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ARTE EM SÃO PAULO – CSPonline#14

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AS SUTILEZAS DO VINHO

Rejane Tito

AQUARIUS - VINHOPara além do oportuno e necessário debate sobre a triste e grave cena política brasileira e de tantas outras questões de nosso tempo problematizadas em Aquarius, o mais novo filme de Kleber Mendonça nos convoca pelo vinho! O vinho está em muitas cenas; parece também protagonizá-las. O vinho está na festa de aniversário de 70 anos da tia Lúcia, no almoço com os filhos, em casa ouvindo música, na volta da praia, no encontro com amigas, no dia de sol, na noite solitária, no sexo… O vinho na taça de algum personagem… Aparição colorida, sinestésica, sensorial, corpórea… Uma presença. O vinho convida, celebra, faz laço…

Neste mundo de Clara, pulsante e intensamente vivo, mesmo em meio à experiência da invasão agressiva do mercado, o vinho tonifica espírito e corpo, este marcado igualmente por uma invasão contida de um câncer. Falar de vinho neste filme é falar de corpos vivos, sexualizados, de uma erótica da vida, de sujeitos que experimentam o próprio corpo, não sem a presença viva dos outros, do enlace, do encontro, da palavra compartilhada… O vinho atesta a existência legítima e ética de corpos presos à vida, entregues e responsáveis por uma vida viva. Aqui o vinho marca uma contraposição de mundos, de possibilidades de fazer existirem os sujeitos e seus próprios corpos.

Assistindo Aquarius pensei num contraponto: A festa de Babette, produção dinamarquesa de 1987, dirigido por Gabriel Axel. Neste filme, a presença do vinho também contracena com uma importante cena política: a personagem, mulher que sai de Paris, onde vivia como chefe de um sofisticado restaurante francês, fugindo da França durante a repressão à Comuna de Paris. Babette chega a um vilarejo na Dinamarca, onde se emprega como faxineira e cozinheira na casa das filhas de um rigoroso pastor. Recebe, muitos anos depois, um prêmio em dinheiro e resolve oferecer um jantar à família e aos paroquianos em comemoração ao centésimo aniversário do pastor, já falecido. Todos se fartam do vinho e do banquete, generosa e prazerosamente preparado por Babette, com o dinheiro recebido pelo prêmio. O jantar, fartamente servido com vinho e pratos especiais, vivifica os corpos rigidamente disciplinados por uma cultura religiosa de negação do corpo. As cenas do jantar são de grande beleza, em que os personagens degustam o vinho e a comida, com seus aromas, sabores, cores, tornando-se, eles mesmos, belos, alegres e próximos.

Em Aquarius, o vinho também vivifica os corpos, os sujeitos, os encontros, em oposição também a outro mecanismo, não de controle e sacrifício do corpo, ditados pelo Outro severo e punidor do discurso religioso, como na comunidade onde se encontra Babette. Temos aparentemente um mecanismo oposto, o do imperativo de gozo – Goze! – apontando para uma (também?) mortificação dos corpos, só que agora em nome do gozo a qualquer custo e sem o Outro. Se lá o gozo advinha de um Pai que severamente regulava o corpo de seus filhos, controlando suas demandas de satisfação e direcionando-as ao sacrifício e à acedia, à prostração da vontade e dos prazeres, na cidade do século XXI, na vigência tirânica do mercado, imobiliário e outros, bem como de um discurso religioso que se alastra numa onda conservadora e fundamentalista, o que particulariza o gozo igualmente disponibilizado, não no altar, mas em prateleiras? Aqui parece que o imperativo é “Goze!!”, e o Outro se apresenta como obstáculo a esse gozo ilimitado, irrestrito, implacável, sem metaforizar-se a partir do corpo do outro.A FESTA DE BABETTE

Há um discurso que impele e sustenta essa forma de gozo dos sujeitos? Aquarius parece ser exemplar nisso. As leis do mercado, do capital, do business, dos negócios sem alma, já prenunciado por Faustos. No filme, religiosos ocupam a entrada do condomínio e parecem manter parcerias não muito claras com os homens de negócio, que fazem orgia no andar de cima de Clara e defecam na escada. Na antípoda do vinho, também o horror do cupim… insidiosamente infiltrado em Aquarius.

Em nome do pai tirano, não se dá lugar a alteridade. O outro precisa ser aniquilado, entrave para o gozo autisticamente centrado no próprio corpo. Submetido ao imperativo do gozo – presente tanto em “Não goze!” quanto em “Goze!” –, o sujeito é liquidado. Na companhia de Clara e Babette, no entanto, vemos que é pela via do desejo próprio que o sujeito pode brindar à vida e dizer não à morte. Evoé!!!

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ORIENTAÇÃO LACANIANA – CSPonline#14

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OS EMBUSTES DO DESEJO E A CONSTÂNCIA POSITIVA DO

GOZO

JAM-FOTOMaria Bernadette Soares de Sant´Ana Pitteri (EBP/AMP)

 

O Seminário da Orientação Lacaniana, que vem trabalhando “Perspectivas dos Escritos e Outros Escritos de Lacan – Entre Desejo e Gozo”de Jacques-Alain Miller, explorou os capítulos 15 e 16 em 5/10/2016, apresentados por Carmem Sílvia Cervelatti e Patrícia Badari, coordenadas por Bernadette Pitteri.

A hipótese de Miller é que, de início, Lacan tinha como suporte e fio condutor, a obra de Freud. Mas não se tratava apenas de um retorno às fontes, mas “de uma retomada de Freud pelo avesso”.

