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#Orientação – Que o real esteja ancorado![1] – Carmen Silvia Cervelatti

by secao_sp in Jornada 2018

(Escultura “Beam drop”, Chris Burden. Foto: Instagram @marcosvicari)

Esta interjeição de Lacan expressa um apelo em relação ao real. Para entendê-la é preciso retomar o ponto central que Lacan está articulando no capítulo XIII: Na base da diferença dos sexos no Seminário 19. No que diz respeito às relações sexuais, ele propôs a função φx como um modelo que permite fundamentar algo diferente do semblante, pois o gozo sexual não é semblante do sexual. O semblante permite o laço social e um discurso que não fosse semblante acabaria mal, não seria laço social[1]. Fora do semblante estaríamos, então, num campo em que o Outro não existe, não que ele não possa vir a consistir de alguma maneira, artifícios podem ser inventados para fazer suplência à não relação sexual.

Sabemos que o gozo sexual é uma diferenciação do gozo constitutivo do ser falante, este muito mais dado ao real, primário na constituição subjetiva. O gozo sexual fracassa sempre na busca da complementaridade, do Um com o parceiro sexual. Lacan, inclusive, chegou a compará-lo ao jogo do passa-anel: é este objeto que corre, mas que ninguém consegue enunciá-lo. Isso levou Lacan a afirmar que “é na própria prática da relação sexual que se afirma o vínculo do impossível e do real que promovemos, nós, como seres falantes, em toda parte. O real não tem outra atestação”[2]. Ou seja, se trata de uma impossibilidade que demonstra o real formulado como “não há relação sexual”.

Para o falasser, a relação sexual é uma ilusão. Diferimos dos animais, seres instintivos que sabem fazer frente ao parceiro dado biologicamente. O instinto é um saber já inscrito no organismo, fazendo da cópula uma invariável porque há um padrão determinado pela espécie.

No falasser não há este saber a priori, não se sabe “naturalmente” o que complementa os sexos, qual a devida proporção entre os sexos. Como seres de desejo, que subverte a necessidade, somos traumatizados pela intrusão da linguagem no organismo; porém nem o simbólico nem mesmo o imaginário recobrem totalmente o falasser; uma parte fica exposta, fora da possibilidade de ganhar sentido, fora do simbólico, instalando em seu cerne um fracasso, algo que rateia, por mais explicações, fantasias e ficções que se possam erigir para tentar remediá-lo, para encontrar a justa medida que responderia à eterna pergunta: o que o Outro quer de mim? Que posso ser para o Outro?

Sendo esta a época em que o Outro não existe, de desconexão, o recalque não faz mais sucesso, como o Édipo, porque os ideais já não servem mais de sustentáculo para a identificação. Então, como entender este comentário de Lacan, em 1973 em Televisão?

“Mesmo que as recordações da repressão familiar não fossem verdadeiras, seria preciso inventá-las, e não se deixa de fazê-lo. O mito é isso, a tentativa de dar forma épica ao que se opera da estrutura. […] O impasse sexual secreta as ficções que racionalizam o impossível de onde ele provém. Não digo que sejam imaginadas, leio aí, como Freud, o convite ao real que responde por isso.”[3]

Lacan lê, nesse texto, que Freud em seu “Mal-estar” evoca uma “maldição sobre o sexo”, atestada pelo discurso analítico, e que de maneira alguma seria possível suspendê-la. Por esta razão seria preciso inventar algo que se equipararia às recordações da repressão familiar. O impasse sexual vem do impossível da relação sexual, isso “é de estrutura”, esclareceu Miller no manuductio.

O impossível é um dos nomes do real, e o real, per si, convida, requer que ficções sejam inventadas para tentar recobrir o seu furo. As ficções são uma maneira de dar forma, mesmo que mítica, ao furo da não-relação sexual.

A ordem familiar, tradicionalmente, traduz um mito, o Édipo, uma das maneiras de simbolizar algo deste real. Tentemos acompanhar Lacan quando ele diz que seria preciso inventar as recordações da repressão familiar. Ele também afirma que sempre se inventa, mesmo que elas não sejam verdadeiras. Ou seja, a repressão familiar é uma ficção construída, não imaginada, algo da ordem de uma necessidade lógica para que o sujeito possa se situar frente ao desejo do Outro, função fálica, que organiza o caos da subjetividade, por isso é necessário inventar as recordações da repressão familiar, para colocar um limite, uma barreira ao gozo autoerótico. Freud disse, também em Mal-estar na civilização, que o Pai é uma proteção diante do desamparo. Na neurose há o Nome-do-Pai e a significação fálica, por isso a fantasia recobre e constitui o campo da realidade, lhe dá uma fixidez, e oferece material para as ficções. O psicótico faz ficções tecendo um delírio, porque o Nome-do-Pai não comparece. Para as psicoses ordinárias, Miller propôs o “fazer-crer compensatório”, uma invenção bem particular. O perverso, por desmentir a castração, cria um substituto para o pênis, o fetiche. Todas elas são invenções para tratar o real.

Ainda em Televisão, Lacan fala dos jovens que ao se entregarem a relações sem repressão são acometidos pelos sentimentos de tédio e morosidade. Falta lembrança da repressão sexual, falta ficção, porém é efeito de quê?

A mal-dição sobre o sexo

Em “O mal-estar na civilização” [1929], Freud postula a renúncia pulsional, que o desvio dos objetivos sexuais ou a inibição da finalidade sexual da pulsão constitui a base do processo civilizatório. Esta renúncia deve ser economicamente compensada para que não se traduza em distúrbios, pois a pulsão sempre busca a satisfação, é seu propósito e sua vocação. Uma das saídas se dá pela formação do sintoma, uma satisfação substitutiva, um modo de obter satisfação frente à defasagem instalada pela inserção do ser na linguagem, frente à castração.

Quando Lacan fala em “maldição sobre o sexo”, implica não uma promessa de bem-estar e sim a impossibilidade do “bem-dizer” sobre o sexo. “Mal-dição” porque renuncia-se à possibilidade de dois fazer um, renuncia-se a satisfação autoerótica, instalando uma impossibilidade lógica, de haver um saber fazer com o Outro sexo por não haver um parceiro sexual “natural” para a espécie humana. A impossibilidade de um saber no real sobre a relação entre os sexos é a condição humana.

Como recuperar algo desta perda, patente pelo advento da linguagem, da perda da satisfação? Como bem-dizer o sexo? O gozo primordial perdido, após a operação da castração, pode ser recuperado por uma operação simbólica, que localiza, orienta o gozo, antes caótico, desorganizado. O falo dá um contorno ao caos inicial; para Lacan, trata-se de uma função, operada através da castração que permite ao sujeito organizar simbolicamente o gozo e encontrar satisfação a partir do Outro. O falo é um instrumento com o qual se pode lidar com a falta de um parceiro natural.

Para os dois sexos, lá onde falta um saber sobre o sexo, no inconsciente, inscreve-se a função fálica. O falo é então o referente comum para os sexos, masculino e feminino, porém cada um deles sustentará e exercerá esta função de maneira diferente. Não se trata de papéis imaginários, nem de conceitos ou comportamentos esperados para o homem ou para a mulher, ainda mais nos tempos atuais onde impera a diversidade. O viril orienta o comportamento do falasser homem, por sua subjetividade estar praticamente toda recoberta por esta função, a fálica, o que permite tomá-lo num conjunto; o mesmo não é válido para a mulher, parte de sua subjetividade fica fora deste referente, conserva-se fora desta lógica, impedindo a universalização do feminino. Por esta razão, Lacan fala que a mulher, não-toda submetida à função fálica, somente pode possuir o homem, o seu falo. O homem, “aquele que se vê macho sem saber o que fazer disto” (Lacan, Seminário 20), aborda a mulher através do objeto causa do desejo; às vezes um pequeno detalhe no corpo da mulher pode funcionar como condição para o homem se apaixonar. Estas são as maneiras do homem e da mulher buscarem recuperar a perda de gozo, pois o sexo biológico por si mesmo não indica o parceiro a nenhum dos indivíduos da espécie humana; e mais, não é isto que faz com que dois sujeitos se tornem parceiros. E mais, a busca não converge em encontro.

Para a psicanálise lacaniana, quando há parceria, ela é sempre sintomática, pois o sintoma, além de obstáculo, é mediação, é o melhor a ser feito. Neste sentido, bem-dizer o sexo é estabelecer uma parceria com o Outro sexo, cada um pode seduzir o parceiro a partir da particularidade da posição feminina ou masculina e de sua posição de sujeito.

A dor e a delícia do falasser

Em psicanálise operamos sempre a partir da contingência para tentar situar o real. Lacan fala em “fórmulas que, durante um tempo, elas formam uma assembleia com o real”[4], em “Radiofonia”, ao se referir ao famoso hipothesis non fingo de Newton, não finjo hipóteses, para dizer que são fórmulas que já estavam no real, escritas, prontas para serem descobertas. Para a psicanálise “não é que no real esteja escrita uma fórmula, tal como Newton pôde fazê-lo. Devemos, pelo contrário, inferir que no real há uma fórmula não escrita: a da não relação sexual, […] visto haver uma fórmula que falta e que faz com que a linguagem continue a funcionar em chicanas infinitas.”[5]. O sentido não se deixa capturar como um todo, senão pararíamos de falar, e mesmo quando o sentido foi capturado num enunciado, sempre abre para a pergunta: Mas, então, o que isso quer dizer? – demonstrando assim a existência de algo que não está escrito, não se escreve no real, o “não há” é uma fórmula que ancora o real a partir da função φx.

