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Subversões do feminino

Mônica Camargo (EBP/AMP)
Imagem: Instagram@arthunter.me
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O feminino e as subversões é um dos eixos desta jornada da EBP-SP, que numa primeira apreciação soa enigmático: subversão é um termo que remete diretamente ao texto de Lacan dos Escritos, de 1960, uma referência fundamental que está sendo amplamente trabalhada nesta jornada[1].

Já o feminino remete ao último ensino de Lacan, momento em que a clínica passa a ser pensada a partir do nó borromeano, suas suplências e arranjos, constituindo a clínica do falasser, o qual tem um corpo parasitado pela linguagem, marcado pelo acaso que engendra uma singularidade. Uma torção se faz necessária para articulação desses diferentes momentos.

Logo depois o que se vislumbra é que essa torção aparece delineada já no tema da jornada: Subversões, evocando uma pluralização, ou seja, novos arranjos, invenções.

O próprio formato da jornada remete a algo que saiu da série, formato que promove uma espécie de work in progress, pois a mesma acontece num espaço alargado de tempo, durante alguns meses, mesmo já tendo sido posta em marcha ainda contará com a elaboração de textos e boletins, que ao mesmo tempo, se valem do trabalho já iniciado.

Desta forma, remeto essa questão às ressonâncias da apresentação de Sergio Laia nesta jornada, que teve como título: No mar de nomes próprios, o vazio borbulhante, em especial às elaborações feitas em torno do significante que falta no Outro.

Subversões

A subversão apontada por Lacan está em questão na psicanálise desde seu início, quando Freud traz a questão do inconsciente, deslocando o eu do centro da psique, evidenciando o sujeito do inconsciente e sua irremediável divisão. O inconsciente freudiano, estruturado como uma linguagem, constituído com os significantes do campo do Outro, tesouro dos significantes, é onde o regime do gozo fálico vai constituir um sentido cifrado, uma metáfora. Disso resulta que o sintoma freudiano comunica, se vale da lógica significante para engendrar uma ficção apoiada no Édipo, uma outra cena. O sintoma histérico é paradigmático do inconsciente transferencial, ele fala, guarda um sentido.

Lacan primeiramente se debruça sobre o inconsciente estruturado como uma linguagem, do sintoma metáfora, para mais à frente fazer uma escansão no seu ensino, tendo o real como perspectiva. Isso se dá paulatinamente. Destaco um momento do seminário 19 em que ele chega a uma afirmação, após longo desenvolvimento: há o Um (y’a d’l’Un)[2], cujo desdobramento traz como consequência que o Outro perde sua primazia. Onde havia a prevalência do simbólico, do discurso do Outro, há um deslocamento em direção ao real, a um gozo mudo.

Bernardino Horne localiza aí a subversão de Lacan, pois isso quer dizer que o discurso do Outro é fundamental, mas nesse momento se evidencia que o que é constitutivo é o Um[3]. O gozo do Um é a raiz do sintoma.

Há Um, Um sozinho, dimensão do gozo na sua face de real, que antecede o sintoma sentido. Laurent faz um desenvolvimento sobre o sintoma evidenciando estas suas vertentes, de sentido e do gozo mudo: o sintoma que fala possibilitou sua abordagem por Freud, através das histéricas, mas este não é o sintoma por excelência. É preciso abordar também o sintoma que se escreve em silêncio. “Há restos sintomáticos em que se desvela a forma lógica fundamental do sintoma como o que se escreve sobre o corpo e não fala […] Essa estrutura desvelada no fim da experiência deve ser considerada primeira”[4].

O aspecto constituinte e antecedente do Um aparece em outra passagem: “Mais aquém do sintoma histérico, como falam os corpos? Falar lalíngua do corpo é procurar saber, com Lacan, como o sintoma do Um-sozinho (Um-tout-seul), que não fala, pôde passar ao estatuto de sintoma articulado ao Outro, articulado ao Dois.”[5]

Disso resulta que a interpretação que incide nos efeitos de sentido não desvanece todo o sintoma, permanecem restos sintomáticos, parte do gozo impermeável ao sentido. Freud já havia detectado esses restos.

Feminino: regime do gozo como tal

O feminino aqui não se refere a uma questão de gênero. Sob a ótica do gozo e da lógica que o rege, não é oposto nem complementar ao masculino, gozo fálico no caso. Quando tomamos a oposição masculino-feminino estamos no regime da diferença significante, do binário, do zero e do um, da presença e da ausência. Essa é a lógica da significação fálica, situada no âmbito dos universais, da categorização, da quantificação, da reciprocidade.

Em relação ao feminino encontramos o regime de um gozo indizível, opaco, mais afeito ao impossível e ao infinito, portanto não abordável pela decifração, sendo justamente a parte que escapa ao falo, à lei e ao semblante. Aqui, entre zero e um, há infinitas possibilidades. Estamos no campo da singularidade. Não há universal, não há conjunto possível.