Ao “tomar Freud pelo avesso”, Lacan retoma o ensino de Freud pelo viés da estrutura topológica, como a Banda de Moebius, só percorrida em sua totalidade sob a condição de fazer uma dupla virada, invertendo a orientação, fazendo desaparecer a diferença entre interior/exterior. Para Miller, esta dupla virada permite a não imobilização do saber, o surgimento de uma verdade.

Lembremos que o Prêmio Nobel de Física de 2016 foi entregue aos britânicos David Thoulen, Duncan Haldane e Michael Hosterlitz, pelas descobertas teóricas sobre estados exóticos da matéria, o que deve permitir a manipulação de novos materiais com propriedades incomuns, graças aos estudos destes físicos abordando a topologia (jornal O Estado de São Paulo, 5/10/2016).

Tanto no último quanto no finalíssimo ensino, Lacan faz um retorno a Freud, retoma seu projeto pelo avesso. Mas do mesmo modo que revirou o projeto freudiano, indexando a este a substituição da esfera pelas superfícies topológicas, Lacan revira seu próprio projeto, faz uma passagem para o avesso de seu próprio ensino. E isto para manter-se o mais próximo possível das transformações por ele percebidas em sua prática.

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ACONTECE EM SÃO PAULO – CSPonline#14

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DIRETORIA DE BIBLIOTECA

DIRETORIA DE INTERCÂMBIO E CARTÉIS

Eliana Machado Figueiredo

com borda 1Em Mogi das Cruzes, o ano de 2017 começa com uma atividade da Diretoria de Biblioteca e Diretoria de Intercâmbio e Cartéis da EBP-SP, no dia 11 de fevereiro, e com a exibição e discussão do filme A céu aberto.

A cineasta Mariana Otero e sua câmera nos revela o trabalho do Courtil, uma instituição na Bélgica. Com muita sensibilidade mostra o dia-a-dia de crianças e jovens, autistas e psicóticos, e nos convida, com eles, a olhar novas formas de ver o mundo. 

Evanne gira até perder o equilíbrio; Amina não pode falar; Alysson passa a perceber seu corpo de uma forma nova. A diretora nos conta em entrevista publicada por Marta Berenguer (Casa de Paraula, Espanha, outubro/2014): “No filme aparece uma menina, Allyson. Durante as locações, notei que era muito apática. É uma menina que chamaríamos de “esquizofrênica” e que dá a sensação de ter o corpo que vai por todos os lados. Em uma cena do filme, olha o braço como se não fosse seu. Antes da rodagem, Allyson não corria, quase não se movia, estava, inclusive, um pouco “depressiva”. Acredito que a relação com a câmera, com o marco, permitiu-lhe, de alguma maneira, juntar seu corpo e colocá-lo em movimento. No final do filme, tem uma cena muito alegre e divertida na qual essa criança e eu começamos a correr juntas no campo. Foi algo realmente surpreendente porque, antes da rodagem, talvez essa menina nunca tivesse feito isso. Sua relação com a câmera, pois, teve efeitos e foi como uma solução para ela”.

A atividade é aberta ao público em geral e será uma oportunidade de apresentar o trabalho da psicanálise de orientação lacaniana com sujeitos que mostram seu sofrimento psíquico e sua forma peculiar de estar no mundo.

A clínica do singular é o principal diferencial e ensinamento da prática no Courtil, além do trabalho entre-vários, revelando o que essas crianças e jovens podem inventar, sem importar tanto o diagnóstico, valorizando-se muito mais a transferência possível nesses casos e a construção de algo no cotidiano de cada um deles.

Inscrições:https://goo.gl/forms/ZOwKnDtE16E7vpMG2 
email:elianasoliano@hotmail.com

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AS TRANSFORMAÇÕES DA PUBERDADE * – CSPonline#14

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AS TRANSFORMAÇÕES DA PUBERDADE *om borda 14

Maria Célia Reinaldo Kato (EBP/AMP)

Numa manhã ensolarada aconteceu em Ribeirão Preto (24/9/2016) “As transformações da puberdade”, tema de um cartel em andamento. A atividade preparatória para o XXI Encontro Brasileiro do Campo Freudiano foi promovida pela Diretoria de Intercâmbio e Cartéis da EBP-SP e contou com a presença de Marcelo Veras (AME – EBP/AMP). As cartelizantes apresentaram suas questões: Emelice Prado (Clin-a), “Gravidez na adolescência e passagem ao ato”; Paola Salinas (EBP/AMP), “Escolher um sexo?” e Sílvia Sato (EBP/AMP), “Que corpo em cena na Adolescência?”, discutidas por Marcelo Veras. Em seguida houve uma instigante conversação sobre o tema da Adolescência.

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Nesta conversação, Marcelo questionou o que é o adolescente no século dos objetos e pontuou que é nesta fase que os objetos do desejo (voz e olhar) se apresentam, Há no contemporâneo um fracasso da separação do objeto olhar: o olhar busca o je (o eu na cena) e não o objeto.

 Com sua “baianidade” e presença marcantes, Marcelo apresentou de forma esclarecedora algumas possibilidades de leitura do esquema L e utilizou-se dele para tratar das noções de alteridade: corpo, Outro e gozo. Pontuou também que é a linguagem que nos faz ter um corpo e não ser um corpo.

 “Haverá sempre um mal-estar na civilização diante da inexistência da relação sexual, mas é possível que no um-a-um se encontre um modo de lidar com isso”, disse Veras. Esta é a particularidade da psicanálise lacaniana que tem como norte o “isso falha” e é a partir desta referência que o analista deve se orientar.

*Atividade realizada no Anfiteatro Ivo Torres da FEA-USP/RP

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O GIDE DE LACAN – CSPonline#14

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andre-gide-l bordaECOS DO XXI ENCONTRO BRASILEIRO DO CAMPO FREUDIANO (São Paulo, 25, 26, 27 – novembro de 2016)

 

O GIDE DE LACAN

Maria Helena Barbosa (EBP/AMP)

   Como atividade preparatória para o          XXI Encontro Brasileiro do Campo Freudiano, com o tema Adolescência, a idade do desejo, retornamos Sobre o Gide de Lacan, de Jacques-Alain Miller, agora visando a adolescência.

