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#Orientação – Um início de reflexão: conexões e desconexões em Psicanálise

by secao_sp in Jornada 2018

Foto: Instagram @artsheep

Por Maria Cecília Galletti Ferretti

O tema das VIII Jornadas da EBP-SP, Amor e sexo em tempos de (des)conexão, aponta para o que, na psicanálise, se insere no campo da conexão e no campo da desconexão. Afirmar, já em seu título, que teríamos uma desconexão, por assim dizer “especial”, em nossos tempos, leva-nos a pensar em aspectos relevantes do próprio corpo teórico-clínico psicanalítico que apontam para esta desconexão.

Vejamos a seguinte afirmação de Lacan: “De cada vez que estamos na dialética da pulsão, outra coisa comanda. A dialética da pulsão se distingue fundamentalmente do que é da ordem do amor como do que é do bem do sujeito” (1). Salientemos que  Lacan refere-se a uma desconexão, a uma não ligação estabelecendo assim uma diferença entre pulsão, amor e bem. Notemos que o amor é um conceito presente em nosso tema.

Mas, perguntemos novamente trazendo para o nosso cenário a importância deste conceito tão relevante: o que é a pulsão, o que é o seu “mistério”? Inserida no limite entre o psíquico e o somático trata-se do encontro da palavra com o corpo; inscrevendo-se no inconsciente na medida em que faz um percurso pela cadeia significante, havendo, no entanto, algo nela que não se inscreve, algo que não entra no inconsciente, algo que não é simbolizável.

Quanto à satisfação da pulsão, paradoxalmente, há desprazer e é o que Lacan chamou gozo.

O gozo inclui a satisfação pulsional e, nesta medida, inclui o corpo, a zona erógena, o somático, o corporal, pois Lacan descreverá as formas do objeto a, todas elas ligadas ao corpo e seus orifícios. O amor tem a característica de dar sentido e o nome de gozo apresenta uma significação além do sentido. “O “Homem dos lobos” não tem nada a ver com Serguei Petrov, e não tem nada a ver tampouco com a função do Nome do Pai. É seu nome de gozo” (2). Também o “Homem dos ratos” mostra, por sua vez, o corpo tomado pela pulsão e pelo gozo através do mal: o suplício dos ratos é a prova. Não se trata aí do amor.

Sobre o amor as últimas páginas do Seminário 20 apresentam um quase elogio a ele: Lacan refere-o ao que se passa na relação do ser ao ser (que nunca é de harmonia), perguntando-se se a abordagem do ser não seria o verdadeiro amor. Refere-o também a uma relação entre dois saberes inconscientes, como o afrontamento diante de um impasse, como coragem diante de um destino fatal, como ilusão. Antes destas palavras finais Lacan abordou o amor (ainda tendo como referência o Seminário 20) de várias maneiras, questionando o “nós dois somos um só” declarando que é uma forma “grosseira de dar à relação sexual, a esse termo que manifestamente escapa, o seu significado”(3). Questionará a saída do narcisismo pelo amor. Fará ainda uma enfática desconexão entre o sexo e o amor!

O caminho está aberto para uma outra desconexão bastante conhecida na psicanálise: a “não-relação sexual”: “Ter superado o horror ligado ao fato de que não há relação sexual, saber que há esse furo e que o amor lhe faz suplência, pode com efeito, ter consequências, até mesmo aquela de tornar o amor mais digno do que a tagarelice que dele se produz a todo instante para o barco sexual”(4).  Este enunciado ao mesmo tempo em que mostra o horror diante do fato de que não há relação sexual, afirma que há saída, que há uma suplência a ser realizada.

O tema de nossas Jornadas ao inserir o tema do contemporâneo, incluindo aí os meios que hoje o fala-ser tem à sua disposição para conectar-se, aponta também, sem dúvida, para a questão de investigar em que medida a “realidade virtual”, que tanto se desenvolveu com a Internet, conecta ou desconecta os sujeitos.

Investiguemos de que maneira a resposta da psicanálise é capaz de, através das desconexões que aponta, amenizar a satisfação paradoxal que assola o fala-ser, seu “sofrer demais”(5).  Como mostra Lacan no Seminário 20, “a realidade é abordada com os aparelhos do gozo” (6) e “este gozo a gente recalca” (7)  pois “como gozo, ele não convém”(8) . Esta resposta da psicanálise aplica-se ao contemporâneo, também ele, em tempos de desconexão.

 


Citações:
  1. Lacan, J. O Seminário, Livro 11, Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar Editores 1979, p. 196.
  2. Miller, J.A. Comentario del seminário inexistente. Buenos Aires: Manantial, 1992, ps.30-31.
  3. Lacan, J. O Seminário, Livro 20, Mais, ainda. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1982, p. 64.
  4. Naveau, L. “Não-relação sexual”. In: Scilicet: Semblantes e sinthoma. Associação Mundial de Psicanálise. São Paulo: Escola Brasileira de Psicanálise, 2009, p. 230.
  5. Lacan, J. O Seminário, Livro 11, Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de janeiro: Zahar Editores 1979, p. 158.
  6. Lacan, J. O Seminário, Livro 20, Mais, Ainda, Rio de Janeiro: Zahar Editores 1982, p. 75.
  7. p. 83.
  8. p. 83
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#Ecos de quarta – “O Analista e o Mestre – Uma questão de Política … e de Ética”

by secao_sp in Jornada 2018

Foto: Instagram @artsheep

Por Maria Bernadette Soares de Sant´Ana Pitteri

“Só existe isso, o laço social” foi o título extraído de uma fala de Lacan no Seminário XX por Cristiane Alberti, nossa convidada para as Jornadas[1]. No texto [2], a autora aborda a ação dos psicanalistas da ECF no debate público que envolveu as últimas eleições presidenciais na França, e levou Miller a teorizar a “escola sujeito” [3]. Sem discutir programas e política partidária, o que mobilizou a entrada dos psicanalistas franceses no debate foi o ponto de vista ético: a discussão girou em torno das condições concretas e práticas acarretadas pela possível eleição de um presidente com um ideário de extrema direita, o que redunda necessariamente em limitação das liberdades civis.

Alberti cita Hegel que, nos “Princípios da Filosofia do Direito” [4] afirma que o Estado é a realidade em ato da ideia moral objetiva, ou seja, o “Espírito”, a civilização se revela no Estado, realizando o que sabe e porque sabe, isto é, ao falar de ideia moral objetiva é de ética que se fala, deste significante tão caro à Psicanálise. A situação das eleições na França chamou cada cidadão à responsabilidade (como em qualquer estado de direito), pois se tratava de construir uma opinião esclarecida, e diante de tal situação, o posicionamento público fez-se necessário.

Os psicanalistas encaram o recalque em seu cotidiano no enfrentamento da inclinação natural para olvidar o passado, e isto os fez lutar contra o esquecimento e o obscurantismo da sociedade, em relação às propostas de um candidato de extrema direita. Tal luta encarou o populismo que, ao colocar os outros partidos políticos como ilegítimos e corrompidos acabam por excluí-los, excluindo também parte do povo ao levantar a suspeita de que esta parcela não pertence à humanidade. Esta situação destrói qualquer possibilidade de oposição e diálogo, essencial ao andamento do estado de direito.

Opondo-se ao populismo da extrema direita, os psicanalistas franceses entraram no debate na defesa de um estado assimilado ao direito e à lei, obras humanas em constante movimento, mutantes ao sabor do tempo que incide sobre as civilizações. Tais obras não pertencem a ninguém em particular, mas a todos os cidadãos; e o estado de direito é uma instituição por e para os indivíduos.

No caso não se tratava apenas de defender as liberdades civis, o que permite a prática da psicanálise, mas também de fazer da psicanálise o campo de um exercício mais amplo do que aquele da solidão dos consultórios, campo para o exercício do analista cidadão, como cunhou Eric Laurent.

As discussões trouxeram à luz aquilo que é patente: com sua emergência a psicanálise mudou o mundo, e os psicanalistas não podem ignorar tal coisa por fazerem parte desta mudança. Lembrando Lacan, aquele que não estiver imbuído do espírito de seu tempo, que abandone a psicanálise.

A partir da experiência de uma análise pode-se apostar nos recursos dos discursos, “o laço entre os que falam” e Lacan sublinha que “só existe isso, o laço social” [5] a manter juntos os corpos, enquanto que ao contrário, o puro gozo (que é solitário) gera a segregação.

A experiência da análise distancia o sujeito das identificações de massa, considerando, no entanto, as múltiplas escolhas do desejo ou do gozo. A psicanálise quer o político e isso porque, na experiência analítica, chega-se ao ponto em que o Outro não existe, momento no qual os recursos simbólicos empalidecem. Atingido tal ponto, tem-se um retorno ao laço social com o Outro, na invenção de um Outro.

Os psicanalistas sabem disso por sua experiência, o que os leva à responsabilidade no contexto de diluição de um laço social que se valia da metáfora paterna e do falocentrismo, num modelo verticalizado de sociedade. Tal laço, baseado na autoridade do pai, não desapareceu totalmente, mas o esgarçamento da metáfora paterna e o rearranjo do falocentrismo na atualidade em tempo de (des)conexões leva à percepção do surgimento de novas parcerias as quais os psicanalistas não podem deixar de encarar. Estamos falando das novas formas de amor e sexo que surgem a cada passo em nosso caminhar atual.

