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Editorial Boletim Traços #04

by secao_sp in Jornada 2019

Imagem: Instagram @museomaxxi

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Gabriel García Marques, Haruki Murakami, Clarice Lispector, Alejandra Pizarnik: a literatura mais uma vez é chamada pela psicanálise para aliar-se a ela na difícil tarefa de transmitir algo do real, desta feita, do real da solidão. Esta edição do Boletim Traços reúne textos cuja leitura, além de trabalhar conceitos como fantasia, Outro, gozo feminino, sintoma, real, traz a pena de escritores que nos conduzem por veredas sempre inusitadas, cujo testemunho, como dizia Freud em Delírios e sonhos na Gradiva de Jensen, “deve ser levado em alta conta, pois [os escritores] costumam conhecer toda vasta gama de coisas entre o céu e a terra com as quais nossa filosofia ainda não nos deixou sonhar”.

Assim é, por exemplo, que Cássia Gonçalves Gindro resgata Cem Anos de Solidão, de García Marques, do qual procura tirar consequências “desta solidão, que impede o laço com o outro, por ser uma falsa solidão, ainda que autêntica, pois é falsa naquilo que oculta que o sujeito está acompanhado do objeto de seu fantasma”.

Elisa Alvarenga, por sua vez, testemunha a solidão sofrida pelos homens através do livro Homens sem Mulheres de Haruki Murakami, cujas ficções “revelam algo do real da não relação sexual na época do Outro que não existe, em que o gozo feminino não se atém às fronteiras entre homens e mulheres”. A questão que perpassa suas linhas diz respeito à solidão masculina presente nos contos de Murakami, e como o “encontro com o Outro sexo pode ser devastador para um homem, que se refugia no isolamento fantasmático dos homens sem mulheres”.

Flávia Cêra recorre à poesia, “essa forma de escrita que sabe que toda fala está aquém ou além da comunicação”, para tocar a solidão e, a partir de poema de Alejandra Pizarnik, em La palabra del deseo, conclui que a solidão não é apenas estar sozinho, mas é uma fratura na frase. Como esta ruptura se dá na adolescência, eis o que a autora busca trabalhar.

E claro, Clarice Lispector não poderia estar ausente nesse momento. Laureci Nunes traz de seu último escrito um personagem que “permite ver a solidão como efeito do real da não relação sexual”, mas, também, mostra a possibilidade do encontro “do eu com o eu”. A solidão, seria um luxo, como afirma Clarice? Seria esta a marca da solidão do final de análise?

É essa solidão radical, obtida no final da análise, que Fabiola Ramon aborda ao trazer trechos de relatos de passes, a partir dos quais questiona o lugar que o Outro ocupa quando o discurso capitalista modifica o estatuto da solidão, levando a “laços mais frouxos”. A autora examina de que forma pode o trabalho analítico transcorrer quando a inconsistência do Outro está posta desde o início e se seria possível a análise engendrar “algum tipo de solidão”.

Esta edição do Boletim Traços é a prova viva de que a psicanálise tem muito a dizer sobre a solidão, mas, acima de tudo, de como não pode prescindir dos artistas para tentar, sempre, melhor dizê-lo.

Por Daniela de Camargo Barros Affonso – EBP/AMP
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Uma falsa solidão

by secao_sp in Jornada 2019

“E os escritores criativos são aliados muito valiosos, cujo testemunho deve ser levado em alta conta, pois costumam conhecer toda vasta gama de coisas entre o céu e a terra com as quais a nossa filosofia ainda não nos deixou sonhar”[1].

Imagem: Instagram @mrsamher

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O tema de nossa IX jornada deu-me a oportunidade de resgatar, em minha memória de leitora, o prazer que foi a leitura do livro Cem Anos de Solidão, de García Marques[2],  livro  que se colocou, não sem insistência, para ser relido na solidão que cabe a todo leitor.

A solidão, no livro, já está marcada como tema central desde o título dado pelo autor. Sua narrativa vai se dar em torno da solidão social, que caracteriza o povoado de Macondo, “Pero si lo piensas con cuidado, verás que el libro que yo estoy escribiendo no es el libro de Macondo, sino el libro de la soledad”[3].

Falar da solidão para García Marques é falar da verdade humana, de sua essência, de uma solidão que requer um saber fazer com ela e assim atingir o seu oposto, a solidariedade, que para ele é o que torna possível o laço familiar, social e político.

Não tenho a pretensão, neste artigo, de dar consequência a toda riqueza do tema feito pelo autor em relação a esta solidão social no seu viés político, mas sim o de buscar tirar consequências desta solidão, que impede o laço com o outro, por ser uma falsa solidão, ainda que autêntica[4], pois é  falsa apenas naquilo que oculta que o sujeito está acompanhado do objeto de seu fantasma.

São as falsas soluções neuróticas frente ao desejo do Outro, usando do isolamento, como forma de evitar entrar em contato com uma solidão inicial inerente a todo ser humano. Bassols vai trabalhar esta solidão inicial como estrutural, pertinente a todo sujeito da linguagem:  é a solidão do ser no mundo, a solidão da falta-em-ser[5].

Também Goldemberg se refere a esta solidão inicial como uma solidão entre desamparo e defesa, que é distinta das solidões dos casos clínicos, da solidão de época e das épocas[6].

Esta falsa solidão é descrita em alguns personagens: Melquíades, José Arcádio Buendía e, principalmente, o Coronel Aureliano Buendía, que compreendem a solidão como isolamento físico nas suas relações com o outro.

É interessante também uma outra forma como García Marques apresenta a solidão: como uma solidão transmitida de geração a geração, solidão transgeracional, uma solidão repetição, em que não só os nomes dos personagens da família Buendía  repetem-se de geração em geração, assim como se repete em cada um a incapacidade de solucionar, de dar outra resposta ao primeiro desejo, o da matriarca, que abre o início da saga familiar. Desejo este com a marca da culpa, por ser um desejo proibido, um desejo incestuoso e gerador de castigo. A matriarca Úrsula, está sempre à espera do advento, da realização deste castigo: o nascimento de um rebento com rabo de porco.

Esta maldição condena a cem anos de solidão, onde o amor não terá êxito em fazer laço, falha em abrir novos caminhos, restando então ser vivido como um amor que corrompe e destrói.

Portanto, não é do isolamento geográfico do povoado de Macondo que o autor apresenta como causa da solidão que acomete seus personagens, a causa está na impossibilidade do amor, na falta de solidariedade dos personagens.

E será por esta impossibilidade que Macedônio vai sofrer um processo de desaparição: o isolamento não permitiu ir além das individualidades próprias e atomizadas.

Desde Freud a solidão tem sua raiz no desamparo e isso marca para o homem o destino de ligar-se ao outro, como ser dependente um do outro. Porém, a solidão vivida como isolamento só faz acentuar a unidade imaginária de ser o único (le seul)[7].

Na solidão não há exclusão do Outro, mas separação, permanecendo uma fronteira com o Outro. No isolamento há a recusa da fronteira com o Outro. O isolamento pode existir para tentar evitar a solidão. É porque o Um e o Outro se opõem é que se evita o Outro. Há várias maneiras de se isolar[8], e é o que García Marques nos descreve na construção de seus personagens.