Através de Gide, Jacques Lacan apresenta uma abordagem clínica da juventude como um processo determinante para o sujeito, valorizando instâncias e funções que não estão presentes na infância, modificando nossas referências no que diz respeito à própria estruturação subjetiva como considerada a partir do período pré-edípico e edípico.

Nesse texto, Miller assinala dois momentos do caráter decisivo da imiscuição do adulto na criança, acontecimentos que na vida de Gide concorrem para a solução do que será a passagem da infância à idade adulta.

O primeiro é o episódio da sedução pela tia de Gide – do desejo do Outro no gozo do Um. Diz respeito à intrusão do desejo, o sujeito se descobre transmudado como desejante. Miller aponta que: “É por termos, de um lado, a incidência negativa, que o desejo, em sua positividade, vem de fora à maneira de uma intrusão violenta”. (1)

O segundo é a mensagem de Goethe – da palavra do Outro no Sujeito. Um outro lugar do que vem de fora, em que as palavras de Goethe emprestam um selo simbólico, colocando um ponto de basta na proliferação imaginária das personagens gideanas. Aqui, o ideal do eu, o outro como falante, que mantém uma relação simbólica, encontrou na mensagem de Goethe um novo lugar que lhe permitiu estar melhor articulado com o eu ideal, formação essencialmente narcisista, do registro do imaginário.

Lacan (2) se refere à “composição do sujeito” (3), “construção de André Gide” (4), “fabricação da máscara” (5), para introduzir a “dimensão da persona” (6), termo que perdemos em Lacan e que Miller recupera em seu Gide.

Como um fio percorrendo todo seu texto, Miller diz que para acompanharmos a abordagem feita por Lacan, a tese da máscara é fundamental “porque a máscara, longe de mascarar o segredo, ela é o próprio segredo. A máscara desvela. (…) A máscara é o significante que faz dizer: ‘o segredo está atrás’. É no que ele é enganador. Ao mesmo tempo, ela revela o segredo, ela é sua evidência” (7). 

Assim, articulando a letra e o desejo, ele aponta que: “Basta seguir a construção metonímica da persona para ter a forma humana do desejo. O que o sujeito dissimula, é aquilo mesmo pelo qual ele o revela. A máscara desmascarada. Esta teoria da máscara é, do ponto de vista clínico, absolutamente essencial, tanto mais que Lacan não retornará a ela de maneira tão extensa. Ela traz esta lição: o imaginário humano é feito de tal forma que acredita fazer máscara com as marcas simbólicas que leva com evidência, das próprias operações de recalcamento que realizou. O recalcamento não está por trás, está por cima, cada um o traz sobre sua máscara” (8).

NOTAS

(1) Miller, J-A, Sobre o Gide de Lacan, Opção Lacaniana nº22, p.33.

(2) Lacan, J., Juventude de Gide ou a letra e o desejo, Escritos, p.749.

(3) Idem, ibidem, p.755.

(4) Idem, ibidem, p.768.

(5) Idem, ibidem.

(6) Idem, ibidem.

(7) Miller, Op. Cit., p.23.

(8) Idem, ibidem, p.40.

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Mulher, analista, loucura: invenções do sintoma

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Ler um sintoma*

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Jacques-Alain Miller

Jacques-Alain Miller

Tenho que lhes revelar o título do próximo congresso da NLS, justificá-lo e apresentar algumas reflexões sobre a questão que poderão lhes servir de referência para a redação dos trabalhos clínicos que ele convoca *. Escolhi este título para vocês, a partir de duas indicações que recebi da presidente de vocês, Anne Lysy. A primeira é que o Conselho da NLS desejaria que o próximo congresso fosse sobre o sintoma. A segunda é que o lugar do congresso seria Tel-Aviv. A questão, portanto, era determinar que acento, que inflexão, que impulso dar ao tema do sintoma. Pesei isso em função do meu curso que faço em Paris todas as semanas, onde me explico com Lacan e a prática da psicanálise hoje, esta prática que não é mais completamente, ou talvez de nenhum modo, a de Freud. E, em segundo lugar, pesei o acento a dar ao tema do sintoma em função do lugar, Israel. E, portanto, tudo bem pesado, escolhi o seguinte título: ler um sintoma, to read a symptom.

Saber ler

Aqueles que lêem Lacan, sem dúvida reconheceram aqui, um eco de suas palavras em seu escrito «Radiofonia», que vocês podem encontrar na compilação dos Autres Écrits, página 428. Ele assinala ali, que o judeu é aquele que sabe ler1 . É esse saber ler de que se trata de interrogar em Israel, o saber ler na prática da psicanálise. Direi imediatamente que o saber ler, como eu entendo, completa o bem dizer, que se tornou um slogan entre nós. Vou sustentar com satisfação, que o bem dizer na psicanálise não é nada sem o saber ler, que o bem dizer próprio à psicanálise se funda sobre o saber ler. Se nos atemos ao bem dizer, não alcançamos mais que a metade daquilo de que se trata. Bem dizer e saber ler estão do lado do analista, é propriedade do analista, mas, no curso da experiência, trata-se de que bem dizer e saber ler se transferem ao analisante. Que aprenda de algum modo, fora de toda pedagogia, a bem dizer e também a saber ler. A arte do bem dizer é a definição dessa disciplina tradicional que se chama retórica. Certamente, a análise participa da retórica, mas não se reduz a ela. Parece-me que é o saber ler que faz a diferença. A psicanálise não é apenas questão de escuta, listening, ela é também questão de leitura, reading. No campo da linguagem, sem dúvida, a psicanálise toma seu ponto de partida da função da palavra, mas ela a refere à escritura. Há uma distância entre falar e escrever, speaking and writing. É nesta distância que opera a psicanálise, é esta diferença que a psicanálise explora.

