ou seja, profanar seria extrair algo – tomar de assalto – da tela branca do semblante contemporâneo.

 


[1] Ver “Os seis paradigmas do gozo”, p.42.
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# Rumo ao Encontro Brasileiro – A mãe, uma figura que não se adéqua aos paraísos fálicos.

by secao_sp in Jornada 2018

Imagem: Instagram @avant.arte

Por Clara M. Holguin

“A mãe, uma figura que não se adéqua aos paraísos fálicos”, é o nome que dei à intervenção que farei em minha passagem pelo Rio de Janeiro (em direção a Santa Catarina), onde tentarei fazer conversar as Jornadas da EBP e as Jornadas da NEL. Como articular “A queda do falocentrismo” e “Que mães hoje”? Este convite, além de colocar a trabalho os diferentes modos nos quais os psicanalistas do continente leem as mudanças próprias de nossa civilização e seus efeitos, propõe um laço inovador entre nossas escolas.

Promover a conversa entre os temas de nossas Jornadas dá conta de uma articulação possível entre o enfraquecimento do Nome do Pai, que tem – entre outras consequências – a queda do falocentrismo, os novos ordenamentos familiares e identificatórios das novas versões da mãe na contemporaneidade, onde se revela o desdobramento entre a mulher e a mãe que permanecia velado até o momento em que Lacan o evidenciou.

Graças aos avanços científicos agenciados pelo mestre capitalista, as mães de hoje são mulheres que não se adéquam aos paraísos fálicos, elas mostram sua face “mulher”. Produz-se um deslocamento que, em nossos termos, situa a passagem do falo simbólico ao falo real.

Poderia se dizer que tanto o primeiro ensino de Lacan como o último dá conta disso, porém é o último ensino que explicita o engano do primeiro. Se, num primeiro momento, constatamos que a equação da metáfora paterna introduz, no início, o gozo feminino sob a forma do Desejo da Mãe (DM) que ficava velado na significação fálica, no último, Lacan demonstra que a Metáfora Paterna é só um engano a respeito do enigma do gozo que exclui o sentido. As mães hoje – não todas – aparecem sem amarração fálica, põem em evidência este gozo opaco, que na clínica se apresenta através de relações cada vez mais devastadoras.

A maternidade, como experiência libidinal, põe em jogo a presença desse estranho desejo, I wanted! Mais do que uma falta, trata-se de um gozo a mais, um excesso que se define por ser suplementar e infinito. Marca da experiência de gozo no corpo que remete ao estrago da lalingua que uma mãe pode encarnar sob a forma do rapto: “a mãe é uma raptora de corpos”[1].

Quais são as consequências para um sujeito (criança) desse estrago estrutural, que se traduz hoje no que MH Brousse denomina a “extensão do império materno”, mães sozinhas, solteiras, que se bastam a si mesmas, sem mediação fálica? Poderia se dizer que este sujeito está cada vez mais na posição de objeto do desejo da mãe. A sua alternativa parece mortal: ou a rejeição ou a integração do seu produto.

O que acrescenta a via psicanalítica? Ao contrário do retorno nostálgico ao pai, e sem desencorajar a igualdade dos direitos e as reivindicações femininas nas quais se incluem escolher ser ou não ser mãe (grupo NoMo-Not Mothers), o discurso analítico propõe a via propriamente feminina como solução, isto é, a não rejeição da posição feminina. Passar da crença no pai à crença em uma mulher (sem cair de novo na crença em um gozo universal).

Como assinala E. Laurent, o discurso feminino introduz em todas as tentativas de uniformização e identificação, que estão do lado da lógica fálica – o Um e a exceção – um registro do particular e do singular que não se reduz ao individualismo de massa dos uns sozinhos. Entre as formas femininas que dão conta dessa objeção encontramos: a falta – manque/faute – que caracteriza a “mãe do cuidado”, o estilo erotômano do amor feminino que Lacan chamou “o narcisismo do desejo”, isto é, o amor pelo desejo e a solução que abre para a mulher a possibilidade de “ser sintoma de outro corpo” que supõe que ela tenha diversas formas sintomáticas de fazer condescender o gozo ao desejo, a sua exigência de amor implica sempre na busca de um partenaire-sintoma. Todos são diversos modos de fazer existir o singular e contrariar a devastação, pois são formas de fazer laço com o Outro.