E, por último, há a solidão do artista, que assim como a solidão do analista, é uma verdadeira solidão: “no encontro com o real, há um saber fazer com a solidão”

Por Cássia Goncalves Gindro – EBP/AMP

[1] Freud, S. Delírios e Sonho na Gradiva de Jensen.  Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago Editora Ltda., vol. IX, 1976.
[2] Márquez, G. G. Cem anos de solidão. Grupo editorial Record, Rio de Janeiro, 2014.
[3] Bermejo, EG. Cosas de Escritores. Entrevista concedida por García Márquez a Ernesto González Bermejo. Biblioteca de Marcha: Montevideo, 1971.
[4] Morel, G. Dos soledades. Revista Freudiana n° 11, Paidós, Barcelona, 1994.
[5] Bassols, M. Revista Freudiana n° 12, Paidós, Barcelona, 1994.
[6] Goldenberg, M. Interpretando los nuevos estilos de vida y la sociedad que crea la tecnología. Letra Urbana – Revista digital de cultura, ciencia y pensamiento. N°1.
[7] Lacan, J. Outros Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 2003.
[8] La Sagna, P. Do isolamento à solidão pela via da ironia. Revista Curinga, nº 44, EBP-MG.
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“Homens sem mulheres”

by secao_sp in Jornada 2019

Imagem: Instagram @kumicontemporaryjapaneseart

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Trata-se de um livro que me foi apresentado para que eu pudesse melhor testemunhar a solidão da qual este homem sofria. Não se trata de homens literalmente sem mulheres, mas de homens que amaram e perderam uma mulher, ou que não ousaram fazer de uma mulher a causa do seu desejo. Suas figuras, no Japão de Haruki Murakami[1], são variadas, mas revelam uma particular sensibilidade ao inconsciente deste escritor cujas ficções revelam algo do real da não relação sexual na época do Outro que não existe, em que o gozo feminino não se atém às fronteiras entre homens e mulheres.

Seus contos surpreendem ao por em cena, para esses homens, o não-todo do gozo feminino e a impossibilidade de fazer existir A mulher, e mesmo a dificuldade de fazer de uma mulher o seu sintoma, trazendo o melhor problema, ou solução, que cada um pôde obter a partir dos impasses do encontro com o Outro sexo.

Um ator perde sua mulher e se aproxima daquele que supõe ter sido seu último amante para saber porque ela precisava ter outro homem em sua vida. Havia um ponto cego na sua relação com a mulher, algo dentro dela que ele não podia entender. Ele mesmo gosta de ser outra pessoa quando está atuando, mas o eu para o qual retorna nunca é o mesmo que deixou para trás. Não só o desejo do Outro permanece enigmático, mas seu próprio eu torna-se outro para ele.

Um cirurgião plástico bem-sucedido, celibatário convicto, só sai com mulheres comprometidas, com as quais não se compromete. Um dia, inesperadamente, se apaixona. Perde a vontade de sair com as outras, de comer, de trabalhar. Ele descobre seu ódio e sua vontade de destruir tudo. Essa mulher deixou o marido e o filho para ir embora com outro, mas não por ele. As mulheres têm um “órgão independente” para mentir e ele usou esse órgão para se apaixonar, leva-lo às alturas e ao abismo. O gozo feminino, opaco, para além da medida fálica que ele sabia usar tão bem, é encarnado em uma mulher e logo, nele mesmo, e o leva ao pior.

Um representante comercial, ao voltar de uma viagem, encontra sua mulher com seu melhor amigo. Abaixa a cabeça e vai embora, mas só encontra, pela frente, isolamento e abandono. Seu corpo vai perdendo consistência, enquanto o gozo o invade sob a forma de cobras que o espreitam na vizinhança. O que é recusado no simbólico retorna no real. Ele terá que reconhecer seu coração ferido e subjetivar a dor para recuperar seu corpo.

A voz de um homem desconhecido anuncia ao autor que sua mulher cometeu suicídio: era uma antiga namorada, a terceira, com quem havia saído, que tinha se matado. Nela perdia a menina de 14 anos que amara, assim como sua vitalidade adolescente. Um buraco profundo se abria entre ele e o viúvo que lhe dava aquela notícia. Uma mulher profundamente amada vai embora levada por “marinheiros”, ou tira sua própria vida. A solidão é como uma mancha de vinho em um tapete pastel. Pode desbotar, mas permanece. Pode-se encontrar outra mulher, mas sua perda está no horizonte. A estátua de um unicórnio é o símbolo da solidão dos homens sem mulheres.

Um homem em reclusão domiciliar tem como único contato uma enfermeira que vem vê-lo regularmente. Ela lhe traz comida, faz sexo com ele e lhe conta histórias que, estas, vivificam seus corpos. Ele aguenta bem o isolamento, mas não suporta a ideia de ser privado das histórias de Scheherazade. Ele havia encontrado, com ela, uma outra satisfação.

Em um último e surpreendente conto, o personagem acorda para descobrir que passara por uma metamorfose e se tornara Gregor Samsa. Nu, desprotegido, sem carapaça e sem ferrões. Uma mulher toca a campainha na casa onde se encontra sozinho, ela veio reparar a fechadura de uma porta. Era uma mulher corcunda e seu caminhar capenga lembra-lhe algo, despertando sua simpatia e logo, a ereção de todo o seu corpo gelado, aquecendo-o. Numa inusitada ficção de metamorfose ao avesso, Murakami nos aponta o encontro, contingente, no parceiro, dos sintomas que marcam o exilio, para cada ser falante, da relação sexual[2].

Se Lacan pôde dizer que o gozo que se tem de uma mulher a divide, tornando-a parceira de sua solidão[3], o que dizer dessas figuras da solidão masculina? Há aqueles que perderam a mulher para outro, seja com resignação ou revolta, seja devastados pelo Outro gozo, “órgão independente” da mulher. O isolamento ora aparece na figura do homem abandonado, sem desejo, ora daquele que não conseguiu ser aquilo que falta ao Outro, ou daquele que deu tudo de si para fazer existir A mulher, mas não soube fazer de uma mulher seu sintoma.

Lacan disse que uma mulher é para todo homem um sintoma, enquanto o homem seria para uma mulher uma devastação[4], mas vemos aqui, justamente, uma inversão. Se “Homens sem mulheres” poderia nos fazer pensar no isolamento de um sujeito fechado em sua bolha narcísica, o que vemos nessas figuras de ficção construídas por Murakami é a maneira como o encontro com o Outro sexo pode ser devastador para um homem, que se refugia no isolamento fantasmático dos homens sem mulheres. E o que abre um horizonte humano é justamente o encontro, em uma parceira, de um traço que lhe permite fazer de uma mulher a causa do seu desejo. Ou a subjetivação do objeto perdido permite a um homem recuperar seu corpo.

Com Philippe La Sagna[5] podemos distinguir o isolamento, do registro da alienação, ou da fantasia, a tratar, da solidão, articulada à separação, ou ao sinthoma, a construir. Na psicanálise, trata-se de entrar em relação com seu inconsciente, com o que se tem de mais próprio, para aceder às coisas das quais se é separado e fabricar uma nova solidão, uma base de operação para encontrar os outros, saindo do isolamento. A descoberta de que o Outro não existe não retira do sujeito o gosto pelo desejo do Outro, ao contrário. Não há acesso ao Outro, mas aos efeitos do inconsciente como furo, o que dá a ideia de uma verdadeira solidão, com satisfação.

Por Elisa Alvarenga – EBP/AMP

[1] MURAKAMI. H. Man without women. New York, Vintage International, 2018.
[2] Cf. LACAN, J. Mais, ainda. Rio de Janeiro, Zahar, 1985, p. 198.
[3] LACAN, J. O aturdito, in Outros Escritos. Rio de Janeiro, Zahar, 2003, p. 467.
[4] LACAN, J. O Sinthoma. Rio de Janeiro, Zahar, 2007, p. 98.
[5] LA SAGNA, P. De l’isolement à la solitude, in La Cause freudienne 66. Paris, Navarin, 2007, p. 43-49.
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A solidão e a adolescência

by secao_sp in Jornada 2019

Imagem: Instagram @mirmilamusse

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Fala-se sempre sozinho, diz Lacan, mas isso não quer dizer que falar da solidão seja algo simples. Sua forma e matéria variam para cada um. Talvez por isso a encontremos com mais desenvoltura na poesia, essa forma de escrita que sabe que toda fala está aquém ou além da comunicação. Maurice Blanchot dizia que a solidão é uma ferida do mundo a qual está condenada toda forma de escrita poética porque esta transforma a língua, porque o mundo é completamente transformado nesta experiência que se funda em uma “solidão essencial”[1]. Em Blanchot conseguimos cernir uma solidão que não é apenas da ordem do fenômeno, mas também um efeito da língua, de sua metamorfose. Isto talvez seja mais fácil de vislumbrar neste trecho de Alejandra Pizarnik em La palabra del deseo: “La soledad no es estar parada en el muelle, a la madrugada, mirando el agua con avidez. La soledad es no poder decirla por no poder circundarla por no poder darle un rostro por no poderla hacer sinónimo de un paisaje. La soledad sería esta melodía rota de mis frases”[2]. A solidão não é apenas estar sozinho, é uma ruptura, uma fratura na frase. E, poderíamos perguntar: uma fratura na língua?