Acrescentarei uma nota mais pessoal à escolha que faço do título, «ler um sintoma», posto que é o saber ler, o que Lacan me imputa. Vocês encontrarão isto na epígrafe de seu escrito ´Televisão´, na compilação dos Autres Ecrits, página 509, onde eu lhe colocava, um certo número de perguntas em nome da televisão e ele pôs na epígrafe do texto que reproduz com certas mudanças, o que ele havia dito, então: “Aquele que me interroga sabe também me ler”2 . Portanto, Lacan me prendeu com o saber ler, ao menos com o saber ler Lacan. É um certificado que ele me outorgou em razão das anotações com as quais escandi seu discurso na margem, muitas das quais fazem referência a suas fórmulas chamadas matemas. Então, a questão do saber ler tem todas as razões para me importar.

O segredo da ontologia

Depois desta introdução, vou evocar agora o ponto em que estou de meu curso deste ano e que conduz, precisamente, a esta questão de leitura e de leitura do sintoma. Estou, nestes dias, articulando a oposição conceitual entre o ser e a existência. E é uma etapa no caminho onde considero distinguir e opor o ser e o real, being and the real.

Trata-se, para mim, de relevar os limites da ontologia, da doutrina do ser. Foram os Gregos que inventaram a ontologia. Mas, eles mesmos se deram conta dos limites, posto que alguns desenvolveram um discurso que se refere explicitamente a um mais além do ser, beyond being. Devemos crer que eles sentiram a necessidade deste mais além do ser e colocaram o Um, the one. Em particular, aquele que desenvolveu o culto do Um como mais além do ser é o chamado Plotino. E ele o extraiu séculos mais tarde de uma leitura de Platão, precisamente do Parmênides de Platão. Então, ele o extraiu de um certo saber ler Platão. E antes de Platão está Pitágoras, matemático, mas místico-matemático. Era Pitágoras que divinizava o número e especialmente o Um e que não fazia uma ontologia, mas o que se chama, em termos técnicos a partir do grego, uma henologia, quer dizer, uma doutrina do Um. Minha tese é que o nível do ser chama, necessita de um mais além do ser.

Os Gregos que desenvolviam uma ontologia sentiram a necessidade de um ponto de apoio, de um fundamento inquebrantável que justamente o ser não lhes dava. O ser não dá um fundamento inquebrantável à experiência, ao pensamento, precisamente porque há uma dialética do ser. Situar o ser é, ao mesmo tempo, situar o nada. E situar o ser é isto, é, ao mesmo tempo situar que não é isso, portanto o é também a título de ser seu contrário. O ser, em suma, carece singularmente de ser e não por acidente, mas de maneira essencial. A ontologia desemboca sempre em uma dialética do ser. Lacan sabia tão bem disso que, precisamente, ele define o ser do sujeito do inconsciente como uma falta a ser. Explora aí os recursos dialéticos da ontologia. A tradução da expressão francesa “falta a ser” por want to be agrega algo totalmente precioso, a noção de desejo.Want não é apenas o ato, em Want está o desejo, está a vontade e, precisamente, o desejo de fazer ser o que não é. O desejo faz a mediação entre being and nothingness. Encontramos este desejo na psicanálise no nível do desejo do analista que anima a operação analítica enquanto esse desejo aponta a conduzir, ao ser, o inconsciente, aponta a fazer aparecer o que está recalcado, como dizia Freud. Evidentemente, isso que é recalcado é, por excelência, um want to be, o que está recalcado não é um ser atual, não é uma palavra efetivamente dita, o que está recalcado é um ser virtual que está no estado de possível, que aparecerá ou não. A operação que conduz ao ser, o inconsciente não é a operação do Espírito Santo, é uma operação de linguagem, a que aplica a psicanálise. A linguagem é esta função que faz ser o que não existe. É, inclusive, o que os lógicos chegaram a constatar, se desesperaram pelo fato de que a linguagem seja capaz de fazer ser o que não existe e, então, trataram de normativizar seu uso esperando que sua linguagem artificial só nomearia o que existe. Mas, de fato, é preciso reconhecer aí, não um defeito da linguagem, mas sua potência. A linguagem é criadora e, em particular, ela cria o ser. Em suma, o ser de que falam desde sempre os filósofos, este ser não é jamais outra coisa senão um ser de linguagem, é o segredo da ontologia. Então, produz-se uma vertigem.

Um discurso que seria do real

Uma vertigem se produz para os filósofos, que é a vertigem da dialética. Porque o ser é o oposto da aparência, mas também o ser não é outra coisa senão aparência, uma certa modalidade da aparência. Então, é esta fragilidade intrínseca ao ser, o que justifica a invenção de um termo que reune o ser e a aparência, o termo semblante. O semblante é uma palavra que utilizamos na psicanálise e com a qual tratamos de cernir o que é, ao mesmo tempo, ser e aparência, de maneira indissociável. Uma vez, tratei de traduzir esta palavra em inglês com a expressão make believe. Com efeito, se se crê nisso, não há diferença entre a aparência e o ser. É uma questão de crença.

Então, minha tese, que é uma tese sobre a filosofia a partir da experiência analítica, é que os Gregos, justamente porque lidaram eminentemente com esta vertigem, buscaram um mais além do ser, um mais além do semblante. O que nós chamamos o real é esse mais além do semblante, um mais além que é problemático. Existe um mais além do semblante? O real seria, se queremos, um ser, mas não seria ser de linguagem, estaria intocado pelos equívocos da linguagem, seria indiferente ao make believe.