A prática psicanalítica deve contribuir para o exercício de um discurso do mestre “um pouco menos idiota”, como disse Lacan na Conferência de Milão em 12 de maio de 1972 [6]. O discurso do analista, enquanto avesso do discurso do mestre, pode atuar sobre este, tentar fazer com que “seja um pouco menos idiota”, ou seja, que não espalhe a segregação com suas sentenças fechadas, ou com o tudo-saber do discurso universitário, o mestre moderno, que produz sujeitos divididos e angustiados, em constante busca, obedientes ao consumo, fascinados pelos S1s da avaliação e do cientificismo.

Uma análise não leva do pai (père) ao pior (pire), ao contrário do que presentifica um regime ditatorial. O desejo de saber que uma análise permite e provoca, na transmutação do amor ao saber, é essencial para os tempos atuais, para a civilização que a cada momento recebe novos sopros.

 


[1] VIII Jornadas da EBP-SP, Amor e Sexo em tempos de (Des)Conexões – 26 e 27 de outubro/2018.
[2] Alberti, Cristiane. “Só existe isso, o laço social”, In: Lacan Cotidiano – Sobre o Populismo, 15/8/2017 – ampblog2006.
[3] Aula de 24/6/2017.
[4] Hegel, Princípios da Filosofia do Direito. São Paulo: Icone, 1977 – 3ª seção “O Estado”, item 257, p. 204.
[5] Lacan, J., O Seminário livro 20: Mais Ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1985 – p. 74.
[6] Discurso publicado em obra bilíngue: Lacan In Italia 1953-1978. Em Italie Lacan, La Salamandra, 1978.
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#Amor e Sexo – Para falar de amor e sexo, falo dA mulher

by secao_sp in Jornada 2018

Foto: Instagram @contemporary_art

Para falar de amor e sexo, falo dȺ mulher

Por Cristiana Gallo

“Só o amor permite ao gozo condescender ao desejo”.[1]

Inicio pelo aforismo lançado por Lacan no Seminário 10, a angústia, que instiga a percorrer as condições de gozo e desejo no ser falante, para retornar ao amor e ao sexo ou, em melhor lugar, falar de amuro.

Neste Seminário nos deparamos com a indicação de que à mulher nada falta, revirando a verdade freudiana que aponta maiores embaraços na construção da própria sexualidade do lado da mulher; aqui encontramos uma nova perspectiva que, para além do edifício edípico, nos convoca a um novo olhar.

A mulher, segundo Freud[2], atravessaria um difícil caminho frente ao reconhecimento de sua própria castração, uma vez que haveria uma rebelião frente a isto, conduzindo a três diferentes caminhos: apartar-se de sua própria sexualidade; desenvolver um “complexo de masculinidade” ou aceder a uma “atitude feminina normal” na qual toma o pai como objeto.

Miller esclarece que “quando se regula sobre o falo como significante, e Lacan mostra que essa é a verdade de Freud, a castração tem como fundamento a apreensão no real da ausência de pênis da mulher”[3]; daí a fantasia fálica feminina de acreditar possuir um falo e que a mãe também o possui.

No Seminário 10 saímos da dimensão do significante para adentrar o campo do organismo: do falo significante ao falo órgão, a partir do qual se explicitam as consequências no campo do gozo e do desejo para o homem e para a mulher.

A partir dessa dimensão do organismo Miller assinala que no caminho do gozo “é o macho que fica embaraçado”[4] diante da detumescência do órgão, enquanto que as dificuldades do lado feminino surgem a partir da colocação do desejo do Outro em jogo: ela se embaraça diante da falta do Outro e citando Lacan aponta “que ‘um verdadeiro desejo de homem angustia o sujeito feminino’ (…) na medida em que esse desejo tem relação com a falta e convoca o sujeito feminino a ser o que faz suplência, portanto a força à interpretação.”[5]

 

Esta nova posição aqui apresentada se desdobrará na sequência do ensino de Lacan, até culminar com a apresentação das fórmulas da sexuação no seu Seminário 20, mais ainda, onde, do lado mulher das fórmulas, ela se situa no lugar de causa de desejo para um homem e, para si mesma, como o enigma de sua própria falta.

“Esse Ⱥ não se pode dizer. Nada se pode dizer da mulher. A mulher tem relação com S(Ⱥ), e já é nisso que ela se duplica, que ela não é toda, pois, por outro lado, ela pode ter relação com Φ.”[6]

Prosseguindo, Lacan nos diz que só lhe restará falar de amor e referindo-se à mulher diz que ela “só pode amar no homem, (…) a maneira com que ele enfrenta o saber com que ele alma”[7] – alma podendo ser entendida como efeito do próprio amor e não referida ao sexo: “com efeito, a alma alma a alma, não há sexo na transação”[8].

Fernanda Otoni apresenta o verbo almar como a invenção lacaniana que articula reciprocidade e “um nada que ressona”; ela esclarece este ponto ao retomar em Lacan que

o hábito ama o monge” mas o que há sob o hábito, e que chamamos de corpo, não é o monge. Aí, voltamos ao início, por (a)para–esser esse resto, que dá vida ao oco do ser. Uma contingência que se encarna e, por um triz, cessa de não se escrever – toma o corpo, o excita, deixa rastro, se escreve como ‘contingência corporal’ lá onde se verifica uma efêmera conexão, no instante de um lapso, entre o falo e o que quer que seja. Por essas e outras…[9]

Considerando as mudanças sócio-culturais e tecnológicas que impactam as nossas vidas, podemos falar em alterações nas condições de amor para os seres falantes situados do lado mulher das fórmulas da sexuação de Lacan? Ou, como nos diz Serge Cottet, “sob a roupagem ilusória da liberdade sexual, reencontrar-se-iam as invariantes do sentimental”[10].

Nesta liberdade poderíamos situar o que nas mulheres se expressa na atualidade como um “eu também” em semelhança aos homens, estabelecendo uma disjunção entre amor e sexo.

Cottet em sua reflexão acerca do sexo e do amor dos adolescentes na contemporaneidade indica, entretanto, que a controvérsia recai sobre todos no que toca ao empuxo-a-gozar.

Os sites de relacionamento atestam o empuxo-ao-gozo no desfile das imagens: pedaços de corpos que se lançam ao jogo do olhar e ser olhado pelo outro. Neste registro reencontramos os termos tratados por Lacan e retomados por Cottet ao falar da sexualidade “ao ar livre” e seus efeitos: “o enfado e a morosidade (Lacan, 1974)”[11].

“De tudo isso resulta um ‘hedonismo temperado’, longe do modelo fusional da paixão, que de todo modo preserva o ideal amoroso. ‘Os próprios adolescentes não podem escapar a uma referência, ainda que ligeira, ao sentimento e ao amor, a fim de velar a nudez da pulsão, as moças expressando o desejo de que os rapazes reconheçam, por meio das palavras, o que sentem’ (:269). Nada de novo sob o sol. Exceto que o sentimento amoroso vem dar ‘uma navalhada no consumo-mundo’ (Lipovetsky, 2006:270).”[12]

Na clínica escuto de uma mulher o lamento “do casal”, formado a partir do Tinder, que o encontro não tenha se produzido a partir da contingência, mas a partir da certeza do encontro sexual produzido pelo aplicativo.

Contudo, como indica Christiane Alberti, tal encontro não elimina a dimensão do imprevisto, do não calculável do gozo, uma vez que a palavra se apresenta: “O encontro não pode ser definido sem uma palavra, e aí tudo se complica!”[13], mesmo por um mero SMS!

Amor e sexo disjuntos, entre conexões e desconexões, faz reverberar “a alma alma a alma” e questiona, para além do gozo fálico, o gozo “de que não é possível dizer se a mulher pode dizer alguma coisa – se ela pode dizer o que sabe dele”[14].

Pergunto, onde recaem as palavras de amor no ser falante que se localiza do lado mulher das fórmulas da sexuação?

Não sendo só questão de reciprocidade, podem tocar, enquanto letra de uma carta de almor, num ponto indizível da satisfação, a Outra satisfação, naquilo que se refere ao próprio enigma e que vem a animar o corpo, mesmo que às vezes.