Arrisco-me nessa hipótese para pensar a solidão como fratura na língua a partir da adolescência. Percorrendo alguns pontos do Seminário 20 de Lacan, encontramos a solidão e o exílio articulados à inexistência da relação sexual e à presença do gozo. São dois pontos, a solidão e o exílio, que podem ser lidos a partir da disjunção e não da conjunção, ou ainda, são lugares que indicam a inexistência da equivalência, do complemento. Se pensarmos a solidão como uma das figuras do exílio, poderíamos tomá-la em sua dimensão estrangeira, mais próxima de um gozo que se agita e que deixa um sujeito sem lugar no seu mundo. Abordando-a a partir da adolescência, então, teríamos um aparente paradoxo: a solidão e o exílio se produzem em um encontro. Como explica Laure Naveau: “não há relação sexual, por um lado; por outro, há uma relação possível ao corpo, ao falo, ao sintoma, ao gozo. Esse designador da existência revela, entretanto, ao mesmo tempo, um impasse lógico, aquele da solidão. É a tese lacaniana congruente com a primeira: a relação ao gozo isola, o gozo que há sublinha a não relação ao parceiro. A solidão está em jogo”.[3]

Dentre as muitas que teremos na vida, a adolescência aponta para uma profunda experiência de separação: do corpo e dos significantes da infância, da autoridade dos pais. Essa separação se produz, sobretudo, no encontro com o Outro sexo, com a diferença, com o Outro corpo. E uma das suas versões é o próprio corpo no atravessamento de uma metamorfose – que é, de acordo com Freud, a puberdade, uma mudança no corpo que produz efeitos no modo de gozo.

O despertar dos sonhos, como mostra Lacan, leva em conta o começo do trabalho da fantasia como preparação para esse encontro sempre faltoso[4]. Ora, se o encontro com o Outro sexo é também o encontro com o real da não relação, ele implica um ponto de solidão. Há, então, um paradoxo no encontro com o Outro sexo que é dado pelo despertar desse gozo que, na impossibilidade de encontrar equivalência no Outro, exila o adolescente em um intraduzível[5]. O exílio é uma forma de existir para poder dar lugar a essa novidade do gozo.

Clarice Lispector o diz lindamente em seu conto O primeiro beijo: “Sofreu um tremor que não se via por fora e que se iniciou bem dentro dele e tomou-lhe o corpo todo estourando pelo rosto em brasa viva. Deu um passo para trás ou para frente, nem sabia mais o que fazia. Perturbado, atônito, percebeu que uma parte de seu corpo, sempre antes relaxada, estava agora com uma tensão agressiva, e isso nunca lhe tinha acontecido. Estava de pé, docemente agressivo, sozinho no meio dos outros, de coração batendo fundo, espaçado, sentindo o mundo se transformar. A vida era inteiramente nova, era outra, descoberta com sobressalto. Perplexo, num equilíbrio frágil”[6].

Esse equilíbrio frágil pode ser encontrado na formulação de Lacan que diz: não somos um corpo, mas temos um corpo[7]. É preciso, então, torna-lo habitável. O que não é simples, porque há algo do corpo que sempre resta como estranho, como fora da imagem que o unifica. Não se trata então de domesticar um corpo, mas de habitá-lo nesse lugar equívoco entre a língua e a imagem. A puberdade aprofunda essa relação de estranhamento colocando em crise o corpo, sua imagem, as identificações e os recursos simbólicos que se tinha para dar conta das hipóteses sobre a sexualidade. Não é por acaso que os adolescentes criam uma língua própria, uma língua estrangeira dentro da própria língua. Justamente porque falar, tomar a palavra, implica um risco: o risco de experimentar a língua de uma forma inédita.

A adolescência é uma construção[8] muito singular porque se trata, podemos dizer com Lacan[9], de uma nova montagem pulsional: quando ela deixa de ser predominantemente auto-erótica, como explica Freud nos Três ensaios, e encontra, ou melhor, reencontra o objeto sexual[10]. Seguindo a leitura do texto de Daniel Roy[11], podemos dizer que esse reencontro é com o furo que marca a impossibilidade de uma plenitude mítica que foi encoberto pelo amor dos pais na infância, em suma, o encontro com o real da não-relação, com a inconsistência do Outro, com o enigma do feminino. Ou seja, a sexualidade faz furo no real em torno do qual o ser falante terá que montar suas hipóteses, construir seu corpo e sua língua, uma vez que as construções da infância não contemplam essa nova posição. Como diz um poema de Joan Brossa: “Esta palavra, tantas vezes / aplicada sem pensar, preciso dela aqui / e já não me serve”.

Hoje poderíamos nos perguntar de que ordem são os encontros que podem prescindir da presença dos corpos? Seriam encontros? O mundo acontece também nas redes sociais e essa virtualização dos corpos, por exemplo, implicaria o curto-circuito dessa passagem que o adolescente pode fazer no corpo do Outro deixando-o mais a sós com seu corpo? Ainda estamos recolhendo as consequências dessas mudanças e as respostas não parecem nada simples. Mas ainda podemos afirmar que, sozinho no meio dos outros, a adolescência porta um corpo que não tem lugar na língua. Essa metamorfose, esse corpo estranho que solicita uma nova relação com a imagem, o gozo estrangeiro que se funda, inicia o turbulento debate dos corpos. O que o encontro com um analista pode criar é uma parceira que pode ouvir as experiências desses seres falantes, suas frases rompidas de solidão e, assim, ir construindo lugares, acompanhando-os na invenção de uma língua, para que não haja apenas a vertigem do que não cessa de não se escrever, mas o contorno de linhas tortas e tênues por onde poderá caminhar o desejo na complexa tessitura da vida.

Por Flávia Cêra – EBP/AMP

 


[1] Blanchot, M. O espaço literário. Rio de Janeiro: Rocco, 1987.
[2] Pizarnik, A. La palabra del deseo. Obras completas. Poesía completa y prosa selecta. Corregidor, Buenos Aires, 1993.
[3] Naveau, L. A solidão do ser falante. Almanaque. Revista Eletrônica do IPSM-MG, n. 16. Disponível em: http://almanaquepsicanalise.com.br/solidao-do-ser-falante/
[4] Lacan, J. “Prefácio a O despertar da primavera”. Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003.
[5] Lacadée, P. O despertar e o exílio. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2011.
[6] Lispector, C. O primeiro beijo. Felicidade Clandestina. Rio de Janeiro: Rocco, 1998, p.159.
[7] Lacan, J. “Joyce, o Sinthoma” (1975). Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003.
[8] Miller, J-A. Em direção à adolescência (2015). Disponível em http://minascomlacan.com.br/blog/em-direcao-a-adolescencia/
[9] Lacan, J. O Seminário, Livro 11, os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1963-1964). Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008.
[10] Freud, S. “Três ensaios sobre a sexualidade” (1905). Obras Completas. Rio de Janeiro: Imago, v. VII, 1996. p. 163-195.
[11] Roy, Daniel. Metamorfose (2016). Disponível em: http://minascomlacan.com.br/blog/qqpega-03-metamorfose-daniel-roy/
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Histeria e solidão

by secao_sp in Jornada 2019

Imagem: Instagram @indigobcn

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Como já se assinalou em textos anteriores neste boletim, a dimensão da solidão nos seres falantes nos coloca diante de um destino inexorável e, aparentemente, contraditório: se, de certa maneira, nunca estamos totalmente sós, em função da incidência do Outro da linguagem, no nível do gozo, estamos condenados à solidão, ao gozo do Um, considerando que a relação sexual não se escreve. Quanto à solidão, sim, ela se escreve[1].