Não existe falta no real, ela só é apreensível por intermédio do simbólico. É o que nos esclarece o apólogo da biblioteca: falta um volume tal em seu lugar, que dá a devida dimensão que ali falta aquele livro. Esse lugar é apontado pela introdução prévia do simbólico no real. Por isso, essa falta pode ser facilmente preenchida pelo símbolo; ela designa a ausência e presentifica o que não está presente.

No Seminário 19[6], há uma indicação clínica bem importante de Lacan quanto ao real ancorado: a angústia (intrusão do Real no Imaginário, sem intermediação simbólica). Enquanto sinal do real, a angústia pode se apresentar sem nenhuma ancoragem, como o pânico tão bem exemplifica por tratar-se da angústia pura e bruta. É preciso fazer consistir o sintoma, sintomatizar a angústia. Frente ao real da pulsão há que se erigir alguma proteção.

O sintoma, desde Freud, é uma forma de satisfação, um modo de obter gozo, de responder à “não-relação sexual”; porém o sintoma também se constitui num envoltório formal, apresenta-se de uma forma e possui um sentido inconsciente, por esta razão ele torna-se decifrável pela interpretação psicanalítica. Busca-se recuperar algo perdido, o objeto primordial, para sempre perdido – isto se dá através do Outro, fonte de eterna angústia. Este é o fundamento que, ao aliar as dimensões do gozo, da satisfação pulsional, e do Outro da linguagem, faz do sintoma o sustentáculo do saber-fazer frente ao mal-estar da cultura e da existência de cada um no mundo. Ao final, o que perdura, o sinthoma, aquilo que real-mente se é, afinal ele é o que há de real! Nosso parceiro de todos os dias!

 

 


[1] Idem, p. 175.
[2] Ibidem, p. 167.
[3] LACAN, J. Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 2003, p. 531.
[4] LACAN, J. Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 2003, p.422.
[5] MILLER, J.-A. Silet: os paradoxos da pulsão, de Freud a Lacan. Jorge Zahar Ed., 2005, p.333.
[6] LACAN, J. O Seminário – livro 19: …ou pior. Rio de Janeiro: Zahar Ed., 2012, p.175.
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#Orientação – Mais longe que o amor – Christiane Alberti

by secao_sp in Jornada 2018

(Foto: Instagram sp_arte)

Um nada enigmático, a expressão de Lacan “fazer par” logo nos arrastou, em um ritmo vertiginoso, a um trabalho de estudo com os múltiplos recursos da doutrina e uma exploração nos quatro cantos dos discursos contemporâneos.

O par empurra cada um a saber. Sabemos verdadeiramente por que escolhemos tal parceiro? Por qual alquimia nos unimos para animar nossa existência? Não sem ele, não sem ela… por que permanecer com este quando é insuportável para mim? E por que abandonar aquele, se o amo? Por qual bizarrice meu irmão é tão presente nos meus amores? Por que construí esse laço tão doloroso, ou tão aditivo ou ainda tão incômodo com meu parceiro?

Quando acontece de essas questões conduzirem a procurar um psicanalista, trata-se menos de incriminar o outro na sua queixa ou sua reivindicação do que de saber qual harmonia obscura me liga a ele ou, para além disso, aos rastros da minha infância. Fazer par é um enigma para cada um porque “a significação da parceria é para cada um de nós uma questão que permanece aberta[1]”, como se o mistério permanecesse, como se a parceria ocultasse obviamente uma razão insondável, um sem porquê, um gozo obscuro não questionado. Fazer par vai mais longe que o amor, e é por isto que essas jornadas de estudo se ligam ao fundamento da parceria, para além do amor e do desejo. Não é necessário amar ou desejar para fazer parcerias: podemos fazer par em torno de uma causa, de um objeto comum, do ciúme, bem como de uma separação.

O par é mais atual do que nunca. Por quais razões? As identificações que tradicionalmente nos vinham da família foram embaralhadas, quiçá estão obsoletas. O ideal do conjugare se deteriora, a ponto de ultrapassar tendencialmente o poder da imagem silenciosa, assim como aquela marca de roupas que exibe nos grandes espaços publicitários a pose de casais comuns. São exemplos disto igualmente a moda atual do Just divorced[2], que nosso blog divulgou, na qual o evento é celebrado alegremente por meio de uma selfie sorridente. Não se trataria aí de fixar na imagem o fato de que esse casal realmente existiu, e até existe, pura e simplesmente?

Nossa civilização é aquela em que predomina o consumir sem desejar; a do primado do gozo fora da norma e do imperativo: um gozar o tempo todo e a qualquer preço, que nos isola e nos delega a nós mesmos. Esse estado da civilização nos convence e nos empurra precisamente a fazer par, a trabalhar para se ligar ao Outro, quer dizer, a moldar um tipo de laço mais ou menos problemático, pois para os seres falantes que somos, esse laço é realmente vital. Fazer par nos arranca de nós mesmos: esse movimento em direção ao Outro tem valor de causa para nossa vida. Em suma, como o laço social hoje não é mais regrado pela família, fazer par se apresenta como uma solução privilegiada para a dor de existir, para a solidão fundamental do falasser. Na falha do Outro, o desejo de parceria se instala rapidamente e faz sintoma hoje.

Jacques-Alain Miller nos convida a tomar a medida dessas perturbações atuais do laço social, daquilo que mantém juntos os corpos: “Nessa recomposição comunitária, exigida pelo desenraizamento que vence, sem dúvida o par é a comunidade fundamental. Ao menos, o formato casal é subjetivamente essencial”.[3] Fazer par, portanto, como forma essencial do laço social, na qual o múltiplo domina – uma infinita variedade de parcerias possíveis.

Na ausência da relação sexual programada, só se pode construir seu par inventando semblantes. Cada um se apaixona, especialmente, por toda sorte de ficções que nos capturam e fascinam. Elas nos fazem sonhar em fingir que fazemos existir a relação sexual, relação sexual que não existe: a soma um homem mais uma mulher, um homem mais um homem… não resulta automaticamente em uma parceria; é preciso mais. É por isso que admiramos casais célebres: Sartre e Beauvoir (a liberdade do casal existencialista), Vadim/Bardot (a nudez sem culpa), Bacall/Bogart, e mais recentemente Barack e Michelle Obama (fazer team), casais sublimes ou casais extraordinários, que convidaram ou encarnaram novos cenários com suas possíveis identificações.

Mas, para além desse fascínio, algo além da ilusão romântica do casal perfeito vale realmente. Outra coisa nos orienta em direção ao outro no que ele tem de mais real. É isto que Lacan nomeou como objeto a: “Nele, meu parceiro, há algo mais do que ele”, às vezes quase nada: um olhar, uma voz, a partir do qual tudo se constrói, sabendo que, igualmente em nós, algo mais forte nos habita. É o casal mascarado, aquele que surpreende seu próximos entorno – O que ela vê nele? – Frequentemente resultado de um encontro improvável em que dois seres de mundos diferentes (que o filme de Lucas Delvaux nomeia de maneira excelente como Pas son genre![4]) que acabam por fazer o par.

A psicanálise aposta nesse laço possível, alijado dos ideais. Ela leva de fato a sério os impasses do casal, seus fracassos, a fim de tornar mais leve o mal-entendido entre os sexos. Pois a falha é também o lugar de um gozo possível, compatível com o outro: um gosto, um desejo de estar nessa relação. Em suma, fazer par, apesar do mal-entendido entre os sexos e com aquilo que do outro me toca, acerta no alvo! Se o amor implica uma espera, a espera de um ser para além do parceiro idealizado, fazer par implica um trabalho e, portanto, uma energia, digamos uma boa saúde! O gozo da vida que nos transborda passa nesse fazer que o trata.

Para terminar, não resisto ao prazer de evocar esse tac au tac[5] do programa das Jornadas do sábado[6]: os duetos de psicanalistas que eu propus na abertura das simultâneas. Esses colegas da Escola da Causa Freudiana concordaram em encarar o jogo de vinte e duas questões sobre fazer par hoje. Abaixo alguns trechos escolhidos.

Margueritte Duras, o trio[7]

Margueritte nos propõe encontrar uma saída para os tormentos do dueto. Como o dois é tormento, dor, então nos aventuremos a três! “Sempre pensei, diz ela, que o amor se dava a três: Um olho que olha, enquanto o desejo circula de um a outro. “

Don Juan[8]

“Fazer par comigo é fazer par com um sonho. Elvire, aquela que me amava mais do que tudo, queria que eu sobrevivesse para me amar ao infinito, gozar de mim ainda e sempre”.

Molly Bloom, a briga[9]

Molly detesta as longas brigas na cama. Então não dizemos mais nada um ao outro. Brigamos em silêncio.

