Fale conosco: (11) 3081-8947
Viewing posts categorised under: Boletins

#Freud e a vida amorosa – A “vida amorosa” e o caso do Homem dos Lobos

by secao_sp in Boletins

The Wolf Man’s Dream by Sergei Pankejeff

Por André Antunes da Costa

“Contribuições à psicologia do amor” é sob este título que Freud agrupa três textos escritos com um intervalo de oito anos entre eles. Para quem ainda não os conhece, eu os apresento: “Um tipo especial de escolha de objeto feita pelo homem” (1910), “Sobre a mais comum depreciação na vida amorosa” (1912), e “O tabu da virgindade” (1918). Em 1914 Freud redige o texto “História de uma neurose infantil – o Homem dos Lobos” que será publicado apenas em 1918, portanto, os textos sobre a psicologia do amor são contemporâneos ao famoso caso clínico. Pretendo extrair uma particularidade das “Contribuições à psicologia do amor” e compará-la com o caso clínico em questão.

Liebenslebens

O mesmo termo em alemão Liebenslebens é traduzido ora por “vida amorosa”, como no título do artigo de 1912, ou apenas por “do amor”, como no título que reúne os três textos. Não se trata aqui de comentar a escolha da tradução, gostaria simplesmente de sublinhar uma diferença entre “psicologia da vida amorosa” e “psicologia do amor” tal como o fez Jean Pierre Deffieux[1].  A “vida amorosa” em Freud abrange o estudo sobre o amor, claro, mas não se reduz a isso, visto que ela contempla igualmente o desejo e o gozo. Segundo J-A. Miller[2], o termo Liebe em alemão, recobre ao mesmo tempo amor e desejo, no entanto, os textos de Freud apontam para uma separação entre as condições de amor e as condições do desejo sexual.

A expressão “psicologia da vida amorosa” tem um sentido preciso em Freud, que não é o da compreensão dos sentimentos, tal como poderíamos supor num primeiro momento. Freud utiliza o termo psicologia em sua acepção do século XVIII, ou seja, um estudo científico dos fenômenos da alma. Se a tarefa de escrever sobre as condições amorosas foram deixadas aos poetas por serem mais sensíveis para capturar os movimentos psíquicos ocultos em outras pessoas, Freud nota que para produzir o prazer estético e intelectual visado pelas obras de arte é necessário alterar o material da realidade, alteração esta que chamamos de “licença poética”. Já o psicanalista, com uma mão mais pesada e não tendo como alvo a obtenção do prazer estético, pode submeter a vida amorosa a uma exploração científica.

O complexo de Édipo e a vida amorosa

Freud ao acumular algumas observações sobre a vida amorosa dos homens destaca duas condições frequentemente encontradas: a condição de “um terceiro prejudicado” e a do “amor à prostituta”. A primeira condição consiste em que o interesse deste tipo de homem nunca toma por objeto amoroso uma mulher que esteja livre, apenas as que são comprometidas. A segunda condição que frequentemente se associa à primeira consiste em que a mulher casta e insuspeita não exerce o fascínio que a transforma em objeto amoroso, mas apenas a mulher com alguma má fama ou de quem se tem certa incerteza com relação a fidelidade.

Freud sublinha que frequentemente tais condições não ocorrem apenas uma vez na vida amorosa dos indivíduos mas que tais condições para o apaixonamento se repetem, com as mesmas particularidades “cada uma a exata cópia da outra (…) formando uma longa série”[3].

Estas condições de amor e de desejo admitem um esclarecimento simples segundo Freud e a explicação, mais refinada do que trago aqui, gira em torno do complexo de Édipo. A fixação libidinal a mãe, pura e casta, condiciona seu desejo por mulheres de reputação duvidosa enquanto o terceiro prejudicado é, em última instância o pai. O que gostaria de sublinhar é que “a vida amorosa submetida a estrutura simbólica edipiana torna o sujeito escravo de um certo destino de escolha amorosa e o inscreve em um automatismo de repetição”[4]. Freud aborda nesses textos sobre a vida amorosa sobretudo a vertente edipiana que condiciona o objeto de amor e de desejo. No entanto, para a psicanálise, o Édipo não é a única vertente que condiciona a vida amorosa. Por essa razão recorro ao caso do Homem dos Lobos, para mostrar que nem todas as condições de amor encontradas na obra de Freud dizem respeito à estrutura da lógica simbólica edipiana.

O Homem dos Lobos, vida amorosa fixada na cena primária.

A vida amorosa do paciente neste caso permanecerá vinculada à cena primária, quando o paciente assiste com um ano e meio de idade a um coito a tergo entre seus pais, posição sexual natural do reino animal em que a fêmea é colocada para acasalar com o macho. Não importa aqui se a cena é fantasiada ou vivida, de qualquer modo ela marca para este sujeito o encontro com o sexual e fixa um modo de gozo que o sujeito reencontrará por diversas vezes em sua vida. Freud “estabelece uma importante ligação entre a cena primária e a posterior compulsão amorosa que se tornou tão decisiva para o destino do paciente, e além disso introduz uma condição de amor que esclarece tal compulsão”[5].  Temos aqui as coordenadas da escolha de objeto  e sua compulsão amorosa ligada não às coordenadas simbólicas edipianas, mas a uma cena traumática. A escolha de objeto do homem dos lobos permanecerá fixada nessa imagem onde cenas análogas desencadearão a cada vez o mesmo ímpeto desejante; é assim com Groucha em sua infância, quando o paciente a vê ajoelhada esfregando o chão na mesma posição que a mãe estaria na cena primitiva,  com Matrona na adolescência, com uma outra jovem, etc.

Deffieux, J-P nos mostra no texto já citado que lá onde, na neurose, o simbólico se enoda ao imaginário para cernir o real do trauma sexual, no sujeito psicótico apenas o registo imaginário está empenhado nesta tarefa. Esta seria a razão pela qual no homem dos lobos o que aparece em sua forma pura é o enodoamento imaginário – real das condições de amor[6]. Tomar o caso do homem dos lobos como uma psicose poderia nos conduzir a diferenciar neurose e psicose a partir de algumas características gerais com relação a vida amorosa. No entanto concluiremos sem a intenção de aprofundar esta distinção e sim ressaltando as condições singulares, não edipianas da vida amorosa inclusive na neurose.

É a partir do encontro com o traumático, com o sexual, que podemos conceber certas modalidades de gozo. Para tratar esse gozo, o neurótico recorre neste ponto ao fantasma enodando o imaginário, simbólico e real. O homem dos lobos não pode realizar esta operação, ele não pode enodar imaginário simbólico e real, para constituir suas condições de amor singulares. Ele  permaneceu fixado e paralisado na repetição estrita da mesma cena – o que vemos com frequência na psicose.

Assim, se de um lado temos as condições de amor que aparecem ligadas à estrutura simbólica do édipo – condições gerais –por outro existem as condições singulares, ligadas ao encontro primordial com o sexual, e que se sustentam no fantasma fundamental.

Uma análise produz novos laços com o outro. Poder amar se desfazendo de algumas condições edipianas fundamentais e afrouxando a fixação do gozo encapsulada no fantasma, pode conduzir a um novo amor no final de uma análise. Esse novo amor permite tomar o outro por sua singularidade, e não apenas capturá-lo nas ficções que animam a neurose.


 

 

[1] DEFFIEUX, J.P. Psychologie de la vie amoureuse. Carnets Cliniques de Strasbourg, nº 6, p . 53-64, 2007
[2] MILLER, J-A. Os labiritnos do amor, Correrio nº 56, 2006.
[3] FREUD, S. Um tipo especial de escolha feita pelo homem, In: Obras Completas Vol.9 São Paulo: Companhia das Letras, 2013, p.338
[4] DEFFIEUX, J.P. Psychologie de la vie amoureuse. In: Carnets Cliniques de Strasbourg, nº 6, p 55.
[5] FREUD, S. História de uma neurose infantil,  In: Obras Completas Vol.14  – São Paulo: Companhia das Letras, 2010, p.124
[6] Estamos considerando aqui uma leitura feita por vários autores no campo freudiano que abordam  o caso do Homem dos Lobos como uma psicose. Para maiores referencias: FIGUEIRÓ, Ana Maria; LAIA Sérgio(Organizadores) O Homem dos Lobos… com Lacan , Scriptum, Belo Horizonte, 2011.
Read more

#Conversa.com – Felipe Futada

by secao_sp in Boletins

Foto: Instagram @mariussperlich

Camila Popadiuk e Mirmila Musse entrevistaram Felipe Futada para o Boletim da VIII Jornadas da EBP-SP.

Para animar a discussão sobre o tema, o autor enlaça, na busca por respostas sobre questões da existência humana, uma sensível produção de poesias, não sem antes, serem vivenciadas pel(n)o corpo.

Felipe Futada, é professor de Educação Física, atua principalmente em escolas da rede particular e em cursos de formação de professores. É praticante de Yoga, Psicanálise, Poesia e outras áreas afins ao Corpo, além de autor do livro Foco no Todo (2017).

1. As VIII Jornadas da Escola Brasileira de Psicanálise da Seção São Paulo têm como tema “Amor e sexo em tempos de (des)conexões”. O que você entende desse tema e como ele pode estar relacionado com suas poesias?

Talvez uma relação possível seja o inevitável deparar-se com algum tipo de vazio na experiência com o outro. Não necessariamente o vazio como a ausência de alguém, mas um vazio como impossibilidade de ação. Afinal de contas existe uma grande diferença entre um vazio marcado pela falta do que ali já se fez presente, e um vazio que nunca foi preenchido. A poesia habita essa interface, dado que é uma materialização do nada. O Amor também.