Segundo Miller, o gozo feminino abriu as portas para o último ensino de Lacan, que depois o generalizou para todo ser falante, fazendo dele o regime do gozo como tal. Até então o gozo era considerado a partir do seu lado articulado ao falo, a partir do gozo fálico. “Assim, o que abre seu último ensino é o gozo feminino concebido como o princípio do gozo como tal.” E continua: “o que quer dizer o gozo como tal? Quer dizer alguma coisa inteiramente precisa: o gozo como tal é não edipiano, é o gozo concebido como subtraído, de fora da maquinaria do Édipo. É o gozo reduzido a acontecimento de corpo”[6].

Desafios clínicos se colocam a partir disso.

Por um lado, o tratamento desse resto de gozo que não responde às mutações de sentido. Em relação a isso, Miller coloca que no final da análise é possível cingir certo número de pontos de impossível[7]. Cabe ao falasser inventar um saber fazer aí com o resto sintomático mudo, faceta do gozo ainda mais desconhecida, que engendra uma extimidade, um efeito de real sem lei. Estamos no campo da invenção, da poética, cujo paradigma é o sinthoma, um enodamento dos três registros: real, simbólico e imaginário.

Por outro lado, há o desafio em relação aos sintomas que não se articulam ao sentido, não se comunicam.

Singularidade e laço social

A questão do gozo do Um sozinho é pertinente quando abordamos o laço social.

Aqui estamos numa fronteira delicada, na qual temos nos detido ultimamente, no que diz respeito ao laço social. Este não é natural para o falasser, corpo parasitado pela linguagem que o inscreve no sintoma que inclui o Outro, articulando-o nos discursos. Temos debatido bastante como a contemporaneidade vem se constituindo a partir de um declínio do sentido, diminuindo as narrativas e favorecendo sintomas que não falam, que contam primordialmente com o gozo solitário nos seus arranjos sintomáticos e seus aspectos clínicos. O discurso da ciência e do capitalismo prevalentes nos tempos atuais provocam mutações no laço social, propiciando as relações em rede, concomitantes a um apagamento da hierarquia, a um saber que tende a se universalizar, ao mais de gozar aparecendo como mercadorias a se consumir. O objeto se torna hiperpresente e ao mesmo tempo impossível de localizar[8].

A abordagem desta parcela do gozo é um desafio sempre renovado para a psicanálise. Uma análise visa alcançar o singular de cada um, o qual pode promover um estofo de satisfação e permitir prescindir do excesso de gozo traçado ou não nas vias do Édipo, propiciando novos arranjos sintomáthicos, de satisfação e de laço com o Outro.

Trago aqui uma passagem de Gil Caroz que articula, nesses impasses, a importância do feminino: “À aceleração infinita é preciso responder por uma lógica do infinito. O mestre teria tudo a ganhar se se inspirasse na lógica feminina, que tem afinidades com o significante da falta no Outro e com o objeto, para além do falo.[…] Mas é, sobretudo, a relação de uma mulher com o significante da falta no Outro, com o furo no simbólico, que lhe permite tratar o ‘sem medida’ do objeto”. Ali onde a lógica fálica daria um basta, poderia trazer outras consequências, inclusive violência, “ao contrário, o furo no simbólico, o significante da falta no Outro remete preferencialmente à fala. É porque um significante falta que devemos discutir.”

Perante a agitação sem fim do objeto, a lógica feminina convida-nos ao infinito da fala, preferencialmente ao ponto de pausa, que é a passagem ao ato[9].

Sub-versões

O feminino, por sua característica de indizível, tem um caráter enigmático e, poderíamos dizer potencialmente subversivo, pois enquanto não articulado à norma, pode trazer soluções contingentes e inesperadas, a partir de um essencial subjacente, mesmo nos casos em que a norma fálica não está tão bem articulada.

Vale também lembrar que a lógica do feminino é condizente com a posição do analista.

No cerne da psicanálise, o feminino. Este, afeito a sub-versões.


[1] Lacan, J. “Subversão do sujeito e dialética do desejo no inconsciente freudiano”. Escritos, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998, p. 807-842.
[2] Lacan, J. O seminário, Livro 19: …Ou pior, Zahar, Rio de Janeiro, 2012, p.121.
[3] Horne, B. A subversão do Um. Boletim Fora de série #02.  Setembro de 2020. Disponível em https://ebp.org.br/sp/boletim-fora-da-serie-02
[4] Laurent, E. O avesso da biopolítica. Rio de Janeiro: Contra Capa. 2016, pg 46.
[5] Idem, ibid. pg 45.
[6] Miller, J.-A. Orientação Lacaniana III, 13. “L’Un tout seul”. Aula de 02/03/2011.
[7] Idem, ibid.
[8] Caroz, G. Hipermodernidade. In: A ordem simbólica no século XXI. Belo Horizonte: Scriptum. 2011, pg 177.
[9] Caroz, G. ibid. pg 178.
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