 


Tradução do Espanhol – Silvia Jacobo
Revisão: Maria do Carmo Dias Batista
[1] BROUSSE, M.H. Estrago y deseo del analista
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# Match – Acolhimento apresenta um Tour por Sampa

by secao_sp in Jornada 2018

Imagem: Instagram @saopaulocity

Arte na cidade conectada

Alguma coisa acontece no nosso coração quando nos embrenhamos no labirinto artístico que essa terra, que não é só da garoa, reserva para nosso deleite e fruição!

Da imperdível e contemporânea Bienal de S. Paulo, passando pelo mestre do renascimento, Rafael, dando um pulinho para ver obras da Tate London, passando pela arquitetura e por um dos signos da ditadura, o AI-5, a Comissão de Acolhimento selecionou algumas indicações de museus, centros culturais e exposições imperdíveis que acontecerão durante o período da Jornada da Seção S. Paulo 2018.

Para explorar e flanar por esses espaços, boas caminhadas, linhas de ônibus, de metrô, táxi e aplicativos poderão levá-los para essa conexão com a arte e a cultura.


33ª BIENAL INTERNACIONAL DE ARTE DE SÃO PAULO

“AFINIDADES AFETIVAS”

Busca um modelo alternativo ao uso de temáticas, privilegiando o olhar dos artistas sobre seus próprios contextos criativos. A mostra reúne, no Pavilhão da Bienal, doze projetos individuais e sete mostras coletivas organizadas por artistas-curadores. http://33.bienal.org.br/pt/

Av. Pedro Alvares Cabral, S-N

Parque do Ibirapuera – São Paulo-SP

Pavilhão Ciccillo Matarazzo

3ª, 4ª, 6ª, domingos e feriados  das 9h – 19h (entrada até 18h)

5ª, sábado – 9h ás 22h (entrada até 21h). FECHADO às Segundas

ENTRADA GRATUITA


Centro Cultural FIESP

RAFAEL E A DEFINIÇÃO DA BELEZA é uma exposição com curadoria de Elisa Byington e ressalta a importância do pintor renascentista Rafael Urbino (1483-1520), o mais jovem da trindade encabeçada por Leonardo da Vinci e Michelangelo.

Av, Paulista 1313

De 19 de setembro a 16 de dezembro

Terça a sábado, das 10h às 22h

Domingo, das 10h às 20h

Entrada GRATUITA

http://centroculturalfiesp.com.br/evento/rafael-e-a-definicao-da-beleza


 MASP – Museu de Arte de São Paulo

Exposição “ACERVO EM TRANSFORMAÇÃO: TATE NO MASP”.

Em 2018 o MASP desenvolveu um intercâmbio com museus de outras partes do mundo e, desta vez recebe obras do TATE de Londres, em um interessante “diálogo” com suas obras.

Av. Paulista 1578

De 15 de maio de 2018 a 16 de fevereiro de 2019

TERÇA E QUARTA ENTRADA LIVRE

Terça 10h ás 20h (bilheteria aberta até 19h30)

Quarta a domingo das 10h às 18h (bilheteria aberta até 17h30)

Segunda FECHADO

INGRESSOS

ADULTO R$ 35,00

ESTUDANTES, PROFESSORES: R$ 17,00

MAIORES DE 60 ANOS: R$ 17,00

https://masp.org.br/exposicoes/acervo-em-transformacao-tate-no-masp


Museu da Casa Brasileira

Mostra “Peconheiros”

Exposição que apresenta o trabalho desenvolvido pelo “The spirit of Poland” em parceria com o estúdio de design “We design for  Physical Culture” na comunidade de Boa Vista do Acará, na Amazônia.

Av. Brig.Faria Lima, 2705. Jardim Paulistano

Terça a domingo, das 10h às 18h

Ingressos R$ 10,00

Meia-entrada R$ 5,00

GRATUITO AOS SÁBADOS, DOMINGOS E FERIADOS

http://www.mcb.org.br/pt-BR/programacao/exposicoes/exposicion-peconheiros

O Museu conta com um restaurante com vista para um lindo jardim.