O tema me sugere ainda que talvez se perceba urgente uma discussão a respeito da algoritmização da vida. Brinco com o termo das redes sociais pois me parece que enquanto sociedade estamos perdendo a habilidade de lidar com o diferente, com o que escapa às nossas bolhas de convicção. Temos nos fechado em nossas verdades e deixado atrofiar o músculo da percepção dos detalhes que nos unem enquanto espécie. Não há nenhuma pretensão esotérica nessa afirmação.

A panaceia da tecnologia digital, por exemplo, que nos vendeu o produto da hiperconectividade como sinônimo de felicidade, ao fim e ao cabo apenas conseguiu nos meter goela abaixo as pílulas da experiência de segunda mão. Perdemos a ancoragem real do corpo. Sem ancoragem do corpo vivemos uma não-vida. Penso que nos deparamos com uma epidemia de sedentarismo emocional e falar de amor e sexo através da poesia é uma política pública de redução de danos.

É a partir dessa perspectiva que acredito que as pessoas sempre continuarão a falar e a querer ouvir sobre tais temas. Talvez eles, mais do que outros, devolvam um pouco do que há de mais humano para o ser humano.

2. Seus poemas apresentam duas facetas do amor. De um lado, tem-se a presença do amor romântico, belo e idealizado e, de outro, a marca daquilo que não torna possível fazer estabelecer uma conexão entre os parceiros amorosos, ou seja, a impossibilidade de inscrever uma proporção entre os sexos. No poema “Real”, por exemplo, o verso seguinte carrega esta dupla face do amor:

“[…] Ainda melhor: explique-se a todos

que ao se dar pano pra manga tecendo histórias do amor eleito

criou-se a camisa de força do par perfeito.

Metáfora que nos remete a um mundo louco

no qual o amor vem pronto.

E a escolha de amar é só do outro”

Você concorda com essa leitura?

Sim, penso que em algum momento da experiência amorosa nos deparamos todos com essa dupla face. Ambos amores, o romântico idealizado e o desconexo, são estados da mesma matéria em movimento que é o ato de amar. Nesse sentido é impossível inscrever uma proporção fixa entre esses sexos.

3. Em algum de seus poemas, você coloca amor e sexo de forma disjunta e independente um do outro. Tema este, a propósito, debatido desde que o mundo é mundo. Entretanto, em alguns outros, há uma articulação intrínseca entre amor e sexo. A que se refere esta (des)conexão?

Nenhum dos meus poemas é escrito com intencionalidade explícita de se referir a um ou outro conceito. A intencionalidade que busco, por sinal, é diametralmente oposta à poesia enquanto um fazer cerebral. Busco sempre tomar como pedra de toque as percepções corporais em seu estado manifesto, a experiência direta. Nesse sentido penso que os poemas variam apenas em tonalidade, ora elaborando sensações pertinentes ao tema do sexo, ora ao amor, ou ainda à fusão (e confusão) destas sensações à medida que construímos repertório para decodificar nossos próprios sentimentos.

O processos de conexão e desconexão entre os seres, desde que o mundo é mundo, se dão nas mais variadas esferas. Do sexo ao amor, do corpo ao discurso. Se no princípio era o Verbo, e o verbo virou carne, somos todos de palavras inscritos e em palavras descritos. Uma terra fértil para a (des)conexão.

Read more

#Ecos de quarta – Match: o estatuto do sintoma nos sujeitos conectados

by secao_sp in Boletins

Foto: Instagram @helmut_breineder

Por Niraldo de Oliveira Santos

É bastante conhecido em nosso meio o trecho de Lacan de 1953, em “Função e campo da fala e da linguagem”: “Que antes renuncie a isso, portanto, quem não conseguir alcançar em seu horizonte a subjetividade de sua época. Pois, como poderia fazer de seu ser o eixo de tantas vidas quem nada soubesse da dialética que o compromete com essas vidas num movimento simbólico. Que ele conheça bem a espiral a que o arrasta sua época na obra contínua de Babel, e que conheça sua função de intérprete na discórdia das línguas”[2] (p. 322).

O que a revolução da comunicação, com o advento da internet na década de 1960, e popularizada na década atual, imprime na subjetividade da nossa época?

Nosso país está na rede. O número de pessoas com acesso à rede mundial de computadores é de 139,1 milhões de pessoas. Dentre estes, 130 milhões utilizam as redes sociais e 120 milhões realizam o acesso através de seus celulares. Esse número representa 57% do total da população brasileira.  É o terceiro país no posto de pessoas que passam mais tempo na internet – 9 horas e 14 minutos por dia, sendo mais de 3 dessas horas dedicadas às redes sociais[3].

Sim, o brasileiro está conectado. Isso implica em dizer que temos à disposição as chamadas de vídeo que aproximam parentes, amigos, amores e profissionais em diversos lugares do mundo. As redes sociais conectam pessoas para as mais diferentes finalidades: amizades se formam ou se desfazem. E presentificam, com velocidade, as paixões do ser, formando o que Brousse[4] chamou de “campos de concentração”, ou comunidades de gozo, não ficando de fora o ódio. Sim, o hater está para a rede como “peixe n’água”.

Mas e o amor?

Is it a match?

Match é uma palavra de língua inglesa que, como substantivo designa: fósforo, palito de fósforo, partida, combinação, par, competição, jogo, desafio. Como verbo, “To match” significa: corresponder, combinar, casar, unir, igualar, condizer[5].

É um termo que ficou popularizado e inserido em nosso idioma corrente a partir dos aplicativos de paquera. É utilizado para designar uma combinação entre duas pessoas que reciprocamente gostaram das fotos, das descrições biográficas inseridas no perfil e, além disso, “curtem” coisas em comum como ideologias políticas e atividades culturais, por exemplo. Aproximar pessoas a partir dos gostos em comum é um trabalho feito por uma complexa rede de cruzamentos de dados, os algoritmos que, silenciosamente, captam o comportamento dos usuários durante os acessos à rede.  Funciona como aquele amigo que, em uma festa, diz: “tenho uma pessoa para te apresentar. Vocês combinam em tudo. Certeza que vai rolar”.

O fato é que, e isto não é novidade nem para nós, nem para os usuários dos aplicativos de paquera, há inúmeros desdobramentos do que pode ou não “rolar”.

Cito a seguir 4 vinhetas de pacientes que escutei recentemente:

– João, 40 anos. Para ele, o aplicativo, voltado exclusivamente para o público gay masculino, é “uma delícia que escraviza”. Vive praticamente à disposição dos “matches”, à procura de homens com pênis acima da média; os “dotados”, como ele se refere. Diz: “se aparece um cara bonito com esta característica, conversamos rapidamente apenas para combinar o encontro. Saio até no horário do trabalho, se for o único horário possível”. Escravo do seu objeto fetiche, questiona-se em análise sobre “envelhecer sozinho”, embora não pareça se angustiar com isso.

– Ana, 61 anos, aposentada. Em tom de chiste, diz que está com a missão de conhecer todos os cafés de São Paulo. Uma vez por semana, em média, costuma marcar um encontro com um “coroa” que conhece via aplicativos. Adora conversar, falar de sua vida e ouvir as histórias de seus interlocutores. Com vários deles, apenas beijos; com alguns – “aqueles que não falam tanto em doenças”, transa. Ainda não encontrou um que valesse a pena namorar. Chega a se perguntar se é isso mesmo o que quer “a essa altura do campeonato”. Fica angustiada com os “ghostings”, aqueles de quem ela gostou e desaparecem sem traço algum.

– Clara, 40 anos. Diz: “Estou com um ‘bode’ gigante dos aplicativos. Não tenho paciência para iniciar uma conversa. Parece uma entrevista de seleção para um emprego”. Lamenta-se do fato de suas amigas encontrarem o homem de suas vidas nos lugares mais inusitados: na fila para comprar pão-de-queijo, no vagão do metrô, na poltrona ao lado em um avião. Em uma enquete feita com seus amigos, eles dizem que ela é muito exigente. Ela discorda e diz: “Eu só quero um cara que eu queira”.

– Caio, 34 anos. Os nomes dos pretendentes citados nas sessões são muitos e desafiam a memória do analista. Dá match, encontra na balada ou no cinema, transam uma vez e depois nada mais acontece. Trocam números de telefones, ele puxa conversa nos dias seguintes, insiste para um novo encontro e ouve inúmeras vezes, de diferentes rapazes, a justificativa: “Não estou a fim de algo sério agora”, ou “Acabei de sair de um relacionamento”. É sempre um “você é um cara muito legal, mas…”. Questiona-se sobre seu corpo, sua masculinidade, sua conversa. “Será que é porque sou passivo?”, “Será que sou muito chato?”, “Tenho azar de só encontrar caras que não querem nada a sério?” Caio está às voltas com a questão: o que é preciso para ‘dar liga’. Ou, para usar um significante presente no discurso dele: como “fazer vingar?”.

Podemos constatar, a partir destes recortes, a marca particular como cada um destes pacientes faz uso dos aplicativos. Cada um com seu modo de gozo. Além disso, vê-se que a refinada e complexa tarefa dos algoritmos de “apresentar” as pessoas, favorecendo o match, nada garante que vai “dar liga”, que vai vingar, mantendo a conjunção “amor e sexo”, do encontro, do fazer par, no campo do mistério.

Entre o match e o fazer um par

Christiane Alberti, nossa convidada para as Jornadas da EBP-SP de outubro, em um texto que se chama “Tinder: primeiro a gente transa, depois a gente vê[6]”, nos diz que o simbólico mudou de ritmo. Para Alberti, “o Tinder é, antes de tudo, um lugar: a necessidade de situar o Outro desde que ele desapareceu”. E acrescenta: “Poderíamos ler essa subjetividade do tempo, a multiplicação dos encontros sem dia seguinte, como uma banalização do ato sexual”, como no caso do paciente Caio.