Este real, onde os Gregos o encontravam? Encontravam nas matemáticas e em outras partes, desde então, onde as matemáticas continuaram como continuou a filosofia, os matemáticos se dizem sempre, de bom grado, platônicos, no sentido de que não pensam, em absoluto, que criam seu objeto a não ser para soletrarem um real que já está ali. E isso, isso permite sonhar, em todo caso fazia sonhar a Lacan.

Lacan fez, uma vez, um seminário que se intitulava ´De um discurso que não fosse semblante´3 . É uma fórmula que permaneceu misteriosa, mesmo uma vez que o seminário foi publicado, porque o título deste seminário se apresenta sob uma forma condicional e negativa, ao mesmo tempo. Mas, sob esta forma, evoca um discurso que seria do real, é isso o que quer dizer. Lacan teve o pudor de não dizer-lhe sob esta forma que revelo, ele disse sob uma forma apenas condicional e negativa: de um discurso que seria do real, de um discurso que tomaria seu ponto de partida a partir do real, como as matemáticas. Era o sonho de Lacan, por a psicanálise ao nível das matemáticas. A respeito disto, é preciso dizer que só nas matemáticas o real não varia – ainda que nas margens, varia de todas as maneiras. Na física matemática, que incorpora e que se sustenta, no entanto, nas matemáticas, a noção de real é completamente escorregadia porque é, de algum modo, herdeira da velha ideia de natureza e que, com a mecânica quântica, com as investigações do ser mais além do átomo, podemos dizer que o real na física tornou-se incerto. A física conhece polêmicas entre físicos ainda mais vivazes que na psicanálise. O que para um é real, para um outro não é mais que semblante. Fazem propaganda de sua noção de real porque a partir de um certo momento fizeram entrar na conta, a observação. A partir desse momento, o complexo composto do observador e dos instrumentos de observação interfere e, então, o real torna-se relativo ao sujeito, quer dizer, cessa de ser absoluto. Podemos dizer que deste modo, o sujeito faz tela ao real. Não é esse o caso nas matemáticas. Como se acede nas matemáticas, ao real, por qual instrumento? Acede-se pela linguagem, sem dúvida, mas uma linguagem que não faz tela ao real, uma linguagem que é o real. É uma linguagem reduzida a sua materialidade, é uma linguagem que está reduzida a sua matéria significante, é uma linguagem que se reduz à letra. Na letra, contrariamente à homofonia, não se encontra o ser, being, in the letter is not being that you find, é the real. 

Fulgor do inconsciente e desejo do analista

A partir destas premissas, proponho interrogar a psicanálise. Na psicanálise, onde está o real? É uma pergunta urgente, na medida em que um psicanalista não pode não experimentar a vertigem do ser, desde o momento em que em sua prática, ele está invadido pelas criações, pelas criaturas da palavra.

Onde está o real em tudo isto? O inconsciente é real? Não! De toda forma, é a resposta mais fácil de dar. O inconsciente é uma hipótese, o que resta como uma perspectiva fundamental, mesmo se podemos prolongá-la, fazê-la variar. Para Freud, lembrem que o inconsciente é o resultado de uma dedução. É o que Lacan traduz de modo mais aproximado, salientando que o sujeito do inconsciente é um sujeito suposto, quer dizer, hipotético. Não é, então, um real. Inclusive nos colocamos a questão de saber se é um ser. Vocês sabem que Lacan prefere dizer que é um desejo de ser, mais que um ser. O inconsciente não tem mais ser que o sujeito mesmo. Isso que Lacan escreve S barrado é algo que não tem ser, que só tem o ser de falta e que deve advir. E nós sabemos bem que basta simplesmente extrair as consequências disso. Sabemos bem que o inconsciente na psicanálise está submetido a um dever ser. Está submetido a um imperativo que, como analista, representamos. E é nesse sentido que Lacan diz que o estatuto do inconsciente é ético. Se o estatuto do inconsciente é ético, não é da ordem do real, é isso o que quer dizer. O estatuto do real não é ético. O real em suas manifestações é muito mais unethical, não se comporta segundo nossa conveniência. Dizer que o estatuto do inconsciente é ético é, precisamente, dizer que é relativo ao desejo e, primeiro, ao desejo do analista que trata de inspirar o analisante a assumir esse desejo.

Em que momento na prática da psicanálise, necessitamos de uma dedução do inconsciente? Simplesmente, por exemplo, quando vemos retornar na palavra do analisante, lembranças antigas que haviam esquecido até este momento. Somos forçados a supor que essas lembranças no intervalo residiam em algum lugar, em um certo lugar do ser, um lugar que permanece desconhecido, inacessível ao conhecimento, do qual dizemos, precisamente, que ele não conhece o tempo. E, para imitar ainda mais o estatuto ontológico do inconsciente, tomemos o que Lacan chama suas formações, que põem em relevo, precisamente, o estatuto fugitivo do ser. Os sonhos se apagam. São seres que não consistem, dos quais frequentemente só temos fragmentos na análise. O lapso, o ato falho, o chiste, são seres instantâneos que fulguram, aos quais damos na psicanálise, um sentido de verdade, mas que se eclipsam imediatamente.

