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#Orientação – Desencanto da sexualidade

by secao_sp in Boletins

Escultura: Tunga; Foto: Instagram @luhringaugustine

Será que podemos dizer que Freud formula propriamente a impossibilidade da relação sexual? Ele não a formula como tal. Se eu o faço, é simplesmente porque isso é muito simples de dizer. Está escrito de todas as maneiras. Basta lê-lo (J. Lacan)

Mais do que uma leitura de Freud, o ensino de Lacan é sua resposta singular ao que foi o acontecimento Freud na cultura, ou, como diz Miller[1], ao “traumatismo Freud”, já que Lacan a ele reage sintomaticamente, em traumatismo, procurando com seu ensino transmitir a radicalidade da descoberta freudiana que esburaca o discurso universal desvelando o furo da estrutura.

Mal compreendido, foi um escândalo Freud afirmar que o inconsciente só reconhece a inscrição do falo para diferenciar os dois sexos em termos de castração. A pulsão genital – aquela que conduziria à relação com o objeto total, A mulher – revela-se problemática. Contrariamente ao sonho dos pós-freudianos, Freud insiste na pulsão que permanece parcial quanto à finalidade de reprodução e cujo objeto repousa sobre a Coisa perdida.

Mas, a arte precede o psicanalista. Segundo indica Lacan, o dramaturgo de O despertar da primavera “antecipa Freud e muito” [2]. Em 1891, enquanto Freud ainda cogitava sobre o inconsciente, o jovem Moritz, às voltas com o despertar da sexualidade e do gozo enigmático, se lança “entre os mortos excluídos do real”, revelando tragicamente que nessa delicada transição nem sempre o jovem alcança uma idade para o desejo.

Para Lacan, o essencial naquilo que Freud chama de sexualidade é que esta faz furo no real e, enquanto Freud levava-a para todos os campos, Lacan a restringe ao encontro com o Outro sexual, que não existe. A pulsão finalmente não representa a sexualidade, uma vez que o parceiro em jogo é o objeto a que vem substituir o Outro sexual na forma de causa de desejo, ou o S(A) barrado, outra versão do furo da estrutura de onde parte o gozo dito feminino. Persegue-se uma satisfação ignorada, aberrante, sintomática, marcas e afetos do exílio do que “não há”.

O ponto de vista estrutural na psicanálise inaugurado por Lacan[3] implica anular as questões da gênese, separando-a de uma teoria do desenvolvimento da libido baseada na genética e no indivíduo. Em contrapartida, o sujeito do significante supõe a estrutura da linguagem que recorta o circuito da pulsão a partir da demanda do Outro. Oral, anal, sejam quais forem os revestimentos para o objeto da pulsão, este não repousa no desenvolvimento do organismo mas se inscreve com as operações lógicas de causação do sujeito: alienação e separação. O olhar, a voz e o nada, objetos que Lacan fez surgir na psicanálise, não se situam em estágio algum, generalizando o estatuto de objeto a como consistência lógica e topológica, causa ausente, o objeto perdido que é o suporte do desejo.

Nesse sentido, a fase fálica é, para Lacan, central, pois a função do objeto a é representada por uma falta, ou seja, a falta do falo como constitutiva da disjunção do desejo e do gozo”[4]. Com a elaboração dos anos 70, Lacan esclarece que o falo como significante, que funda a identificação fálica diferenciando meninas e meninos, o famoso binário criticado pelas teorias do gênero, não se confunde com o gozo fálico, que é a encarnação da não-relação. Uma leitura equivocada das fórmulas criticadas da sexuação supõe que o gozo fálico e não-todo fálico reeditam o binário homem/mulher impondo a “heterossexualidade obrigatória”, como denuncia J. Butler, quando se trata, ao contrário, de modos de fazer fracassar a relação sexual que não há e da impossível simbolização do real do sexo que nenhuma identificação de gênero, nem mesmo as mais estranhas, poderá eliminar. “Não-há” senão o “nada” que se desvela para o jovem Moritz e presentifica a fugacidade do sentido sexual, que nem o significante fálico nem o saber sexual podem estancar.

Nesse ponto, Lacan articula o que em Freud permanece desarticulado[5]: o circuito da palavra e o circuito da libido. Enquanto Freud mantém um paralelismo entre o recalque (que impede que o dizer se esgote), e a regressão (que obstaculiza a plena realização do sexual), Lacan demonstra sua articulação. O caráter parcial das pulsões decorre da estrutura da linguagem que já nasce recortada pela linguagem. “O sexo é um dizer”[6] que surge do significante do qual padece em torno de um real, ele mesmo dessexualizado.