Querer terminar o mais rápido possível, segundo Alberti, é causar um curto-circuito na angústia, o desarranjo suscitado pelo imprevisto, e encontrar assim uma defesa diante do encontro com o real, na medida em que ele se constrói a partir do impossível. “Para fazer par é preciso passar pelo sintoma que em seu princípio nos isola. Neste plano, o Outro será sempre de meia-tigela. Permanece a contingência. Não dá para fazer par sem o pré-requisito do encontro. O cupido tem sempre os olhos vendados e atira suas flechas ao acaso!”.

O encontro, o fazer par, dar liga, pressupõe o real. Localizar algo de si no outro e visar isto, é um processo trabalhoso e angustiante. O sujeito moderno deseja mesmo isto? Mais uma vez, nossa ética nos convoca a tomar os sujeitos no caso a caso. Porém, é possível dizer que, seguindo a pergunta sobre a subjetividade da época, que encontramos, cada vez mais, sujeitos que apresentam uma angústia outra, não localizada? Onde está o objeto a?

Lacan, em “Radiofonia[7]”, antecipa nosso tempo: “Esse é o hic que só se faz nunc quando se é psicanalista, e também lacaniano. Em breve, todo o mundo o será – minha audiência é um pródromo disso – e, portanto, também o serão os psicanalistas. Para isso, bastaria a ascensão ao zênite social do objeto que chamo pequeno a, pelo efeito de angústia provocado pelo esvaziamento com que nosso discurso o produz, por faltar à sua produção” (p. 411).

O “efeito de angústia”, presença do objeto, é, portanto, produzido aí quando o objeto a encontra-se deslocalizado, destacado da fantasia. Se o objeto não está articulado à fantasia, está solto no zênite social. Como decorrência, o sujeito moderno pode possuir uma angústia desarticulada, deslocada, fora do discurso, provocando consequências no corpo e no laço social.

Entre os parceiros que se encontram, seja pela via tradicional ou via aplicativos, onde está o objeto? O objeto está, ou pelo menos deveria, entre um e outro, escondido numa fantasia, escondido até para o próprio sujeito, mas articulado a esta. É isto que movimenta o querer recortar no outro o objeto que pertence ao sujeito. É o que Lacan nos mostra no Seminário 11[8] com a passagem: “Eu te amo; mas, porque inexplicavelmente amo em ti algo mais do que tu – o objeto a minúsculo, eu te mutilo”.

Em uma sociedade que produz objetos mais-de-gozar destacados, o trabalho do psicanalista lacaniano seria o de tentar capturar os objetos desarticulados e inseri-los em um discurso, sob transferência.

Para Laurent, “O escândalo da descoberta freudiana é que, seja como for a transformação do mundo, há, no gozo, há, no prazer, uma parte mais-além do princípio do prazer que faz com que isso adquira em seguida um aspecto – aquele que quer avançar na direção do gozar sem entraves, encontra-se rapidamente no horror[9]” (p. 130). E continua: “Nesse sentido, o programa de ação do psicanalista pode ser nomeado com a fórmula: fazer acreditar no sintoma. Encontrar a forma de endereçar-se à angústia do sujeito é fazê-lo entender que os sintomas inéditos de nossa civilização são legíveis” (p. 176). Isto convoca o psicanalista para este lugar de “intérprete na discórdia das línguas, na Babel, como dizia Lacan em “Função e Campo”.

Ainda de acordo com Laurent[10], “podemos dizer que o grande movimento da civilização, seu hedonismo de massa, faz desaparecer a particularidade do sintoma. A visão hedonista do mundo apoia seu império no acesso ao gozo ‘para todos’. O cálculo da maximização do gozo está ao alcance de cada um. Há, portanto, dois tipos de relação com o gozo, ambos necessários: querer mais gozo e querer a particularidade do sintoma. (…) Nesses termos, a serenidade do sujeito ‘igual em presença dos objetos de gozo’ é não perder de vista a singularidade do caminho que lhe é próprio”. (p. 173). O sintoma é a dimensão de nossa ex-sistência no mundo, nos diz Laurent. E acrescenta: “Instalemo-nos nesse sintoma, dediquemo-nos a existir como sintomas e descobriremos que isso em que somos ‘lançados’ também nos é ‘enviado’, tornando-nos destinatários disso que é nosso destino. Nós ex-sistimos ao sintoma, pois há uma tensão no sintoma. De um lado, ele é envelope formal; de outro, pedaço de nós mesmos, acontecimento de nosso corpo”. (p. 174).

Em “A terceira”[11], Lacan nos diz que o sucesso da psicanálise é seu fracasso. Se o real não insistisse, seria o fim da psicanálise. Um dos nomes do real hoje, sabemos, é a não relação sexual.

Para além do match, o amor de transferência

Alguém pede indicação de um analista que atenda a determinadas condições: homem ou mulher, localização do consultório e preço da sessão. O analista indicado responde ao chamado, marca entrevistas, preço combinado. It´s a match. Porém, pode ou não “dar liga”, “vingar”. O amor de transferência é ainda outra coisa. Mas, ao se presentificar, temos aí um caso – um caso clínico.

Para Dominique Laurent[12], “a reformulação radical da transferência operada por Lacan, em torno do par $◊a e atualizando-se na sessão, deslocou o debate analítico sobre a transferência, concebida como repetição ou como “aqui e agora”. A questão da transferência no próprio tratamento é então correlacionada ao lugar do objeto a na civilização e seus discursos”. (p. 133).

“A ‘ascensão ao zênite’ do objeto a e o declínio dos ideais no tempo da ‘religião’ dos direitos do homem, como observou Jacques-Alain Miller, reconfiguram a relação de cada um com sua subjetividade. Cada um busca, na cultura, o parceiro fantasia, ou seja, a imaginarização do parceiro do gozo. Quer ele tome a forma da adicção sexual ou não, ou da busca repetitiva do parceiro amoroso, como o mostra a frequência aos sites dos encontros virtuais, a falha particular e, por isso mesmo, generalizada, está no encontro. A demanda endereçada ao analista toma, então, as cores daquele que permitiria encontrar, enfim, o parceiro que conviria.

Retomando o texto de Alberti[13], os aplicativos “mascaram que nos fatos e em todos os casos, mesmo que algumas mensagens de aproximação sejam suficientes, é preciso falar. Não se entra na sexualidade e na via amorosa sem palavras. (…) Os encontros virtuais não eliminarão esta delicada alquimia que faz com que dois seres incompletos e irremediavelmente sós, venham a fazer um par”.


 

[1] Texto apresentado em Atividade preparatória para as VIII Jornadas da EBP-SP – “Amor e sexo em tempos de (des)conexões”. EBP-SP, 01/08/2018.
[2] Lacan, J. Função e campo da fala e da linguagem – Relatório do Congresso de Roma (1953). In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar ed, 1998.
[3] Coelho, T. 10 fatos sobre o uso de redes sociais no Brasil que você precisa saber. 09/02/2018. https://www.techtudo.com.br/noticias/2018/02/10-fatos-sobre-o-uso-de-redes-sociais-no-brasil-que-voce-precisa-saber.ghtml.
[4] Brousse, MH. O inconsciente é a política. São Paulo: Escola Brasileira de Psicanálise, 2003.
[5] http://www.wordreference.com/enpt/match
[6] Alberti, C. Tinder: primeiro a gente transa, depois a gente vê. O simbólico mudou de ritmo. http://leplus.nouvelobs.com/contribution/1409836-tinder-on-baise-d-abord-on-voit-ensuite-le-symbolique-a-change-de-tempo.html. 25/08/2015. Traduzido para o português por Rosângela Turim.
[7] Lacan, J. Radiofonia (1970). In: Outros escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 2003.
[8] Lacan, J. O Seminário, livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 1998, p. 254..
[9] Laurent, É. A psicanálise e a escolha das mulheres. Belo Horizonte: Scriptum livros, 2012.
[10] Laurent, É. A sociedade do sintoma. A psicanálise, hoje. Rio de Janeiro: Contra Capa Livraria, 2007, p. 172.
[11] Lacan, J. A terceira (1974). Opção Lacaniana nº 62, dezembro de 2011.
[12] Laurent, D. Viver a pulsão na transferência. In: A ordem simbólica no século XXI. Rio de Janeiro: AMP – Subversos, 2013.
[13] Alberti, C. Tinder: primeiro a gente transa, depois a gente vê. O simbólico mudou de ritmo. http://leplus.nouvelobs.com/contribution/1409836-tinder-on-baise-d-abord-on-voit-ensuite-le-symbolique-a-change-de-tempo.html. 25/08/2015. Traduzido para o português por Rosângela Turim.
Read more

#Orientação – O sexo e a coragem

by secao_sp in Boletins

Foto: Instagram @lovematch90

Rômulo Ferreira da Silva

Temos verificado  muitos depoimentos de casais que se formaram a partir de aplicativos fornecidos pela internet. São histórias que apresentam versões do que antes podíamos ouvir “como nos encontramos no aniversário de 15 anos da minha amiga”, ou “fomos apresentados pelo namorado da minha melhor amiga”. Esses casais, unidos pelas redes, comentam como foi a primeira vez que a mensagem do outro “tocou fundo” e  definiu a decisão de marcar um primeiro encontro. Um encontro para “dar certo”.

Em nossa prática escutamos inúmeras tentativas que só serviram para desprezar tais aplicativos, que foram considerados como sendo simples pretextos para encontros sexuais.