Leopold Bloom: E se eu tivesse falado com ela. Para lhe dizer o quê? / Nunca é um bom plano começar uma conversa sem saber como terminá-la. Colocar uma questão para elas / elas colocam outra para você. Coisa boa quando estamos apressados. Economiza tempo. Porém, podemos nos tornar tolos.

Molly Bloom: … o que o deixa louco / são as roupas íntimas / é claro / sempre a espiar essas espécies de mulheres audaciosas em suas bicicletas com suas saias que sobem até o umbigo…

De todo modo, sozinha no meio da noite, Molly se surpreende com o que “seu” Leopold lhe pediu, antes de adormecer, que lhe servisse, na manhã seguinte, seu café da manhã na cama com dois ovos. Por que, portanto, ele pede isso a ela? Nós também procuramos ainda a resposta!

Boris Vian e o casal do progresso: “La complainte du progrés”[10] O lamento do progresso

Autrefois pour faire sa cour (Em outros tempos para fazer a corte)
On parlait d’amour (Se falava de amor)
Pour mieux prouver son ardeur (Para provar seu ardor)
On offrait son cœur ( Oferecia seu coração)
Aujourd’hui, c’est plus pareil (Hoje, não é mais assim)
Ça change, ça change ( Isso muda, isso muda)
Pour séduire le cher ange   ( Para seduzir o anjo querido)
On lui glisse à l’oreille   (Desliza-se em seu ouvido)
Ah, Gudule!  Ah, Gudule !

Viens m’embrasser (Vem me beijar)
Et je te donnerai (E eu te darei)
Un frigidaire   (Uma geladeira)
Un joli scooter (Um lindo scooter)
Un atomixer (um mixer)
Et du Dunlopillo (e colchão Dunlopillo)
Une cuisinière (Um fogão)
Avec un four en verre (com um forno em vidro)
Des tas de couverts ( Vários talheres)
Et des pell’ à gâteaux (Espátulas de bolo)

Une tourniquette (um fatiador)
Pour fair’ la vinaigrette (Para fazer vinagrete)
Un bel aérateur (Um aerador)
Pour bouffer les odeurs (Para espantar os odores)

Des draps qui chauffent (Lencóis que esquentam)
Un pistolet à gaufres (um injetor de waffles)
Un avion pour deux (uma avião para dois)
Et nous serons heureux (e seremos felizes )

Emma Bovary : Fazer par para existir enfim[11]

E para terminar, Emma Bovary. Emma sofre de um incômodo mortal, um sentimento de vazio doloroso. Como não encontrou uma escuta benevolente com o padre de Yonville, ela poderia se endereçar a um psicanalista nestes termos: “Teria eu podido, nisto que vocês chamam de uma psicanálise lacaniana, não acabar morrendo desse mal que nem chega a ser um? Acredito, vocês não teriam permitido a vários de seus pacientes, tão próximos a mim, essas mulheres assoladas por um bovarismo, de encontrar em si, ainda que minúsculo, um gosto, um desejo de estar aqui, de estar ali…”

Emma não demandava nada além de fazer par, segundo sua expressão: “para me apoiar em algo mais sólido que o amor”.

Tradução: Veridiana Marucio
Revisão: Teresinha N. M. Prado.

 

 


[1] Lacan, J. (1955 – 56) O seminário, livro 3: As psicoses, Jorge Zahar Ed., Rio de Janeiro, 1985, p.152
[2] Recém divorciados http://www.fairecouple.fr/just-divorced-par-herve-damase/
[3] Miller,J.-A., La théorie du partenaire, les effets de la sexuation dans le monde », Quarto 77, julho 2002.
[4] Não é seu tipo!
[5] Bate-pronto
[6] O leitor pode encontrar os vinte e dois Bate-pronto, publicação numérica da Escola da Causa Freudiana: www.ecf.echoppe.com
[7] Jaudel N. e La Sagna PH., « Dialogue des ravissements », Tac au tac, op.cit.
[8] Lazarus-Matet C. e Hellebois Ph., “Le donjuanismo sera féminin”. ibid
[9] Naveau P., “Molly Bloom et la dispute”. ibid
[10] Marret S. e Adam R., Instruments, machines et autres partenaires”, ibid N.T. Em português, esse poema foi traduzido e musicado, gravado na voz de Letícia Cora, com o título: « Balada triste do progresso ».
[11] Biagi-Chai F., “Emma, l’ennui”, ibid.
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#Editorial Boletim #Cupid #03

by secao_sp in Jornada 2018

(Foto: Instagram @cimkedi)

Por Milena Vicari Crastelo

“Qualquer coisa
pergunta-me qualquer coisa
uma tolice
um mistério indecifrável
simplesmente
para que eu saiba
que queres ainda saber
para que mesmo sem te responder
saibas o que te quero dizer”

Excerto do poema “Pergunta-me”, in Raiz de orvalho e outros poemas. Mia Couto

(Foto: Instagram @estelionathalia)

Em nosso #Cupid, terceiro número, vocês encontrarão contribuições valiosas para a VIII Jornadas da Escola Brasileira de Psicanálise Seção São Paulo – Amor e sexo em tempos de (des)conexões.

A rubrica #orientação traz dois textos, um de nossa convidada Christiane Alberti: Mais longe que o amor, publicado na revista La Cause du Désir n° 92, texto escrito para 45° Journées de l´École da la Cause Freudienne, Journées, que por ocasião do atentado, em Paris de 13 de novembro de 2015, não aconteceu. Alberti, que irá abordar o enigma do fazer par, nos diz: “Fazer par vai mais longe que o amor”.

Carmen Cervelatti em seu texto Que o real esteja ancorado! Tece, à luz do seminário 19, mais precisamente capítulo XIII: Na base da diferença dos sexos, elaborações acerca desta interjeição de Lacan, título de seu texto e que expressa “um apelo em relação ao real”.

#Ecos de quarta traz um texto de Veridiana Marucio, fruto de uma atividade preparatória na Seção SP, que tem o título “A nossa onda de amor não há quem corte”! . Veridiana desenvolve cinco subtítulos, partindo da: Química ou delírio neurótico? até ‘Ainda encontro a fórmula do amor’. Seria o amor uma possibilidade de conexão para dois seres falantes?

Instigada pelo tema de nossa Jornadas Flávia Machado Seidinger Leibovitz traz suas contribuições e questões frente a estes tempos atuais no texto Rumo a uma questão sobre o Supereu em tempos de (des)conexão, que vocês lerão na rubrica #Tempos Modernos.

Na rubrica #Alguma palavras Camila Popadiuk traz uma resenha comentário partindo de uma frase de Lacan, no seminário 11, Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise.

#Match traz a exposição “A letra é a traça da letra”, de Helena Trindade que acontece no instituto Tome Ohtake.

#Referências Bibliográficas traz textos fundamentais para inspirar as pesquisas e escrita para a nossa Jornadas. Lembrando que o prazo para entrega de trabalhos termina em 17 de setembro       e no site vocês encontrarão os eixos e as normas para envio dos trabalhos!

Boa leitura a todos!

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#Editorial Boletim #Cupid #02

by secao_sp in Jornada 2018

(Imagem: Brazilian Art Developers/BAD; foto: @mariabaigur)

Caros leitores,

Bem-vindos ao #Cupid2!

Seguimos com a preparação para as VIII Jornadas da Seção São Paulo: Amor e sexo em tempos de (des)conexões. Apresentamos nossas contribuições com a expectativa de que vocês possam se conectar mais ainda ao nosso tema!

Em #Intervenções Artísticas, Fabíola Ramon aborda, em um breve texto, o trabalho de Bansksy, artista inglês que, assim como o rato utilizado no cartaz das jornadas, se lança na arte a partir do que faz furo na cidade, como ela nos aponta.

Em #Ecos de Quarta contamos com uma vasta pesquisa realizada por Fernanda Ottoni Brisset a partir de seu encontro com o livro – O que do encontro se escreve e de seu autor, Pierre Naveau, pela ocasião das Jornadas da Seção Minas de 2017. Segundo ela, o livro conversa de perto com o tema das nossas jornadas: “A lógica do encontro se articula, indiscutivelmente, com as conexões e desconexões, com o que não existe e o que insiste, com os fios que tecem um laço e o furo que desse laço participa”.

#Em tempos de Black Mirror traz uma contribuição de Marcus André Vieira. A série criada pelo britânico Charlie Brooker não trata somente de tecnologia, mas sim da forma como ela afeta a maneira como vivemos nos dias atuais. Sim, o tempo verbal está no presente! Como nos lembra Marcus André no texto que aqui apresentamos, fruto de uma atividade da Ação Lacaniana, os episódios estão centrados em fatos que podem acontecer em 10 minutos se formos desastrados! Eles ilustram onde podemos chegar com relação a diferentes questões presentes na atualidade. “É preciso a singularidade para amar”? Pergunta Marcus André no final de seu texto, questão que abre uma boa conversa e que se conecta ao nosso tema.

Aproveitem as dicas do #Match e se inspirem em suas pesquisas no #Referências Bibliográficas.

Aproveitem a leitura!