Despertar para a idade do desejo?

Posto isso, cabe indagar a natureza dessa escansão e do “despertar” que opera na puberdade instaurando uma ruptura em relação ao período infantil, tal como postula Freud.

Se o conceito de adolescência é uma construção é porque este não repousa na realidade orgânica que anunciaria sua chegada que talvez nem sempre tenha existido. Seria a adolescência uma construção da nossa sociedade adolescente que a valoriza eternizando-a, postergando o ato da vida adulta no culto ao aperfeiçoamento interminável de si mesmo?[7]

De todo modo, é necessário um segundo tempo para situar a puberdade como uma ruptura, localizável somente a partir dos seus efeitos de subjetivação sintomática. Nessa direção, Stevens situa a adolescência como um “sintoma da puberdade”, uma resposta diante de um real que irrompe, o que requer do jovem sustentar-se como desejante diante do despertar pulsional e não mais como desejado (ou não desejado) pelo Outro parental do qual terá de se separar.

Para Lacan, o que separa a criança do adulto não é nem a idade nem a puberdade, mas a posição ética de responsabilizar-se por seu gozo. Trata-se, como comenta Laurent[8], daquele que foi até o fundo de um desejo e encontrou seus restos, a causa que o anima. Por isso, o adulto, como diz Lacan, é aquele que não desconhece a causa de seu desejo, aquele que soube extrair do furo da estrutura a sustentação do desejar e a certeza de seu ato. Mas, onde estão os adultos? A questão já se colocava para Lacan em 67, quando se referia à “criança generalizada”[9] na sociedade na qual “não existe gente grande” que possa responsabilizar-se pelo irredutível do gozo que não convém à relação sexual.

Cabe sublinhar que o despertar pulsional da puberdade não equivale ao despertar para o desejo que poderá dar marcha à iniciação sexual do adolescente. Não sem efeitos, a sexualidade da era vitoriana aos dias atuais sofreu uma grande transformação. Já em 74, Lacan[10] assinalava “a dimensão pública da retirada do véu” em uma época em que a permissividade sexual nas ruas – longe de eliminar os embaraços frente à sexualidade que perdia sua áurea clandestina – afetava o apetite sexual. Ao que parece, como dizia Serge Cottet[11], Don Juan, anda cansado”, e cada vez mais desencantado frente ao empuxo-ao-gozo da hipermodernidade – o que lhe dá pouca oportunidade de confrontar-se com “aquilo que da sexualidade faz furo”.

Em “Televisão”, Lacan indaga: “como desconhecer que esses dois afetos – o tédio e a morosidade – se denunciem nos jovens que se entregam a relações sem repressão?”[12] A indiferença e apatia do desejo, distante do mito romântico do jovem em crise estruturante, levam Domenico Cosenza[13] a indagar os efeitos da ausência de um véu em torno do enigma da sexualidade no adolescente contemporâneo, uma vez que, para “fazer amor com as mocinhas”, como diz ironicamente Lacan, é preciso antes “o despertar de seus sonhos”.

Se há um despertar que agita o corpo do púber em ebulição, não é certo que haja necessária e paradoxalmente um despertar da sexualidade na época em que a fúria copulatória da pornografia disponível na prateleira mostra antes um véu que não há, um saber inconsciente indisponível para mobilizavar o sonho da Outra cena, mas um puro sem-sentido que cada vez menos encoraja o jovem à iniciação da vida sexual.

Como sair do tédio do gozo autista masturbatório, da indiferença apática ao ato sexual? A promessa fálica encanta cada vez menos e o gozo, disjunto do desejo, desarticulado do dizer, deságua frequentemente no afeto central da contemporaneidade, a tristeza, dita depressão, como sinaliza Lacan, ali onde o saber inconsciente permanece indisponível – quando não termina na passagem, cada vez mais frequentada pelos adolescentes, ao ato suicida.

Muitas vezes encerrado na bolha entediante do Um, o jovem de hoje, contudo, se agarra aos seus aparelhos que o mantém hiperconectado nas redes ditas sociais. Novas respostas dos adolescentes diante do furo da estrutura, da inquietante fugacidade do sentido vital que se esvai continuamente nos tempos do Outro que não existe?

Para que o gozo possa condescender com o desejo e o jovem possa por fim despertar para a idade do desejo, não seria hoje antes preciso velar a nudez da pulsão para introduzir um mistério diante do inominável do objeto, uma versão do objeto a que cause o desejo? A propósito, servir-se de “um entre tantos nomes-do-pai”, de uma père-version diante do impossível, é a orientação com a qual Lacan conclui O despertar da primavera.