Do que se trata esse “dar certo”?  Não se pode dizer que um bom encontro sexual, mesmo que não se prolongue numa relação estável, não “deu certo”. O mesmo acontecia a partir da “festa de 15 anos ou na apresentação do namorado da melhor amiga”. Podia ocorrer uma boa transa e pronto.

Tudo vai depender do que se está procurando. E quem pode dizer o que de fato está procurando em um primeiro encontro?

No calor da aproximação dos corpos há algo que se decide para além dos ideais do amor. Pode ou não rolar sexo. Na maioria das vezes é possível estabelecer os motivos que levam ao (des)encontro e a decisão rápida de seguir cada um para o seu lado. Mais difícil é localizar o que faz com que o casal tome a decisão de permanecer junto no dia seguinte e termina por estabelecer uma relação duradoura. Há pouco tempo dizia-se que “rolou uma química”.

Com o advento dos sites de “procura-se um amor” a lógica de mercado se estabelece de forma escancarada. As descrições dos “produtos” são feitas de modo objetivo e pautadas pelas “dicas” dadas pelo consumidor. É surpreendente que, mesmo aqueles que forjam informações sobre suas autodescrições, não se deem conta de que o mesmo pode estar acontecendo do outro lado da “linha”. Ao ser marcado o encontro presencial acredita-se saber muita coisa sobre o que será encontrado.

Trata-se de um encurtamento radical do tempo de paquera, de namoro e, porque não, de noivado, que há pouco tempo propiciava uma “checagem” das descrições dos “produtos”. Antes, os parceiros se declaravam conforme as expectativas já conhecidas, claro, porém havia o fator tempo e a presença dos corpos para que a “química” pudesse surgir ou não.

Escutamos as justificativas para a decisão de se marcar um encontro presencial pautadas pelas mesmas exigências de outrora como signos de promessa de relação mais estável:  “elx não é de balada”, “gosta de curtir os amigos mas está buscando algo mais íntimo”, “elx tem um trabalho bem legal e é independente financeiramente” etc. Isso parece ser algo do século passado, mas ainda funciona. Basta verificar a maioria dos depoimentos de casais que deram certo a partir de encontros pela internet. Os ideais de acasalamento permanecem.

A maioria dos sujeitos que buscam encontrar um amor através dos aplicativos acreditam que podem colocar seus anseios e disponibilidades de forma clara e irrefutável, como se estivessem passando por uma prova de Recursos Humanos.

Fernanda Otoni desenvolveu o tema “O laço entre o amor e a coragem”, em reunião preparatória das Jornadas da EBP-SP,  em 09/05/2018, no qual enfatizou a coragem como ponto fundamental para a entrega ao amor. Um trabalho que orienta sobre as condições de amor em nossa época, na abordagem dos (des)-encontros que ocorrem pela via da internet.

Parece que a partir daqueles casais que “deram certo”, um tempo depois de terem sido apresentados em uma festa, seja na continuidade dos encontros propiciados pela internet, que puderam seguir por um tempo depois de terem transado, dormido juntos, frequentado os amigos e familiares, discutido o filme que assistiram etc.

Considero a coragem também como fator importante para o primeiro encontro armado pela internet.

Assim como na prática da prostituição, se a busca é apenas pelo encontro sexual, a internet permite que seja “tudo” combinado anteriormente no intuito de que saia conforme o esperado de ambos os lados. Os corpos são mostrados, as preferências explicitadas, combina-se o local e a hora para se evitar ao máximo o constrangimento causado pelo enfrentamento dos corpos.

Porém, como o dinheiro não se coloca explicitamente nas “negociações” prévias dos encontros marcados pelas redes de relacionamentos, os semblantes podem vacilar com mais facilidade.

No episódio “Hang the D.J” da série Black Mirror, os personagens Amy e Frank se encontram pela primeira vez e têm apenas doze horas para viverem juntos. O “Sistema” é que decide o tempo de duração da relação, o local de encontro, o prato que cada um vai comer no restaurante etc. Nada disso garante que uma relação se estabeleça. Mas parece que é exatamente pelo fracasso desse primeiro encontro que os dois protagonistas subvertem o que “está escrito nas estrelas”. Ops,  no “Sistema”!

Cada uma das partes entra no jogo tanto como ‘contratado’ quanto como ‘contratante’. Tudo programado!  Mas pode não dar certo, pois há algo de imponderável no que se espera do outro, já que o preço a pagar não é contabilizado como o dinheiro.

Aí também, para que ocorra o ato sexual é preciso um tanto de coragem. Do lado homem, é necessário um tanto de coragem em avançar sobre o objeto que se apresenta para sua satisfação. Do lado mulher, é preciso coragem para se colocar no lugar de objeto de satisfação do outro. Independentemente do sexo biológico dos proponentes ao encontro.

Tenta-se substituir a coragem pela autorização previamente concedida.

Por não existir vida sexual típica, há que ter coragem para colocar em prática a sexualidade que anima o corpo.

Podemos pensar que os (des)encontros sexuais e “amorosos” que ocorrem pela via da internet configuram um sintoma contemporâneo. A internet oferece ao sujeito a possibilidade de tentar driblar os impasses da vida sexual marcada pelo impossível da relação sexual.

É interessante que os sites de “encontros” transitam entre várias possibilidades que vão desde  simplesmente o contato e satisfação sexual virtual, até às propostas mais tradicionais de casamento. Eles se sofisticam, tentam engendrar o acaso, se tornaram até puritanos em alguns casos.

Resta à psicanálise recolher os efeitos do impossível da relação sexual .

Read more

#Orientação – Tinder: primeiro a gente transa, depois a gente vê. O simbólico mudou de ritmo

by secao_sp in Boletins

Foto: Instagram @olheosmuros

Por Christiane Alberti

Desde a chegada do Tinder, o mundo do namoro mudou. O princípio deste aplicativo? Colocar em contato homens e mulheres geograficamente próximos, por meio de um sistema de geolocalização. Qual é o impacto do Tinder nos relacionamentos amorosos? Para Christiane Alberti, psicanalista, os encontros virtuais não eliminarão a magia.

“De toda forma, existe agora alguma coisa mudada. A sexualidade é alguma coisa mais pública. […] A sexualidade é todo tipo de coisa, os diários, os vestuários, a forma como nos comportamos, a forma como os meninos e meninas fazem isso, um belo dia, ao ar livre, no mercado.”[2]

Estamos um pouco antes de 1968, e aqui novamente Lacan antecipa nosso tempo, esclarecendo certos efeitos do advento do virtual na relação entre os sexos.

Amor” por um instante

Parto do lançamento, no mercado dos encontros virtuais, de um aplicativo de celular, o Tinder, que desfila diante dos olhos retratos de meninos e meninas sobre os quais se pode clicar de acordo com as preferências e outras fixações inconscientes: “like/dislike”.

Quando a escolha é recíproca, há o “match”! Está no bolso! Você pode, desde então, marcar um encontro com aquele ou aquela que “amou” você por um instante.

Não é obrigatório, já que você pode se contentar com o número de “matches” conquistados, em virtude de um alinhamento da ordem erótica em relação à contabilidade que parece prevalecer sobre os encontros efetivos.

Quantos? Parece ser para alguns o único interesse do jogo, como para Vítor, nostálgico do período em que “os matchs contabilizavam muito bem”. (para ler seu relato completo, clicar em seu nome no texto original)

Se não nos deixamos vencer pela repugnância histérica, vários pontos chamam a atenção nos relatos dos usuários do Tinder, alguns reunidos por France Ortelli e Thomás Bornot no filme “Love me Tinder”.

O roteiro do encontro já está escrito

Nós vamos para o Tinder porque “todo o mundo está lá, toda Paris está lá”!

O Tinder é, antes de tudo, um lugar: a necessidade de situar o Outro desde que ele desapareceu. Nós o procuramos e nós o encontramos: o aplicativo no celular tomou o lugar do mercado.

O “Outro” organiza as relações entre os sexos, pois a relação sexual faz precisamente falta. O Outro que arranjava os casamentos de acordo com os semblantes e a tradição, as mediações acordadas, é aqui substituído pelo aplicativo, mas se trata de um arranjo feito por um Outro de meia-tigela.

O Outro do Tinder, como na tradição, organiza os links de acordo com os padrões masculinos, paternais, escópicos: “nós vemos uma linda jovem, nós clicamos, nós a temos!” Enfim, a verdadeira vida?

A temporalidade está em primeiro plano nos propósitos dos protagonistas. O roteiro do encontro já está escrito, prescrito pelo próprio aplicativo: “já sabemos que vai acabar na cama, então quanto mais rápido, melhor”!

Não seria este o sonho de muitos homens? Queimar todas as etapas, evitar todas as preliminares conquistadas com o suor da arte de sedução, para chegar rapidamente à primeira vez e reduzir assim o tempo que nutre a inquietude, até mesmo a angústia daquilo que será.

Digamos que a montagem pulsional se faz de outra forma, seguindo outra temporalidade: “primeiro a gente transa, depois a gente vê”. O simbólico mudou de ritmo, dançamos o rock and roll ao contrário, um sinal e opa! Isso não deixa de ser uma montagem. A sexualidade pode estar ao ar livre, o sexo faz sempre “furo na verdade”. Não vamos ficar quites.

Querer terminar o mais rápido possível

Poderíamos ler essa subjetividade do tempo, a multiplicação dos encontros sem dia seguinte, como uma banalização do ato sexual “que não tem mais importância, digamos, do que beber um copo d’água”.