Confrontação com os restos sintomáticos

Então, entre essas formações do inconsciente, está o sintoma. Porque colocamos o sintoma entre estas formações do inconsciente, senão porque o sintoma freudiano também é verdade. Damos-lhe um sentido de verdade, o interpretamos. Mas, ele se distingue de todas as outras formações do inconsciente por sua permanência. Há outra modalidade do ser. Para que haja sintoma no sentido freudiano, sem dúvida é preciso que haja sentido em jogo. É preciso que isso possa ser interpretado. É o que faz para Freud, a diferença entre o sintoma e a inibição. A inibição é pura e simplesmente a limitação de uma função. Enquanto tal, uma inibição não tem sentido de verdade. Para que haja sintoma, é necessário também que o fenômeno dure. Por exemplo, o sonho muda de estatuto quando se trata de um sonho repetitivo. Quando o sonho é repetitivo, implica um trauma. O ato falho quando se repete torna-se sintomático, pode, inclusive, invadir todo o comportamento. Nesse momento, lhe damos o estatuto de sintoma. Nesse sentido, o sintoma é o que a psicanálise nos dá de mais real.

É a propósito do sintoma que a questão de pensar a correlação, a conjunção do verdadeiro e do real torna-se ardente. Neste sentido, o sintoma é um Janus, tem duas caras, uma cara de verdade e uma cara de real. O que Freud descobriu e que foi sensacional em seu tempo é que um sintoma se interpreta como um sonho, se interpreta em função de um desejo e que é um efeito de verdade. Mas, há, como vocês sabem, um segundo tempo deste descobrimento, a persistência do sintoma depois da interpretação e Freud o descobriu como um paradoxo. É, com efeito, um paradoxo se o sintoma é pura e simplesmente um ser de linguagem. Quando temos que nos haver com seres de linguagem na análise, os interpretamos, quer dizer, os reduzimos. Reconduzimos os seres de linguagem à nada, os reduzimos à coisa nenhuma. O paradoxo aqui é o do resto. Há um x que resta mais além da interpretação freudiana. Freud se aproximou disto de distintas maneiras. Pôs em jogo a reação terapêutica negativa, a pulsão de morte e ampliou a perspectiva até dizer que o final da análise como tal deixa sempre subsistir o que chamava restos sintomáticos. Hoje, nossa prática prolongou-se muito mais além do ponto freudiano, muito mais além do ponto em que, para Freud, a análise encontrava seu fim. Justamente era um fim do qual Freud dizia que sempre há um resto e, portanto, sempre é preciso recomeçar a análise, depois de um curto tempo, ao menos para o analista. Um curto tempo de pausa e logo recomeçamos. Era o ritmo stop and go, como se diz em francês agora. Mas, isso não é nossa prática. Nossa prática se prolonga mais além do ponto em que Freud considerava que há finais de análise, mesmo se houver que retomar a análise, nossa prática vai mais além do ponto que Freud considerava como fim de análise. Em nossa prática, assistimos, então, à confrontação do sujeito com os restos sintomáticos. Passamos, certamente, pelo momento de decifração da verdade do sintoma, mas chegamos aos restos sintomáticos e ali, não dizemos stop. O analista não diz stop e o analisante não diz stop. A análise nesse período se dá pela confrontação direta do sujeito com o que Freud chamava de restos sintomáticos e aos quais damos outro estatuto muito diferente. Sob o nome de restos sintomáticos, Freud chocou-se com o real do sintoma, com o que, no sintoma, é fora de sentido.

 O gozo do ser falante

Já no segundo capítulo de Inibição, sintoma e angústia , Freud caracterizava o sintoma a partir do que ele chamava de satisfação pulsional “como signo e o substituto (Anzeichen und Ersatz) de uma satisfação pulsional que não aconteceu”4 . Ele explicava no terceiro capítulo, a partir da neurose obsessiva e da paranoia, assinalando que o sintoma que se apresenta a princípio como um corpo estranho em relação ao eu, tenta cada vez mais fazer um com o eu, quer dizer, tende a incorporar-se ao eu. Ele via no sintoma, o resultado do processo do recalque. Evidentemente, são dois capítulos e o conjunto do livro que se deve trabalhar na perspectiva do próximo congresso.

Queria assinalar isto: o gozo em questão é primário? Em certo sentido, sim. Podemos dizer que o gozo é o próprio do corpo como tal, que é um fenômeno de corpo. Nesse sentido, o corpo é o que goza, mas, reflexivamente. Um corpo é o que goza de si mesmo, é o que Freud chamava o auto-erotismo. Mas, isso é verdade para todo corpo vivo. Podemos dizer que é o estatuto do corpo vivo, o gozar de si mesmo. O que distingue o corpo do ser falante é que seu gozo sofre a incidência da palavra. E, precisamente, um sintoma testemunha que houve um acontecimento que marcou seu gozo, no sentido freudiano de Anzeichen, e que introduz um Ersatz, um gozo que não faria falta, um gozo que transtorna o gozo que faria falta, quer dizer, o gozo de sua natureza de corpo. Portanto, nesse sentido, não, o gozo em questão no sintoma não é primário. É produzido pelo significante. E é precisamente esta incidência significante o que faz do gozo do sintoma, um acontecimento, não apenas um fenômeno. O gozo do sintoma testemunha que houve um acontecimento, um acontecimento de corpo depois do qual, o gozo natural, entre aspas, que podemos imaginar como o gozo natural do corpo vivo, transtornou-se e se desviou. Este gozo não é primário, mas é primeiro em relação ao sentido que o sujeito lhe dá e que lhe dá por seu sintoma enquanto interpretável.

Podemos recorrer, para captá-lo melhor, à oposição da metáfora e da metonímia. Há uma metáfora do gozo do corpo, esta metáfora produz acontecimento, produz este acontecimento que Freud chama a fixação. Isso supõe a ação do significante como toda metáfora, mas um significante que opera fora de sentido. E após a metáfora do gozo há a metonímia do gozo, quer dizer, sua dialética. Nesse momento, ele se dota de significação. Freud fala disso em Inibição, sintoma e angústia, fala de die symbolische Bedeutung, da significação simbólica que afeta um certo número de objetos.