Caso a função de suplência do amor ainda zele por esta função, o psicanalista poderá ser um parceiro fundamental que sustente, com sua presença e seu dizer, o laço transferencial a partir do qual o analisante decidido poderá extrair um objeto privilegiado não disponível no mercado: o objeto separador causa do desejo.

Maria Josefina Sota Fuentes

 


[1] MILLER, J.-A. El ultimísimo Lacan. Buenos Aires: Paidós, 2012, pág. 11.
[2] LACAN, J. “Prefácio a O despertar da primavera”. In Outros escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 2003, pp. 558-559.
[3] Cf. MILLER, J.-A. “Concepts et mathèmes”. In Quarto n. 54, junho, 1994, pp. 30-34.
[4] Cf. LACAN, J. O seminário, livro X: a angústia. Rio de Janeiro: Zahar, 2005, pág. 321.
[5] MILLER, J.-A. “Seminário sobre las vías de formación de los síntomas”. In Introducción a la clínica lacaniana. Barcelona: RBA Libros, 2007, pág.465.
[6] LACAN, J. « Le moment de conclure : une pratique de bavardage ». In: Ornicar ?, nº 19, 1979 (tradução livre).
[7] La Sagna, P. “L’adolescence prolongée, hier, aujourd’hui et demain”. In Mental, n. 23, dez, 2009, Clamecy, pág. 18.
[8] LAURENT, E. Hay un fin de análisis para los niños. Buenos Aires: Colección Diva, 2003, pág. 37.
[9] LACAN, J. “Alocução sobre as psicoses da criança”. In Outros escritos. Op. cit, pág. 367.
[10] LACAN, J. “O despertar da primavera”. Op. cit, pág. 558.
[11] COTTET, S. “O sexo fraco dos adolescents: sexo-máquina e mitologia do coração”. In Ensaios de clínica psicanalítica. Rio de Janeiro: Contracapa, 2011, pág. 68.
[12] LACAN, J. “Televisão”. In Outros escritos. Op. cit, pág. 530.
[13] COSENZA, D. “L ‘initiation dans l’adolecence: entre mythe et structure”. In Mental, n. 23, dez, 2009, Clamecy, pág. 48.
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#ecos de quarta – A disjunção entre o sexo e o saber nos adolescentes

by secao_sp in Boletins

Grafiti: Osgemeos (detalhe); Foto: Instagram @quelig

Pontuações preparatórias para VIII Jornadas da EBP-SP- Amor e sexo em tempos de (des)conexões

Adolescência, sintoma não necessário.

Segundo Stevens[1] a adolescência é um sintoma, tentativa de subjetivar o real expresso nas transformações do corpo na puberdade. Este se apresenta como estranho, pulsional, exigindo uma satisfação frente à qual o adolescente não tem nem um saber, nem um saber-fazer a respeito. A mudança, em termos da pulsão sexual, até então expressa na satisfação perverso polimorfa, aponta para uma satisfação de cunho genital/sexual, um novo modo de gozo que pode incluir um parceiro sexual.

Ou seja, o sexual introduz um furo no saber, a partir da eclosão de um real na carne e no modo de satisfação do corpo, agora possível de remeter-se a outro corpo, também estranho.

O imaginado encontro sexual aponta para um furo que por vezes pode ser incontornável e produzir uma queda vertiginosa, por outras, pode ser evitado com o isolamento, ou ainda com objetos que produzam uma aparência de solução frente à não existência da relação sexual.

A adolescência como sintoma, é o quanto deste momento pode ser colocado em questão e o sujeito se propor a um trabalho sobre o que não sabe, mas deseja saber.

Nesse ponto Cottet[2] nos lembra que a indiferença nos jovens levada ao extremo, no que se refere às questões do sexo e do encontro sexual, podem funcionar como defesa frente ao vazio que aí se coloca, e ser, então, entendida como sintoma. A evitação do encontro amoroso ou sexual como resposta ao mal-estar, a indiferença frente ao impossível da não-relação entre os sexos se apresentam como saídas que pretendem evitar a dimensão real que está em jogo nesse momento. Nestes casos estamos diante do enfado e da morosidade como efeitos de uma subjetividade que se mantém aparentemente aquém da satisfação, mas plena de gozo mortífero. Do mesmo modo nos permitem questionar a lógica de que o problema se encontraria na permissividade acentuada de nossos dias.

Saber disjunto do corpo

O corpo é o ponto central, que nesse momento da puberdade aparece sob a forma de um real que precisa ser ultrapassado. A partir deste ponto, é possível que isso ocorra via sintoma, entrando-se na adolescência, como afirma Stevens, ou apresentar-se como curto circuito do gozo.