Não deveríamos ler esta suposta indiferença mais do que como uma defesa, como salienta claramente o jogo de palavras de Lacan: “ça visse exuelle”[3]. O equívoco do “vissé” (fixado, parafusado) faz ressoar o reprimido interno à própria sexualidade: é o contrário de “sem importância”.

Querer terminar o mais rápido possível não é causar um curto-circuito na angústia, o desarranjo suscitado pelo imprevisto, e encontrar assim uma defesa diante do encontro real, na medida em que ele se constrói a partir do impossível? Que seja estabelecido por um clique ou pela tradição, o mais difícil resta a ser feito, na medida em que falta consumar o verdadeiro encontro.

Para fazer par é preciso passar pelo sintoma que em seu princípio nos isola. Neste plano, o Outro será sempre de meia-tigela. Permanece a contingência. Não dá para fazer par sem o pré-requisito do encontro. O cupido tem sempre os olhos vendados e atira suas flechas ao acaso!

A proximidade tem prioridade sobre os ideais

A cultura 2.0 ou 3.0, ou ainda aquela do “hook up” (que designa “uma saidinha” frequentemente invocada pelos usuários destes aplicativos), registra sem dúvida uma expansão sem precedentes a partir das novas tecnologias.

Ela se caracteriza pelo aumento da oferta que incentiva a otimizar os parceiros. Em virtude de um alinhamento da ordem erótica com a ordem econômica, o sexo e o amor estão fadados a se submeter às regras dos imperativos do hiperconsumo (performance, rapidez, eficácia: sedução express e fast sex).

Ela deve certamente o sucesso ao caráter horizontal de sua oferta: sonhar ou fantasiar não sobre ícones inatingíveis, mas sobre sua vizinha. O conceito do “next door” é a principal palavra-chave do negócio. A proximidade tem prioridade sobre os ideais e as identificações verticais de antigamente.

 

Trata-se sempre de uma questão de encontro

Estes aplicativos de geolocalização exploram a potência das imagens, lisas por definição (valor de poder inigualável como bem previu Guy Debord), e a captação visual: elas dão assim o sentimento que o encontro aconteceu “sem dor de cabeça”.

Eles mascaram que nos fatos e em todos os casos, mesmo que algumas mensagens de aproximação sejam suficientes, é preciso falar. Não se entra na sexualidade e na via amorosa sem palavras. O caso não pode ser concluído sem uma palavra, e aí tudo se complica!

Isto quer dizer que a magia do encontro, as surpresas do amor e o duro trabalho de fazer par têm belos dias pela frente! Porque se trata sempre de uma questão de encontro, sempre arriscado. É este acaso que transformamos après coup em história.

Os encontros virtuais não eliminarão esta delicada alquimia que faz com que dois seres incompletos e irremediavelmente sós, venham a fazer um par.

 

Tradução:
Rosângela Carboni Castro Turim
Revisão:
Daniela de Camargo Barros Affonso

 

[1]Texto publicado originalmente em http://leplus.nouvelobs.com/contribution/1409836-tinder-on-baise-d-abord-on-voit-ensuite-le-symbolique-a-change-de-tempo.html.
[2]Lacan, J. Meu ensino. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2006, p. 26.
[3]Visse exuelle faz homofonia com vie sexuelle, vida sexual. (N.T.)
Read more

#Pergunta e resposta

by secao_sp in Boletins

Foto: Peter Stackpole, bloglovin.com

Por Leonardo Gorostiza

Pergunta: Em uma entrevista publicada em Registros 10, Un nuevo amor, você diz que “A escrita acentua a ausência do objeto enquanto presença carnal, sendo este o paradigma do amor cortês”. Podemos tomar essa afirmação que você traz para pensar o sucesso das relações virtuais, ou do uso dos aplicativos nos relacionamentos na contemporaneidade, já que a palavra de amor e a escrita de amor cernem de distintas maneiras o gozo? E com relação ao processo psicanalítico, o que se poderia dizer?

Gorostiza: Não poderia afirmar que “o sucesso das relações virtuais” possa ser explicado pela menção que você faz ao que eu dizia em tal entrevista. Como costumamos dizer, não existem para nós, psicanalistas de Orientação lacaniana, orientações que possam ser consideradas de alcance universal. Sempre tratar-se-á do caso a caso. Assim, em alguns casos talvez ocorra o que você sugere: que a escrita via internet, que por sua brevidade em geral se diferencia muito das clássicas cartas ou poemas do amor cortês, possa cumprir a função de acentuar a ausência do objeto enquanto presença carnal. Enquanto que em outros casos, por exemplo mediante o uso do WhatsApp, a aceleração temporal do intercâmbio de mensagens entre grandes distâncias geográficas, pode ter o efeito inverso: provocar a ilusão de que o objeto está “presente”. Assim mesmo, não esqueçamos que os laços virtuais fazem uso, cada vez mais, das imagens. As quais, se bem não se confundem com o objeto “carnal”, estão longe de produzir, como as cartas de amor o fazem, uma circunscrição, um contorno, em torno do objeto ausente.

Nesse sentido, há uma diferença entre a palavra de amor e a carta de amor. A palavra de amor se dirige ao objeto em presença e pode ser a condição para o encontro, inclusive dos corpos. Além disso, no limite, a palavra de amor – tal como o assinala Lacan em “De uma questão preliminar…”-, como “jaculatória de amor”, se localiza no mesmo registro que a injúria. Ou seja, como um uso do significante que, reduzido a sua unicidade, como um S1, aponta a alcançar o “ser” do objeto de amor. “Chuchuzinho!”, é um dos exemplos que Lacan menciona ali. Enquanto que a carta de amor, tal como dizia antes, supõe um encadeamento significante que contorna o objeto e que, nesse próprio percurso, acentua sua ausência ao mesmo tempo que a gera como tal. De certo modo, tal como Lacan assinala no Seminário 7 sobre A ética da psicanálises com os poemas de amor cortês eleva-se a Dama à dignidade da Coisa, ou seja, corresponde a um processo de sublimação que, na medida em que é um destino da pulsão, contorna seu objeto. O que não impede que, tanto nestas “cartas de amor” como nos escritos dos místicos, ao aproximar-se do objeto ausente e inalcançável, as jaculatórias possam também ter lugar.

A partir desta perspectiva, podemos concluir que, na experiência analítica o analista, ao ocupar o lugar do objeto a e pela regra da abstinência, encarna em presença o objeto ausente ou, dito de outro modo, põe em ato a “não relação sexual”. Assim, a associação livre do analisante pode ser considerada como um equivalente da carta de amor. O que deixa aberto o debate acerca de qual lugar dar, em nossa prática ao uso dos sistemas virtuais de comunicação. Nestes, efetivamente, o corpo, ao estar subtraído rebaixa a potência paradoxal de uma presença, a do corpo do analista que, pela regra da abstinência, faz ainda mais patente a impossibilidade da relação pelo fato de não permanecer velada pelos limites próprios do meio tecnológico que se utilize.

Read more

Editorial Boletim #CUPID #05

by secao_sp in Boletins

Foto : Instagram @smashtransit

Ao propor o tema das VIII Jornadas evidentemente era esperado que provocasse, conectasse as pessoas ao redor dele. Devo confessar que o trabalho de nossa comunidade se fez notar, ressoou, conectou: surpreendentemente as inscrições tiveram que ser encerradas antes mesmo que o prazo do envio dos trabalhos para as simultâneas se encerrasse. Foi uma surpresa, caso contrário, teríamos escolhido outro local que pudesse receber aqueles que não conseguiram se inscrever a tempo. Lamentamos não poder receber a todos, nossos objetos ausentes, que põem “em ato a ‘não-relação sexual’”, como disse Leonardo Gorostiza, que tão gentilmente respondeu à nossa provocação. Ele falou: “os laços virtuais fazem uso, cada vez mais, das imagens. As quais, se bem não se confundem com o objeto ‘carnal’, estão longe de produzir, como as cartas de amor o fazem, uma circunscrição, um contorno, em torno do objeto ausente.”

Também a poesia comparece nesta flecha de Cupid por este viés. Felipe Futada em “Jogo” joga com a falta da pegada e a palavra que acende o corpo. Os “amores, o romântico idealizado e o desconexo, são estados da mesma matéria em movimento que é o ato de amar. Nesse sentido é impossível inscrever uma proporção fixa entre esses sexos”, disse ele em entrevista.

Desconexões, conexões desfeitas, conexões na desconexão. Nas (des)conexões as conexões são colocadas em função, como os parênteses na matemática, quando trazem em si a possibilidade de serem feitas e desfeitas – basta que o laço se desconecte, deixando tudo (des)iludir. Essa é uma maneira de ler a (des)localização de nossos tempos. Nossa convidada das Jornadas, Christiane Alberti, não nos deixa mentir, já que a verdade é mentirosa: o Outro é de meia tigela! “Para fazer par é preciso passar pelo sintoma que em seu princípio nos isola. Neste plano, o Outro será sempre de meia-tigela. Permanece a contingência. Não dá para fazer par sem o pré-requisito do encontro. O cupido tem sempre os olhos vendados e atira suas flechas ao acaso!”.

O acaso! Mas e o apaixonamento? “Freud sublinha que frequentemente tais condições não ocorrem apenas uma vez na vida amorosa dos indivíduos, mas que tais condições para o apaixonamento se repetem, com as mesmas particularidades ‘cada uma a exata cópia da outra (…) formando uma longa série’”. It`s a match! André Antunes da Costa. Que agora associo ao texto de Niraldo de Oliveira Santos. “Cada um com seu modo de gozo … nada garante que vai “dar liga”, que vai vingar, mantendo a conjunção ’amor e sexo’, do encontro, do fazer par, no campo do mistério”.