Veridiana Marucio
Coordenadora Geral das Jornadas
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Love Rat, de Banksy – sobre a imagem do cartaz das Jornadas

by secao_sp in Jornada 2018

BANKSY – Because I’m Worthless (Placard Rat)

Banksy, artista anônimo britânico[1], que assim como o rato do cartaz das VIII Jornadas da Seção S. Paulo, se lança na arte a partir do que faz furo na cidade, estilhaçando a ideia de intervenção artística e estabelecendo novas conexões e desconexões a partir da pintura do grafite.

No lugar da moldura, enquadramento do ideal romântico que vela o objeto e que almeja fazer suplência à não existência da relação sexual, o grafite de Banksy invade os (a)muros e brechas da cidade, fazendo sua arte existir em qualquer parte sem permissão, sem uma ordem ou norma estabelecida. Suas intervenções expõem e interpretam os furos da cidade, da política, das relações e do laço, sendo esses o seu suporte, sua “moldura”. A partir desse enquadre sem tela, suas obras mostram e criam novas e antigas conexões e desconexões que, ao serem interpretadas, reinventam a cidade e o laço.

Love rat, que ilustra o cartaz das Jornadas, faz parte de uma série. Banksy espalhou seus rats por várias cidades por mais de três anos, tocando em múltiplas questões desconcertantes e instigantes. Em uma declaração sobre os rats publicada no livro “Guerra e Spray”, Banksy sentencia: “Eles existem sem permissão. São odiados, caçados e perseguidos. Vivem no lixo em um desespero silencioso. E, mesmo assim, são capazes de fazer com que civilizações inteiras caiam de joelhos”[2]. A partir deste ponto de causa, ele faz explodir seu rat(anagrama de art) pela cidade em cenas, temas, questões e lugares que desalojam e despacificam os olhares e os corpos.

Os rats encarnam algo daquilo que não se escreve, mas que se apresenta como um índice (cifra) do retorno de um real, que, ao mesmo tempo em que incomoda e desconserta, expõe e agalmatiza o objeto em jogo nas mentes e nos corpos dos falasseres contemporâneos, que se procuram, se perdem, se encontram e se desencontram em seus (a)muros/amores.

 

Fabiola Ramon (correspondente da Seção S Paulo)
[1] Banksy é o pseudônimo do(s) artista(s?) que desde o final dos anos 80 inscreve sua arte pelos muros das cidades, principalmente no Reino Unido. Sua assinatura, seu traço e os temas abordados compõem sua linguagem artística. Muito se especula sobre sua identidade, uma das hipóteses é que Banksy é um grupo e não apenas uma pessoa…. No ano passado um jornal escocês publicou que Banksy seria Robert Del Naja, um veterano grafiteiro, vocalista da banda Massive Attack.
[2] Banksy- Guerra e Spray. Tradução Rogério Durst. Rio de Janeiro: Ed Intrínseca, 2012.
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O laço entre o amor e a coragem – Fernanda Otoni-Brisset

by secao_sp in Jornada 2018

(Foto: Gian Lucca Amoroso)

09 de maio de 2018 (EBP-SP)

O que do encontro se escreve, livro de Pierre Naveau, nos adverte que “a mola do encontro – o real do inconsciente – não deve ser esquecido.”[1] Isso nos ensina a ler a lógica do gozo nos encontros entre seres falantes. O livro conversa de perto com a Jornada deste ano, na EBP São Paulo: “Amor e sexo em tempo de (des)conexões.”

A lógica do encontro se articula, indiscutivelmente, com as conexões e desconexões, com o que não existe e o que insiste, com os fios que tecem um laço e o furo que desse laço participa. O binário Amor e Sexo interroga essa costura. Nem sempre amor e sexo andam juntos, aliás reunir esses dois em um instante é raro! O que verificamos, não raro, é a experiência de amar desconectada do sexo e a experiência do sexo sem amor. Mesmo quando se ama e se faz sexo com o parceiro, a disjunção está lá. É possível o encontro entre amor e sexo? Uma pergunta! Mas, seja como for, o que nos adianta Pierre Naveau é que para um encontro acontecer “é preciso, diz Lacan, coragem, e até mesmo, J.-A. Miller não hesita em dizê-lo, heroísmo.”[2]

Como ler essa provocação lacaniana?

Para início de conversa, é preciso falar de amor…

Em psicanálise, fala-se! Fala-se dos outros, fala-se sobre o que se pensa ser, sobre o que não sabe de seu ser, sobre a falta a ser, sobre o ser que sofre. “‘O que se faz no discurso analítico é falar de amor’. Tenho em meu ouvido esta afirmação de Lacan: ‘Falar de amor é, em si mesmo, um gozo’”[3]. Um gozo que, dirá Lacan no Seminário 20, “só se interpela, só se evoca, só se suprema, só se elabora a partir de um semblante, de uma aparência”[4]. O que se faz no discurso analítico é falar do amor que trabalha sem cessar para reunir Um gozo impossível de dizer a uma aparência de ser. Um para-esser (par-être)! A substância que vive no ser é incansavelmente incabível e fugidia, não cessa de tentar para-esser e fracassar; o amor é esse esforço do ser falante de conjugar o que não se conjuga: amor conjugal! Lacan conjuga assim o inconjugável: “eu para-sou, tu para-és, nós para-somos, e assim por diante”[5].

Bem fazemos de mergulhar no seminário “O ser e o Um” de Jacques-Alain Miller. Lacan nos leva a considerar que do ser jamais temos nada. “O ser se apresenta sempre por para-esser.

Do lado do ser estão as formas desse para-esser, que não é. E, do outro lado, o impossível de dizer, mas que existe, insiste e itera: o UM que é. Il y a de l’Un! Esse Um que só se apresenta por esse para-esser, ou seja, “o ser na lateral”[6]. O equívoco participa desse ajuntamento entre o Ser e o Um, entre a forma do ser que não é e o Um que é.

Um conto: dois antigos colegas, amigos de faculdade e nada mais, se encontram por acaso e descobrem que vão ao mesmo baile de máscaras. Ele vai de Pierrô, ela de Colombina. Lá se encontram e, inexplicavelmente, se encantam por aquele ser ao lado… sabe-se lá por qual mistério. O baile acabou, mas eles foram mais longe. Amaram-se como se não houvesse o amanhã. Ao acordar, perceberam-se ainda mascarados. Ao cair das máscaras, descobriram que ele não era ele e ela não era ela.

Não há relação entre as formas fractais do ser e o que é. Esse real localiza e atualiza, em um instante qualquer, que é enquanto hiância que a causa do desejo participa da estrutura do ser falante. Lacan, em as rodinhas de barbante, ensina que, “para todo ser falante, a causa do desejo é estritamente (…) equivalente (…) à sua dobradura, ao que chamei de divisão do sujeito”[7]. Essa dobradura abre, em sua divisão, a hiância que dá vida à máscara e nos dirige à clínica do parlêtre!

Não se trata aqui do encontro entre um sujeito e o Outro, mas comecemos por dizer que o encontro que nós estamos tentando ler, nas (des)conexões entre o amor e o sexo, resulta dos arranjos e desarranjos do parlêtre com seu Outro.

De que Outro se fala?

Éric Laurent, em Barcelona, cita Lacan de 1977 – sobre a noção de Outro marcado “com uma barra que o rompe: (A/)”[8]. Ao fazer incidir sobre ele a barra, o Outro é posto em questão. Não há uma relação necessária entre o Um e o Outro. Como mostra o conto, o Outro, de verdade, tem estrutura de ficção. A relação com o Outro não há de todo. Entre dois, há o Um e o a, é sempre “Um mais a[9]. Uma análise, dirá Lacan, “enuncia que o Outro nada mais é que esta duplicidade. ‘Há Um, mas não há aí nada de Outro’”[10]. Sigamos essa pista, “radical e sutil”[11].

Miller, em 1998, indica essa mudança de vertente e nos propõe irmos além. O Outro do significante é esvaziado de gozo, portanto, mortificado. Ele nos apresenta outra concepção de Outro, nos convida a alçar o Outro como corpo vivo. Nessa perspectiva, o corpo do Outro é um meio de gozo; o Outro “é tanto o corpo próprio como o corpo de outrem”[12]. Este é um novo modo de conceber o Outro. O Outro do parlêtre é, então, um parceiro do gozo – um parceiro-sintoma. Um parceiro cujo agalma é efeito da miragem que o objeto causa evoca.

Agora, sim, podemos ler outra vez em Lacan: “Há Um, mas não há aí nada de Outro”. Não há nada de Outro como lugar do significante puro, o que há é apenas e tão somente um parceiro do gozo. E não é pouca coisa esse nadica de nada aí. Miller, no osso, mostra que “o parlêtre, como ser sexuado, faz parceria não no nível do significante puro, mas no nível do gozo, e essa ligação é sempre sintomática”[13].

Quando pessoas de qualquer sexo se encontram, como o parlêtre aí concernido se serve do Outro no circuito de seu gozo? Como se conecta a um parceiro-sintoma? Isso não se ensina. Experimenta-se. Esse Outro, dirá Lacan, “só se atinge agarrando-se ao a, causa do desejo, é também do mesmo modo à aparência de ser que ele se dirige. Esse ser aí não é um nada. Ele é suposto a esse objeto que é o a[14].