Fazer sintoma da não-junção entre o ser e seu corpo pode então, no contemporâneo, ser evitado, e na adolescência, quando este aspecto toma a cena, o acting out e a passagem ao ato podem vir no lugar de uma adolescência-sintoma.

Fica em aberto, a cada adolescente, como construir um saber sobre o gozo para poder servir-se do corpo. Considerando não se tratar de um saber sobre os ideias, ou sobre o amor, mas sobre o gozo que assola o corpo de maneira nova. É preciso uma elaboração de saber por alguma via, pois sem isso “fica-se exposto a uma exigência pulsional que pode levar o adolescente ao pior”[3], nos lembra Maria Jose Salum.

Saber e consumo

Quando na puberdade o real da não relação sexual retorna, e a resposta fálica frente ao desejo da mãe, de ser ou ter um falo, se mostra insuficiente para amarrar as coisas, abre-se uma reconfiguração do lugar do desejo do Outro. É frente a esse Outro que o púbere precisa se posicionar para além “dos sintomas e fantasias construídos na infância e mais além dos ideias e dos modelos”[4]

Nesse momento a pergunta que sobressai é sobre o gozo da mulher e não mais sobre o desejo da mãe, e é exatamente esta pergunta que é possível curto-circuitar.

O declínio do sujeito suposto saber em nossa época acentua o furo que a sexualidade faz no saber. De modo geral a relação com o saber se modifica, sendo curto circuitada por objetos de informação ininterrupta, que estancam a pergunta. Segundo Miller, “o saber que antes era extraído por meio do Outro e seu desejo, hoje, está nos objetos tecnológicos”[5]. A adesão a objetos de consumo favorece o não-saber sobre o desejo na tentativa de evitar uma sintomatização ou problematização que o leve em conta, assim como ao próprio inconsciente.

Objetos que empuxam ao gozo e ao ato

Rechaçando a relação com o saber alguns adolescentes se tornam reféns dos objetos para se fazerem reconhecer pelo outro, no movimento de ver e ser visto, o que acirra o terreno da rivalidade imaginária e incita a violência.

Frente à pergunta ou à surpresa de uma nova satisfação pulsional no corpo, objetos pode vir recobrir o que é ser homem, mulher, trans, etc., e o adolescente não se propor a esboçar uma resposta à pergunta sobre a sexuação. Os objetos como próteses identificatórias respondem ali onde um ser sexuado não se definiu ainda, ou não se apropriou de um corpo pulsional do qual possa fazer uso.

Com a proliferação imaginária e o declínio dos semblantes, o véu do sexual por vezes cai e tem-se a aparição do obsceno e do violento. Do mesmo modo que no impasse amoroso, a violência pode ser uma solução ali onde a palavra não nomeia os parceiros, não os reconhece ou não os enlaça.

Violência

Cottet nos orienta, a partir de Christian Baudelot e Roger Esabler[6], que não é a sociedade que esclarece o suicídio, e sim este que esclarece a sociedade. Levanta uma relação entre o enfastio do gozo como consequência do contemporâneo e a saída pelo suicídio, partindo da discussão de Abraham Baer[7], que atribuía à força da sexualidade a responsabilidade da autodestruição. Tal relação remete ao fato do sujeito frente ao real da não relação encontrar somente a saída vertiginosa da não existência, pela ausência de algo que medie esse não-encontro.

Com Laurent[8], aprendemos que o sujeito não pode identificar-se nem com seu inconsciente, nem com seu gozo, pois ambos permanecem Outros. Ou seja, permanece um ponto de extimidade no corpo e em relação à sexuação. Esse aspecto vem à tona na adolescência, e pode ser sintomatizado buscando uma saída que permita um gozo vivível.[9] Em outros casos, o sujeito fica à mercê do gozo e do não saber, tornando-se objeto do seu próprio “adolescer”, em suma, dos efeitos que sofre disso no seu corpo a partir da pergunta sobre a sexuação.

Uma palavra sobre a fluidez

A partir de Butler podemos recortar[10] que a identidade de gênero é um ideal identificatório e normativo, tratando-se de um processo que nunca se resolve de maneira definitiva. Aspectos como o gênero fluido, ou a desconstrução total das identidades de gênero se colocam como possibilidades frente ao impossível expresso no corpo, de cunho sexual, no adolescente.

Se por um lado uma geração fracassou em extinguir o mal-estar do sexo ao se opor ao recalque e pregar a liberdade sexual, por outro a possibilidade de ter qualquer gênero ou nenhum, independentemente de ser um direito, parece fundar-se em outra liberdade que tem como ideal “a consigna meu corpo é meu”[11], ainda de modo mais radical.