Jésus Santiago nos traz uma maior precisão sobre tal questão ao falar sobre o feminino:

“Ser Outra para si mesma confunde-se, portanto, com a excepcionalidade de um gozo submetido aos intervalos abertos da satisfação pulsional, satisfação marcada pelos limites fugidios, pois se vê envolvido, como nos diz Lacan, pela sua própria contiguidade. Dizer que o gozo feminino é contíguo consigo próprio é admitir que sua ancoragem no falo não é uma necessidade imperiosa e que o destino desse gozo é fazer-se existir como contingência corporal.”[15]

E, em direção ao amor mais digno, aponta que

“Graças à lógica da sexuação, acaba por se estabelecer que a paixão entre os sexos se escreve sob a égide do real impossível do gozo. Com fundamento na escrita do impossível da relação entre os sexos, pode-se afirmar que a invenção da psicanálise é o ‘novo amor’, no sentido do amor que inscreve a indignidade pulsional, a Coisa, o gozo de cada um.”[16]

Seguindo com o “novo amor”, acrescento o que Maurizio Mazzotti nos fala sobre amuro, distinguindo-o do amor “con-fusão”: amuro fala de um amor “que não crê na ilusão dos dois que fazem um, porque não nega o irredutível de um gozo que, aninhando-se no falar, faz muro, como o faz o objeto a, causa do desejo, enquanto irredutível à demanda.”[17]

Para um ser falante que se deixe levar ‘por essas e outras’, o imprevisto pode ser admitido como um ponto de abertura a um jogo que não se conclui, mas é jogado a cada vez, na medida em que se admite o espaço vazio em que ele se apresenta – cedendo ao risco de preenchê-lo com o ideal romântico da completude, mas tomando-o como espaço em que um gozo não assimilável pelo significante pode ser vivido, às vezes.

 


[1]LACAN, J. (1962-1963) Seminário, livro 10: a angústia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. 2005, p.197
[2]FREUD. S. (1931) “Sobre la sexualidad femenina”. Em Obras Completas III. Madrid: Editorial Biblioteca Nueva, 1981.
[3]MILLER, J-A. “Introdução à leitura do Seminário da angústia de Jacques Lacan”. Em Opção Lacaniana 43 (maio 2005) p. 29
[4]Ibidem, p. 30
[5]Ibidem, p. 32
[6]LACAN, J. (1972-1973) Seminário, livro 20: mais ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2008, p. 87
[7]Ibidem, p. 95
[8]Ibidem, p. 90
[9]OTONI-BRISSET, F. “O laço entre o amor e a coragem”. http://ebp.org.br/sp/o-laco-entre-o-amor-e-a-coragem-fernanda-otoni-brisset/
[10]COTTET, S. Ensaios de clínica psicanalítica. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2011, p. 69
[11]Ibidem, p. 68.
[12]Ibidem, p. 69
[13]ALBERTI, C. Tinder: on baise d’abord, on voit ensuite. Le symbolique a change de tempo. http://m.leplus.nouvelobs.com/contribution/1409836-tinder-on-baise-d-abord-on-voit-ensuite-le-symbolique-a-change-de-tempo.html
[14]LACAN, J. ibidem, p. 95.
[15]SANTIAGO, J. “Jacques Lacan, o feminino e o amor mais digno”. Em: O feminino que acontece no corpo. Belo Horizonte; Scriptum Livros, 2012, p. 236
[16]Ibidem, p. 237
[17]MAZZOTTI, M. “Amuro”. Em: Scilicet: O Corpo Falante – Sobre o inconsciente no século XXI. São Paulo: Escola Brasileira de Psicanálise, 2016, p. 37
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#Conversa.com – A (des)conexão de Hilda Hilst: um furacão na poesia brasileira contemporânea – Entrevista com o poeta Claudio Daniel*

by secao_sp in Jornada 2018

Foto: Instagram @contemporary_art

Por Fabiola Ramon

Pois pode ser.

Para pensar o Outro, eu deliro ou versejo.

Pensá-LO é gozo. Então não sabes? INCORPÓREO É O DESEJO.

Hilda Hilst, in ‘Do Desejo’ (1992, publicado pela Ed Globo, 2004)

Não por acaso Hilda Hilst (Jaú-SP, 1930- Campinas-SP, 2004) foi homenageada na última edição da FLIP, a famosa Feira de Literatura de Paraty (RJ). Poeta, ficcionista, cronista e dramaturga, Hilda escreveu seu nome na história da literatura e é considerada uma das maiores escritoras de língua portuguesa do século XX.

Uma mulher à frente de seu tempo, com uma linguagem inovadora e abrangente que rompeu com diversos limites no campo da escrita literária, Hilda produziu mais de quarenta títulos, entre poesia, teatro e ficção, e escreveu por quase 50 anos, recebendo importantes prêmios literários.

Muitos dos seus textos são atemporais, com um entrelaçamento entre a realidade e a fantasia, engendrando o desvelamento da fragilidade dos tecidos que bordam a condição humana, a partir de uma poética na qual toda a potência de Eros toma corpo na letra.

Seu sintoma com a escrita não está circunscrito apenas ao ato de escrever, ele transborda para uma questão particularmente importante para a escritora: de sua obra “ser lida”. Ao lançar o livro “O caderno rosa de Lori Lamby” (1990), um “livro pornográfico”, Hilda foi a público dizer que essa obra havia sido feita para ser lida.

Ser lida não trata de ser fácil ou palatável, mas de causar o Outro da linguagem, decifrá-lo e recifrá-lo, incessantemente. Ao empreender o trabalho de ser lida, ela incluiu em sua escrita os leitores, o mercado editorial, os escritores de sua geração, os críticos literários etc. Sem medo de ousar em sua invenção e reinvenção de seus modos de escrita, o produto de sua criação não faz simples apelo ao outro, como foi acusada por escritores conservadores da época que não alcançaram a extensão de sua escrita, mas serviu e continua servindo de matéria preciosa para o deleite, a fruição e a constatação perturbadora de que a escrita comporta em si uma erótica. Hilda deixou esse legado para a literatura brasileira de todos os tempos.

Ademais, Hilda não apenas escreveu sobre o amor e o sexo, ela deixou marcado e impresso, na página da história da literatura e no corpo dos seus textos, uma escrita de amor e sexo. Lá onde a relação sexual não existe e a escrita pode fazer suplência, Hilda faz, em ato, a letra copular, o significante trepar e o corpo de sua obra erotizar-se. Com a força e a potência de sua escrita, Hilda abalou e esgarçou a página, o livro, o corpo, a sexualidade, a política, a transcendência, o mundano, o sexo, o amor e a morte.

Sintética e precisa é a forma como Claudio Daniel, poeta de fino rigor estético e amante da invenção com a língua, “poematiza” a escritora: “Hilda, um furacão na poesia brasileira”.

Claudio Daniel foi entrevistado pelo Boletim # Cupid# sobre Hilda Hilst. A partir de sua intimidade com o texto da escritora e de sua própria relação visceral com a escrita, nos trouxe sobre o lugar do poeta, esse que, segundo suas palavras, com seu ato, “joga o dardo cada vez mais longe, para não se acomodar a uma única forma”. Nessa jogada, Hilda faz da des(conexão) matéria de sua causa. Com a palavra, o poeta Claúdio Daniel!

Fabiola Ramon: Na sua concepção, que tipo de conexão e desconexão há entre o amor e o sexo na escrita de Hilda Hilst?

Claudio Daniel: A poesia de Hilda Hilst, desde o seu livro de estreia, Presságio (1950), que a autora publicou com apenas 20 anos de idade, até o último, Cantares do sem nome e de partidas (1995), sempre girou em torno dos temas do amor, do sexo e da morte. Claro: não há novidade alguma nisso, grande parte da poesia ocidental trata das relações entre Eros e Thanatos, desde Safo e Alceu, na Grécia clássica, até os dias de hoje. O que surpreende, na poesia de HH, é a pluralidade de aspectos e abordagens do tema amoroso, que por vezes transcende a dimensão sexual para alcançar a metafísica: o Outro amoroso pode ser o companheiro, mas também um aspecto dela própria (o seu duplo), um personagem ficcional, ou símbolo de sua profunda solidão, sempre em busca de algo ou alguém inalcançável, o eterno ignorado e ainda a manifestação do divino. Outras vezes, o amor é simplesmente o Incomunicável, o Ausente, o Inexistente. A sexualidade, por sua vez, se é associada ao amor físico, também o ultrapassa, manifestando-se, inclusive, na escrita libidinosa: a poesia como ato erótico. Na poesia de HH, imperam a polissemia dos vocábulos, a incerteza, o deslizamento e incessante transformação dos sentidos do poema.

Fabiola Ramon: O que você poderia dizer sobre a escrita pornô (pornografia) de Hilda Hilst?

Claudio Daniel: É sobretudo uma escrita fescenina, ou seja, que faz a sátira do erótico e do pornográfico, como nos poemas de Bufólicas (1992), incorporando temas do cotidiano, misturados à fantasia (contos de fadas e relatos mitológicos ou lendários, por exemplo), a coloquialidade, a gíria e o palavrão, elementos antes ausentes em sua poesia “séria”, que alguns consideravam “hermética” ou “obscura”. Sem dúvida, é a partir de sua lírica fescenina que a obra de Hilda começou realmente a ser lida, a conquistar a atenção da crítica literária, da universidade, das grandes editoras e, sobretudo, do público. Ela própria admitia ter escrito O caderno rosa de Lori Lamby (1990) porque desejava ser lida, sair da condição de autora “maldita” e excluída do cânone literário por ser mulher, ter um comportamento irreverente para a época e praticar uma escrita densa, que não se enquadrava no cenário literário. Com a popularidade tardia, HH conseguiu ser lida e hoje está definitivamente incorporada na história da literatura brasileira.