Sem esquecer a lição de que o amor é o que permite ao gozo condescender ao desejo e que, no Seminário 20, Lacan delimita o amor e o gozo apontando, por um lado, que “o Gozo do Outro, do corpo do Outro não é signo do amor”[2] e, por outro, que “o amor é impotente, ainda que seja recíproco, porque ele ignora que é apenas o desejo de ser Um, o que nos conduz ao impossível de estabelecer a relação dos […] dois sexos”[3], retomo a frase de La Sagna – “isolar-se é evitar a solidão”, citada por Heloisa Telles[4] –, que funcionou como alavanca para o trabalho de leitura de queixas frequentes de sujeitos neuróticos, sobretudo das mulheres histéricas, em torno da solidão. Trata-se da expectativa da efetivação da parceria amorosa e do lamento pela repetição do seu fracasso.

Lucila Darrigo destaca a importante diferença entre se sentir só e ter a experiência da solidão[5]. Partirei do princípio de que a queixa não rara, tal qual mencionada acima, repousa sobre o substrato da solidão do falasser, ao nível do gozo, aparecendo revestida, transmutada na queixa do não encontro de um parceiro sob medida. O que chama a atenção é que, de início, a demanda aparece em sua face de baixa exigência em relação aos pré-requisitos do possível candidato à parceria amorosa, às vezes, explicitado por um “basta que seja uma pessoa legal, que me ame”. Quando o encontro amoroso acontece, é interessante acompanhar a rapidez com que as pré-condições necessárias ao parceiro, antes não explicitadas (não sabidas?), se apresentam. A insatisfação se infiltra e isso deixa evidente o trabalho para dar consistência aos obstáculos para que o desencontro amoroso se mantenha. Creio tratar-se do vislumbre do real da não relação sexual, que se mostra em sua faceta ingênua, ao passo que a desimplicação subjetiva se consolida na falta do outro, do Outro. O sofrimento se desloca para detalhes muitas vezes risíveis – “é jovem demais, velho demais, trabalha demais ou de menos, tem aqueles filhos…” – e, na atual conjuntura política, acrescentou-se um novo ingrediente: a necessidade de saber rapidamente se o “candidato” tem ideias de direita ou de esquerda, se é machista, etc. Trata-se aqui da clássica capacidade da histérica de colocar os olhos na dificuldade, no que rateia. É a constatação dessa pressa para terminar o que não foi fácil de começar, esse desconforto ao dar provas de que se quer o que se deseja que se ligou a hipótese de La Sagna, ou seja, do isolamento como defesa à solidão. Algo se tranquiliza quando o sujeito se isola, mantendo-se na companhia dos ideais da relação que poderia existir, no delírio do parceiro à altura, como complemento ao gozo do sujeito. Isso põe em reserva o desafio de se enfrentar com a radicalidade da solidão, ao nível do gozo, estando a dois. O que se evidencia aos olhos advertidos é a inversão que se realiza quando se coloca o que é contingente como necessário: as condições fálicas que sustentam o desejo e permitem gozar na fantasia, a sós, mas não sem o Outro. Trata-se aqui do gozo fálico que, engendrado pelas marcas dos significantes da história do sujeito, surge como sustentáculo das condições do engessamento, do delírio do encontro com objeto, que não há. Sorte que, em função da paixão pela ignorância, o drama humano é uma comédia e não uma tragédia[6].

Os requisitos exigidos ao parceiro, que vemos brotar rapidamente em certas histéricas, permitem ver como elas trabalham para encontrar mais adiante aquilo que já estava dado de partida: ao nível do gozo, sempre se está só e cada um se goza do UM. O outro é só um parceiro possível que favorece a aposta no laço social, que, por sua vez, é múltiplo, limitado, já que depende das condições de cada sujeito para sustentar um discurso[7]. Nessa via, o isolado, bem acompanhado por um gadget, uma substância ou um delírio, põe em ato a recusa a consentir com a presença do outro em sua diferença mesma.

Em Clarice Lispector lemos:

Fiquei sozinho um domingo inteiro. Não telefonei para ninguém e ninguém me telefonou. Estava totalmente só. Fiquei sentado num sofá com o pensamento livre. Mas no decorrer desse dia até a hora de dormir tive umas três vezes um súbito reconhecimento de mim mesmo do mundo que me assombrou e me fez mergulhar em profundezas obscuras de onde sai para uma luz de ouro. Era o encontro do eu com o eu. A solidão é um luxo[8]. 

No recurso ao assombro e à obscuridade, esse personagem criado por Clarice em seu último escrito permite ver a solidão como efeito do real da não relação sexual. Por outro lado, também são evidentes o velamento e o apaziguamento que vêm com a suposta possibilidade do encontro do eu com o eu, luz de ouro, permitindo ao personagem concluir com a apologia à solidão: um luxo.

Há algo da solidão do parlêtre que nos faria poder concordar com o uso do termo luxo? Poderíamos pensar em um saldo de saber sobre essa radicalidade obtido no final da análise? Seria a solidão dos uns-sozinhos em torno da causa analítica, como um-a-mais, na comunidade Escola, como propõe JAM[9]?

Por Laureci Nunes – EBP/AMP

 


[1] Lacan, J. O seminário, livro 20: Mais, ainda. Rio de Janeiro: JZE, 1985, p. 178.
[2] Lacan, J. Op cit, p. 12.
[3] Lacan, J. Op. cit, p. 14.
[4] Telles H. Solidão – Perspectivas do tema, disponível em https://ebp.org.br/sp/jornadas/ix-jornadas/boletim-tracos-ix-jornadas/boletim-tracos-01/ Visitado em 30.06.19
[5] Darrigo, L. Op. cit.
[6] Lacan, J. O seminário, livro 10: A angústia. Rio de Janeiro: JZE, 2005, p. 360: “Eles tem olhos para não ver, não é necessário que os arranquem […] por isso que o drama humano não é uma tragédia, mas uma comédia”.
[7] Laurent, E. Loucuras, sintomas e fantasias da vida cotidiana. Belo Horizonte: Scriptum, 2011, p. 51.
[8] Lispector, C. Um sopro de vida – Pulsações. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1978, p. 45-46.
[9] Miller, J-A. Teoria de Turim: sobre o sujeito da Escola, citado por Daniela Affonso em Argumento, disponível em: https://ebp.org.br/sp/jornadas/ix-jornadas/boletim-tracos-ix-jornadas/boletim-tracos-01/ visitado em 30.06.19
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O muro do isolamento nos casos contemporâneos

by secao_sp in Jornada 2019

Imagem: Instagram @moodygrams

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Partirei do isolamento, fenômeno frequente na clínica com adolescentes, e que, no discurso normativo é tomado como um efeito da solidão contemporânea. Como a psicanálise aborda essa questão?

Em relação à solidão contemporânea, Brousse destaca em entrevista para as IX Jornadas da EBP-SP, que as modificações no laço social pelo discurso capitalista modificaram radicalmente o estatuto da solidão, do Um sozinho. Uma das marcas do estilo de vida contemporâneo é a autossegregação, seja pelo isolamento, seja por meio de comunidades de gozo. As autodenominações que marcam o campo da autossegregação indicam novas formas de laço, mais frouxos[1], que revelam e até dão testemunho do impossível de articular todo o gozo no laço. O contemporâneo nos faz perguntar: como fica o Outro nisso? Quais os laços possíveis?