É o gozo que introduz a dimensão do impossível e este resta sempre Outro, independentemente do número e possibilidades de nomeações. Do mesmo modo que o corpo sempre nos escapará, nos deixará na mão, estruturalmente[12]. A extimidade inerente ao corpo impede, para qualquer um, uma propriedade absoluta do seu corpo. Esse campo, do gozo, não se resume ao campo do Direito, do mesmo modo que não pode ser abarcado totalmente por ele.

Frente ao real do sexo, “em tempos de vacilação dos semblantes tradicionais que poderiam dar alguma sustentação ao ser em sua articulação ao campo das identidades sexuais, assistimos a uma imensa flexibilidade dos modos de viver a pulsão. Atualmente assistimos a uma gradação de eixos e tonalidades na experiência sexual vem dilatar o intervalo entre um sexo e outro, intervalo que se expressa na clínica com adolescentes por longos períodos de experimentação no terreno da sexualidade”[13]. Assistimos também a indefinição da posição sexuada, ou ainda o desejo de congelar a puberdade para evitar o real do corpo e esperar por uma definição futura.

Em outros momentos as identificações assumem o lugar de insígnias do sujeito, uma modalidade de gozo elevada à dignidade de um significante mestre[14] que padroniza o gozo e acarreta a formação de sintomas articulados ao laço social.

É por essa via que Ansermet[15] argumenta que as práticas contemporâneas em torno da intersexualidade e da transexualidade demonstram que a escolha do sexo se situa para além do campo das identificações. Há diferentes dimensões e modos de inscrição no plano sexuado para o ser falante: no plano imaginário há as identidades; no plano simbólico, as questões em jogo na nomeação, filiação e lugar social; no plano real, os diferentes modos de gozo”.

O adolescente contemporâneo tem à sua frente toda essa possibilidade de invenção, ao mesmo tempo que de evitação no que diz respeito à sexuação e ao laço social e amoroso daí advindo.

Contingência como saída para a recusa ao saber

Frente a explosão da norma sexual, a presença maciça de objetos de consumo que equivalem a vida erótica à econômica[16], bem como a lista infinita de nomeações, os sujeitos se veem em uma balcanização[17] do consumo onde seus próprios corpos podem entrar como objetos. A primazia do ato vazio, sexual ou não, sem nostalgia, coloca a queda do ideal amoroso.

Em alguns jovens o recrudescimento de normas parece ocupar o lugar de um muro frente ao furo engendrado pelo sexual e o radicalismo moral se mostra novamente.

Para encerrar, Cottet afirma que a sexualidade tem seu mistério e, “levantando o véu da proibição, encontra-se a não relação. Ao discurso liberalizante que atribui a insatisfação ao nível do gozo às normas da cultura, Lacan responde com a maldição do real do sexo. O bendizer sobre o sexo é impossível”.

Por não se tratar de uma questão de readequação, exclusão ou recrudescimento das normas de comportamento, nem mesmo de uma retomada romântica do afeto e da solidariedade, apelemos novamente a Lacan que sempre abre a porta ao sujeito, “aí onde não há relação sexual (…) inventa-se. Inventamos o que podemos, é claro”.[18]