Fabiola Ramon: Nos últimos anos verificamos no campo da cultura, das artes e das relações amorosas, principalmente virtuais, a estetização do obsceno, onde o objeto fetiche ganha a cena, sem velamento. Nesse ponto, você acha que Hilda Hilst antecipou em sua escrita um modo de gozo característico de uma época que estava por vir?

Claudio Daniel: Acredito que a dimensão erótica mais profunda da poesia de HH está em suas primeiras obras, em que a amor e o erotismo são abordados desde o self até o divino. Ela passou a trabalhar com a temática pornográfica para sair do ostracismo em que se encontrava, ampliar o seu público e, claro, renovar a linguagem, fazendo algo totalmente diferente em sua trajetória literária. Não creio que ela antecipou a estetização do obsceno, que já tem uma longa presença em nossa tradição literária, desde as cantigas de escárnio e mal-dizer do século XII até Gregório de Matos, Bocage e o nosso Glauco Mattoso.

Fabiola Ramon: Quando Hilda Hilst publica “O caderno rosa de Lori Lamby”, em 1990, já era uma escritora consagrada. Mesmo assim, causou polêmica e rejeição no meio literário. Escritores conservadores a atacaram, mas Hilda sustentou sua escrita, localizando-a como “um ato de agressão”, uma “ação vigorosa”, não apenas pelo conteúdo pornográfico, mas também pela forma de sua escrita. Você poderia comentar em que sentido a escrita de Hilda Hilst foi revolucionária e rompeu com a tradição no próprio modo de escrita?

Claudio Daniel: Hilda Hilst era lida e conhecida por um pequeno círculo de leitores; os seus livros eram publicados por editoras independentes, como a de Massao Ohno, e recusados por grandes editoras, como a Companhia das Letras (que curiosamente publicou a poesia completa de HH, em 2017, treze anos após o falecimento da autora). A publicação de suas obras “pornográficas” causou surpresa a certos leitores e críticos, que a acusaram de ter aderido a uma escrita “fácil”, “comercial” ou “popular” para “fazer sucesso”, abandonando a “seriedade” de sua lírica anterior. Claro que, por trás de tais acusações, há também o moralismo de quem não suporta o sexo e o palavrão na literatura; neste sentido, podemos falar, sim, numa reação conservadora. Sem dúvida, HH revolucionou a sua própria escrita, ampliando a temática, o vocabulário e as formas narrativas de seus poemas. Todo grande poeta, em minha opinião, almeja superar-se sempre, jogar o dardo cada vez mais longe, para não se acomodar a uma única forma. E HH foi um verdadeiro furacão na poesia brasileira contemporânea.

*Claudio Daniel é poeta, autor de Yumê (Ciência do Acidente, 1999), A Sombra do Leopardo (Azougue Editorial, 2001, prêmio Redescoberta da Literatura Brasileira) Figuras Metálicas (Perspectiva, 2005), entre outros livros de poesia, tradução, ficção e ensaio . Doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo, é também editor do blog Cantar a Pele de Lontra http://cantarapeledelontra.blogspot.com) e da revista eletrônica Zunái, Revista de Poesia e Debates (www.revistazunai.com). Foi colunista da revista CULT e curador de Literatura e Poesia no Centro Cultural São Paulo. Hoje, Claudio Daniel ministra cursos de poesia no Laboratório de Criação Poética, via Skype. E-mail de contato: claudio.dan@gmail.com

 

Porque há desejo em mim, é tudo cintilância.

Antes, o cotidiano era um pensar alturas

Buscando Aquele Outro decantado

Surdo à minha humana ladradura.

Visgo e suor, pois nunca se faziam.

Hoje, de carne e osso, laborioso, lascivo

Tomas-me o corpo. E que descanso me dás

Depois das lidas. Sonhei penhascos

Quando havia o jardim aqui ao lado.

Pensei subidas onde não havia rastros.

Extasiada, fodo contigo

Ao invés de ganir diante do Nada.

Hilda Hilst, in ‘Do Desejo’ (1992, publicado pela Ed Globo, 2004)
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#Cinema conexões e desconexões – Deixe a luz do sol entrar: o que dos desencontros amorosos não cessa de se escrever?

by secao_sp in Jornada 2018

Foto: “O Muro do Eu te Amo”, por Janaina de Paula Costa Veríssimo

Por Janaina de Paula Costa Veríssimo

“[…] o discurso amoroso é hoje em dia de uma extrema solidão.”

(Roland Barthes)

Deixe a luz do sol entrar já revela um paradoxo de saída, ao ser lançado como uma “comédia romântica”. O que, basicamente, fundamenta o argumento de um longa desse subgênero cinematográfico é que dois personagens se conheçam, não se envolvam amorosamente por certo tempo, reencontrem-se, após diversas cenas cômicas, e descubram que foram feitos um para o outro. Existem variáveis possíveis na escrita do roteiro e o final feliz não é condição sine qua non.

No entanto, o longa de Claire Denis, que contou com Christine Angot, figura já bastante cara no meio psicanalítico, como roteirista, revela elementos nada cômicos. Pois se os reiterados desencontros de uma mulher em sua infinita demanda de amor relançam o espectador em algum riso, ele pode ser, no mínimo, um riso que comporta desconforto.

A sinopse nos indica que Isabelle é mãe, divorciada, parisiense, uma artista plástica de sucesso que se vê às voltas com os seus insucessos no amor. Ela se revela infortunada em seus relacionamentos, mas segue em busca do parceiro ideal. Trata-se de uma bela mulher que demanda, além de um novo, um verdadeiro amor.

O longa não se constitui exatamente em uma adaptação do precioso Fragmentos de um discurso amoroso, de Roland Barthes, mas uma sutil inspiração pode ser lida em suas entrelinhas. Em uma entrevista de Juliette Binoche[1], ela diz que a própria Claire afirma que o filme tem um “perfume” de Barthes. Binoche, aliás, está brilhante na pele de Isabelle, sua performance realmente ilumina o filme e captura o espectador.

Comecemos por alguns fragmentos:

***

“ABISMAR-SE. Lufada de aniquilamento que atinge o sujeito apaixonado de desespero […]”[2]

Assistimos a uma mulher abismada, em seu ponto de desespero e não-lugar, diante de uma demanda desenfreada de amor. Ela se endereça, ora para um banqueiro estúpido ou para um jovem ator narcisista, ora para o ex-marido e, ainda, para um desconhecido, com quem dança a belíssima At last, na voz de Etta James. Mas na contramão da canção[3], sua tranquilidade dura pouco e ela se vê em uma série que parece não ter fim, e que a coloca diante da solidão e da angústia.

***

“ANGÚSTIA. O sujeito apaixonado […] se deixa levar pelo medo […] de um abandono, de uma reviravolta – sentimento que ele exprime sob o nome de angústia.”[4]

A mulher cai abandonada. O roteiro do filme gira, precisamente, em torno dos desencontros amorosos de Isabelle. Mas o que pode fundar o amor senão o encontro? O que faz fracassar o encontro, além do imperativo que circunda e orienta essa mulher? Há um ideal: o verdadeiro amor, um amor que se torna impossível.

Dos desencontros, não cessa de se escrever a impossibilidade e Isabelle paga por isso com o alto preço da angústia. Há um insuportável desse lugar que, paradoxalmente, ela segue ocupando. Um gozo paradoxal e insuportável.

***

“INSUPORTÁVEL. O sentimento de um acúmulo de sofrimentos amorosos explode neste grito: “Isso não pode continuar.”

Ela tropeça nos desencontros e se vê às voltas com as botas pretas de cano alto atadas ao corpo. Na solidão de seu exílio particular, tenta impetuosamente retirá-las e arremessá-las longe após, mais uma vez, fracassar no encontro.

Durante todo o filme, o que se recolhe é algo que poderíamos aproximar da ideia de uma foraclusão do acaso; Isabelle coloca-se incessantemente em um enredo dramático. Ela se lança na necessidade de encontrar um verdadeiro amor, enquanto não abre espaço para o contingente. Trava, então, uma luta feroz, na qual o campo da contingência tem como grande inimiga a necessidade. Ela precisa de um amor de verdade.

Precisamente, o que dá contorno à histérica é a divisão que se evidencia pelo par antinômico desejo e gozo. “De um lado, a histérica recusa ser a mulher; do outro, porém, é à mulher que ela se refere”.[5] Na histeria, a mulher é, com efeito, o que ela não sabe ser. Por esse motivo, Dora interroga a Sra. K. sobre a sexualidade feminina. O que está em jogo para ela, Dora, é a pergunta sobre como proceder para que um homem goze. A histérica aposta que a mulher comporta esse saber.

“Essa distância entre a histérica e a mulher é a razão do drama da ruptura. O homem a deixa […], ou, ao contrário, é ela que o deixa”[6], perpetuando, assim, o desejo insatisfeito e a errância amorosa.

***

“ERRÂNCIA. […] o sujeito […] compreende então que está destinado a errar até a morte, de amor em amor.”[7]

“Para uma mulher, um homem é uma devastação […].”[8] Isabelle se vê devastada diante daquilo que os homens lhe dizem. A devastação do desejo também irrompe diante daqueles que fecham a boca e lhe ferem por nada dizerem. Ela se sente privada da palavra de amor que selaria o encontro.