É o que mostro nesta pequena vinheta publicada na revista Curinga, n. 31 ( 2010). A cena tem início por “um convite para ela jantar com um casal de amigos e um amigo deles. Rapidamente, estaria frente a uma enorme bandeja de ‘frutos do mar’. Como comer aquilo?” Com nojo, ela parece indagar como se tem coragem de comer isso. “E escuta o amigo do casal sugerir-lhe que seria mais fácil com as mãos. ‘Mas que porcaria’, pensa alto. O estranho, de soslaio, a alcança ao dizer: ‘francês adora uma porcaria’”[15]. Uma palavra que fere e desassossega no corpo a experiência do encontro com o Outro com aparência de ser. Um dizer que fura a cena e alcança a outra coisa. Naquela noite, ela faz um sonho: “passava mal, intoxicada com a porcaria borbulhando na barriga”. Ao elevar a coisa até a altura da goela, uma amiga íntima olha e diz: “não vejo bem se é resto de frutos do mar ou se é carne da sua garganta mesmo” – é preciso ver um especialista. “O analista deu uma olhadinha de soslaio no fundo da boca aberta. Sorriu e disse: Nada a fazer, siga”.

O parlêtre passa a suspeitar aí, por essa janela (greta do Outro, de soslaio), as cores do objeto que perscruta. O que aí se descortina dá a ver a lógica por onde a insistência de Um gozo, que não cessa de não se escrever, se localiza e passa. O que aí se experimenta é um real que faz par com o suposto a, cuja aparência de ser se ama. Aliás, “o que vem em suplência à relação sexual que não existe é o amor”[16]. E por essas veredas, no encontro com o Outro, faz a-paresser o que experimentamos e nos interessa.

Uns separados

Miller, em março de 2017, esclarece: “A perspectiva do sinthoma como Um produz Uns separados, não articulados, há aqui um radical ‘a cada um seu sintoma’… que convida a apreender cada um como um Um absoluto, isto é, separado.”[17] Esse Um trabalha sozinho e, o que do encontro se escreve, entre Uns, parlêtres, homens e mulheres, acontece por onda de ressonância, ao modo de uma revelia forçada.

Parada necessária aqui para sublinhar que, para nós analistas, “homem” e “mulher” são significantes e, como tal, não têm sentido algum. A forma insensata com a qual o real do gozo se resolve é única para cada um, na variedade colorida dos encontros com seus matizes opacos. “Lacan irá dizer que não há nenhuma maneira de repartir homens e mulheres através de seus atributos.” Há algo que “é puro real que se engancha diretamente com o corpo e não com a imagem. Engancha-se com o corpo nas experiências de gozo que são dissimétricas”[18], seja do lado homem ou do outro lado.

Como pensar esse enganche por esses dois lados? Pierre Naveau, a partir do ensino de Lacan, quando ele fala que é o estrupício do falo[19] que impede o homem de gozar do corpo de uma mulher, nos esclarece que não é a biologia que o orienta. Não se trata de um homem que tem o pênis ou do corpo de uma mulher, que não o tem. Agarrar-se a este estrupício que mexe sozinho, penduricalho do corpo, agarrar-se aí não é um gozo exclusivo do portador do pênis. Nada mais democrático do que o idiota casamento com o estrupício! O exemplo do enganche do lado homem segue, então, para Lacan, a lógica do gozo masturbatório. “O corpo próprio se revela, ele mesmo, o corpo do Outro, no momento do gozo.”[20] Ou seja, “um gozo se produz no corpo do Um através do corpo do Outro”, por um enganche a esse pedaço do qual se faz posseiro, pelo usufruto do objeto. Ou seja, para “todo x”, o gozo fálico.

Miller esclarece que para Lacan, a estrutura desse ““Todo x” determina, necessariamente, que o parceiro-sintoma – do lado homem – é o pequeno a”[21]. Se o estrupício do falo o impede de gozar do corpo de uma mulher é porque, agarrado a esse pedacinho de gozo, ele se defende de se abandonar a esse outro gozo… no infinito de um furo sem fundo.

Nesse caminho, vimos que, mais além do gozo fálico, há um Outro gozo. Um gozo que se solta do objeto e se jubila no furo de sua ausência. Do lado do homem, há um outro lado, não-todo inscrito do lado homem. Este é o mistério da mulher, seu segredo, e sobre isso ela não solta uma palavra[22], sublinha Naveau, em Lacan. Como ler esse mistério da mulher? De que mulher Lacan está falando. Trago-lhes uma citação dele:

O que quer uma mulher? Freud adianta que só há libido masculina. O que quer dizer isto? – senão que um campo, que nem por isto é alguma coisa, se acha assim ignorado. Esse campo é o de todos os seres que assumem o estatuto da mulher – se é que esse ser assume o que quer que seja por sua conta. Além disso, é impropriamente que o chamamos a mulher, pois (…), a partir do momento em que ele se enuncia pelo não-todo, não pode se escrever. Aqui, o artigo a só existe barrado. Esse A barrado tem relação com o significante A barrado. O Outro (…) é aquilo com que fundamentalmente a mulher tem relação. (…) a mulher é aquilo que tem relação com esse Outro. (…) O Outro como barrado.[23]

Eu leio essa frase assim: o outro lado do lado homem, o lado mulher, é, em Lacan, o que tem relação com o furo, com a indeterminação. O lado mulher, o não todo fálico, tem relação com o furo e com o gozo que por aí se passa infinitamente. Esse outro lado implica num saber-fazer com o furo. A mulher não existe, A mulher é rompida. A mulher é furada. O lado mulher do parlêtre, de qual gênero for esse ser, tem uma relação com a barra, ou seja, tem como parceiro-sintoma o Outro atravessado pelo furo.

E aqui vem uma citação de Lacan que ganha todo seu valor para o que nos interessa aqui: “Esse A/não se pode dizer. Nada se pode dizer da mulher. A mulher tem relação com S(A/), e já é nisso que ela se duplica, não é toda, pois por outro lado, ela pode ter relação com o falo.”[24]

Conexão sinthoma

Muito interessante onde Lacan nos leva… a isso que se duplica em cada ser falante. Eu leio aqui, nessa dobradura, dobradiça, nisso que se duplica, a experiência da conexão que suporta o sinthoma, onde os dois lados da tábua da sexuação, que palpitam em cada Um sozinho, se imbricam através desse conector que conhecemos por falo.

Entre o a e o furo, entre o gozo fálico e o outro gozo, entre o lado homem e o outro lado, essa dobradura participa do sinthoma em cada Um. De um lado, o que se infinitiza, “o que quer que seja”, e não se pode nada dizer, mas se experimenta. Mas a relação aí é não toda, pois pode ter relação com o outro lado que aí joga sua partida. O lado não todo do parlêtre não é sem relação com o falo.

Responsável por verificar o real do gozo e o fixar numa ficção que participa de diversas formas da nossa clínica, desde a identificação, fantasia, romance, semblante etc… – o falo é como um fiador de um gozo, um “gozo que não pode ser mortificado, não pode ser anulado”[25]. Em Lacan, esse mais de gozo, pedaço de corpo vivo, passa a contar como objeto a. “O pequeno a é uma unidade de gozo, é uma unidade discreta de gozo, separável, contabilizável.”[26] Por isso, o falo é um conector. Um significante que não quer dizer nada, mas funciona como um conector de Um gozo a um quadro, uma forma de ser, um enquadre significante por onde o objeto se suspeita por uma miragem e por aí se goza. Esse Um do gozo enquadrado é o que conhecemos como gozo fálico. “O que é isso? – pergunta Lacan – senão o que a importância da masturbação em nossa prática sublinha suficientemente, o gozo do idiota.”[27]

Já do outro lado, o lado mulher força o parceiro “a tomar a forma do não todo”[28] e lhe impõe experimentar um gozo ilimitado, por exemplo, sob a forma de uma demanda de amor infinita, uma queixa indeterminada e incurável que ao se servir do furo no Outro, ali mergulha e constata que o todo não está formatado, que o todo não faz Um. Para mim, foi esclarecedor dar-me conta que o gozo que se realiza na insatisfação eterna é efeito desse Outro gozo que transborda do lado da mulher. Sem bordas que o limite, tal gozo flui de forma infinita, seja pela via da demanda insaciável ou, com um pouco de sorte e às vezes, só às vezes, pelo abandono a um gozo no corpo, que não se sabe, não se diz uma palavra, mas que se experimenta e que se perfila sob um fundo do silêncio. O gozo místico é um exemplo que Lacan nos entrega, mas não precisamos ser tão religiosos para confirmar sua existência. A esse Outro gozo, Lacan deu o nome de gozo feminino.

Se o falo não está lá para verificar, localizar e fixar o gozo num quadro, o real do gozo se infinitiza, sem diques, como nas psicoses. Outras próteses serão exigidas. O gozo transborda quando o falo não está lá como referente, borda, litoral ao infinito. Sua potência o empuxa à mulher. Se nesta clínica o encontro sexual é adiado, é como defesa ao empuxo; e a clínica do louco infrator nos ensina que o ato se revela uma resposta radical que tenta colocar um ponto de basta a esse transbordamento infinito.

