O ato analítico, ler e escrever

Mauricio Tarrab (EOL/AMP)

Imagem: Instagram @mindtheminimalism

Se descartamos por débeis as formas mais imaginárias que fazem deslizar o ato analítico em direção à ação, então a pergunta se o ato analítico (que é um corte) poderia ser uma sutura[1] adquire profundidade.

Ainda que o ato analítico também tenha sido caracterizado por Lacan como algo da ordem da cirurgia, onde “corte e sutura” têm o seu lugar, poderíamos propor que o ato analítico é, também, uma questão de ler e escrever.

Sutura e emenda

O real, aquele de que se trata no que é chamado de meu pensamento, é sempre um pedaço, um caroço. É, com certeza, um caroço em torno do qual o pensamento divaga, mas seu estigma, o do real como tal, consiste em não se ligar a nada. Pelo menos é assim que concebo o real. Há pequenas emergências históricas disso.
(LACAN, J. O seminário, livro 23: o sinthoma, p.119)

Como situar o ato do analista, esta operação analítica, quando o real e o semblante não se conectam e quando se situa que o “estigma” do real é não se ligar a nada? Isto é parte da indagação de Lacan a respeito do sinthoma que acaba por movimentar as “seguranças” do ato analítico. Lembremos, como o faz Miller[2], que o que persiste do sintoma supõe um x mais além da interpretação, coisa já antecipada, mas não resolvida pelo próprio Freud.

Lacan ensaia uma resolução ligada ao ato analítico quando se interroga, ou nos leva a nos interrogar, sobre o que pode ser tocado desse real do sintoma, disso que o sintoma foi reduzido. Ele o faz ao formular, justamente, o limite de nossa operação: “a ideia de que há um real que exclui toda espécie de sentido é exatamente o contrário do que é a nossa prática”[3].

Lacan faz uma diferença que podemos explorar entre o gozo sentido e o real parasita de gozo no sintoma. A partir dessa diferença, ele indica qual é a operação da psicanálise sobre o gozo obscuro do sintoma: assinala que a operação analítica deve realizar uma sutura e uma emenda[4].

Uma sutura entre o imaginário e o simbólico, que é o saber inconsciente e é a operação que o analista realiza para obter um sentido. É a resposta que o analista dá com seu ato, diante do exposto pelo analisante no percurso de seu sintoma. Poder-se-ia chamar de sutura freudiana.

Mas, em seguida, assinala que o analista deve realizar outra operação: “a fazer emenda entre seu sinthoma e o real parasita de gozo”. E – leiamos em detalhe – ele chama essa emenda de “nossa operação”[5]. Podemos dizer, então: sutura freudiana e emenda lacaniana. Sutura do imaginário e do simbólico que produz um sentido, enquanto a emenda tenta produzir outra coisa, a emenda tenta[6] tornar esse gozo possível, isto é, torná-lo gozo-sentido. Tornar esse jouissance joui-sens. Escutar alí um sentido[7].

Com esse real que não se liga a nada, com esse gozo opaco do sintoma, com esse pedaço de real parasita de gozo – ao redor do que gira uma vida, ao redor do que bordeja o inconsciente – com essa pedra que não responde, a operação analítica poderia produzir uma nova inscrição.

Em “A terceira”[8], logo após definir o sintoma como o que não cessa de se escrever do real, Lacan assinala que “o que há de conseguir é amansá-lo até o ponto em que a linguagem possa fazer com ele equívoco”.