O discurso amoroso intenta “explicar as versões dos amantes para a causa enigmática disso que os enlaça e sustentar seu futuro. Enquanto tal conversa durar, dura o amor.”[9] Em uma cena bastante emblemática, aquela mulher, não sem angústia, insiste na duração de uma conversa. Ela posiciona a mão na maçaneta interna do carro, ensaiando abri-la, mas só abandona o veículo quando o amante aceita o convite para subirem juntos até o seu apartamento. Não há qualquer sinal de laço, nem de futuro. Fazem amor, mas não sustentam o encontro.

Qual é o real que assim insiste? Não haveria, no cerne de uma tal insistência, o real da duração de um não?[10] Haveria na busca obstinada de Isabelle, uma recusa do encontro? O que dos desencontros amorosos se escreve, que não a insatisfação, elevada à sua máxima potência?

O amor é aquilo que inevitavelmente fracassa e exige invenção, novas declarações, para fazer ressurgir a parceria. Sem amor, torna-se impossível o trabalho que “move os amantes, em termos de desejo e gozo”[11] e sua dissimetria.

O que faz de uma mulher um sintoma para um homem? Certamente, a contingência de um real em jogo que mobiliza o encontro. “É preciso, então, que um encontro com o real, de um modo ou de outro, se produza.”[12]

O amor engendra uma originalidade por ser posto em causa, a cada momento, em função do saber inconsciente que o sustenta. Assim, para Lacan, “fato, é que, se eu amo, eu quero saber. E, em particular, quero saber o que advirá do encontro.”[13]

Os amantes se interessam pelo tema da duração, por um saber que gira em torno da seguinte questão: o que sustenta o amor? “[…] diante do encontro, não se espera mais do que um contorno para o sentido da vida, vivido, se possível, com a alegria da surpresa.” – sim, as surpresas do amor, advindas do encontro! Trata-se de viabilizar uma aposta, um saber fazer com aquilo que produz surpresa, com o que atravessa o real dos dias, não sem avançar em direção a uma invenção cotidiana.

***

E do que exatamente Isabelle parece não querer saber?

Um penúltimo verbete:

“MAGIA. Consultas mágicas, pequenos ritos secretos e ações de graça não estão ausentes da vida do sujeito apaixonado, qualquer que seja sua cultura.”[14]

Isabelle se dirige a uma cômica figura, espécie de vidente, guru, encarnado pelo genial Gérard Depardieu, que não hesita em recomendar-lhe: “Esteja aberta”.

Talvez o cômico, possa advir de uma virada que faça corte na infinitização do gozo, lá onde a relação sexual não cessa de não se escrever, pois “só amor permite ao gozo condescender ao desejo”,[15] aprendemos com Lacan.

Uma coisa é fato: cada um tem sua responsabilidade naquilo que lhe ocorre, e não seria diferente no acontecimento que é o amor. “Com efeito, não é a mesma coisa que estar aberto ou fechado para o encontro. Se alguma coisa como isso acontece, é preciso que, neste momento, eu queira alguma coisa e que uma porta se tenha aberto.”[16]

O guru segue certeiro: “talvez você já esteja cansada de tanta desconexão”. Ele convida Isabelle a um salto: da estafante missão “procura-se um verdadeiro amor” ao consentimento com a contingência.

Deixe a luz do sol e a contingência entrarem. Quando elas batem à porta, alguns raios solares já podem estar invadindo a casa, pelas frestas das janelas uma luminosidade furta-cor se espalha. As cortinas balançam, pode haver vento, assim a vida pulsa.

***

Por fim, trata-se de:

“COMPREENDER: ‘Quero compreender (o que me acontece!)’

Ao sair do cinema, sozinho, remoendo o meu problema amoroso, que o filme não pudera me fazer esquecer, solto esse grito estranho: não: que isso termine!”[17]

Eis aqui, reiterada, a possibilidade de uma virada cômica, rir da própria novela edípica e do que ela comporta de resposta fantasmática frente ao Outro. Um querer saber sobre o seu sintoma abriria vias para um novo modo de satisfação? “A experiência de uma análise poderia produzir para o falasser algo da ordem de um feliz encontro?”[18] Quanto a Isabelle, de nada podemos nos certificar, apenas que ela sorri diante das palavras do guru. Aos analistas, cabe a aposta decidida na transferência, fundamento bastante atual, em tempos de des(conexões) do amor.

 


REFERÊNCIAS:
BARTHES, Roland. Fragmentos de um discurso amoroso. 2. ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves Editora, 1981.
CALDAS, Heloisa. O amor nosso de cada dia. In:_____. Opção lacaniana online. Disponível em: <http://www.opcaolacaniana.com.br/antigos/pdf/artigos/HECOamor.pdf> Acesso em: 28 de jun. 2018.
CALDAS, Heloisa. O delírio no cotidiano do amor. In:_____. Latusa digital, ano 7, n. 42/43, ago. dez, 2010. Disponível em: <http://www.latusa.com.br/pdfs/pdf_latusa_digital_42_43_a2.pdf> Acesso em: 28 de jun. 2018.
NAVEAU, Pierre. O que do encontro se escreve. Belo Horizonte: EBP Editora, 2017.
LACAN, Jacques. Aforismos sobre o amor. In:______. O seminário, livro 10: a angústia (1962-1963). 2. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998, p. 188-200.
PAMPONET, Reinaldo. Felicidade… um encontro que não faz laço. Opção lacaniana online. Disponível em: <http://www.opcaolacaniana.com.br/antigos/pdf/artigos/REPFeliz.pdf> 28 de jun. 2018.

[1] Disponível em: <https://istoe.com.br/juliette-binoche-fala-sobre-deixe-a-luz-do-sol-entrar-de-claire-denis/> Acesso em: 27 de jun. 2018.
[2] BARTHES. Fragmentos de um discurso amoroso, p. 09.
[3] “Ohh yeah yeah/At last/The skies above are blue/My heart was wrapped up in clovers” (Ohh sim sim/Enfim/O céu está azul/Meu coração estava coberto de tranquilidade).
[4] BARTHES. Fragmentos de um discurso amoroso, p. 22.
[5] NAVEAU. O que do encontro se escreve, p. 179.
[6] NAVEAU. O que do encontro se escreve, p. 180.
[7] BARTHES. Fragmentos de um discurso amoroso, p. 86.
[8] NAVEAU. O que do encontro se escreve, p. 226.
[9] CALDAS. O delírio no cotidiano do amor, 02.
[10] NAVEAU. O que do encontro se escreve, p. 78.
[11] CALDAS. O delírio no cotidiano do amor, 03.
[12] NAVEAU. O que do encontro se escreve, p. 222.
[13] NAVEAU. O que do encontro se escreve, p. 277.
[14] BARTHES. Fragmentos de um discurso amoroso, p. 146.
[15] LACAN. O Seminário, livro 10: a angústia, p. 197.
[16] NAVEAU. O que do encontro se escreve, p. 258.
[17] BARTHES. Fragmentos de um discurso amoroso, p. 50.
[18] PAMPONET. Felicidade… um encontro que não faz laço, p. 04.
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#Algumas palavras (resenha) – “Só o amor permite ao gozo condescender ao desejo”[1]

by secao_sp in Jornada 2018

Foto: Instagram @contemporary_art

Por Jovita Carneiro de Lima

“O amor me pegou
E eu não descanso enquanto não pegar
Aquela criatura” [2]

O gozo é do corpo próprio, o desejo é do sujeito, efeito da articulação significante tributária da submissão à linguagem. Entre eles, o amor como ponte, como o que faz laço, como o que “pega”.

O gozo não descansa, tem a mesma batida sempre, é auto-erótico, é atributo do corpo vivo. No entanto, a partir da ação da linguagem sobre o corpo, da entrada no campo do Outro, perde-se o acesso direto ao gozo. Ser falante implica em necessitar do amor para alcançar o gozo. Inversamente, enquanto localizado no corpo, o gozo deverá passar pelo amor para encontrar o desejo ou, como diz Lacan “propor-me como desejante, eron, é propor-me como falta de a e é por essa via que abro a porta para o gozo do meu ser”[3].

No ensino de Lacan o Seminário 10 é, digamos, o ponto alto do objeto a. Vejamos: é o que anuncia a presença da angústia, afeto que não engana e sinal do real; é resto que cai do corpo e deixa bordas pulsantes; é marca singular de gozo e é segundo Lacan, o que dá acesso ao Outro.

Então, como é que o amor entra nessa história? Como engano, diz Lacan, como véu, cuja fórmula escreveu i(a). É a imagem, por onde o corpo é apreendido em sua forma, que vem esconder o estatuto de resto, de dejeto do objeto mais-de-gozar, tornando-o brilhante e belo, amável, para além da criatura que se procura na pista escura, sempre extraordinária, para quem nela vê um traço do seu gozo singular.