Em minha prática clínica recebo muitos jovens que apresentam fenômenos de isolamento e que, clinicamente, não são autistas. Em sua maioria, apresentam alguma marca que se destaca e que faz anteparo ao laço social, ponto este tomado, na relação com os outros, como “estranho”, “bizarro”. Muitos deles são adictos em games e chegam com diagnóstico psiquiátrico de fobia social. Adolescentes que revelam a inconsistência do Outro e o que fazem ou não fazem com isso. Jovens que chegam à análise mostrando sua certeza de modo de gozo, uma espécie de “é assim que eu gozo”. Essa certeza, em um primeiro momento, coloca limite bem marcado em relação à suposição de saber e ao desejo, ou seja, ao inconsciente como discurso do Outro.

Philippe La Sagna faz uma importante contribuição para entramos nessa discussão, a partir da diferenciação entre solidão e isolamento, tomando como ponto de articulação a relação com o Outro[2].

Uma de suas ideias é que em tempos do Outro que não existe, a solidão, tomada como uma forma do sujeito se separar do Outro, é um problema e não uma solução. Alguns sujeitos buscam uma maneira de evitar a solidão no isolamento. Nesse sentido, procuram uma solução para evitar a solidão na própria autossegregação.

Ele parte da ideia lacaniana da separação dos objetos de satisfação a partir da incidência do Outro, ou seja, a capacidade de se separar daquilo que nos dá prazer por meio da alienação no significante[3].

A solidão dá mostras do trabalho que o sujeito, alienado no Outro, faz de separação desse Outro. Há uma fronteira comum entre o sujeito e o Outro[4]. Exemplos paradigmáticos são o amor ideal, nunca realizado, mas sempre acompanhado da solidão, e a solidão feminina, bem descrita na literatura, que revela que a consistência do Outro, e o trabalho para separar-se dele, é o que imprime dramaticidade à solidão.

Ele destaca que no trabalho de separação, o sujeito encontra, em si, com algo fora do campo do Outro, do qual é impossível colocar em relação, “aquilo que não podemos falar quando somos confrontados não somente com a falta do Outro, sua ausência, mas também sentimos falta deste companheiro permanente que é o Eu”[5]. Ou seja, a solidão toca no ponto onde o Eu se abala. Numa análise, sabemos o quanto isso é operativo. É preciso passar pelo Outro, furá-lo, para poder tocar em algo fora do campo do Outro, o mais singular do gozo.

No isolamento, diferente da solidão, se trata da exclusão do Outro. A posição subjetiva radical de isolamento é o autismo. O isolamento refuta a fronteira comum entre o sujeito e o Outro, trata-se de um muro, de isolar-se com o próprio gozo, com a satisfação. É o sujeito de posse de seus objetos de satisfação, prescindindo do Outro, o sujeito isolado no seu gozo: “o isolamento pode muito bem ser feito com um objeto que estimula o sujeito, um tóxico, uma fantasia, um delírio, sem a menor presença da solidão”[6].

Podemos nos isolar dos outros para nos protegermos da solidão: “ser socialmente isolado é muitas vezes o sinal de que alguma solidão não foi construída”[7]. Estamos numa época de construção de isolados, pois cada um não sabe mais onde começa e onde termina a fronteira comum entre o sujeito e o Outro. No lugar dessa fronteira, se constrói um muro.

Muitos casos contemporâneos de isolamento revelam, de entrada, a inconsistência do Outro. O trabalho analítico se inicia a partir deste ponto. Em finais de análise encontramos testemunhos do longo trabalho tecido até se encontrarem com uma solidão real, verificada a partir da inexistência do Outro. Ambos testemunham a não existência da relação sexual. É importante diferenciarmos esses dois caminhos.

Em muitos casos de isolamento, o sujeito, quando se implica no dispositivo analítico, “mostra” o trabalho que empreende para dar inconsistência ao Outro. Essa inconsistência parece ser o índice de uma resposta defensiva do sujeito frente ao Outro, da tentativa de exclusão do Outro, de erguer um muro, dando, por vezes, lugar a uma posição de tédio, cinismo, indiferença, apatia e desinvestimento.

Marcus André Vieira nos ajuda a diferenciar essa posição defensiva frente ao Outro da posição no final de sua análise. Sobre este último ponto afirma que se trata de se deparar com a solidão no final de análise, mas com um estatuto diferente do rompimento com o laço. Desconsistir o Outro é diferente de romper com este, ou de estar em trabalho constante de rompimento com o Outro[8].

O fato do Outro ser inconsistente para alguns sujeitos não necessariamente alça o Outro a uma posição privilegiada, ao contrário, geralmente isso é desalentador. Por outro lado, alguns finais de análise dão mostras de como o sujeito relançou suas questões frente ao desejo do Outro a partir da inexistência deste.

Rômulo Ferrreira da Silva relata em seu final de análise que a inconsistência do Outro o levou a atravessar o último anteparo para “tocar um pedaço de real”, o amor de si, narcisismo. O desaparecimento desse amor levou-o ao final de análise: “momento de solidão absoluta e radical, certeza de estar diante de um gozo indizível que não comunica nada ao outro, nem mesmo ao próprio sujeito. É a experiência do falasser mudo! É gozo que não se veicula pela palavra”[9]. E segue: “de qualquer maneira, para sair do momento de concluir de uma análise, é preciso um passo a mais para se rearticular com o Outro”[10]. Essa rearticulação com o Outro ao final não se dá da mesma maneira como se dá no início.

No caso dos sujeitos que já chegam com o Outro desconsistido, poderíamos pensar que o caminho seria fazer consistir um Outro para desconsiti-lo posteriormente. Esse seria o caminho de reconstituição do Pai. Os casos contemporâneos nos mostram que esse saudosismo em relação ao Pai pode levar ao pior. Minha experiência clínica tem me mostrado que não podemos já de partida e sem um cálculo preciso, mesmo em se tratando de casos em que não supomos uma clara psicose, fazer uma aposta no Pai e na suposição de saber inconsciente. É preciso fazer um cálculo sobre a relação do sujeito com o estatuto do Outro.

Quando parte-se do Pai, muitas vezes, o muro erguido pelo sujeito fica ainda maior e ele abandona o tratamento. Não necessariamente se trata o isolamento fazendo consistir o Outro, caso isso se dê, é preciso que seja por acréscimo.

Alguns casos vêm me mostrando que se trata de fazer parceria, na transferência, com o sujeito em sua relação com seu gozo “estranho”, “bizarro”. Parceria no sentido de acolher esse modo de gozo, interessar-se por ele, e não no sentido adaptativo de terapeutizá-lo, tomando-o como um desajuste. Muitas vezes é necessário o contrário disso, trivializar o modo de gozo. Na medida em que o sujeito pode deslocar da mostração, do “é assim que eu gozo” e falar disso, “o estranho” do gozo passa para um registro mais ordinário, efeito do dispositivo. A desconsistência do estranho se dá como efeito da fala, pois deixa de ser o mais precioso, no qual o sujeito está aferrado e que sustenta o muro de exclusão do Outro, e passa a ser colocado na transferência, em um novo laço.

Em alguns casos, a queixa inicial do isolamento, como games, tornou-se secundária, pois quando o sujeito passou a falar do seu mundo “estranho e escondido”, o que apareceu, para ele mesmo, foi a maneira como vem construindo seu muro, o trabalho que empreende para desconsistir o Outro.

Esse movimento pode engendrar uma possibilidade do sujeito avançar mais profundamente em si mesmo, e quem sabe até produzir algum tipo de solidão. Essa pode ser uma aposta que somente no caso a caso é que podemos verificar.