Da escuta do sentido à leitura do fora de sentido

Podemos dizer que isso se transmite na teoria analítica. Na teoria analítica, durante muito tempo se contou uma pequena história sobre o gozo, uma pequena história onde o gozo primordial era encontrado na relação com a mãe, onde a incidência da castração era por efeito do pai e onde o gozo pulsional encontrava seus objetos, que eram Ersatz, que tamponavam a castração. É um aparato muito sólido que foi construido, que abraça os contornos da teoria analítica. Mas, de qualquer maneira, vou endurecer a linha, é uma superestrutura mítica com a qual, durante um tempo se logrou, com efeito, suprimir os sintomas, interpretando-os no marco desta superestrutura. Mas, interpretando o sintoma no marco desta superestrutura, quer dizer, prolongando o que eu chamava esta metonímia do gozo, se fez inflar o sintoma também, quer dizer, ele foi alimentado com sentido. Aí se inscreve meu “ler o sintoma”.

Ler um sintoma vai no oposto, quer dizer, consiste em privar o sintoma de sentido. Por isso Lacan substitui o aparato de interpretar de Freud – que Lacan mesmo havia formalizado, havia esclarecido, quer dizer, o ternário edípico – por um ternário que não produz sentido, o do Real, do Simbólico e do Imaginário. Mas, ao deslocar a interpretação do quadro edípico em direção ao quadro borromeano, é o funcionamento mesmo da interpretação que muda e passa da escuta do sentido à leitura do fora de sentido.

Quando se diz que a psicanálise é uma questão de escuta, é preciso estar de acordo, é o caso de dizê-lo. O que se escuta de fato, é sempre o sentido e o sentido chama o sentido. Toda psicoterapia se sustenta nesse nível. Isso desemboca sempre, em definitivo, em que o paciente é o que deve escutar, escutar o terapeuta. Trata-se, ao contrário, de explorar o que é a psicanálise e o que pode a nível propriamente dito da leitura, quando se toma distância da semântica – remeto-lhes aqui, às indicações preciosas que há sobre esta leitura no escrito de Lacan que se chama ´O aturdido´5 e que vocês podem encontrar nosAutres Ecrits, página 491 e seguintes, sobre os três pontos da homofonia, a gramática e a lógica.

Apontar o clinamen do gozo

A leitura, o saber ler consiste em manter à distancia, a palavra e o sentido que ela veicula, a partir da escritura como fora de sentido, como Anzeichen, como letra, a partir de sua materialidade. Enquanto que a palavra é sempre espiritual, se posso dizer assim, e a interpretação que se sustenta puramente ao nível da palavra não faz mais que inflar o sentido, a disciplina da leitura aponta para a materialidade da escritura, quer dizer, a letra enquanto que ela produz o acontecimento de gozo que determina a formação dos sintomas. O saber ler visa esse choque inicial que é como um clinamen do gozo – clinamen é um termo da filosofia dos estoicos.

Para Freud, como ele partia do sentido, isso se apresentava como um resto, mas, de fato, esse resto é o que está nas origens do sujeito, é, de algum modo, o acontecimento originário e, ao mesmo tempo, permanente, quer dizer, que se reitera sem cessar.

É o que se descobre, o que se desnuda na adicção, não “mais um copo” que escutamos falar há pouco6 . A adicção é a raiz do sintoma que é feito da reiteração inextinguível do mesmo Um. É o mesmo, quer dizer, precisamente, não se adiciona. Não teremos jamais o “bebi três copos, portanto, é suficiente”, bebe-se sempre o mesmo copo uma vez mais. Essa é a raiz do sintoma. É neste sentido que Lacan pôde dizer que um sintoma é um etcétera. Quer dizer, o retorno do mesmo acontecimento. Podemos fazer muitas coisas com a reiteração do mesmo. Precisamente, podemos dizer que o sintoma é, neste sentido, como um objeto fractal, porque o objeto fractal mostra que a reiteração do mesmo pelas aplicações sucessivas lhes dá as formas mais extravagantes, inclusive se pôde dizer, as mais complexas, que o discurso matemático pode oferecer.

A interpretação como saber ler visa reduzir o sintoma a sua fórmula inicial, quer dizer, ao encontro material de um significante e do corpo, quer dizer, ao choque puro da linguagem sobre o corpo. Então, certamente, para tratar o sintoma, é preciso passar pela dialética móvel do desejo, mas também é necessário se desprender das miragens da verdade que essa decifração lhes aporta e apontar mais além, à fixação do gozo, à opacidade do real. Se eu quisesse fazer falar a este real, lhe imputaria o que disse o deus de Israel na sarça ardente, antes de emitir os mandamentos que são o revestimento de seu real: “sou o que sou”7 .

*Jacques Alain-Miller apresentou no final do Congresso da NLS que se realizou em Londres, nos dias 2 e 3 de abril de 2011, o tema do próximo congresso que acontecerá em Tel-Aviv, em junho de 2012. Texto estabelecido por Dominique Helvoet, não revisado pelo autor.

