Comentário sobre O Seminário, livro 17: o avesso da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

Aula I – Produção dos quatro discursos “Há uma relação primitiva entre o saber e o gozo, e é ali que vem se inserir o que surge no momento em que aparece o aparato do que concerne ao significante. É desde então concebível que, desse surgimento do significante, releiamos sua função.” (p.16)

Há saber absoluto? Sobre a função do significante e a sua relação com o gozo.

Antônio Alberto Peixoto de Almeida (Associado ao CLIN-a)

O gozo, em Lacan[1]  , é, antes de tudo, sexual – o que tem diversas incidências na vida do sujeito. Dentre as muitas exposições, o autor elabora a teoria dos discursos tendo este elemento como mote principal. Ela gira em torno de quatros elementos fundamentais: $, a, S1 e S2.

A cadeia do saber é formulada, na referida teoria, pelo eixo significante (S1 -> S2). Trata-se, assim, de uma operação que, através da castração, impõe limites ao gozo. Lacan desenvolve isso principalmente nos seminários seguintes, a partir das diferenciações que ele propõe entre o gozo fálico (falado, castrado) e o gozo feminino (mudo, à deriva).

Em outro ponto, Millot[2] evoca uma fala de Lacan, de que o “sonho de despertar” seria “se afogar” em um “saber absoluto”. O impossível dessa operação reside justamente na maneira como o saber se constitui, ou seja, como algo furado – o que nesse caso, se contrapõe à própria direção da morte. Eis uma questão contemporânea, onde há tantos que querem impor os “absolutos” e desfazer o caráter aberto que existe em torno do laço social.


[1] Lacan, J. (1969-1970) O seminário livro 17: o avesso da psicanálise. Rio de Janeiro, Zahar, 1992.
[2] Millot, C. A Vida com Lacan. Rio de Janeiro, Zahar, 2017.