Por Fabiola Ramon – Correspondente da EBP-SP

 


[1] Brousse, M.H. Entrevista IX Jornadas EBP-SP. https://www.youtube.com/watch?v=WFjmP6nSk9o&feature=youtu.be
[2] La Sagna, P. “D l’isolement à la solitude”. La Cause freudienne, n. 66. Paris: ECF, 2007, Tradução livre.
[3] Lacan, J. O seminário, Livro 11. RJ: Jorge Zahar ed, 1998.
[4] La Sagna, P. Ibid.
[5] Idem, Ibid, p. 45
[6] Idem, Ibid, p. 46
[7] Idem, Ibid, p. 45
[8] Vieira, M., A. Anotações feitas a partir de um relato de passe de Marcus André Vieira.
[9] Silva, R. F. O destino do amor no final da análise. Opção Lacaniana, n. 70, Jun 2015. P. 43
[10] Ibid, p. 44.
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Laços em Sampa

by secao_sp in Jornada 2019

Imagem: Instagram @splovers

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Por Camila Popadiuk – Associada ao CLIN-a

 Edifício Martinelli

É no centro de São Paulo, entre as ruas São Bento, São João e Libero Badaró que se encontra o Edifício Martinelli, uma construção icônica que já foi o mais alto arranha-céu da América do Sul.

Sua construção foi idealizada pelo imigrante italiano Giuseppe Martinelli e projetada pelo arquiteto húngaro William Fillinger. O edifício começou a ser construído em 1924 e, inicialmente, foi projetado para ter 12 andares. Porém, ao longo da obra, novos andares foram sendo construídos, até o momento em que ela foi embargada, pois desobedecia às leis municipais e não havia licença para a edificação de um prédio tão alto. Finalmente, uma comissão técnica certificou a seguridade do prédio, delimitando sua altura máxima a 25 andares. Mas, Martinelli, com sua meta de alcançar uma altura relativa a 30 andares, ergueu por fim mais cinco andares, fixando ali sua moradia.

De faixada luxuosa e rica ornamentação, o edifício foi ocupado durante muitos anos por jornais, partidos políticos, sindicatos, restaurantes, boates e hotéis. Atualmente, ele acomoda órgãos municipais, tais como a Empresa Municipal de Urbanização de São Paulo e a Companhia Metropolitana de Habitação de São Paulo.

Devido a sua altura, o Edifício Martinelli é considerado um mirante da cidade de São Paulo, cuja vista panorâmica nos mostra certos pontos turísticos, tais como a Catedral da Sé, o Vale do Anhangabaú, o Pico do Jaraguá, as antenas da Avenida Paulista. Uma visita ao Edifício Martinelli é um ótimo programa para contemplar a paisagem urbana de Sampa. A vista é realmente incrível!

Informações sobre a visita ao mirante:

  • Entrada: GRATUITA
  • Todos os dias
  • Horários: 11h, 12h, 13h, 14h30, 15h30, 16h30, 17h30, 18h30
  • Inscrição prévia 30 minutos antes de cada visita
  • Número máximo de participantes por visita: 15
  • Localização: Avenida São João, 35
  • Contato: rp@prediomartinelli.com.br
  • Saiba mais: https://www.prediomartinelli.com.br/index.php

Imagem: Instagram @vivacultura_sp

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Bar dos Arcos

 Imagem: Instagram @vivacultura_sp

 Inaugurado em dezembro de 2018, o Bar dos Arcos situa-se no subsolo do Theatro Municipal, um dos cartões de visita da cidade de São Paulo. O projeto foi encabeçado pelo empresário paulistano Facundo Guerra, que também tem outros empreendimentos na região central de São Paulo: Mirante 9 de Julho, Lions, Yatch e Cine Joia.

O bar é uma espécie de taberna do século XIX, com uma “argamassa” feita de conchas, gordura de baleia e areia e tem como estrutura de sustentação os arcos, daí a origem de seu nome. Antigamente, a parte subterrânea do Municipal era o local onde ficavam os dutos de ventilação.

Seu cardápio saboroso oferece entradas variadas, alguns pratos principais, sobremesas, uma seleção de vinhos e cervejas e uma vasta opção de coquetéis: dos mais clássicos àqueles de autoria da casa.

O Bar dos Arcos possui dois ambientes diferentes: um deles dispõe de balcões iluminados que são compartilhados pelos clientes, facilitando assim o contato entre eles e formando novos laços sob os arcos e um outro ambiente, composto por sofás, poltronas e mobílias requintadas, criando um clima mais aconchegante e tranquilo para conversas. Uma ótima opção para ir sozinho, acompanhado ou com amigos e ouvir música instrumental ao vivo.

Como sugestão de coquetel de autoria, o Tosca é um excelente pedido. Feito à base de tequila, vinho branco, gengibre, limão taiti, soda de hibisco e raspas de laranja ele tem um sabor cítrico e refrescante. #ficadica

Um lugar diferente para conhecer, tanto pela sua arquitetura, quanto pelo clima agradável e intimista do ambiente!

  • Endereço: Praça Ramos de Azevedo, s/n subsolo do Theatro Municipal de São Paulo
  • Horário de funcionamento: de terça a sábado, das 19h30 às 2h30.
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Editorial Boletim Traços #03

by secao_sp in Jornada 2019

por Il Lee. Instagram @artprojectsny

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Saindo do forno o terceiro número de Traços, o boletim das IX Jornadas da Escola Brasileira de Psicanálise, São Paulo, que acontecerá em outubro, com a presença de Marie-Hélène Brousse, em torno da Solidão.

São textos epistêmicos que lançam questões para o debate, provocam a reflexão e a investigação em torno de um tema – já que Solidão não é um conceito. Como bem coloca Rodrigo Lyra Carvalho (EBP/AMP), colega da seção Rio de Janeiro: “Tomar um afeto como objeto de pesquisa é algo que a psicanálise faz com prudência”; prudência que nos faz afastar da análise do fenômeno social e tomá-lo do ponto de vista estrutural, como condição mesma do ser. Então, como refletir “Sobre a solidão hiperconectada”? Eis a contribuição de nosso colega carioca.

Do interior de São Paulo, dois textos: Maria Célia Kato (EBP/AMP), da seção São Paulo, aborda a solidão do ato, seu ponto de horror e o desejo do analista. Eduardo Benedicto (EBP/AMP), também da seção São Paulo, por outras veredas, aborda a operação analítica como sendo o “laço entre o UM e sua radical solidão”.

Para concluir o bloco epistêmico, temos a conferência realizada por Clara Maria Holguin (AME NEL- Bogotá/AMP), na seção São Paulo, com o título “Um laço êxtimo: solidão com laço. A propósito do ato analítico e da garantia”. Cuidadoso percurso acerca da paradoxal relação entre o ato – sempre solitário – e a garantia.

Este boletim mostra, através de sua variedade geográfica – Rio, São Paulo, Bogotá – que “os membros de uma Escola que vivem em meios sociais e culturais distintos, um a um, sentem-se formando parte de um conjunto, compartilhando como destino a psicanálise e constituindo um único movimento mundial”. Solidão, um a um, em uma experiência de Escola.

Para animar a escrita de trabalhos para as mesas simultâneas, bem como o trabalho em torno do tema das nossas Jornadas, Daniela Affonso de Camargo (EBP/AMP) propõe as Referências Bibliográficas – lembrando que os trabalhos serão aceitos até 19 de setembro.

E para encerrar com chave de ouro e animar os que estão geograficamente mais distantes, Gabriela Malvezzi do Amaral, na rubrica “Laços em Sampa”, traz o que acontece na cultura desta cidade que não pára, que faz barulho, que inventa modos de tratar a solidão.

Espero que gostem da leitura!

por Valeria Ferranti (EBP/AMP)
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Sobre a solidão hiperconectada

by secao_sp in Jornada 2019

“Conjunctions”. Instagram @roth.azulik

“Conjunctions”. Instagram @roth.azulik

Tomar um afeto como objeto de pesquisa é algo que a psicanálise faz sempre com prudência. De um lado, há o risco de considerar cada afeto uma entidade em si, uma unidade autônoma e universal, inscrita na natureza humana. De outro, o de crer que os afetos são realidades circunstanciais e superficiais sobre as quais nada de relevante poderia ser afirmado. Tomá-los com prudência não significa, no entanto, recusá-los. Isso dito, é possível reconhecer que a solidão, que dá título às Jornadas da Seção São Paulo da EBP, ocupa um delicado lugar no mundo da psicanálise.