MUSEU DE ARTE MODERNA – MAM e MUSEU DE ARTE CONTEMPORÂNEA – MAC-USP

Com curadoria de Ana Magalhães, Helouise Costa e Felipe Chaimovich, o Museu de Arte Moderna de São Paulo celebra seus 70 anos com obras adquiridas em várias fases da trajetória do museu, seja em Bienais ou outras ocasiões.

Terça a domingo das 10h às 17h30

Ingresso R$ 7,00

GRATUITO AOS SÁBADOS

ESTACIONAMENTO NO LOCAL

Av. Pedro Alvares Cabral, s/n PARQUE DO IBIRAPUERA

RESTAURANTE NO MAC-USP GARANTE UMA BELA VISTA DO PARQUE.

http://mam.org.br/exposicao/mam70/


 ITAU CULTURAL

ARQUITETURA PARA QUÊ? OCUPAÇÃO PAULO MENDES DA ROCHA

O arquiteto e urbanista Paulo Mendes da Rocha é o homenageado na 41ª edição do programa ocupação Itaú Cultural. Curadoria do arquiteto Guilherme Wisnik.

De 13 de setembro a 4 de novembro de 2018.

Av. Paulista 149

O local dispõe de um café, restaurante muito agradável.

Estacionamento no local

ENTRADA GRATUITA

Terça a sexta das 9h às 20h

Sábado, domingo e feriados, das 11h às 20h

http://www.itaucultural.org.br/arquitetura-para-que-ocupacao-paulo-mendes-da-rocha


INSTITUTO MOREIRA SALES – IMS

EXPOSIÇÃO MILLOR: OBRA GRÁFICA

Curadoria de Cássio Loredano, Julia Kovensky e Paulo Roberto Pires mapeiam os principais temas que estiveram presentes ao longo de 70 anos de produção do artista, autorretratos, crítica da vida brasileira, mais de 6 mil desenhos.

ENTRADA GRATUITA

18 de setembro de 2018 a 27 de janeiro de 2019.

Terça a domingo (exceto quinta) das 10h às 20h

Quintas (exceto feriados) das 10h às 22h

Av.Paulista 2424- Galeria 1

No último andar uma linda vista da cidade. No piso inferior, um ótimo restaurante.

https://ims.com.br/exposicao/millor-obra-grafica-ims-paulista/ 


INSTITUTO TOMIE OHTAKE

EXPOSIÇÃO AI-5 50 ANOS – AINDA NÃO TERMINOU DE ACABAR

Uma exposição que retrata o momento de tensão que ainda persiste no Brasil e como a arte pode ampliar o campo do que pode ser dito e sentido frente aos limites da linguagem.

De 4 de setembro a 4 de novembro de 2018

De terça a domingo das 11h às 20h

Av. Brig Faria Lima 201

Pinheiros

A 800m do metro Faria Lima (linha Amarela)

https://www.institutotomieohtake.org.br/


DANÇA

Cia. Fragmento de Dança : “POR QUE SOMOS MUTANTES”

Espetáculo inspirado na obra do escultor e fotógrafo britânico Jason de Caires Taylor, que cria esculturas e as submerge no mar.

De 29 de setembro a 6 de outubro de 2018

Kasulo Espaço cultura e arte

Rua Souza Lima 300 – Barra Funda

Ingressos R$ 20,00 (inteira) e R$ 10,00 (meia)

Sábado 21h e domingo 19h

Bilheteria abre uma hora antes do espetáculo.

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Editorial #Cupid #06

by secao_sp in Jornada 2018

Foto: Instagram @contemporary_art

Por Felipe Bier

Estamos a poucos dias de nossas VIII Jornadas da EBP-SP- Amor e sexo em tempos de (des)conexões e é com grande satisfação que apresento a vocês nosso último #CUPID!

Ao longo desses meses, nós nos debruçamos sobre esse tema em atividades preparatórias, cartéis, leituras solitárias, escrita endereçada às mesas simultâneas e escrita endereçada ao Boletim, onde vocês puderam encontrar com textos, entrevistas, poesias, resenhas – uma escrita causada.