 

[1] Lacan, J. – Seminário Livro 10: A angústia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, p. 197.
[2] Caetano Veloso/Cássia Eller – Gatas Extraordinárias: Álbum: Sem você meu mundo ficaria completo. Universal Music.
[3] Cf. Lacan, J. – Op. cit., p. 198
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#Match – Exposição “A letra é a traça da letra”

by secao_sp in Jornada 2018

(Foto: Website Instituto Tomie Ohtake)

O Instituto Tomie Ohtake traz a exposição “A letra é a traça da letra”, de Helena Trindade, a curadoria é de Glória Ferreira. Nas instalações, compostas por esculturas, vídeos, fotografias, objetos e performance, a artista organiza um conjunto poético a partir da letra. Na abertura da exposição, em (a) MURO, dois muros são (des) construídos a partir de estênceis de letras, que abordam, segundo a artista, aspectos do funcionamento da linguagem, e evocam Lacan quando se referem ao “muro de linguagem  que se opõe à fala”, remetendo ainda ao neologismo lacaniano (a) mur, que conjuga as palavras “amor” e “muro”. 

Local: Instituto Tomie Ohtake
Endereço: Av. Brigadeiro Faria Lima, 201, Pinheiros, São Paulo – SP
Abertura 12 de julho às 20 h.
Visitação até 19 de agosto.
https://www.institutotomieohtake.org.br/exposicoes/interna/helena-trindade-a-letra-ac-a-traasa-da-letra
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#Algumas Palavras – Resenha: Amor e Sexo – Camila Popadiuk

by secao_sp in Jornada 2018

(Foto: Instagram @cappuccino_um_10)

“A transferência é aquilo que manifesta na experiência a atualização da realidade do inconsciente, no que ela é sexualidade. […] Se estamos certos de que a sexualidade está presente em ação na transferência, é na medida em que em certos momentos ela se manifesta a descoberto em forma de amor. É disso que se trata”.[1]

A primazia do falo na organização da sexualidade humana produz como efeito a não inscrição da relação sexual, naquilo que concerne à proporcionalidade entre os sexos. Na experiência analítica são as incidências do significante no corpo e suas consequências na vida psíquica do sujeito que serão atualizadas.

O amor, enquanto forma de laço primário entre os seres falantes, comporta um caráter narcísico, na medida em que ele mantém à distância aquilo que há de mais estrangeiro ao sujeito. Ao obedecer às exigências do eu, ele visa a totalidade da imagem. Porém, ao mesmo tempo em que ele é uma resposta ao que não se inscreve no real da sexualidade, ele revela paradoxalmente esta não relação entre os sexos.

Em “Uma conversa sobre o amor”, Miller indica que “o amor guarda uma relação com a, e que o amor de transferência constitui um véu do estatuto de desejo de tal objeto”[2]. Em suma, o amor mantém uma relação estreita com o objeto causa de desejo. E mais a frente, Miller acrescenta: “… para poder falar de amor é necessário que a função a seja velada pela imagem, a imagem de outro ser humano, e talvez de outro ser humano e de outro sexo”[3].

O amor, enquanto endereçamento de uma pergunta fundada sobre o objeto causa de desejo do sujeito se apresenta, na transferência, pelo o que Lacan chamou de Sujeito Suposto Saber. Trata-se de um saber deslocado no Outro do analista e que, à posteriori, recai sobre o próprio sujeito. O amor é assim a questão colocada ao Outro e, a isto que ele nos responde, se liga o amor[4]. Lacan afirma que ele é a condição da transferência[5]. Neste sentido, o analista está concernido na experiência analítica, o que leva Lacan a colocar em destaque o desejo do analista como operador fundamental do tratamento, uma vez que o analista deve saber de onde, de que lugar, o sujeito se situa para se dirigir ao S.s.S.

 

 


[1] Jacques Lacan. Seminário Livro 11, Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 1973, p.165.
[2] Jacques Alain Miller. Uma conversa sobre o amor. Opção lacaniana online, nº2, 2010, p. 6.
[3]Ibid, p.8.
[4] J. Lacan. Séminaire Livre VIII, Le transfert. Paris: Seuil, 2001. p.207.
[5] J. Lacan. Séminaire Livre XI, Les quatres concepts fondamentaux de la psychanalyse. Paris: Seuil, 1973, p.210.
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#Tempos Modernos – Rumo a uma questão sobre o Supereu em tempos de (des)conexão – Flávia Machado Seidinger Leibovitz

by secao_sp in Jornada 2018

(Foto: Instagram @vivillanova)

O argumento das VIII Jornadas da EBP- Seção São Paulo[1] nos convida a abordar as consequências clínicas da expressão do desejo e do gozo nos tempos atuais e põe na mira desenvolver o que os termos conexão e (des)conexão nos convidam a aprender sobre o sujeito e o inconsciente nos tempos atuais.

Que tempos atuais?

A nós, analistas, sempre nos coube e caberá a inesgotável tarefa de alcançar no horizonte a subjetividade da época, tal qual proposto por Lacan desde 1953[2]. Assim, nos vemos novamente com a pergunta que nunca cessa de não querer calar-se: que tempos, afinal, são os atuais? Poderíamos resumi-los, por exemplo, ao condensar duas das descrições de Zigmunt Bauman: tempos da modernidade que é líquida[3] ser regida pela vida de consumo[4]. Mas, para além da sociologia e do pensador da época, a psicanálise avança no esforço de caracterizar a ordem do dia – já nem tão simbólica – no século XXI. São vários os esforços de descrevê-la por meio das vacilações do Simbólico, instabilidades do Imaginário e causalidades do Real[5], por exemplo, um modo lacaniano de falar dos “tempos atuais”. Assim, a nós nos cabe colher da clínica suas consequências e contribuir para os avanços que ajudem a descrever, a pintar a paisagem na qual podemos enxergar, ver – ou seria visualizar? conectados que somos – o horizonte da época, cernir cada sujeito e seus modos de gozo, contribuir para tratar o mal-estar da civilização em jogo.

Nas Jornadas passadas, nossos tempos foram descritos como Tempos nos quais o inconsciente é ignorado[6]. Ou ainda, como nos propõe o argumento para as próximas: 1) tempos nos quais o amor e o sexo poderiam ser medidos, mercantilizarem-se, fazerem parte das coisas da vida das quais usamos quando nos convêm1.                              

A produção à qual as jornadas nos convidam refere-se a estes tempos, tempos nos quais o sujeito hipermoderno quanto ao amor e ao sexo, parece querer contabilizar o mais de gozo e foracluir as coisas do amor1. E para seguir avançando com o que nos toca desenvolver…

De que querer se trata?

Naquilo que o argumento constrói permite ler aí um “mais-de-querer”, condensando nesta alusão ao termo lacaniano, mais-de-gozar, a lógica utilitarista dos objetos de consumo e a satisfação imediata e prometida, instalando o circuito no qual o sujeito se torna ele próprio objeto de consumo; fenômeno já tão bem descrito como ao alcance da mão hedonista no supermercado hipermoderno. Querer que reina, no qual o objeto a comanda a cena, e não mais o amor ao Pai1, tornando-se objetos de consumo também suas relações, amorosa e sexuais; quando (…)a inexistência da relação sexual não apenas se mostra, mas também se coloca como matéria e objeto de fetiche e de consumo1. Pois bem, esta forma de querer, nestes tempos assim caracterizados, conecta, ou (des)conecta?

Vale lembrar que nestes tempos, também descritos como tempos que correm – e correm tanto que dizer “amores líquidos” já ficou datado -, podemos perguntar que status têm hoje os amores que ontem eram líquidos. Terão evaporado os amores de tão voláteis? O amor já veio e já foi, passou e ninguém viu, antes mesmo de fazer conexão? Brincando com isso é interessante viajar nessa onda, ou melhor, nessa rede, e ver que os amores então evaporados ganhariam vida no mundo virtual, uma vez que suas partículas teriam chance de se transformar ao encontrar o ambiente da “nuvem”, e mediante a reação química da condensação –- no cyberespaço, “fazer chover na horta” de alguém? Condensação dos vapores em líquidos, aqui é uma metáfora para dizer do que pode ganhar corpo, dar um corpo para os antes sólidos antes desmanchados no ar… Quero dizer, esses encontros podem fazer conexão? Ou dizem mais de uma desconexão? Que o mundo hoje seja conectado, podemos pensar ainda que caracteriza nosso tempo, como tempos do Outro da conexão permitiriam possibilidades para o amor existir em outros estados, ou ficaremos na nostalgia do amor sólido dos tempos do Pai? A tarefa é grande para delimitar e construir

Enfim, que consequências colhemos na clínica, quer saber a organização da VIII Jornada. Na direção que os argumentos apontam, para concluir, tento esboçar aqui uma questão que fica mais próxima, por exclusão, de ser alojada no eixo 1. O primeiro dos eixos de trabalho das VII Jornadas nos recorda que, no último Lacan, fora da prevalência do simbólico, a referência ao Outro está submetida ao Um da existência do gozo, conforme ele desenvolveu no Seminário 19[7], afirmando que Existe apenas o Um. O axioma “Há-um” corresponde a um gozo real, sem Outro, desenvolvido por Lacan especialmente no Seminário 19, teria marcado em seu ensino a passagem do “Não há relação sexual” para o Sinthoma, sendo retomada a fórmula “Há o Um” no Seminário 23.