Um afeto paradoxal

A clínica psicanalítica consiste em um misto de descoberta e invenção da trama de textos que construiu a vida de cada um. Tanto pela importância que atribui aos detalhes originais dessa narrativa, quanto por depender de encontros transferenciais únicos, a psicanálise de fato confere certa tonalidade solitária à experiência da singularidade. A solidão, nesse percurso, é o afeto que corresponde às mais fundamentais descobertas de uma análise: a de que não existe o Outro que inventamos para nos situar no mundo e a de que os encontros amorosos e sexuais não se dobram aos anseios de um par perfeito. Em função disso, mesmo a reunião institucional dos psicanalistas leva a sua marca: como lembrou Miller, uma Escola não pode ser pensada senão como uma “soma de solidões subjetivas” (2016, p.6).

Nem por isso, no entanto, os psicanalistas fazem da solidão o seu norte. As manifestações clínicas da desinserção social inquietam, pois não costumam conduzir ninguém à elucidação de seus modos singulares de viver a pulsão. No ensino de Lacan, essa perspectiva tornou-se cada vez mais evidente à medida que, no campo do Outro, figuras abstratas como o “tesouro dos significantes” foram cedendo espaço para outras mais encarnadas, como o Outro sexo.

Do afeto à estrutura

Uma vez que reconhecemos o caráter ambíguo da solidão na experiência analítica, o desafio passa a ser o de o situar estruturalmente. O modo mais claro de fazer isso é através do objeto a, esse “Deus Janus de duas faces”, como o chamou Miller[1] (1998, p.16): meio gozo, meio sentido; meio autoerótico, meio laço. Meio solidão-singularidade, meio solidão-ruptura, poderíamos acrescentar.

O aspecto paradoxal do objeto está no cerne da constituição subjetiva, como fica claro, por exemplo, na seguinte passagem de Lacan: “o a é o que resta de irredutível na operação total do advento do sujeito no lugar do Outro e é a partir daí que ele assume sua função” (1962-1963/2005, p. 179).

O modo como Lacan concebe o objeto a permite escapar do antagonismo entre solidão e laço, mas exige o acolhimento de um paradoxo, afinal um mesmo objeto é apresentado como algo irredutível – ou seja, um investimento libidinal não capturado na malha do significante e de difícil socialização – e algo que tem uma função, o que somente pode ocorrer caso esse mesmo objeto se faça presente nos encontros com as alteridades do sujeito.

Ao refletir sobre essa passagem, recordei-me que diversos aspectos dessa lógica foram trabalhados em nossa comunidade há oito anos, ao longo do ENAPOL intitulado “Saúde para todos não sem a loucura de cada um”. Muitos colegas apontaram e ensinaram, naquela ocasião, que a especificidade da psicanálise era justamente a de não enxergar uma oposição entre os dois termos do título, a saúde para todos e a loucura de cada um. Como escreveu, àquela época, Marcus André Vieira: “na clínica do delírio generalizado, o gozo que não se deixa apreender no discurso (…) é o fundamento do laço e não apenas o que lhe perturba e importuna” (2010, p. 115).

Hoje, ao abordar a solidão, podemos recuperar essas lições e notar que, a partir da psicanálise, não nos cabe denunciar a solidão que se opõe à socialização, mas sim construir, a cada encontro transferencial, uma solidão que seja fundamento do laço, como disse Marcus André Vieira a respeito do gozo não apreensível.

A solidão hiperconectada

Tenho a impressão, no entanto, de que, passados oito anos desde esse Encontro, temos novos motivos para explorar essa questão. Ainda que em 2011 já fosse possível sentir os efeitos superegóicos de um “para todos” não-todo, é preciso reconhecer que a presença das novas tecnologias em nossas vidas aumentou radicalmente desde então, com um profundo impacto sobre a tessitura dos laços sociais. Por isso, entendo que as Jornadas da Seção São Paulo nos convocam, através do foco na solidão, a traduzir a emergência de um novo real.

Nesse esforço de ir além, arrisco a seguinte hipótese: a prevalência das novas tecnologias nos laços sociais produz um fenômeno que poderia ser descrito como uma solidão hiperconectada, cuja marca não é o rompimento dos laços, mas sim o esvaziamento de cada uma das múltiplas interações feitas a todo instante. O paradoxo da expressão solidão hiperconectada revelaria, nesse caso, não tanto a delicadeza de fazer da singularidade o fundamento do laço, mas o seu oposto, a enorme dificuldade que certos traços contemporâneos impõem a esse movimento.

É claro que tal hipótese se abre a incontáveis desdobramentos e demanda uma grande sustentação. Além disso, é um trabalho precário por definição, na medida em que se refere a um real em permanente ebulição. Apesar disso, buscarei situar uma breve ideia que dê algum lastro à hipótese.

Os algoritmos e o objeto

O crescimento espetacular do acesso a pessoas e informações propiciado pela internet passou a exigir novos filtros capazes de selecionar quais partes do infinito mar de possibilidades tornam-se acessíveis a cada um. Tal função é hoje exercida majoritariamente pelos algoritmos, um complexo conjunto de regras que filtra e media o contato entre pessoas, grupos, serviços e conteúdo. Para funcionar, tais ferramentas se baseiam em informações objetivas colhidas de cada um que navega na internet e do texto que produzimos online.

Nesse contexto, duas dimensões de base para os laços sociais, essencialmente entrelaçadas, se alteram profundamente: a presença dos corpos e a produção das narrativas.

Por um lado, a internet permite que cada sujeito encontre ao redor do mundo pessoas que compartilhem de seus interesses e dificuldades. Antes, era preciso buscar conexão com quem estivesse fisicamente ao alcance e culturalmente próximo, o que limitava muito as possibilidades de escolha e tendia a manter afastadas as diferenças. Esse é o aspecto salutar, tantas vezes frisado, da tecnologia.

Por outro lado, ao operar tais ligações, as plataformas virtuais se baseiam em focos temáticos e lidam com os significantes de um modo próprio e inédito, que favorece a segmentação e a interrupção. As interações tendem a ficar circunscritas aos significantes a cada instante isolados, fragilizando a derivação dos assuntos e o encadeamento de outras cadeias narrativas, condições fundamentais para que os modos singulares de cada um possam se inscrever no laço, ou seja, para que o resto irredutível possa ganhar uma função.

A hostilidade virtual à associação livre

A importância do encadeamento de cadeias significantes está inscrita de diversas formas na psicanálise. A associação livre, regra clínica fundamental criada por Freud, é certamente a mais paradigmática. No ensino de Lacan, a constituição subjetiva foi quase sempre pensada a partir do pareamento de S1-S2 e o próprio inconsciente foi por ele aproximado ao discurso do mestre.

Em 1987, Miller demonstra que a escrita dos quatro discursos “faz cair o objeto a como produto fora da articulação significante e interpõe entre S1 e a um terceiro termo, S2, que parece mediar forçosamente [a relação] entre ambos” (2006, p.238). Ou seja, o objeto a, que marca a presença do gozo no campo do Outro, é quase sempre pensado como produto da conexão entre cadeias significantes.

É fascinante notar que, ao reconhecer isso, Miller está justamente buscando construir a noção de signo, uma relação entre S1 e a que não dependa do encadeamento de cadeias significantes. Ou seja, podemos recorrer a uma leitura que Miller fez, ainda em 1987, do último ensino de Lacan, quando os fenômenos que exigiam essas formulações eram muito menos evidentes.