No uso do equívoco, Joyce e um psicanalista não fazem a mesma coisa. Joyce faz do equívoco de lalíngua seu próprio sintoma. O analista, para desfazer uma fixação sintomática, utiliza o equívoco. Ao contrário, Joyce usa do equívoco para isolar a letra da cadeia de sentido. Desse modo, ele a desconecta do inconsciente e a fixa como gozo. É o que se pode tocar de seu sintoma, em sua escritura. Assim, Joyce procede como a uma equivocação ao alcançar que isso possa escrever qualquer outra coisa. Por sua vez, o analista que usa o equívoco, como Lacan o indica aqui, parece enredar-se com o significante ao equivocá-lo; ele parece enganar-se sobre o sentido, e essa equivocação faz emergir o significante sintomático e o gozo, então, circulando-o em uma metonímia que o fará tomar outra direção. Assim eu entendo a afirmação de Lacan, quando diz que a emenda “torna possível esse gozo opaco do sintoma”[9]. É o que podemos fazer com esse pedaço de real, amansá-lo até que a linguagem faça com isso equívoco.

Ler e escrever

Trabalho no impossível de dizer.
(LACAN, J. O seminário, livro 25: o momento de concluir)

“O analista, ele, corta. O que ele diz é corte, isto é, participa da escritura”[10]. Esta é uma deslumbrante precisão sobre o ato analítico. “Corta, seu dizer é corte”. Sublinho: seu dizer é corte. Mas cuidado, isso mesmo implica que escreve… “no que diz o analista não há outra coisa que escritura”[11].

Um bem dizer – um dizer que é corte – e um saber ler que estão do lado do ato do analista[12]. Mas a citação de Lacan ainda tem outra precisão genial: “o analisante diz mais além do que quer dizer e o analista corta ao ler o que está aí do que quer dizer”[13].

Podemos concordar que no “o que quer” está do lado do desejo, isto é, do inconsciente. E “o que está aí”?

Corta, escava, separa, isola… ao ler…. o que está aí, na falha mesma do saber. Ou para dizer com suas palavras: o analista trabalha no impossível de dizer.

Nomeamos esta operação analítica que vai mais além da interpretação e decifração de diferentes maneiras: localizar, assinalar, cingir, circunscrever, constatar. Se o que o analista deve fazer com seu saber ler é cortar, esse não é um corte qualquer, é um corte entre o que está aí e o que quer.

Essa distinção está em consonância com outra fundamental que Lacan faz no seminário 23 quando diz que no sintoma há algo que responde, que se chama inconsciente, e algo que não responde. É a pedra daquele poema magnífico de Carlos Drummond de Andrade que Miller destacou em O osso de uma análise. O que está aí não responde.

Esse não responder é a opacidade do “o que está aí”. Isso se constata, se isola, se captura, se nomeia… mas não responde e não vai responder. É muito valiosa a indicação de Lacan de que isso é o que o analista corta, escava com seu saber ler e que isso é, ao mesmo tempo, um corte e uma escritura.

Se o ato do analista é cortar, escavar o que está aí, ao analisante lhe cabe bem dizê-lo… como possa, o que é uma forma de responsabilizar-se por isso e é também um ato, desta vez o seu próprio.

Tradução: Eduardo Vallejos
Revisão: Felipe Bier e Emelice Prado Bagnola

[1] Eixo 1 – Declinações clínicas do ato. Disponível em: Eixos temáticos – X Jornadas – Seção São Paulo (ebp.org.br)
[2]  MILLER, J.-A. “Ler um sintoma”. In: Opção lacaniana, nº 70. São Paulo: Eolia, 2015.
[3]  LACAN, J. Seminário 24, inédito. Tradução livre.
[4] LACAN, J. O seminário, libro 23, O sinthoma. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2007.
[5] Ibid, p. 71.
[6] Ibid.
[7]  MILLER, J.-A. El lugar y el lazo. Buenos Aires: Ed. Paidós, 2013. Aula de 28/02/2001, p. 211. Tradução livre.
[8]  LACAN, J.-A. “A Terceira”. In: Opção lacaniana, nº 62. São Paulo: Eolia, 2011.
[9] Ibid.
[10] LACAN, J. O seminário, livro 25: o momento de concluir. Inédito. Tradução livre.
[11] Ibid.
[12] Ibid.
[13] Ibid.