Freud formulou o Supereu como uma das instâncias do aparelho psíquico, responsável pela consciência moral, herdeiro do Complexo de Édipo. Lacan faz evoluir o conceito formulando-o a partir do imperativo categórico kantiano[8], enquanto imperativo de gozo, que se manifesta por meio da pulsão invocante: “Goza!” No mesmo Seminário 19 formula que “(…) O falasser é essa relação perturbada com o próprio corpo que se chama gozo”[9]. Pretendemos investigar, então, as particularidades desta perturbação em nossos tempos, e como verificamos na clínica, o Supereu.

Conexões, ou (des)conexões, empuxo ao gozo e Supereu, afinal, questões…

Fazer fusão com partículas evaporadas de outro corpo constituindo-se em um novo e então possível amor “líquido”? Enquanto podemos nos divertir para despertar de uma possível perplexidade – e elaborar algo da “realidade” Black Mirror[10] que já é a que vivemos. Que tempos? Tempos, então, da ficção científica que já é realidade, e já nem cabe distinguir, se virtual ou não. Estamos cada vez mais próximos desta fronteira borrar-se totalmente, se a inteligência artificial em progressão geométrica coloca no horizonte o problema da obsolescência do ser humano, não temos como escapar de nos havermos com isso.

Se nos perguntamos se conexão ou (des)conexão levam ou não ao pior… em paralelo, pergunto: amores evaporados, amores fundidos no ambiente da nuvem podem ou não, reencontrando o estado líquido – como diria o poeta – aguar o bom do amor?

Enquanto analistas apostamos no despertar e, assim tendo à hipótese que nos leva a despertar da nostalgia do Pai: o gozo sempre foi autoerótico, em todos os tempos, com os aparelhos e modos de gozo existentes à cada época. Alguma particularidade do Supereu em nossos dias?

Encontramos nos relatos de passe, algo sobre o status do Supereu no final da análise: … tais testemunhos transmitem um certo apaziguamento da ferocidade do Supereu. Por outro lado, se também encontramos nos relatos de AEs a definição: O Supereu é o Outro… Se o Outro se esvazia, desconsiste em nossa época, porque o cenário seria do pior? Conexão ou desconexão, ou ainda (des)conexão? Que sutileza tal grafia aponta?

A questão vai em direção a que lugar do analista, que função à altura da subjetividade da época líquida regida pelo consumo? Como tratar, e conduzir a um saber fazer aí com a suposta maior ferocidade da lei de ferro do Supereu em tempos do discurso do capitalista? Enfim, e por fim, questões… com as quais pretendemos avançar.

 

 


[1] Marucio, V. Amor e Sexo em tempo de (des)conexões. In Boletim #Cupid01; acessado em 24.06.2018. http://ebp.org.br/sp/jornadas/viii-jornadas/argumento-viii-jornadas/
[2] Lacan, J. (1953) Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise, Escritos, Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1998.
[3] Bauman, Z. Modernidad líquida. Fondo de cultura económica. Buenos Aires, 2004.
[4] Bauman, Z. Vida de consumo. Fondo de cultura económica. Buenos Aires, 2007.
[5] Laia, S. Vacilações do Simbólico, instabilidades do Imaginário e causalidades do Real e a presença do psicanalista. Revista Curinga EBP-MG, Como se analisa hoje No.33, p.51-58, jul-dez 2011.
[6] Angelina Harari, ao transmitir o Seminário de Pierre Naveau. VII Jornadas da EBP-Seção São Paulo, Pai-versões, setembro de 2017.
[7] Lacan, J. (1971-1972) O Seminário livro 19. … ou pior. Jorge Zahar Ed., Rio de Janeiro, 2011.
[8] Kant, I. (1788). Crítica da razão prática. 4ª.ed. Rio de Janeiro: Ediouro, 2000. P.1-149.
[9] Lacan, J. (2012), O Seminário, Livro 19. 1971-1972, p. 41.
[10] série de televisão britânica  de ficção científica criada por Charlie Brooker e centrada em temas obscuros e satíricos que examinam a sociedade moderna, particularmente a respeito das consequências imprevistas das novas tecnologias. Os episódios (…) geralmente se passam em um presente alternativo ou em um futuro próximo. _ propriedade Netflix© _ https://pt.wikipedia.org/wiki/Black_Mirror
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#Ecos de Quarta – “A nossa onda de amor não há quem corte”! – Veridiana Marucio

by secao_sp in Jornada 2018

(Foto: Instagram @arts_gate)

São três horas da manhã, você me liga/ Pra falar coisas que só a gente entende/ São três horas da manhã, você me chama/ Com seu papo poesia me transcende/ Sua voz está tão longe ao telefone/Fale alto mesmo grite não se importe/ Pra quem ama a distância não é lance/ Pode ser de São Paulo a Nova York/Ou tão lindo flutuando em nosso Rio/Ou tão longe mambeando o mar Caribe/

Oh meu amor! Isso é amor!

Julio Barroso

Química ou delírio neurótico?

Freud comparava o analista ao químico e não hesitava em equiparar o dispositivo analítico a uma espécie de laboratório, onde se produziria um sintoma artificial – um sintoma sintético – para estar à altura da época, como apresenta Naparstek, ao qual se agregaria à sua natureza autoerótica o laço com o Outro[1]. Seguindo seu raciocínio, pode-se dizer que existe uma química da psicanálise: um processo de transformação dos sintomas em sintoma analíticos.

A química é também uma expressão comumente utilizada para dizer que um casal se dá bem na cama. Pode ser que na vida não possam nem se ver, mas na cama, “tem química!”. Freud buscava a química que existe entre o sujeito e o sintoma, buscava o que é que liga, conecta, de uma maneira tão especial e inexplicável[2].

Em uma neurose demoníaca do século XVII[3] ele havia previsto que o que se revestia sob a forma de neurose demoníaca reapareceria com uma roupagem hipocondríaca. Analisando a cura de Christoph Haitzmann, ressaltou que poderíamos reconhecer, nos relatos de possessão do passado, aquilo que a psicanálise havia revelado como sendo a essência do funcionamento neurótico. Haveria uma partícula desconectada, que se encontraria em toda neurose como resultado daquilo que escapa à articulação em palavras: um resto, ao redor do qual se ergueriam as psiconeuroses. A afirmação freudiana que generaliza a hipocondria ressoa na de Lacan: ‘todo mundo é louco’.

As montagens que o ser falante realiza veiculam desejos e fantasias que os tornam um tanto delirantes, pois essas montagens carecem de correspondências pontuais com a realidade, o que é válido para todos os sintomas. A linguagem permanece a base fundada sobre a fala e que por estrutura não muda. O que muda ao longo do tempo é o laço social, portanto o discurso.

O discurso, no qual os neuróticos se situam e fazem laços, é uma defesa do ponto de vista do Real. Podemos pensar que, com relação à química, ou sua falta, um neurótico pode acreditar nela, e por acreditar, ela existe. Isso deixa claro que não há estrutura na natureza e que a linguagem não dá conta do Real, ou seja, essas partículas isoladas por Freud podem se desconectar. Seria necessário então uma análise para que se decomponham. Do ponto de vista da psicose, a química seria uma grande loucura. Ou haveria química no Real? A química medicamentosa seria aqui uma tentativa de fazê-la existir no Real?

Miller[4] opõe à clínica diferencial uma clínica que seria irônica, tomando a ironia como a arma com a qual o esquizofrênico conta para minimamente tratar o Real, já que ele está, por estrutura, fora de qualquer discurso, denunciando a fragilidade do laço social. Quando se está mais do lado da impossibilidade da crença na química, seria a performance uma saída?

‘Lugar nenhum’!

No seminário Peças Avulsas Jacques Allain Miller[5] propõe o termo modernidade irônica, aproximando o sujeito contemporâneo da ironia do esquizofrênico: “A modernidade irônica, a modernidade que sabe que tudo não passa de semblante”. Vale lembrar que Lacan diz ‘todos loucos’, e não todos psicóticos. Há então uma aproximação que a clínica contemporânea põe em evidência.

Distintos mundos se tornam possíveis ao ser falante, esse ‘pleonasmo’. É justamente porque fala que é um ser pois só há ser na linguagem, diz Lacan na conferência de Louvain de 1972,[6] enfatizando a crença na definição precisa que ele dá do discurso – questão fundamental para pensar os sujeitos na contemporaneidade.

Marie Hélène Brousse[7] retoma essa citação de Lacan em um trabalho de pesquisa sobre a identificação e o laço social que pode nos levar a pontos que nos interessam para o desenvolvimento do tema das VIII Jornadas da Seção SP[8] e o XXII Encontro Brasileiro[9]. Segundo Brousse, a crença faz inverter o axioma que define a identificação ligada ao discurso do mestre, como o conjunto de significantes que representa o sujeito para outro significante, sendo o ego essa estrutura que a sustenta. O sujeito é que se crê ser representado por um significante para outro sujeito.

O Outro, correlativo ao Nome do Pai, hierárquico e tradicional, se apresenta hoje sem a hegemonia que o caracterizava no passado, e que funcionava de forma classificatória e segregativa a partir do “Você é um x!”. Brousse ainda retoma a definição de Lacan do discurso do mestre, que na língua francesa vem do magistério, mas que anteriormente era do discurso da dominação. Verifica-se uma mudança na ordem da dominação pelo múltiplo e pela tecnociência. O que se passa hoje, no campo do debate político sobre as identidades, popularizado pelos estudos de gêneros, colocou os marcadores identificatórios em questão ao não se basearem mais na natureza e na diferença da imagem perceptiva do corpo.