Paola Salinas

[1] Stevens, A. Adolescência: sintoma da puberdade. In: Revista Curinga, Belo Horizonte, n 20, pg. 27-39, 2004.
[2] Cottet, S. O sexo fraco dos adolescentes: sex-máquina e mitologia do coração. In: Cottet, S. Ensaios de clínica psicanalítica. Rio de Janeiro, Contra Capa Editora, 2011, pg 63.
[3] Salum, M.J.G. Id. Ibid. Juventude, saber e gozo no impasse com a sexualidade. In: Revista Curinga, Belo Horizonte, n 42, pg. 47, 2016.
[4] Oliveira, S. E. As trans-formações da puberdade. In: Revista Curinga, Belo Horizonte, n 94, 2016.
[5] Miller, J. A. A criança e o saber. In: Cien Digital, n 11. http://cien-brasil.blogspot.com/p/cien-digital.html
[6] Baudelot, C., Esabler, R. Suicídio: o avesso de nossa época (2006), apaud Cottet.
[7] Baer,A. Apaud Cottet, S.
[8] Laurent, E. Género y goce. Conferência nas 13a Jornadas da ELP 2014. Ed. Gredos-ELP, Barcelona, 2014, pg. 362.
[9] Expressão de Mauricio Tarrab em discussão do Caso Joana D´arc no Instituto Raul Soares, Belo Horizonte em 2000. (Ano aproximado, anotações pessoais).
[10] Alvarez, P. et al Trasnsexualismo e Travestismo desde la perspectiva del psiconalisis. In: Lacan XXI. Revista FAPOL on line, Vol 5 Maio de 2018.
[11] Pittella. C. Quais os impasses e soluções do jovem para a sintomatização do sexual hoje? In: Revista Curinga, Belo Horizonte, n 94, 2016.
[12] Lacan, J. Seminário 23, O sinthome. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editores, 2007.pg 64.
[13] Rubião, L. A psicose frente ao real do sexo na adolescência. In: Revista Curinga, Belo Horizonte, n 94, 2016.
[14] Fajnwaks, F. Lacan et les théories queer: malentendus e méconnaissances. In: Leguil, C. Subversion lacanienne des théories du genre. Paris, Michéle, 2015, pg 31.
[15] Ansermet, F. Elegir el propio sexo: Usos contemporáneos de la diferencia sexual. In Virtualia. Revista digital da EOL. Noviembre 2014 • Año XIII, n 29.
[16] Lepovetsky. G. Le bonheur paradoxal. Essai sur la société d’hyperconsommation, Paris Gallimard, 2006, p. 107. Apaud Cottet.
[17] Lepovetsky, G. Id. Ibid. Apaud Cottet.
[18] Lacan, J. Seminário 21, Os não tolos erram. Inédito.
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#ecos do trabalho no Cartel* – (Des)Conexão e desenlace: consideração sobre a prática clínica com adolescentes

by secao_sp in Boletins

Instalação MAM-SP; Foto: Instagram @vanderem

O sonho é a Via Régia para o Inconsciente, como nos ensina Freud. Dessa forma, tomo a adolescência como a estrada que me permite abrir questões sobre o trabalho da psicanálise em nossa época. É ao lado das novidades que se apresentam nesta clínica que compartilho algumas questões que penso sobre o enigma que enlaça corpo e sintoma, na perspectiva de articular como participa a palavra na direção de um tratamento. O que faz marca na subjetividade dos jovens hoje?

Entro no tema da VIII Jornadas da Escola Brasileira de Psicanálise da Seção São Paulo levada pela investigação teórica que esta fase de transição me permite encontrar na relação entre o sujeito e o Outro. “O Outro é o lugar em que se situa a cadeia significante que comanda tudo que vai poder presentificar-se do sujeito, é o campo desse vivo onde o sujeito tem que aparecer. E eu disse é do lado desse vivo, chamado à subjetividade, que se manifesta essencialmente a pulsão.” [1]

Recorto o significante (des)conexão: na adolescência estamos justamente no estágio do deselance do Romance Familiar. Uma “trans-formação” em que o sujeito pode se desligar do objeto primordial de amor para tomar posição frente a um objeto eleito como causa de seu desejo e construir uma pergunta sobre o que move a vida.

Para sustentar essa articulação sobre o desenlace, e o que dele me interessa até aqui, escolho o conceito de repetição desenvolvido por Lacan em seu seminário livro 11, Os quatro conceitos fundamentais, por dois aspectos: primeiro por ser por meio deste conceito que Lacan introduz o Real e por ser o sujeito, efeito dos significantes, reflexo do binômio operador ( S1 S2 ). Tomo como âncora o desenvolvimento dado por Lacan ao fragmento do sonho: “Pai, não vês que estou queimando?”, ponto precioso de demonstração onde o simbólico não recobre, por sua vez, todo o real. Escuto essa passagem interessada no modo como os significantes marcam um corpo e operam nas bordas da estrutura psíquica. “O lugar do Real, que vai do trauma à fantasia, na medida em que a fantasia nunca é mais do que a tela que dissimula algo de absolutamente primordial, de determinante na função da repetição. Aí está o que precisamos demarcar agora.” [2]

Neste aspecto, vale destacar que, mais ou menos, sabemos em que idade essa fase de transição da infância para a puberdade começa; contudo, em pleno século XXI, não podemos afirmar onde ela termina. Daí a importância para a psicanálise de tomarmos a investigação caso a caso.

A vida cotidiana sofre modificações: são novas as configurações familiares, as leis tornaram a escolarização obrigatória e o Estado judicializa o impasse. A incidência do discurso da ciência, que propõe um para todos, deixa de fora a singularidade de cada um e produz segregação. O capitalismo com o excesso e a velocidade contribui com os modos de gozo, os objetos não são feitos para durar e sim para consumir. Assim o tempo para a construção das tramas de ficção, presentes na novela familiar, também estão afetadas.