Rômulo Ferreira da Silva também não me deixa mentir: “Por não existir vida sexual típica, há que ter coragem para colocar em prática a sexualidade que anima o corpo.” Ainda mais: “Podemos pensar que os (des)encontros sexuais e “amorosos” que ocorrem pela via da internet configuram um sintoma contemporâneo. A internet oferece ao sujeito a possibilidade de tentar driblar os impasses da vida sexual marcada pelo impossível da relação sexual… Resta à psicanálise recolher os efeitos do impossível da relação sexual.”

Leiam os textos deste (des)encontro, des(cupido) que se faz agora em conexão. Talvez você possa descobrir que “a verdade é o seu dom de iludir. Como pode querer que a mulher vá viver sem mentir” (Caetano Veloso) – uma análise é um tempo de des(conectar) “a dor e a delícia de ser o que é”.

Carmen Silvia Cervelatti
Diretora geral da EBP-SP
Read more

Editorial Boletim #Cupid #04

by secao_sp in Boletins

Instalação: Chiharu Shiota; Foto: Instagram @loveartinternational

Caros leitores,

É com especial olhar e atenção que os convido a se embrenharem na leitura de #Cupid – número 4. Penso que contamos aqui com textos precisos, que podem produzir inquietações para as discussões que virão nas VIII Jornadas da EBP-SP- Amor e sexo em tempos de (des)conexões.

Drummond, o poeta, nos interpreta. Eu gostaria de pinçar os versos abaixo como bússola de leitura para os textos deste boletim, uma marcada (des)conexão e uma possível suplência à não relação sexual:

“Porque amor é amor a nada,

feliz e forte em si mesmo.”

Em #Orientação, Maria Josefina Sota Fuentes – no texto Desencanto da Sexualidade

Leva-nos a uma reflexão sobre o centro da radicalidade freudiana na época vitoriana, “ o que esburaca o discurso universal desvelando o furo da estrutura.” Toca em conceitos fundamentais freudianos e lacanianos para pensar no despertar do desejo na adolescência e sublinha “ que o despertar pulsional da puberdade não equivale ao despertar para o desejo que poderá dar marcha à iniciação sexual do adolescente”. E ainda nos leva à questão de como poder tomar algum véu num mundo pós moderno, onde tudo é tomado como puro empuxo ao gozo, desvelado e desarticulado para que algum mistério possa ser causa de desejo.

Maria do Carmo Dias Baptista- no texto Amor e Verdade Mentirosa

Um texto que toca a conjectura sobre Eros e Psiquê, com toda sua delicada e precisa escrita. Maria do Carmo nos fala do amor, da castração , do real posto na estrutura e do desejo na “histoeria” de uma análise. O amor ao saber levado às últimas conseqüências até o final de uma análise: cita Lacan – “não há verdade que, ao passar pela atenção, não minta”. E conclui com a decidida afirmação: “… em uma análise vertiginosa e fulgurante. Faltaria o passe para dar testemunho de sua verdade mentirosa.”

#Ecos de quarta

A disjunção entre o sexo e o saber nos adolescentes, texto de Paola Salinas apresentado em atividade preparatória para VIII Jornadas da EBP-SP- Amor e sexo em tempos de (des)conexões. Temos agudas pontuações sobre a adolescência, o corpo na sua dimensão real, o sintoma na entrada da adolescência, o saber disjunto do corpo, saber e consumo, objetos com empuxo ao gozo e ao ato, violência e a fluidez de nossa época e as invenções possíveis a cada sujeito diante da não relação sexual.

#Ecos do trabalho em Cartel

(Des)Conexão e desenlace: consideração sobre a prática clínica com adolescentes Emelice Prado Bagnola, nos leva a tomar os impasses da clínica contemporânea com adolescentes, os manejos possíveis, o mundo cotidiano tocado por época de novas configurações familiares, empuxo ao gozo, o excesso do capitalismo e como isso marca as construções de e tramas ficcionais. O laço que é construído, via invenção na análise, em uma aliança entre corpo e palavra.

#Alguma palavras

O novo amor como resposta ao mal-estar contemporâneo. Uma resenha de “Los decires del amor”, de Oscar Zack, feita por Antonio Alberto Peixoto de Almeida. Boa indicação de leitura!

#Match – apresenta a exposição “Trem das Onze – Uma viagem pelo mundo de Adoniran” e de objetos do artesão construídos e que marcam sua relação amorosa com Matilde, por mais de 40 anos.

# Referências bibliográficas

Textos fundamentais para leitura e textos vivos, de toda a comunidade da AMP, possibilitando fundamentar sua escrita e inspirar novas discussões.

Fiquem atentos ao prazo dos trabalhos e seus eixos, consultem o site, e não passem de 17 de setembro para o envio dele.

Boa leitura e novas inquietações a todos!

 

Alessandra Sartorello Pecego
Read more

#Orientação – Desencanto da sexualidade

by secao_sp in Boletins

Escultura: Tunga; Foto: Instagram @luhringaugustine

Será que podemos dizer que Freud formula propriamente a impossibilidade da relação sexual? Ele não a formula como tal. Se eu o faço, é simplesmente porque isso é muito simples de dizer. Está escrito de todas as maneiras. Basta lê-lo (J. Lacan)

Mais do que uma leitura de Freud, o ensino de Lacan é sua resposta singular ao que foi o acontecimento Freud na cultura, ou, como diz Miller[1], ao “traumatismo Freud”, já que Lacan a ele reage sintomaticamente, em traumatismo, procurando com seu ensino transmitir a radicalidade da descoberta freudiana que esburaca o discurso universal desvelando o furo da estrutura.

Mal compreendido, foi um escândalo Freud afirmar que o inconsciente só reconhece a inscrição do falo para diferenciar os dois sexos em termos de castração. A pulsão genital – aquela que conduziria à relação com o objeto total, A mulher – revela-se problemática. Contrariamente ao sonho dos pós-freudianos, Freud insiste na pulsão que permanece parcial quanto à finalidade de reprodução e cujo objeto repousa sobre a Coisa perdida.

Mas, a arte precede o psicanalista. Segundo indica Lacan, o dramaturgo de O despertar da primavera “antecipa Freud e muito” [2]. Em 1891, enquanto Freud ainda cogitava sobre o inconsciente, o jovem Moritz, às voltas com o despertar da sexualidade e do gozo enigmático, se lança “entre os mortos excluídos do real”, revelando tragicamente que nessa delicada transição nem sempre o jovem alcança uma idade para o desejo.

Para Lacan, o essencial naquilo que Freud chama de sexualidade é que esta faz furo no real e, enquanto Freud levava-a para todos os campos, Lacan a restringe ao encontro com o Outro sexual, que não existe. A pulsão finalmente não representa a sexualidade, uma vez que o parceiro em jogo é o objeto a que vem substituir o Outro sexual na forma de causa de desejo, ou o S(A) barrado, outra versão do furo da estrutura de onde parte o gozo dito feminino. Persegue-se uma satisfação ignorada, aberrante, sintomática, marcas e afetos do exílio do que “não há”.

O ponto de vista estrutural na psicanálise inaugurado por Lacan[3] implica anular as questões da gênese, separando-a de uma teoria do desenvolvimento da libido baseada na genética e no indivíduo. Em contrapartida, o sujeito do significante supõe a estrutura da linguagem que recorta o circuito da pulsão a partir da demanda do Outro. Oral, anal, sejam quais forem os revestimentos para o objeto da pulsão, este não repousa no desenvolvimento do organismo mas se inscreve com as operações lógicas de causação do sujeito: alienação e separação. O olhar, a voz e o nada, objetos que Lacan fez surgir na psicanálise, não se situam em estágio algum, generalizando o estatuto de objeto a como consistência lógica e topológica, causa ausente, o objeto perdido que é o suporte do desejo.

Nesse sentido, a fase fálica é, para Lacan, central, pois a função do objeto a é representada por uma falta, ou seja, a falta do falo como constitutiva da disjunção do desejo e do gozo”[4]. Com a elaboração dos anos 70, Lacan esclarece que o falo como significante, que funda a identificação fálica diferenciando meninas e meninos, o famoso binário criticado pelas teorias do gênero, não se confunde com o gozo fálico, que é a encarnação da não-relação. Uma leitura equivocada das fórmulas criticadas da sexuação supõe que o gozo fálico e não-todo fálico reeditam o binário homem/mulher impondo a “heterossexualidade obrigatória”, como denuncia J. Butler, quando se trata, ao contrário, de modos de fazer fracassar a relação sexual que não há e da impossível simbolização do real do sexo que nenhuma identificação de gênero, nem mesmo as mais estranhas, poderá eliminar. “Não-há” senão o “nada” que se desvela para o jovem Moritz e presentifica a fugacidade do sentido sexual, que nem o significante fálico nem o saber sexual podem estancar.

Nesse ponto, Lacan articula o que em Freud permanece desarticulado[5]: o circuito da palavra e o circuito da libido. Enquanto Freud mantém um paralelismo entre o recalque (que impede que o dizer se esgote), e a regressão (que obstaculiza a plena realização do sexual), Lacan demonstra sua articulação. O caráter parcial das pulsões decorre da estrutura da linguagem que já nasce recortada pela linguagem. “O sexo é um dizer”[6] que surge do significante do qual padece em torno de um real, ele mesmo dessexualizado.

Despertar para a idade do desejo?

Posto isso, cabe indagar a natureza dessa escansão e do “despertar” que opera na puberdade instaurando uma ruptura em relação ao período infantil, tal como postula Freud.