Como exemplo, podemos pensar no caso da primeira filha nascida de um homem, Thomas Beatie: Apesar do fato de que meu ventre esteja crescendo com a vida nova que está em mim, estou estável e situado, permaneço o homem que sou. Tecnicamente, me vejo como minha própria mãe grávida, ainda que minha identidade sexual enquanto homem seja constante.[10]

As mudanças em dois dos marcadores identificatórios que ela apresenta nessa conferência podem nos mostrar alguns caminhos para pensarmos sobre os temas de interesse, sendo o primeiro com relação ao marcador espécie: “Cremos que somos animais falantes, e reduzimos o comportamento dos animais ao instinto. Porém, percebemos, veiculados pela internet, inúmeros vídeos de animais, uns mais humanos que os outros. Há um verdadeiro movimento de reintegração dos animais pela vertente humana, reintegrados na humanidade”.

Percebe-se uma dupla mudança: uma tendência de um lado, a uma unificação dos corpos animados em uma mesma espécie, corpos vivos, e de outro, uma tendência a reduzir os corpos vivos em máquinas, sejam animais ou seres humanos, graças ao processo científico, o que leva à uma universalidade, porém à uma identidade menos definida. (Eu acrescentaria aqui todas as questões relativas às parcerias com robôs, inteligências artificiais). Enfim, são todos iguais!

O segundo seria com relação ao marcador espaço: a evaporação do Nome-do-Pai que Lacan já evocara, aponta claramente que estamos em direção a uma multiplicação de fronteiras sobre o mesmo espaço territorial. Brousse cita um artigo de Zigmunt Bauman[11] que acabara de sair na ocasião, que aponta para a confusão possível ou a indiferenciação do espaço virtual e real. Experiências de espaços perceptivos virtuais perfeitamente identificáveis e que não correspondem a nada vem ganhando todo tipo de investimento financeiro, em jogos, tendências, dispositivos utilitários.

Identidades Voluntárias[12] – Seja o que você quer ser!

Todo esse debate identitário dá lugar a uma “vontade subjetiva” . Ainda que a linguagem permaneça a base fundada sobre a fala, e que por estrutura ela não muda, como já apontado acima, sem dúvida estamos mais na linguagem do último Lacan, onde os S1s não são mais organizados pela ordem hierárquica da metáfora, mas sim em uma relação de vizinhança, como os territórios e fronteiras.

As identidades são, como consequência, fragilizadas, vaporizadas e também reivindicativas, afirmadas: “Eu sou, voluntário”. Essa nova identidade voluntária que se manifesta por um eu sou e não por você é, é consequência das cirurgias e mobilizam a dimensão da conversão. Mudar de identidade se faz hoje por conversão! “Assistiremos a conversões e reconversões múltiplas, pois o que caracteriza essa mutação do nome do pai é uma pluralização tamanha que cada um poderá ter a sua paróquia individual, constituindo conjuntos frágeis e inconsistentes”.

Nesse sentido, o laço social será fortemente afetado, remanejado, a partir de um significante que Brousse elege como importante: a compatibilidade. A busca de um espaço não-todo, onde dois juntos poderão fazer alianças momentâneas. Antes, havia um corpo que era dado ao simbólico, hoje uma multidão de significantes, autoproclamados, conjuntos frágeis e inconsistentes que sofrerem da falta de Um corpo, desse Um que será reduzido a um corpo sozinho.

A hipótese que ela levanta nesse seminário, a qual retoma em uma entrevista preparatória ao Encontro brasileiro, é a seguinte: não há mais o um da exceção do lado feminino da fórmula da sexuação e sim nenhum ou vários e isso acarretará consequências para a psicanálise no que diz respeito à transferência.

Fui comprar amor e nunca mais voltei!

Temos, então, o sujeito reduzido aos determinantes puramente significantes, tomados como objetos, formando pequenos grupos, unidos por uma relação partilhada de um aspecto bem específico da vida. Soma-se a isso o protagonismo dos gadgets, as latusas, que como um pharmakon, apresentam suas duas faces. Trago dois exemplos que evidenciam o que Brousse desenvolve:

O primeiro exemplo: e-harmony, aplicativo de encontros amorosos criado em 2000 por um psicólogo americano que trabalhava com aconselhamento de casais, sediado em Los Angeles. Ele declara hoje ter mais de 33 milhões de membros, e que mais de 500 pessoas se casam todo os dias, apenas nos Estados Unidos. Seu diferencial é que o seu algoritmo está baseado na crença de que a identificação das características das pessoas permite conectar os indivíduos por um princípio de compatibilidade e produzir relacionamentos mais satisfatórios. Seu slogan opposits attract, then attack. 29 Dimensions® of Compatibility for lasting and fulfilling relationships.[13]

O segundo é do caso de Ian Usher, o homem que pôs sua vida à venda na Internet. Eis os termos com os quais ele fez sua própria publicidade, enquanto bem de consumo desejável; talvez uma saída possível para os sujeitos nessa conjuntura: a de gozar da posição de objeto[14].

“Bom dia, meu nome é Ian Usher, eu estou ‘cheio’ da minha vida! Eu não a quero mais! Ela é para você̂, se você a quiser! Não, eu não penso em suicídio, eu vou vender minha vida! Tenho minhas razões. Se você quiser mais detalhes, clique no link ‘Why’. No entanto, não estou ainda certo se de minha parte se trata de uma loucura inspirada, de uma idiotia total ou de um gênero de crise dos quarenta. O que quer que seja, tudo está à venda em leilão. Tudo que tenho será vendido e regrado, tenho a intenção de partir de casa com minha carteira, em um bolso e meu passaporte no outro, absolutamente, nada mais, sem nenhuma ideia de onde ir nem do que o futuro me reserva”.

Mas, e o amor? e o sexo?

Ainda encontro a fórmula do amor’!

Há amores! O amor pode bem ser uma onda, como define a poesia, que conecta dois seres falantes, não importa qual seja a distância, como as ondas que mantinham os astronautas com sua moral ao sentirem-se acompanhados pela voz humana, podendo permanecer na esfera da linguagem com seus efeitos de verdade.

Depende do amor, pode ser que ele venha a se constituir como uma forma de conectividade que faça escoar o gozo. Porém, estamos falando de um tempo em que não se pode mais pensar que exista uma única forma de conexão, uma química, mas sim a cada vez, a cada conexão! Já com relação ao sexo, sabemos que não é possível que um mais um façam Um, nem dois! É sempre cada um sozinho. A desconexão fica evidente.  A impossibilidade da relação abre espaço para a invenção, para a surpresa, para a construção de conexões provisórias e contingentes, fórmulas singulares de amar.

Quando se trata do humano, existe conexão porque os gozos não podem se compartilhar, assim como o inconsciente obedece ao laço social porque não há relação sexual.

Não se trata de estarmos ou não, nós analistas, contentes com a hipermodernidade e com seus efeitos, sejam eles tranquilizadores ou devastadores, para cada sujeito. Um gadget, não é somente um deus[15], mas também um sintoma, que suscita um gozo, que parece não estar no lugar que deveria. Nesse sentido, consideramos, com Lacan no seminário XX, que as parcerias são sempre sintomáticas, apresentando uma conexão/desconexão entre amor e sexo, que resulta no modo de cada um viver a pulsão.

 

 


[1] Naparstek,F. La química del psicoanálisis, Lacaniana, EOL, Buenos Aires, 2010, p 33-34.
[2] Ibid.
[3] Freud, S. Uma neurose demoníaca do século XVII, Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, Imago, Rio de Janeiro, 1923, p 91-133
[4] Miller J.-A,. Clínica Irônica, Matemas II,
[5] Miller J.-A., Pièces détachées, La Cause freudienne, n° 60, Le Seuil/Navarin, Paris, 2005, p. 163.
[6] https://www.youtube.com/watch?v=-HBnLAK4_Cc
[7] Conferência disponibilizada na radio Lacan, 2015. http://www.radiolacan.com/fr/topic/704/3
Traduçao livre.
[8] Amor e sexo em tempos de (des)conexões.
[9] A queda do falocentrismo.
[10] The Guardian, http:// www.guardian.co.uk/world/2008/jul/05/gender.usa.
[11] https://epoca.globo.com/ideias/noticia/2014/02/bzygmunt-baumanb-vivemos-o-fim-do-futuro.html
[12] https://www.youtube.com/watch?v=-HBnLAK4_Cc
[13] https://techcrunch.com/2018/05/03/facebook-dating-eharmony/
[14] Voruz, V. Democracia e Psicose Ordinária, Latusa digital ano 6 N° 38, 2009. http://www.latusa.com.br/pdf_latusa_digital_38_a3.pdf
[15] Miller,J.-A. A pergunta de Madri, Opção Lacaniana 13, Edições Eolia, São Paulo, agosto de 1995, pp. 9-13.
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