Sirvo-me dos efeitos de formação na clínica das psicoses, que foi por onde tudo começou na Orientação Lacaniana. Clínica essa cujo índice da foraclusão do significante do Nome do Pai revelou todo o trabalho possível, tomando o inconsciente estrutural de Lacan como bússola na localização do diagnóstico, portanto, a posição do sujeito e sua possibilidade ou não de ser representado na cadeia de significantes em um trabalho sob transferência.

Do ensino de Lacan, observar os índices do desencadeamento é o que me faz pensar o desenlace, conexões e (des)conexões na construção de cada caso clínico e seguir na disciplina de testemunhar a invenção de cada um, para empreender o tratamento do Outro. Como o analista está com seu desejo, frente às telas virtuais, novas paisagens do encontro com o sintoma e com os modo de gozo? Há no adolescente, uma dificuldade de fazer uso dos discursos estabelecidos e dos ideais, de modo a organizar o real da sexualidade que se manifesta.

Sabemos, com Freud, que tudo sobre o amor começa no Édipo. Trata-se, como afirma Damasia Amadeo de Freda [3], de um tempo de “rebeldia orientada”. Com os transbordamentos presentes na clínica, diz Damasia, estamos no tempo da “rebeldia desorientada”. Passamos de uma fase na clínica da metáfora paterna para o desenvolvimento epistêmico de Lacan a respeito da clínica do sintoma. Tempo no qual os três registros se apresentam análogos.

Entre Nome do Pai e sintoma, retorno para a compulsão à repetição, verifico a angústia que se manifesta na sessão, no gozo não falicizado, na agitação do corpo, na auto-mutilação, no ato infracional, no uso abusivo de substâncias, na zwang dos jogos e “WhatsApp”, na violência sexual ou na tentativa de suicídio. Nesta clínica com adolescências onde prevalece o imaginário e tão pouco podemos contar com o simbólico, é preciso apostar na aventura da transferência, para que cada um possa construir o seu laço com a palavra.

Como abordar o Real presente e em jogo na experiência? Como o analista entra em cena?

Cada adolescente comparece a seu tempo, fala pouco sobre suas tramas de amor, todavia, sustenta uma presença no tratamento. As “selfies” aparecem como um novo funcionamento do estádio do espelho: aos poucos mostra o trabalho que o corpo dá e oscila entre silêncio e falação, marcas de excesso.

Quando diante de uma urgência subjetiva, a voz de Lacan: “J’attends. Mais je n’espepère rien”[4]: “Espero e não tenho expectativas” me orienta no discurso. Essa frase opera em mim como uma chave que modula a instalação da transferência com cada adolescente e a mantenho sempre no bolso, assim posso abrir com eles, o meu desejo de saber sobre a cadeia borromeana.

Às vezes, me parece que a clínica mantém a estrutura de um trapézio fixo de balanço duplo, cuja a modalidade do número apresentado compõe o tempo aéreo e não apenas o tempo em solo. Imagem que empresto da linguagem artística do circo e que traduz, ao meu ver, o cenário onde o tratamento se desenrola.

Quando um adolescente chega “causando” é preciso apostar de modo a entrever a cena e poder introduzir algo da palavra no que se apresenta no registro do imaginário, restaurar com eles uma suposição de saber, com o apoio do simbólico. Ora estamos nos mastros e acompanhamos o seu corpo, ora como rede, acolhendo uma palavra que pode apontar para uma interpretação.

“Tudo que, na repetição, varia, modula, é apenas alienação de seu sentido. (…) Mas, este deslizamento vela aquilo que é o verdadeiro segredo do lúdico, isto é, a diversidade mais radical que constitui a repetição em si mesma.(…) Esta exigência de uma consistência distinta dos detalhes de sua narrativa significa que a realização do significante não poderá jamais ser bastante cuidadosa em sua memorização para chegar a designar a primazia da significância como tal.”[5]

Apostamos estar ali para despertar e para acompanhar o trabalho dessa rede de significantes, enquanto trama e teia, a possibilidade de tecer algo simbólico frente ao real. É ali que esperamos sem expectativas que o sujeito compareça ao seu tempo com uma elaboração que talvez inclua seu sexo.

A cada sessão, uma chegada e uma saída, conexão e desconexão para um possível laço; um tempo sempre inédito e um minuto a mais para sustentar uma experiência pela palavra e o que ele escuta no que vem ali dizer, que pode afetar o sintoma. Se a transferência, por assim dizer,” inventiva”, se instala, cada pequeno encontro com o analista já é contabilização de gozo. Movimento do sujeito que opera em busca de uma nomeação capaz de produzir uma leitura sobre o que lhe é mais singular: construir uma nova aliança entre o seu corpo e sua palavra na cena da vida.