Fato é que, para o grampo se firmar como ponto de capiton, será preciso reunir a esse encontro do real do gozo com a miragem do objeto, um ponto de basta – o selo de um significante qualquer que o localize, o fixe, o ordene junto a um corpo que tende a escapar. O falo é esse conector privilegiado, mas qualquer gambiarra que venha em seu lugar tem função de amarração. É o que a clínica do parlêtre nos ensina!

O encontro entre Uns sozinhos e suas (des)conexões, como Naveau nos faz ler nosso tempo, por um lado, se agarra ao semblante de objeto segundo a lógica fálica ou a um enquadre qualquer que lhe sirva de suplência, e, d’outro lado, se precipita no furo no Outro por onde escoa o infinito do gozo. Isso leva Lacan a acrescentar ao que já vimos até agora, que, do lado homem, o parceiro sintoma é o objeto a e “tem a forma do fetiche”; do Outro lado, a parceria é com A/ na “forma erotomaníaca”[29] – o que me fez pensar que se nutrir com o que há no lugar do que não existe é a vocação antropofágica do parlêtre. Mas o que não muda, seja qual for o lado com o qual o parlêtre agarra seu parceiro ou nele se abisma, é que o encontro é sempre autoerótico, solitário, autístico.

O que se escreve é na desordem de uma contingência

Entre homens e mulheres, parlêtres, há relações contingentes, não necessárias, que deixam marcas. No instante do encontro alguma coisa se escreve: “uma ligação inédita ou sem precedentes se destaca sobre o fundo da indizível opacidade sexual[30], e o que aí se escreve decorre da desordem de uma contingência[31], dirá Naveau. Ali, a jaculação de uma palavra que fere, queima e marca, faz quiçá… um rubor, um desfalecimento, um arrebatamento, um acontecimento de corpo, ou mesmo um sonho, como no caso citado!

O acaso coloca o parlêtre diante de um Outro que não é, mas que a-paresse sê-lo, um encontro de corpos, miragens e palavras. A relação não existe entre os termos, mas é mesmo por essa equivocação que algo ressoa, cintila e enlaça. “É enquanto modo do contingente que ela para de não se escrever”[32], dirá Lacan. E a chave para ler esse enigma está no saber inconsciente, um saber que articula. Articula o quê? O saber inconsciente articula um saber-fazer “com lalíngua – ou convém acrescentar, diz Pierre Naveau – daquilo que não se consegue não fazer com ela”[33] que insiste, que itera, e que resta inassimilável, mas que no instante do encontro é o que cintila e força o clic. Quando uma palavra fere e deixa rastro no corpo, é alíngua que ressoa jubilante. Um acidente que faz aí um corte epistemológico, dirá Naveau, um saber novo advém desse corte, uma irrupção de gozo faz saber do que aí vibra.

Quando o lado homem toma a dianteira, ele parece saber abordar o objeto a – causa de seu desejo – no corpo do Outro. Ele visa a – a porcaria! Tal abordagem é, por estrutura, perversa polimorfa. Se o outro lado, o da mulher, nisso se desperta, o que se sabe do gozo que aí se experimenta? Há um furo no saber, dirá Naveau. Sabe-se quase nada, “a não ser que quando isso lhe acontece(contingência) ela o experimenta. É um acontecimento de corpo”[34] que testemunha o furo com o qual o saber está às voltas.

Pierre Naveau vai nos mostrar que, no real, algo se encontra, algo sobre o qual há um saber; um saber que não se fala, mas que se experimenta e por ali algo se articula, se liga, se conecta e se escreve no destino de cada um. A relação sexual não existe, mas no instante do encontro a inexistência não obsta que se localize esse Um que passa pelos poros da equivocação. Algo vibra no ser que fala, marca de um saber que encarna seu traço e sua via de miragem. E quando isso acontece, não há nada a dizer. Falar disso que não há, é falar de amor… “cartas de almor”.

O verbo almar, invenção lacaniana, toma o outro como sua alma. “A alma alma a alma” – por um lado a reciprocidade e, do outro, um nada que ressona. O amor não está no corpo ou pensamento, é coisa da alma. O amor é disjunto do gozo, “o amor é separado do sexo por meio de um corte”[35]. Para Lacan, “quando a gente ama, não se trata de sexo”[36]. O amor é, então, “uma ética fora do sexo. Se o amor é fazer signo, o gozo não é signo do amor”[37].

Mas, “o hábito ama o monge”, ele o alma, anota Lacan. Mas, “o que há sob o hábito, e que chamamos de corpo”[38], não é o monge. Aí, voltamos ao início, por (a)para-esser esse resto, que dá vida ao oco do ser. Uma contingência que se encarna e, por um triz, cessa de não se escrever – toma o corpo, o excita, deixa rastro, se escreve como “contingência corporal[39] lá onde se verifica uma efêmera conexão, no instante de um lapso, entre o falo e o que quer que seja. Por essas e outras…

“Carece de ter coragem, carece de ter muita coragem…”

“É que diz o Menino em meio à travessia do Rio São Francisco para o pequeno e medroso Riobaldo.” Esse menino é Diadorim e, com Naveau, sabemos que ali é o lado mulher que coloca “a prova, do lado do homem, a coragem que lhe é necessária para enfrentar o saber com que ele alma (âme)” “A mulher só pode amar no homem – seu parceiro-sinthoma – a maneira como ele enfrenta o saber com que ele alma (…) o saber com que ele é”[41], ensina Lacan. Eu o leria assim: ela ama como ele enfrenta o que ele é. Como enfrenta o Um. Um gozo que não sabe se dizer. Trata-se de enfrentar o furo no saber com que ele é. O que quer que seja o que ele é, não se sabe de todo, é não todo. E o que é esse Um que faz furo no saber senão um gozo do qual não se sabe e não se diz uma palavra?

Naveau, com Lacan, sublinha que uma mulher ama em seu parceiro a coragem! E eu acrescentaria a coragem com que enfrenta A mulher furada, que enfrenta esse furo por onde escorre um gozo real. A coragem com que enfrenta o infinito. A coragem do parceiro “está de fato, situada por Lacan, na junção do saber e do não saber”[42], nesta hiância; a coragem está em enfrentar a desordem dessa junção mais íntima, esse salto no abismo. E carece de coragem… muita coragem, diria Diadorim!

Naveau conclui dizendo que do lado mulher há de se ter coragem para enfrentar a perversão do homem, e, do lado do homem, coragem para enfrentar o enigma da mulher. Já que o laço entre amor e sexo não há, o laço do amor com a coragem se faz quando se consente em dar ao parceiro-sintoma, alguém que não é, o que não se tem, esse oco, com a condição/aposta de num instante qualquer poder ali se abandonar, se abismar. Ama-se a coragem para enfrentar isso que em si acontece, que nada sabe ou tem a dizer, mas que se experimenta, como parlêtre, seja homem ou mulher. Coragem de se entregar a esta experiência que ultrapassa as bordas do sabido, que transborda, sendo infinito posto que é chama. E dura pouco… o instante de um lapso, quando na a-travessura das noites eternas, se encontram e se enfrentam perversão e enigma.

Logo depois, invariavelmente, em um canto qualquer do teatro da vida cotidiana, encontrar-se-ão dependurados, em amareladas cartas de almor, os traços inevitáveis da sua inexistência. Mas amanhã é outro dia para quem tem coragem, dirá Scarlett O’Hara. E se o amor é separado do sexo por um corte, não é impossível que, na desordem de uma contingência, surja a coragem de abismar-se nessa greta.

A condição do encontro, dirá Naveau, é portanto, que o sujeito aceite que sua defesa contra o infinito seja perturbada pelo que, justamente, o divide, ou seja, pelo que o surpreende.

No encontro entre esses Uns – é o que gostaria de lhes propor enquanto questão, para concluir – o que está em jogo nas (des)conexões entre os parlêtres, no nosso tempo, não é mais a castração, mas a relação de cada Um com esse Outro gozo, “aquele sobre o qual a mulher não solta uma palavra”[44]. O gozo do Um infinitamente só. Com isto Lacan nos desperta: “há um gozo do corpo que é (…) para além do falo”[45] e que, mais do que nunca, marca a subjetividade de nossa época, marcada por esse mais além.

É onde nos leva Oswald de Andrade, neste poema sobre o seu casamento com a escritora comunista Patricia Galvão, quando se separou de Tarsila do Amaral.

1930, 5 de janeiro. Nesta data contrataram casamento a jovem amorosa Patrícia Galvão e o crápula forte Oswald de Andrade. Foi diante do túmulo do Cemitério da Consolação, à rua 17, n. 17, que assumiram o compromisso. Na luta imensa que sustentam pela vitória da poesia e do estômago, foi o grande passo prenunciador, foi o desafio máximo. Depois de se retratarem diante de uma igreja. Cumpriu-se o milagre. Agora sim, o mundo pode desabar.

