Flashes da Comissão de orientação

Imagem: Pixabay
Imagem: Pixabay

O Ato: de Freud a Lacan

Milena Vicari Crastelo (EBP/AMP)

 Existe psicanálise que não seja em ato?

Questão levantada na atividade preparatória para estas jornadas e que seguiu ecoando para mim.

A existência da psicanálise está fundada no ato freudiano, que ao dar lugar de fala para as histéricas descobre o inconsciente. O ato tem lugar primordial para Freud, está no início e nos meados de seu ensino “[…] é na perspectiva do ato falho ou do ato sintomático que o ato surge na psicanálise freudiana”[1]. Lacan, seguindo Freud, em ato funda uma Escola, que tem sua base assentada em dois dispositivos: o cartel e o passe.

Penso que o passe nos fornece elementos para iluminar esta questão, visto que é neste dispositivo que temos o testemunho do que é a passagem de psicanalisante a psicanalista, e esta passagem tem em seu cerne o ato analítico.

“O ato psicanalítico, ninguém sabe, ninguém viu além de nós, ou seja, nunca situado e muito menos questionado, eis que nós o supomos a partir do momento eletivo em que o psicanalisante passa a psicanalista”[2], escreve Lacan no texto resumo do seminário de 1967-1968, O ato psicanalítico, e acrescenta: “Assim isolado desse momento de instalação, o ato fica ao alcance de cada entrada numa psicanálise”[3].

Levar em conta que existe um real que não se elimina, sustentar o incurável de um percurso de análise, é o índice de que estamos numa psicanálise e penso que isso não se faz fora da dimensão do ato. Psicanálise… experiência que só acontece em ato?! Seguimos falando…

[1] BRODSKY, G. Short Story os princípios do ato analítico. Rio de Janeiro: Contracapa, 2004. p. 12.
[2] LACAN, J. “O ato psicanalítico” (1969). In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 2003, p. 371.
[3] Ibid, p. 371

O ATO E A INTERPRETAÇÃO DA ESCOLA

Daniela de Camargo Barros Affonso (EBP/AMP)

Todo ato verdadeiro é transgressão, afirma Miller, em “Jacques Lacan: observações sobre seu conceito de passagem ao ato”[1]. Não há ato verdadeiro que não comporte uma ultrapassagem, a infração de um código, uma lei, que o ato tem a oportunidade de remanejar. É, também, da estrutura do ato, a destruição do sujeito: “todo ato é um suicídio do sujeito”, diz Miller, na medida em que o sujeito não é mais o mesmo antes e depois do ato.

Em A erótica do tempo[2], Miller refere-se à interpretação como um momento não homogêneo, imprevisto, após o qual todas as condições prévias a ele são perturbadas, apagadas, remanejadas. A interpretação, para que esse efeito ocorra, não pode ser dita em qualquer momento ou em qualquer contexto, ou seja, ela se inscreve numa modalidade temporal específica: a surpresa. A interpretação é o ato analítico.

“A vida de uma Escola deve se interpretar”, defende Miller em “A teoria de Turim sobre o sujeito da Escola”[3]. Para ele, o processo de formação de uma Escola lacaniana precisa se desenvolver a céu aberto, pois se trata de uma comunidade que só pode se constituir no próprio movimento de sua subjetivação. Cabe ao AE interpretar a Escola, e ele o faz pela transmissão de sua diferença absoluta.

Interpretar a Escola, portanto, passa por um ato que surpreende, remaneja, transgride, subverte. Foi isso que presenciamos quando Sandra Grostein[4] transmitiu seu último testemunho na Seção São Paulo da EBP. Neste, relata que passou de uma relação com a psicanálise em que buscava um “saber todo” para uma relação ao saber como “não todo”, mas não sem sentir resistência em abandonar o “saber todo”, que percebe retornar de tempos em tempos em sua própria formação e na Escola.

Sandra relata identificar em si e na EBP momentos de apelo ao “todo saber”, levando a comunidade Escola a possíveis relações de dominação. Lembra que a vida na Escola é feita de crises cujo efeito pode ser um gozo presente no autoritarismo que impõe pelo convencimento e não proporciona as condições para que surja o desejo de saber.

Se o ato mata o sujeito para que ele renasça transgredido, Sandra Grostein, em seu exercício de AE, proporcionou, a meu ver, este efeito disruptivo na Escola-sujeito, movimento imprescindível que, ao fazer surgir o novo, permite que a Escola permaneça viva tendo sempre, como horizonte, o caráter perturbador da descoberta freudiana do inconsciente.

[1] Jacques-Alain Miller. “Jacques Lacan: observações sobre seu conceito de passagem ao ato”. In: Opção Lacaniana online nova série, Ano 5, nº 13, março 2014.
[2] J.-A. Miller. A erótica do tempo. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2000.
[3] J.-A. Miller. “A teoria de Turim sobre o sujeito da Escola”. Opção Lacaniana online nova série, Ano 7, nº 21, novembro 2016.
[4] Testemunho de Sandra Grostein transmitido no dia 29 de setembro de 2021. As passagens aqui mencionadas são oriundas de notas pessoais feitas no momento da transmissão.

Passagem ao ato e rechaço do saber

Valéria Ferranti (EBP/ AMP)

Um dos possíveis modos de tomar a passagem ao ato é como uma forma contumaz de rechaço ao saber.

S1 em sua articulação com S2, portanto na produção mesma de saber, resulta em perda de gozo e no gozo parcial que Lacan escreve com a letra a. Para Guy Trobas[1], Lacan introduz a substituição da perda de gozo com o mais-de-gozar em uma nova articulação do gozo com a lei. Não mais sob a égide da lei Edipiana, do Nome-do-Pai, mas da lei do mercado, do capitalismo e esta substituição implica uma nova aliança entre o gozo e a lei. Quais consequências para a ameaça da presença do objeto a, ou seja, da angústia?

Este novo tratamento do gozo – pelas leis do mercado – produz  a série infinita de gadgets, de objetos de consumo incapazes de proporcionar um gozo que possa satisfazer, que possa suturar o que insiste em não se escrever. E aqui localizamos a passagem ao ato: uma defesa frente a angústia, angústia que não “se liga” – como nos diz Freud -, a nenhum representante, a nenhum significante, portanto não se articula ao S2, a nenhuma elucubração de saber e que nenhum objeto do consumo apazigua de modo perene.

Para Trobas na  passagem ao ato se trata da exclusão do saber em sua  raiz, há a exclusão do fantasma fundamental.

[1] Guy Trobas. “Tres respuestas del sujeto ante la angustia: inhibición, pasaje al acto y atinge out”. In: Logos 1, Nueva Escuela Lacaniana. Buenos Aires: Serie Tri. Grama Ediciones. 2003.