Fernanda Otoni, em nossa primeira atividade preparatória e que vocês puderam ler em nosso segundo Boletim, nos disse: ” A lógica do encontro se articula, indiscutivelmente, com as conexões e desconexões, com o que não existe e o que insiste, com os fios que tecem um laço e o furo que desse laço participa. O binário Amor e Sexo interroga essa costura. Nem sempre amor e sexo andam juntos, aliás reunir esses dois em um instante é raro! O que verificamos, não raro, é a experiência de amar desconectada do sexo e a experiência do sexo sem amor. Mesmo quando se ama e se faz sexo com o parceiro, a disjunção está lá.” E nos colocou a questão: ” É possível o encontro entre amor e sexo?”

Nessa fase preparatória vocês puderam ler em nossos Boletins as contribuições de nossos colegas que revelam mais uma vez o desejo decidido pela psicanálise. Agora os convido para mais uma leitura do nosso #CUPID, a última antes do nosso grand finale!

Na rubrica #Orientação, Heloisa Telles em seu texto De que conexão se trata? pinça o significante (des)conexão: “Introduzido no título para levar a um debate do tema em consonância com a “subjetividade da época”, tal como proposto no argumento das jornadas, este significante porta em si mesmo uma problemática que alude tanto a questões de estrutura, tal como a psicanálise nos ensina, como às transformações que supomos existir nos modos de se estar no mundo e com os outros.”

Em Relações abertas – odisseias contemporâneas Patricia Badari aponta para a multiplicidade das relações ou não relações amorosas e retomará alguns destes formatos de relações para formular uma questão, centrando-se, neste texto, em suas observações “entre alguns casais héteros e neuróticos ao abrirem suas relações”, tocando em um ponto que nomeou de “sujeito-mulher” nestes casais.

Em #Amor e Sexo Lucila Darrigo em seu texto Fazer laço, fazer par constata que não se faz mais casal como antigamente e se pergunta “O que mudou? O que mudou na civilização contemporânea que afetou os diferentes semblantes de casal de outrora? Semblantes, claro, porque, em tempo algum, um casal de seres falantes se formou regido por leis naturais de encontro entre os sexos”.

Marcelo Augusto Fabri de Carvalho em #Conversa.com entrevista Flávio Ricardo Vassoler que discorre sobre a relação entre o erotismo/morte e o amor/laço social; ele nos alerta para o fato de o Brasil ser o país que mais mata transexuais no mundo, sendo que também lidera o ranking de buscas por pornografia transexual.  Fala também  sobre os efeitos do empuxo ao gozo e do discurso capitalista nos seres humanos na contemporaneidade.

Em # A Psicanálise e o Contemporâneo, Teresinha Prado traz à cena as bonecas de silicone em tamanho humano, as Dolls, que dá título ao seu texto. E segundo ela “As Dolls servem como objetos de acesso ao gozo autoerótico, marcado pela recusa a localizar, no corpo de uma mulher, o objeto a. Deste modo, nega-se a castração, gozando-se apenas do objeto da fantasia e recusando o Outro, de modo père-verso (père-vers). E aqueles que reivindicam, a partir de tais objetos, condições humanas, tomam-nos do mesmo ponto em que a verossimilhança captura, por sua perfeição que nega a falta, a castração, o Outro”.

Felipe Bier em seu texto Do desejo que resta profanar coloca uma questão muito instigante em relação ao desejo quando se pergunta se “o mal-estar não teria causa no fato de que, como as pornstars, o contemporâneo oferece uma experiência que não esconde nada, e portanto torna impossível o desejo?”

Nossa colega Clara Holguin, da NEL, fecha essa sequência de nosso Boletim, com seu texto A mãe, uma figura que não se adéqua aos paraísos fálicos. Ela nos faz pensar como seria possível articular “A queda do falocentrismo” e “Que mães hoje”, e abre uma nova frente de investigação para nós psicanalistas, nos convocando a continuar o trabalho rumo ao Encontro Brasileiro!

Ainda no # Match, o acolhimento apresenta um tour por Sampa, “da imperdível e contemporânea Bienal de S. Paulo, passando pelo mestre do renascimento, Rafael, dando um pulinho para ver obras da Tate London, passando pela arquitetura e por um dos signos da ditadura, o AI-5″.

Desejo a todos uma boa leitura e até breve!!!

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