Tradução: Mª Cristina Maia Fernandes

Texto distribuído por EBP-Veredas (EBP-Veredas é uma lista sobre a psicanálise de difusão privada e promovida pela Associação Mundial de Psicanálise (AMP) em sintonia com a Escola Brasileira de Psicanálise) – E-mail: EBP-Veredas@yahoogrupos.com.br


[1] Lacan, J. Radiophonie, Autres Ecrits, Paris, Seuil, 2001, p. 428
[2] Lacan J., « Télévision », Autres Ecrits, Paris, Seuil, 2001, p. 509

[3] Lacan J., Le Séminaire, Livre XVIII, D’un discours qui ne serait pas du semblant, Paris, PUF, 2007

[4]Freud S., Inhibition, symptôme et angoisse, 1926, Paris, PUF, 1986, p. 7

[5] J. Lacan, « L’étourdit », Autres Ecrits, Paris, Seuil, 2001, pp. 491-493

[6] J-A Miller fait référence à l’intervention de notre collègue Gabriela van den Hoven de la London Society of the NLS : « The Symptom in an Era of Disposable Ideals », les symptômes à l’ère des idéaux jetables

[7] Disse Moisés a Deus: Eis que quando vier aos filhos de Israel e lhes disser: O Deus de vossos pais me enviou a vós e se eles me disserem: Qual é o seu nome? Que lhes direi?
E disse Deus a Moisés:  Eu sou o que sou – Ehyeh asher Ehyeh (La Bible, Exode 3,13-14a).
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O passe em questão: da pequena diferença do narcisismo à diferença absoluta do desejo do analista

by secao_sp in Textos

O título de AE é dado, por três anos, a aqueles que são susceptíveis de testemunhar sobre os problemas cruciais da psicanálise, segundo os estatutos das Escolas da AMP. Desta forma o quê se privilegia nesta titulação é tanto o testemunho quanto a localização dos problemas que possam obstaculizar o avanço da psicanálise.

Uma possível crítica a algumas nomeações poderia ser que o quê se testemunha se atem mais ao drama edipiano e as saídas encontradas do que propriamente aos problemas cruciais da psicanálise. Portanto, a idéia subjacente ao testemunho que é a de sair do âmbito do privado e se apresentar ao público, está mantida. No entanto, o conteúdo destes testemunhos não alcança, na maioria das vezes, uma problematização tal da psicanálise, que com isto ela possa avançar.

A partir da leitura de alguns capítulos do Seminário, livro XI, de Lacan, particularmente os últimos, pode-se ressaltar uma problemática importante relativa ao final de análise, com o intuito de aprofundar a questão sobre o passe, destacando o franqueamento do plano das identificações como é tratado neste seminário.

No desenvolvimento dos argumentos sobre as duas operações essenciais para a constituição do sujeito – alienação e separação- Lacan exemplifica uma delas, o “não/sem” próprio à alienação, com o seguinte comentário:
“Pas moyen de me suivre sans passer par mes signifiants, mais passer par mes signifiants comporte ce sentiment d’ alienation que les incite a chercher, selon la formule de Freud, la petite différence.” (pág. 242 da ed. Francesa)

O narcisismo da pequena diferença, pode-se dizer que aparece quando o “fator letal” próprio à alienação atinge o sujeito de tal maneira que ele se defende tentando eliminar o outro, através da rivalidade imaginária. Isto é, na articulação significante o sujeito está sempre eclipsado entre os significantes, logo a versão insuportável da afânise, do desaparecimento, do sujeito no Outro, apresenta-se segundo esta lógica, ou ele ou eu, se um tem que morrer, que seja ele e não eu.

Mas, Lacan acrescenta ao seu comentário uma conseqüência desta posição narcisista:
“Malheureusement, cette petite différence leur fait perdre la pontée de la direction que je leur designais.” (idem)

Donde se conclui que é necessário suportar o desaparecimento nos significantes para que um sujeito possa advir e conseqüentemente abrir mão, deixar cair suas identificações imaginárias sustentadas num suposto eu ideal.

No entanto, para que este desaparecimento não seja vivido como uma oferta ao sacrifício, outra operação se faz aí necessária- a separação.

É de fundamental importância lembrar que se trata do terreno da transferência, pois como dizia Freud, o urso polar a principio não poderá estar frente a frente com uma onça pintada, pois eles vivem em territórios diferentes. De uma maneira alegórica poderíamos dizer que o ajuste para que este encontro se dê, é a transferência.

Ou ainda seguindo Lacan no mesmo seminário, a transferência é o quê leva a demanda na direção da identificação, o franqueamento da mesma que implica em seguir a direção contrária até o desejo do analista.

Portanto, a operação de separação, fundamental para que sujeito da psicanálise possa advir, exige ao menos duas condições, uma operação anterior de alienação e um terreno próprio – o da transferência.

Para que a separação ocorra é necessário uma torção, para que o sujeito se liberte do ” efeito afânisico do significante binário” ( S2) , o que resulta no recobrimento de duas faltas, logo não se trata mais de ou ele ou eu, mas de contornar o vazio.

Dito de outra maneira, não se sabe o que faz com o analista queira analisar, mas sabe-se que este desejo nada tem a ver com a demanda do analisante.

Ainda com Lacan no mesmo seminário, ” há uma diferença essencial entre o objeto definido como narcisico i (a) e a função do objeto a.”pág. 303.

Para melhor compreender o resultado da operação de separação podemos esquematicamente propor que de um lado temos o sujeito e sua falta, de outro o objeto a que não recobre a falta, mas ao contrário sobra como um resto, que o sujeito tem que se haver com o que fazer com ele. Já que não é possível nem se livrar, atribuindo-o a um outro, nem incorporá-lo como anteriormente o fazia no conteúdo fantasmático.

Além disso, por mais paradoxal que possa parecer “o desejo de obter a diferença absoluta , que é o desejo do analista”, só se sustenta se houver um assujeitamento a esta condição.

Para retomar a questão do passe nas Escolas, se passamos numa análise do lugar da demanda de analisante para o do desejo do analista, os testemunhos são muito ricos em detalhes sobre os desdobramentos da demanda através da transferência indo em direção às identificações, o que mapeia muito bem o drama edipiano, mas fracassa muitas vezes na articulação destes elementos ao desejo do analista. O que faz com que os testemunhos do passe sejam fundamentais para um maior entendimento da clínica, mas nem tanto para os aspectos epistêmicos.

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