Agora todas as horas de Pagu são minhas. Eu sou o relógio de Pagu. Ela gosta e vive do meu ponteiro. Um ponteiro só. Desde o dia que ela entrou na casa em que eu morava, eu saí com ela, vivi com ela. Fui primeiro o minuto, depois as 5 horas, depois a meia-noite. Quando morrer, serei a noite de Pagu. Hoje sou o dia de Pagu. Se Pagu soubesse o que tem sido a minha vida desde maio! Só vê-la, só merecê-la, só alcançá-la. Até o último maio da minha vida, procurarei tê-la, alcançá-la, merecê-la. Quantas noites passei pensando nela. Quantas manhãs acordei os olhos nela. Renovei toda história da terra e a história do homem na terra! Que digo? Do homem no céu. Que amor dá céu!

Pagu quer que eu escreva mais. Escrever o quê? Que esta noite tenho o coração menstruado. Sinto uma ternura nervosa, materna, feminina. Que se desprega de mim como um jorro lento de sangue. Só um poeta é capaz de ser mulher assim. [46]

Um esclarecimento, que devolve a cada um o seu exílio, neste mundo no qual nos abandonamos.


 

[1] NAVEAU, P. O que do encontro se escreve. Belo Horizonte: Editora EBP, 2017. p. 39.
[2] Idem, p. 35.
[3] Idem, p. 273.
[4] LACAN, J. O Seminário, livro 20: Mais, ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008. p. 99.
[5] Idem, p. 51.
[6] Idem, p. 50.
[7] Idem, p. 135.
[8] LACAN, J. “L’insu que sait de l’une bévue s’aile à mourre”. 10 de maio de 1977. Ornicar?, Paris, Navarin, n. 17-18, 1979, p. 18.
[9] LACAN, O seminário, livro 20, op. cit., p. 55.
[10] LACAN, J. “L’insu que sait de l’une bévue s’aile à mourre”. 10 de maio de 1977. Ornicar?, Paris, Navarin, n. 17-18, 1979, p. 18.
[11] LAURENT, É. Disrupção do gozo nas loucuras sob transferência. Barcelona, 02 de abril. Inédito (trad. Sérgio Laia).
[12] MILLER, J.-A. O osso de uma análise. Rio de Janeiro: Zahar, 2015. p. 90.
[13] Idem, p. 91.
[14] Idem, p. 99.
[15] OTONI-BRISSET, F. Três sonhos e uma porcaria só. Curinga, Belo Horizonte, EBP, n. 31, 2010, pp. 67-71.
[16] LACAN, O Seminário, livro 20, op. cit., p. 51.
[17] MILLER, J.-A. La orientation lacanienne – Le tout dernier Lacan. Aula pronunciada no departamento de psicanálise da Universidade de Paris VIII. 14 de março de 2017. Inédito.
[18] LAURENT, É. Por que o Um? In: FUENTES, M. J. S.; GORSKI, G. (Orgs.). Leituras do Seminário …ou pior, de Jacques Lacan. Salvador: EBP, 2015. p. 37.
[19] NAVEAU, O que do encontro se escreve, op. cit., p.220
[20] MILLER. O osso de uma análise, op. cit., p. 92.
[21] Idem, p.93.
[22] NAVEAU, O que do encontro se escreve, op. cit., p. 208
[23] LACAN, O Seminário, livro 20, op. cit., p. 86-87.
[24] Idem, p. 87.
[25] MILLER, O osso de uma análise, op. cit., p. 82.
[26] Idem, p. 93.
[27] LACAN, O Seminário, livro 20, op. cit., p. 87.
[28] MILLER, O osso de uma análise, op. cit., p. 94.
[29] Idem, p. 94.
[30] NAVEAU, O que do encontro se escreve, op. cit., p. 277
[31] Idem, p. 223.
[32] LACAN, O Seminário, livro 20, op. cit., p. 101.
[33] NAVEAU, O que do encontro se escreve, op. cit., p. 252
[34] Idem, p. 209.
[35] Idem, p. 201.
[36] LACAN, O Seminário, livro 20, op. cit., p. 31.
[37] NAVEAU, O que do encontro se escreve, op. cit., p. 201.
[38] LACAN, O Seminário, livro 20, op. cit., p. 13.
[39] NAVEAU, O que do encontro se escreve, op. cit.,p.102
[40] Idem, p. 211.
[41] LACAN, O Seminário, livro 20, op. cit., p. 95.
[42] NAVEAU, O que do encontro se escreve, op. cit., p. 212.
[43] NAVEAU, O que do encontro se escreve, op. cit., p.124.
[44] Idem, p. 208.
[45] LACAN, O Seminário, livro 20, op. cit., p. 80.
[46] ANDRADE, O. de, Romance da época anarquista ou “Livro das horas de Pagu que são minhas”. In: CAMPOS, A. Pagu – Vida é Obra. São Oaulo: Cia das Letras,2014, p.113.
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Be right here – Marcus André Vieira

by secao_sp in Jornada 2018

(Foto: Cena do episódio ‘Be right back’, da série Black Mirror. Fonte: em.wikipedia.org

I

Gostei muito, na preparação para esse encontro, de ter descoberto Charlie Brooker, criador da série Black Mirror e roteirista da maior parte dos episódios, incluindo o que acabamos de ver. Ele tem uma coluna no The Guardian com aquele humor inglês que ajuda muito a entender a série. Trago, por exemplo, para essa discussão uma frase dele que resume, a meu ver, o forte da coisa: “Quis escrever sobre o que vai acontecer daqui a dez minutos se nós formos desastrados”. Não é essa a impressão que temos com a série? De algo que está na nossa porta, ou já dentro de casa?

Com relação ao episódio a que assistimos, Be right back, por exemplo, descobri que existe um aplicativo na Apple Store que se chama LUCA, um memorial boot, um robô de memória que já é praticamente o que o episódio propõe como ficção, vocês podem baixar e comprar. É um ajudante, como a Siri, mas pode ser programado para responder seus e-mails como se fosse você, aliás é o que o Google já começou a fazer, mas ele é mais preciso, pode ser configurado para fazer uma pesquisa do seu próprio material e responder seus e-mails. Eles fizeram ainda, exatamente como no episódio, uma versão beta de um robô de um morto, um amigo da dona da startup assim como um do Prince. Estamos realmente a dez minutos da situação da série, em que o marido, praticamente volta da morte, ressuscitado pelos poderes do algoritmo, chegando inclusive a ganhar voz em um segundo tempo e um corpo a seguir.

O grande objetivo de Brooker, com o tema do desastre em dez minutos, segundo ele próprio, era nos mostrar o que a tecnologia produz em nós, no sentido de uma alteração, não apenas do que chamam “subjetividade”, essa coisa vaga que se usa hoje para não dizer “alma”, mais na concretude do corpo. Ele conta a seguinte situação que o levou a imaginar a série: Ele estava no mictório de um restaurante. Nesses lugares é costume colocar uma foto, uma propaganda ou um texto na altura dos olhos enquanto o sujeito está de pé urinando. Nesse restaurante havia um Ipad preso nos azulejos que mudava de página conforme a direção do jato da urina.

É nosso corpo sendo reconfigurado, conformado por um objeto da ciência – passa a ter outra função, meu pênis ou minha urina. É um novo uso de um apêndice do corpo que, a princípio, nada tem a ver com aqueles até aqui considerados naturais, mas não se enganem! Se todo mundo passar a usar desse modo, ele se torna natural. Esse é nosso mundo.

A cena do mictório é bem mais eloquente para encarnar o que já sabemos e dizemos, por exemplo que o celular já faz parte de nosso corpo e que é impossível se separar dele. Brooker usa esse meio para produzir em nós ao mesmo tempo delícia e desconforto. A série toda produz essa sensação de delícia e de desconforto: a delícia do seu marido poder voltar da morte e a estranheza de ele ser e não ser mais exatamente ele mesmo! Muitas das possibilidades abertas pelos objetos da ciência produzem esse efeito, o de uma droga, sempre pharmakon, bálsamo e veneno.

II

Especificamente sobre esse episódio, o que dizer do ponto de vista do psicanalista? Para começar, diria que fico mais interessado em Marta, a esposa e viúva, mais do que na discussão do que seria esse Ash ressuscitado. Toda a dificuldade da personagem na relação com ele me interessa muito! Marta somos nós todos às voltas com esses objetos novos, estranhos, da tecnociência. Eles nos perturbam, reviram do avesso nosso corpo e exigem mil reviravoltas subjetivas. Supondo que Ash já esteja entre nós, o que importa é perguntar que efeitos sua presença teria.

Só que, apesar do meu interesse, é quase impossível evitar a discussão sobre o status do Ash. Então vamos começar por ela para depois podermos nos dedicar à Marta.

Ash, em si, é apenas uma reedição do autômato do século retrasado, e do robô do século passado. É um velho fantasma bem conhecido, que aparece sempre que se trata, hoje, de inteligência artificial – o de uma máquina que é igual a nós ou melhor ainda e que, dessa forma, vai tomar nosso lugar.