Se o conceito de adolescência é uma construção é porque este não repousa na realidade orgânica que anunciaria sua chegada que talvez nem sempre tenha existido. Seria a adolescência uma construção da nossa sociedade adolescente que a valoriza eternizando-a, postergando o ato da vida adulta no culto ao aperfeiçoamento interminável de si mesmo?[7]

De todo modo, é necessário um segundo tempo para situar a puberdade como uma ruptura, localizável somente a partir dos seus efeitos de subjetivação sintomática. Nessa direção, Stevens situa a adolescência como um “sintoma da puberdade”, uma resposta diante de um real que irrompe, o que requer do jovem sustentar-se como desejante diante do despertar pulsional e não mais como desejado (ou não desejado) pelo Outro parental do qual terá de se separar.

Para Lacan, o que separa a criança do adulto não é nem a idade nem a puberdade, mas a posição ética de responsabilizar-se por seu gozo. Trata-se, como comenta Laurent[8], daquele que foi até o fundo de um desejo e encontrou seus restos, a causa que o anima. Por isso, o adulto, como diz Lacan, é aquele que não desconhece a causa de seu desejo, aquele que soube extrair do furo da estrutura a sustentação do desejar e a certeza de seu ato. Mas, onde estão os adultos? A questão já se colocava para Lacan em 67, quando se referia à “criança generalizada”[9] na sociedade na qual “não existe gente grande” que possa responsabilizar-se pelo irredutível do gozo que não convém à relação sexual.

Cabe sublinhar que o despertar pulsional da puberdade não equivale ao despertar para o desejo que poderá dar marcha à iniciação sexual do adolescente. Não sem efeitos, a sexualidade da era vitoriana aos dias atuais sofreu uma grande transformação. Já em 74, Lacan[10] assinalava “a dimensão pública da retirada do véu” em uma época em que a permissividade sexual nas ruas – longe de eliminar os embaraços frente à sexualidade que perdia sua áurea clandestina – afetava o apetite sexual. Ao que parece, como dizia Serge Cottet[11], Don Juan, anda cansado”, e cada vez mais desencantado frente ao empuxo-ao-gozo da hipermodernidade – o que lhe dá pouca oportunidade de confrontar-se com “aquilo que da sexualidade faz furo”.

Em “Televisão”, Lacan indaga: “como desconhecer que esses dois afetos – o tédio e a morosidade – se denunciem nos jovens que se entregam a relações sem repressão?”[12] A indiferença e apatia do desejo, distante do mito romântico do jovem em crise estruturante, levam Domenico Cosenza[13] a indagar os efeitos da ausência de um véu em torno do enigma da sexualidade no adolescente contemporâneo, uma vez que, para “fazer amor com as mocinhas”, como diz ironicamente Lacan, é preciso antes “o despertar de seus sonhos”.

Se há um despertar que agita o corpo do púber em ebulição, não é certo que haja necessária e paradoxalmente um despertar da sexualidade na época em que a fúria copulatória da pornografia disponível na prateleira mostra antes um véu que não há, um saber inconsciente indisponível para mobilizavar o sonho da Outra cena, mas um puro sem-sentido que cada vez menos encoraja o jovem à iniciação da vida sexual.

Como sair do tédio do gozo autista masturbatório, da indiferença apática ao ato sexual? A promessa fálica encanta cada vez menos e o gozo, disjunto do desejo, desarticulado do dizer, deságua frequentemente no afeto central da contemporaneidade, a tristeza, dita depressão, como sinaliza Lacan, ali onde o saber inconsciente permanece indisponível – quando não termina na passagem, cada vez mais frequentada pelos adolescentes, ao ato suicida.

Muitas vezes encerrado na bolha entediante do Um, o jovem de hoje, contudo, se agarra aos seus aparelhos que o mantém hiperconectado nas redes ditas sociais. Novas respostas dos adolescentes diante do furo da estrutura, da inquietante fugacidade do sentido vital que se esvai continuamente nos tempos do Outro que não existe?

Para que o gozo possa condescender com o desejo e o jovem possa por fim despertar para a idade do desejo, não seria hoje antes preciso velar a nudez da pulsão para introduzir um mistério diante do inominável do objeto, uma versão do objeto a que cause o desejo? A propósito, servir-se de “um entre tantos nomes-do-pai”, de uma père-version diante do impossível, é a orientação com a qual Lacan conclui O despertar da primavera.

Caso a função de suplência do amor ainda zele por esta função, o psicanalista poderá ser um parceiro fundamental que sustente, com sua presença e seu dizer, o laço transferencial a partir do qual o analisante decidido poderá extrair um objeto privilegiado não disponível no mercado: o objeto separador causa do desejo.

Maria Josefina Sota Fuentes

 


[1] MILLER, J.-A. El ultimísimo Lacan. Buenos Aires: Paidós, 2012, pág. 11.
[2] LACAN, J. “Prefácio a O despertar da primavera”. In Outros escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 2003, pp. 558-559.
[3] Cf. MILLER, J.-A. “Concepts et mathèmes”. In Quarto n. 54, junho, 1994, pp. 30-34.
[4] Cf. LACAN, J. O seminário, livro X: a angústia. Rio de Janeiro: Zahar, 2005, pág. 321.
[5] MILLER, J.-A. “Seminário sobre las vías de formación de los síntomas”. In Introducción a la clínica lacaniana. Barcelona: RBA Libros, 2007, pág.465.
[6] LACAN, J. « Le moment de conclure : une pratique de bavardage ». In: Ornicar ?, nº 19, 1979 (tradução livre).
[7] La Sagna, P. “L’adolescence prolongée, hier, aujourd’hui et demain”. In Mental, n. 23, dez, 2009, Clamecy, pág. 18.
[8] LAURENT, E. Hay un fin de análisis para los niños. Buenos Aires: Colección Diva, 2003, pág. 37.
[9] LACAN, J. “Alocução sobre as psicoses da criança”. In Outros escritos. Op. cit, pág. 367.
[10] LACAN, J. “O despertar da primavera”. Op. cit, pág. 558.
[11] COTTET, S. “O sexo fraco dos adolescents: sexo-máquina e mitologia do coração”. In Ensaios de clínica psicanalítica. Rio de Janeiro: Contracapa, 2011, pág. 68.
[12] LACAN, J. “Televisão”. In Outros escritos. Op. cit, pág. 530.
[13] COSENZA, D. “L ‘initiation dans l’adolecence: entre mythe et structure”. In Mental, n. 23, dez, 2009, Clamecy, pág. 48.
Read more

#ecos de quarta – A disjunção entre o sexo e o saber nos adolescentes

by secao_sp in Boletins

Grafiti: Osgemeos (detalhe); Foto: Instagram @quelig

Pontuações preparatórias para VIII Jornadas da EBP-SP- Amor e sexo em tempos de (des)conexões

Adolescência, sintoma não necessário.

Segundo Stevens[1] a adolescência é um sintoma, tentativa de subjetivar o real expresso nas transformações do corpo na puberdade. Este se apresenta como estranho, pulsional, exigindo uma satisfação frente à qual o adolescente não tem nem um saber, nem um saber-fazer a respeito. A mudança, em termos da pulsão sexual, até então expressa na satisfação perverso polimorfa, aponta para uma satisfação de cunho genital/sexual, um novo modo de gozo que pode incluir um parceiro sexual.

Ou seja, o sexual introduz um furo no saber, a partir da eclosão de um real na carne e no modo de satisfação do corpo, agora possível de remeter-se a outro corpo, também estranho.

O imaginado encontro sexual aponta para um furo que por vezes pode ser incontornável e produzir uma queda vertiginosa, por outras, pode ser evitado com o isolamento, ou ainda com objetos que produzam uma aparência de solução frente à não existência da relação sexual.

A adolescência como sintoma, é o quanto deste momento pode ser colocado em questão e o sujeito se propor a um trabalho sobre o que não sabe, mas deseja saber.

Nesse ponto Cottet[2] nos lembra que a indiferença nos jovens levada ao extremo, no que se refere às questões do sexo e do encontro sexual, podem funcionar como defesa frente ao vazio que aí se coloca, e ser, então, entendida como sintoma. A evitação do encontro amoroso ou sexual como resposta ao mal-estar, a indiferença frente ao impossível da não-relação entre os sexos se apresentam como saídas que pretendem evitar a dimensão real que está em jogo nesse momento. Nestes casos estamos diante do enfado e da morosidade como efeitos de uma subjetividade que se mantém aparentemente aquém da satisfação, mas plena de gozo mortífero. Do mesmo modo nos permitem questionar a lógica de que o problema se encontraria na permissividade acentuada de nossos dias.

Saber disjunto do corpo

O corpo é o ponto central, que nesse momento da puberdade aparece sob a forma de um real que precisa ser ultrapassado. A partir deste ponto, é possível que isso ocorra via sintoma, entrando-se na adolescência, como afirma Stevens, ou apresentar-se como curto circuito do gozo.

Fazer sintoma da não-junção entre o ser e seu corpo pode então, no contemporâneo, ser evitado, e na adolescência, quando este aspecto toma a cena, o acting out e a passagem ao ato podem vir no lugar de uma adolescência-sintoma.

Fica em aberto, a cada adolescente, como construir um saber sobre o gozo para poder servir-se do corpo. Considerando não se tratar de um saber sobre os ideias, ou sobre o amor, mas sobre o gozo que assola o corpo de maneira nova. É preciso uma elaboração de saber por alguma via, pois sem isso “fica-se exposto a uma exigência pulsional que pode levar o adolescente ao pior”[3], nos lembra Maria Jose Salum.