Emelice Prado Bagnola

 


* Cartel: As trans-formações da puberdade, declarado à Escola Brasileira de Psicanálise e concluído em 2017. Integrantes: Milena Vicari Crastelo, Paola Salinas, Sílvia Sato, Emelice Prado Bagnola e, como Mais Um, Cristina Drummond

1.LACAN, J. ( 1964 ). O Seminário, livro 11: Os Quatro Conceitos Fundamentais da Psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998, pag. 193 – 194
2.Ibid, pag., 61
3.AMADEU, Damasia De.Freda. El adolescente atual: nociones clínicas. Universidade Nacional de Gral. San Martin: UNSAM Edita, série Tyché. 2015
4. LACAN, J. ( 1975 – 1976 ). O Seminário, livro 23: O Sinthoma. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2007, pag. 133
5. LACAN, J. ( 1964 ). O Seminário, livro 11: Os Quatro Conceitos Fundamentais da Psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998, pag. 62
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Algumas Palavras – O novo amor como resposta ao mal-estar contemporâneo. Uma resenha de “Los decires del amor”, de Oscar Zack.

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Instalação: Chiharu Shiota; Foto: Instagram @thats.ok.i.suppose

O capítulo “Los decires del amor” [1] faz parte do livro de mesmo nome de Oscar Zack. Trata-se de uma coletânea de publicações e de aulas ministradas por ele em seminário realizado na EOL[2], em 2010/2011. Para nomeação, o autor partiu da frase de Lacan: “(…) É surpreendente que esse sentido se reduza ao não-sentido: ao não-sentido da relação sexual que é patente desde sempre nos ditos[3] amorosos”[4].

Inicialmente o autor debate as questões contemporâneas concernentes à temática. Para tanto, parte do questionamento do porquê os analistas permanecem interessados no amor – e responde afirmando que isso advém da sua dimensão de qualidade, que pode vir a fazer frente à tentativa de sua redução à bioquímica pela via das neurociências, à fragilidade dos laços e ao gozo desenfreado da contemporaneidade.

É da sua posição êxtima que o analista propõe uma resposta. Deste modo o fundamento é o novo amor, cuja referência é o seu direcionamento ao suposto saber e a sua resposta via ato e interpretação. Assim, se toda demanda é demanda de amor, a resposta pela via do discurso analítico é, ao não atendê-la, levar à queda dos S1s e a saída do gozo da repetição, de onde pode advir uma outra posição subjetiva.

O novo amor, portanto, de acordo com Zack: “De este nuevo amor participa un sujeto que ha obtenido un saber, que no es um saber menor. Será un sujeto que sabrá en acto que todo amor viene al lugar de ocupar la función de ser una suplência al ‘no hay relación sexual’ ”[5]. Desta forma há uma nova articulação entre o amor e o desejo, que vai do novo amor aos novos laços amorosos.

Antonio Alberto Peixoto de Almeida

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
[1]Zack O. (2012) Los decires del amor. Buenos Aires, Grama Ediciones.
[2] Escuela de la Orientación Lacaniana. Escola que integra a Associação Mundial de Psicanálise em conjunto com a Escola Brasileira de Psicanálise e outras ao redor do mundo.
[3] Entende-se que “dito” em português corresponde ao “decir/dizer” em espanhol, mas se trata de uma diferença importante já que, como coloca o autor na página 29, “dicho”, que corresponderia ao “dito”, tem um sentido oposto que corresponde ao “dizer” em português.
[4] LACAN, J. (2003) Televisão In. Outros Escritos. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, p 512.
[5] Zack O. (2012). Op. Cit., p. 28.
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@Match4

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Adoniran em 1967, tempo em que exercia tanto a atividade de ator quanto a de músico

“ Com a corda mi do meu cavaquinho fiz uma aliança pra ela prova de carinho!”

João Rubinato (1910 a 1982) transformou o seu nome de batismo para compor, como Adoniram Barbosa, as canções que em todos os acordes demonstram a relação do artista multimídia com a cidade de São Paulo através dos seus sambas.

Durante nossa VIII Jornadas indicamos a exposição “Trem das Onze – Uma viagem pelo mundo de Adoniran” que acontece no Farol Santander, Rua João Brícola, 24 – centro.

A mostra apresenta os objetos inéditos feitos pelo artesão e que foram guardados por Matilde, companheira com quem sustentou um laço de amor por 40 anos.

Bom passeio!


Matilde fala sobre Adoniran Barbosa saiba mais em:

 

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Tá Ligado? Extra#01

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Tá Ligado? #09

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