Para nos reconfortar, para fugir da estranheza de nossos tempos e nos refugiar em nosso humanismo ainda arraigado, supomos não sei que coisa especial no humano que o torna único e que faltaria ao Ash robô. Assim, tendemos a insistir que ele é falso, que o episódio demonstraria como é impossível copiar a obra de arte que o homem é.

Ora, todo o episódio foi escrito para fazer o efeito contrário. Ele leva tão longe a proximidade dos dois que a gente tem a impressão de que não faz tanta diferença assim se é um robô ou se é uma pessoa, se é uma máquina ou não, a gente chega no limite do desconforto de pensar que talvez fosse melhor se fosse um robô, por que não? Ele é o amante ideal, o marido ideal, sempre à postos, inclusive nunca nega fogo na cama.

A presença dos objetos da ciência em nossas vidas e corpos no nível em que se faz hoje nos impede de ficar no humanismo, na certeza de que o humano não seria fake! O exemplo do ipad mostra que somos todos ciborgues hoje em dia, todos aparelhados com alguma coisa que nos deixa já meio humanos meio máquinas, o que realiza a profecia de Donna Haraway[1] com seu manifesto ciborgue dos anos oitenta. Então Marta somos nós, às voltas com os Ashs em nós, ou vivendo conosco.

III

Sobre a Marta, então, o personagem principal do episódio, qual o efeito do encontro com Ash 2?

Não é o de evitar a dor da perda. Deixemos, também, de lado a discussão que sempre se espera do psicanalista, sobre a perda e o luto. Espera-se que o analista nos ensine como assumir dignamente a perda, como nos livrar dela e partir para outra. No mesmo registro viria a crítica à Marta do tipo: “ela só compra o robô porque não tem coragem de enfrentar a morte do marido!” Ou, em nosso jargão psicanalítico, “ela não assume a castração”! Como se ser adulto fosse superar a morte de um ente amado. Talvez o mais maduro seja saber que é impossível superar completamente uma perda dessas, apenas viver com ela.

Não. A questão do episódio, a meu ver, não é tanto do luto e sim do amor ciborgue. Se estamos em tempos ciborgues, se já somos um pouco ciborgues, o que interessa é saber o que é namorar um, casar com um e por aí vai. Então três perguntas para a Marta que somos todos nós:

  1. Para que serve a singularidade em tempos ciborgues?

Se somos todos meio fakes e um pouco também de verdade, a pergunta não é tanto o que em nós não podemos tirar ao preço de deixarmos de ser humanos, mas talvez mais importante: até que ponto podemos mudar e ainda assim fazer parte de alguma coisa, sermos desejados? Dito de outro modo, o que Ash 2 precisa ter para ser amado por Marta? Parece que o humor era necessário. Ele tinha humor? Difícil responder. Às vezes parece que sim. O que importa é que Marta só consegue desejá-lo se supõe que era o mesmo do marido. A cada vez que ela dizia: vai embora daqui! Ele dava uma sacada de humor e então ela se derretia. Como vocês vêem, a questão da singularidade se desloca um pouco, tem menos valor em si e mais um relacional.

  1. O amor por uma máquina pode ser verdadeiro, real?

Parece que sim. Isso é mais polêmico! Quando gostamos de alguém, gostamos pelo que esse alguém tem de diferente ou pelo que ele tem de igual? Pelo que ele tem de previsível ou imprevisível? Em um momento ela diz: “O Ash vivo, teria me batido!”, “Mas ele já bateu?” Pergunta o robô. Não! Por que então você acha que ele bateria? Ele não entende. A gente entende, ela precisa que ele, o robô, a surpreenda! Por outro lado, o Ash 2 tinha algo que o 1 não tinha: atenção, carinho, submissão e isso encanta a Marta no início. Ela não poderia ficar apaixonada pelas qualidades do Ash2? No mesmo registro: um cyborgue pode ser pai? Porque parece que ele acabou servindo como pai mais ou menos protético para a filha do Ash. Já foi um tema explorado nos filmes do exterminador do futuro e tudo leva a crer que se no amor já dá, imagina na paternidade, porque se alguma coisa é adotada é um pai.

  1. O gozo com o ciborgue, é o mesmo ou é diferente?

Não o amor, mas o gozo. Neste debate entram todas as situações envolvendo as bonecas japonesas, por exemplo. Alguns já querem se casar com as suas. Pode-se ter tesão por um objeto inanimado, isso sabemos desde que os fetichistas estão no mundo, mas e por um robô? Ele diz que aprendeu a transar fazendo uma varredura em filmes pornográficos, uma coisa maquinal, e funciona! É só porque ela gostaria de estar com o marido? Ou é porque ela gosta desse meio homem meio máquina que ela pode moldar? Até que ponto o amor e o desejo não precisam mais de rotina do que de invenção? O autor nos leva até esse limite.

Para concluir, suponho que sim, podemos nos apaixonar por quase qualquer coisa. Marie-Helène Brousse, a respeito desse episódio me soprou essa: De qualquer maneira, não importa se ele é um robô ou não, se ela se apaixonasse por ele, se perguntaria: será que ele gostou do que eu fiz? O que será que ele achou de mim? Será que ele me achou bonita hoje? Para nós, analistas, o que importa são essas questões, o enigma do desejo do Outro. Mesmo sabendo que é um robô, ela ia querer ser interessante para ele, pois é isso que fazemos com as pessoas com que temos uma relação, nos perguntamos sobre o desejo do Outro porque nosso desejo é o desejo do Outro. Vale para os animais de estimação que adotamos também. Remeto vocês ao conto de J. Cazote “O diabo apaixonado[2]” que encarna isso de forma admirável. Então talvez nós nos apaixonaríamos pela máquina, mesmo sabendo que é uma máquina, mas jogando, projetando nela nossas inseguranças e também o amor, nossas dúvidas e com isso continuamos a ser candidatos à psicanálise.


Texto estabelecido por Veridiana Marucio e revisado pelo autor, a partir de um debate promovido no ano de 2017 após a transmissão do episódio mencionado da série Black Mirror, na Fnac de Campinas – Ação Lacaniana – Escola Brasileira de Psicanalise, Seção SP.
[1] HARAWAY, D. Manifesto Ciborgue, Ciência, tecnologia e feminismo-socialista no final do século XX. In: HARAWAY, D.; KUNZRU, H.; TADEU, T. Antropologia do Ciborgue: as vertigens do pós-humano. Autêntica, Belo Horizonte, 2009, p. 33-118
[2] Cazotte,J. O Diabo Apaixonado, Editora José Olympio, 2014
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#Match

by secao_sp in Jornada 2018

Por Comissão de Acolhimento

O tema de trabalho escolhido para essa VIII Jornadas da Seção São Paulo: Amor e Sexo em tempos de (des)conexões, proporciona um movimento no campo de nossa investigação em intercâmbio constante com o cinema, a literatura, a música e a arte. Cabe a cada um recolher os efeitos desta abertura.

A comissão de acolhimento estará conectada com os acontecimentos culturais de nossa cidade, na intenção de criar espaços de encontro com eventos que movimentam a vida e vivificam nossa questão para este trabalho.

Sejam bem-vindos à vida e aos lugares de nossa capital tão (des)conectada!

Lugares e sentidos de (des)conexão:

Música

Saudades de seus shows, dessa conexão!

Rita Lee – Amor e sexo

Trecho do DVD MTV ao vivo.

Lazer: Sesc Paulista  

Visite a página da unidade em sescsp.org.br/avenidapaulista

Se a Avenida Paulista é o lugar primordial de encontro e desencontros da cidade de São Paulo, o  Sesc Avenida Paulista  aqui está. Gentes de todos os tipos, todas as idades, todas as tribos. (Des)Conexões via corpo, arte e tecnologia nas mais diversas formas de expressão, da dança à literatura, do circo à música. São 17 andares nessa nova unidade que também invade as  ruas, espalhando cultura e alegria pela cidade.

Como chegar

https://goo.gl/maps/qS36kCqzwdz

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#Editorial Boletim #Cupid #01

by secao_sp in Jornada 2018

Por Milena Vicari Crastelo

#Cupid inaugura nossa comunicação com a comunidade analítica: membros da escola, não membros da escola, alunos dos institutos e todos os que de alguma forma tem um amor e um laço com a psicanálise.

A VIII Jornadas da Escola Brasileira de Psicanálise Seção São Paulo – Amor e sexo em tempos de (des)conexões, está em “conexão” com o tema do laço social que será o orientador para as atividades da Seção São Paulo este ano.

Vocês poderão saber mais a respeito na rubrica #ecos das quartas onde Carmen Silvia Cervelatti, diretora da Seção-SP, nos apresenta como a temática da VIII Jornadas foi concebida, nos falando a partir de seu amor pela psicanálise.

Na rubrica #orientação Veridiana Marucio, coordenadora geral e Maria Cecília Galletti Ferretti, coordenadora da comissão de orientação nos apresentam o argumento da VIII Jornadas e os eixos de trabalho respectivamente.

Para iniciarem suas pesquisas para as Jornadas, a cada número do boletim, teremos a rubrica #referências bibliográficas, preparadas por Daniela de Barros Affonso e sua comissão.

Desejo a vocês uma ótima leitura!

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