Saber e consumo

Quando na puberdade o real da não relação sexual retorna, e a resposta fálica frente ao desejo da mãe, de ser ou ter um falo, se mostra insuficiente para amarrar as coisas, abre-se uma reconfiguração do lugar do desejo do Outro. É frente a esse Outro que o púbere precisa se posicionar para além “dos sintomas e fantasias construídos na infância e mais além dos ideias e dos modelos”[4]

Nesse momento a pergunta que sobressai é sobre o gozo da mulher e não mais sobre o desejo da mãe, e é exatamente esta pergunta que é possível curto-circuitar.

O declínio do sujeito suposto saber em nossa época acentua o furo que a sexualidade faz no saber. De modo geral a relação com o saber se modifica, sendo curto circuitada por objetos de informação ininterrupta, que estancam a pergunta. Segundo Miller, “o saber que antes era extraído por meio do Outro e seu desejo, hoje, está nos objetos tecnológicos”[5]. A adesão a objetos de consumo favorece o não-saber sobre o desejo na tentativa de evitar uma sintomatização ou problematização que o leve em conta, assim como ao próprio inconsciente.

Objetos que empuxam ao gozo e ao ato

Rechaçando a relação com o saber alguns adolescentes se tornam reféns dos objetos para se fazerem reconhecer pelo outro, no movimento de ver e ser visto, o que acirra o terreno da rivalidade imaginária e incita a violência.

Frente à pergunta ou à surpresa de uma nova satisfação pulsional no corpo, objetos pode vir recobrir o que é ser homem, mulher, trans, etc., e o adolescente não se propor a esboçar uma resposta à pergunta sobre a sexuação. Os objetos como próteses identificatórias respondem ali onde um ser sexuado não se definiu ainda, ou não se apropriou de um corpo pulsional do qual possa fazer uso.

Com a proliferação imaginária e o declínio dos semblantes, o véu do sexual por vezes cai e tem-se a aparição do obsceno e do violento. Do mesmo modo que no impasse amoroso, a violência pode ser uma solução ali onde a palavra não nomeia os parceiros, não os reconhece ou não os enlaça.

Violência

Cottet nos orienta, a partir de Christian Baudelot e Roger Esabler[6], que não é a sociedade que esclarece o suicídio, e sim este que esclarece a sociedade. Levanta uma relação entre o enfastio do gozo como consequência do contemporâneo e a saída pelo suicídio, partindo da discussão de Abraham Baer[7], que atribuía à força da sexualidade a responsabilidade da autodestruição. Tal relação remete ao fato do sujeito frente ao real da não relação encontrar somente a saída vertiginosa da não existência, pela ausência de algo que medie esse não-encontro.

Com Laurent[8], aprendemos que o sujeito não pode identificar-se nem com seu inconsciente, nem com seu gozo, pois ambos permanecem Outros. Ou seja, permanece um ponto de extimidade no corpo e em relação à sexuação. Esse aspecto vem à tona na adolescência, e pode ser sintomatizado buscando uma saída que permita um gozo vivível.[9] Em outros casos, o sujeito fica à mercê do gozo e do não saber, tornando-se objeto do seu próprio “adolescer”, em suma, dos efeitos que sofre disso no seu corpo a partir da pergunta sobre a sexuação.

Uma palavra sobre a fluidez

A partir de Butler podemos recortar[10] que a identidade de gênero é um ideal identificatório e normativo, tratando-se de um processo que nunca se resolve de maneira definitiva. Aspectos como o gênero fluido, ou a desconstrução total das identidades de gênero se colocam como possibilidades frente ao impossível expresso no corpo, de cunho sexual, no adolescente.

Se por um lado uma geração fracassou em extinguir o mal-estar do sexo ao se opor ao recalque e pregar a liberdade sexual, por outro a possibilidade de ter qualquer gênero ou nenhum, independentemente de ser um direito, parece fundar-se em outra liberdade que tem como ideal “a consigna meu corpo é meu”[11], ainda de modo mais radical.

É o gozo que introduz a dimensão do impossível e este resta sempre Outro, independentemente do número e possibilidades de nomeações. Do mesmo modo que o corpo sempre nos escapará, nos deixará na mão, estruturalmente[12]. A extimidade inerente ao corpo impede, para qualquer um, uma propriedade absoluta do seu corpo. Esse campo, do gozo, não se resume ao campo do Direito, do mesmo modo que não pode ser abarcado totalmente por ele.

Frente ao real do sexo, “em tempos de vacilação dos semblantes tradicionais que poderiam dar alguma sustentação ao ser em sua articulação ao campo das identidades sexuais, assistimos a uma imensa flexibilidade dos modos de viver a pulsão. Atualmente assistimos a uma gradação de eixos e tonalidades na experiência sexual vem dilatar o intervalo entre um sexo e outro, intervalo que se expressa na clínica com adolescentes por longos períodos de experimentação no terreno da sexualidade”[13]. Assistimos também a indefinição da posição sexuada, ou ainda o desejo de congelar a puberdade para evitar o real do corpo e esperar por uma definição futura.

Em outros momentos as identificações assumem o lugar de insígnias do sujeito, uma modalidade de gozo elevada à dignidade de um significante mestre[14] que padroniza o gozo e acarreta a formação de sintomas articulados ao laço social.

É por essa via que Ansermet[15] argumenta que as práticas contemporâneas em torno da intersexualidade e da transexualidade demonstram que a escolha do sexo se situa para além do campo das identificações. Há diferentes dimensões e modos de inscrição no plano sexuado para o ser falante: no plano imaginário há as identidades; no plano simbólico, as questões em jogo na nomeação, filiação e lugar social; no plano real, os diferentes modos de gozo”.

O adolescente contemporâneo tem à sua frente toda essa possibilidade de invenção, ao mesmo tempo que de evitação no que diz respeito à sexuação e ao laço social e amoroso daí advindo.

Contingência como saída para a recusa ao saber

Frente a explosão da norma sexual, a presença maciça de objetos de consumo que equivalem a vida erótica à econômica[16], bem como a lista infinita de nomeações, os sujeitos se veem em uma balcanização[17] do consumo onde seus próprios corpos podem entrar como objetos. A primazia do ato vazio, sexual ou não, sem nostalgia, coloca a queda do ideal amoroso.

Em alguns jovens o recrudescimento de normas parece ocupar o lugar de um muro frente ao furo engendrado pelo sexual e o radicalismo moral se mostra novamente.

Para encerrar, Cottet afirma que a sexualidade tem seu mistério e, “levantando o véu da proibição, encontra-se a não relação. Ao discurso liberalizante que atribui a insatisfação ao nível do gozo às normas da cultura, Lacan responde com a maldição do real do sexo. O bendizer sobre o sexo é impossível”.

Por não se tratar de uma questão de readequação, exclusão ou recrudescimento das normas de comportamento, nem mesmo de uma retomada romântica do afeto e da solidariedade, apelemos novamente a Lacan que sempre abre a porta ao sujeito, “aí onde não há relação sexual (…) inventa-se. Inventamos o que podemos, é claro”.[18]

Paola Salinas

[1] Stevens, A. Adolescência: sintoma da puberdade. In: Revista Curinga, Belo Horizonte, n 20, pg. 27-39, 2004.
[2] Cottet, S. O sexo fraco dos adolescentes: sex-máquina e mitologia do coração. In: Cottet, S. Ensaios de clínica psicanalítica. Rio de Janeiro, Contra Capa Editora, 2011, pg 63.
[3] Salum, M.J.G. Id. Ibid. Juventude, saber e gozo no impasse com a sexualidade. In: Revista Curinga, Belo Horizonte, n 42, pg. 47, 2016.
[4] Oliveira, S. E. As trans-formações da puberdade. In: Revista Curinga, Belo Horizonte, n 94, 2016.
[5] Miller, J. A. A criança e o saber. In: Cien Digital, n 11. http://cien-brasil.blogspot.com/p/cien-digital.html
[6] Baudelot, C., Esabler, R. Suicídio: o avesso de nossa época (2006), apaud Cottet.
[7] Baer,A. Apaud Cottet, S.
[8] Laurent, E. Género y goce. Conferência nas 13a Jornadas da ELP 2014. Ed. Gredos-ELP, Barcelona, 2014, pg. 362.
[9] Expressão de Mauricio Tarrab em discussão do Caso Joana D´arc no Instituto Raul Soares, Belo Horizonte em 2000. (Ano aproximado, anotações pessoais).
[10] Alvarez, P. et al Trasnsexualismo e Travestismo desde la perspectiva del psiconalisis. In: Lacan XXI. Revista FAPOL on line, Vol 5 Maio de 2018.
[11] Pittella. C. Quais os impasses e soluções do jovem para a sintomatização do sexual hoje? In: Revista Curinga, Belo Horizonte, n 94, 2016.
[12] Lacan, J. Seminário 23, O sinthome. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editores, 2007.pg 64.
[13] Rubião, L. A psicose frente ao real do sexo na adolescência. In: Revista Curinga, Belo Horizonte, n 94, 2016.
[14] Fajnwaks, F. Lacan et les théories queer: malentendus e méconnaissances. In: Leguil, C. Subversion lacanienne des théories du genre. Paris, Michéle, 2015, pg 31.
[15] Ansermet, F. Elegir el propio sexo: Usos contemporáneos de la diferencia sexual. In Virtualia. Revista digital da EOL. Noviembre 2014 • Año XIII, n 29.
[16] Lepovetsky. G. Le bonheur paradoxal. Essai sur la société d’hyperconsommation, Paris Gallimard, 2006, p. 107. Apaud Cottet.
[17] Lepovetsky, G. Id. Ibid. Apaud Cottet.
[18] Lacan, J. Seminário 21, Os não tolos erram. Inédito.
Read more