Hoje, a construção das comunidades e dos laços virtuais produz uma espécie de fetichização dos significantes isolados, em detrimento de conexões menos temáticas, que acolhem devaneios e derivações, onde o fluxo de texto que circula entre pessoas pode tomar os caminhos da fantasia de cada um. Entendo que tanto a ausência do corpo como a mediação dos algoritmos contribuem decisivamente para esse fenômeno.

No mundo virtual, cada um pode participar, por exemplo, de incontáveis grupos, compondo um mosaico de interesses diversos, mas não poderá, certamente, em cada um desses grupos, “mudar o rumo da prosa”, ou seja, articular os seus S2. É um ambiente hostil à associação livre, nossa regra de base para o encontro com o gozo singular.

Essa é, me parece, a marca da solidão hiperconectada: não tanto o isolamento radical, mas a dificuldade de endereçar e acolher tramas de textos complexos. Diante disso, o que importa não é a produção de uma crítica nostálgica, mas a pesquisa dos modos que os sujeitos encontram de inscrever, nessa nova arquitetura virtual, as suas marcas singulares. As Jornadas da Seção São Paulo certamente nos ajudarão a avançar nesse caminho.

por Rodrigo Lyra Carvalho (EBP/AMP)

Referências Bibliográficas
LACAN, J. O Seminário: livro 10. Rio de Janeiro: JZE, 1962-1963/2005.
MILLER, J.-A. “O sintoma como aparelho” in O sintoma-charlatão. Rio de Janeiro: Zahar. 1998.
______. Los signos del goce. Buenos Aires: Paidós, 2006.
______. “Teoria de Turim: sobre o sujeito da Escola” in: Opção Lacaniana, n. 21. São Paulo: Eólia, 2016.
VIEIRA, M. A. “Sintoma e loucura” in Curinga, n. 31, Belo Horizonte: Escola Brasileira de Psicanálise – Seção Minas, 2010, pp. 109-116.
[1] “O conceito pequeno a de Lacan é o de Deus Janus, tem duas caras: de um lado, é o gozo, e do outro é sentido”. Miller, J.-A. “O sintoma como aparelho” in O sintoma-charlatão. Rio de Janeiro: Zahar. 1998, p.16.
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A solidão do ato analítico

by secao_sp in Jornada 2019

por Mauro Restiffe & Valeska Soares. Instagram @carpintaria.rj

por Mauro Restiffe & Valeska Soares. Instagram @carpintaria.rj

Em seu Ato de Fundação, Jacques Lacan disse: “fundo, tão sozinho como sempre estive na minha relação com a causa psicanalítica”[1]. Este ponto já indicava a solidão que todo ato comporta, indicação que nos remete à relação do analista com a causa analítica, que implica em uma escolha que não faz laço, diz de uma particularidade radicalmente só. Essa escolha me remete ao ato analítico, na solidão que o mesmo representa.

Lacan pontuou que o ato analítico implica a ausência do Outro, de garantias e do sujeito do analista, na solidão deste com sua causa analítica.

Assim, o ato analítico é solitário e é preciso consentir nesta solidão, suportar esse lugar, do qual resiste e insiste em sua posição de sujeito. A dificuldade se apresenta em função de que no ato há uma condição inumana, onde ele não está ali enquanto sujeito, indicado por Lacan no des-ser do analista. “Nesse des-ser revela-se o inessencial do sujeito suposto saber, donde o futuro psicanalista entrega-se ao agalma da essência do desejo, disposto a pagar por ele em se reduzindo, ele e seu nome, ao significante qualquer”[2].

O lugar do des-ser diz da mais absoluta ausência de referência. E diante deste insuportável, o analista recua de sua posição de semblante, de objeto a. Consentir em sair deste lugar valorizado, idealizado e se colocar enquanto objeto que resta de uma análise.

Entendo que esta pode ser uma das causas do horror ao seu ato, horror este pouco dito ou escrito, justamente pelo caráter de nudez que o analista sente quando confrontado com seu ato.

Esse ponto de horror traz consequências para a direção do tratamento, servindo de entrave para a posição de objeto que o analista deve ocupar. Furtar-se desse lugar abre a possibilidade para que outro ato se apresente, agora do lado do analisante, o acting out das mais diversas maneiras, podendo chegar ao rompimento do tratamento. Assim, quando o analista se ausenta, o acting out se apresenta.

Graciela Brodsky pontua que o horror do analista ao ato analítico está relacionado à angústia. O analista tem alguns “outros com os quais lidamos para decidir o corte de uma sessão, no caso, outros casos, livros, os cursos, a própria análise, a supervisão. […] Apesar desses “outros”, há um ponto em que o analista, tendo feito um certo cálculo, lança-se em seu ato, para depois ver no que dará”[3]. Daí a angústia diante do incerto que este “se lançar” implica, apesar de um certo cálculo não sabemos as consequências dele. Podemos tomar esta angústia enquanto índice do real que comporta o ato, que implica a destituição subjetiva e da posição de objeto a, estando ausente a referência simbólica.

Lacan, ao fazer referência ao lugar ocupado pelo analista na direção do tratamento, utilizando enquanto metáfora o jogo de bridge, pontua que este lugar é o do morto:

“o analista convoca a ajuda do que nesse jogo é chamado de morto, mas para fazer surgir o quarto jogador que do analisado será parceiro, e cuja mão, através de seus lances, o analista se esforçará por fazê-lo adivinhar: é esse o vínculo, digamos, de abnegação, imposto ao analista pelo cacife da partida na análise […] os sentimentos do analista só têm um lugar possível nesse jogo: o do morto; e que, ao ressuscitá-lo, o jogo prossegue sem que se saiba quem o conduz”[4].

O lugar de morto pode ser um dos nomes do horror.

Lacan propõe que o analista só se autoriza de si mesmo[5] e esta indicação revela, também, a solidão deste ato: nesta autorização não há Outro, nem garantia, estando – o analista – confrontado com a singularidade de seu ato.

O ato psicanalítico é portador da falta, onde sua topologia envolve um vazio, ponto de ausência de resposta do Outro, que conduz à queda do sujeito suposto saber, marcado pela barra no Outro (S(Ⱥ)), desembocando no des-ser do analista.

Diante da solidão do analista com sua causa, Lacan nos indica a Escola enquanto lugar que se averigua o desejo do analista, onde este vai “poder dispor de sua relação com esse ato” [6]. A Escola seria o Outro para quem o analista se dirige, não mais o Outro da garantia, mas sim enquanto lugar que dará suporte à sua solidão. “Dispor de sua relação com seu ato” implica se dirigir ao Outro Escola com sua fala, seus escritos sobre sua prática analítica e, finalmente, com o passe. É para a Escola que o analista vai poder endereçar seu embaraço nas tramas da consistência do Outro e tratar as defesas que elege para não se avir com a solidão de seu ato.

Além da Escola, o analista dispõe de sua própria análise para suportar a posição de objeto a e de desejo. “Sustentar essa posição de desejo é a condição fundamental para vir a sustentar uma posição analítica, que é essencialmente solitária, pois é uma posição do sujeito diante do ‘si mesmo’ ”[7].

por Maria Célia Reinaldo Kato (EBP/AMP)

[1] LACAN, J. “Ato de fundação”. In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003.
[2] LACAN, J. “Proposição de 9 de outubro de 1967 sobre o psicanalista da Escola”. In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003, pag. 259.
[3] BRODSKY, G. Short Story: os princípios do ato psicanalítico. Rio de janeiro: Contra Capa, 2004.
[4] LACAN, J. “A direção do tratamento e os princípios do seu poder”. In: Escritos. Rio de janeiro: Jorge Zahar Ed. 1998, pag. 595.
[5] LACAN, J. “Proposição de 9 de outubro de 1967 sobre o psicanalista da Escola”. In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003, pag. 248.
[6] LACAN, J. “Discurso na Escola Freudiana de Paris”. In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003, pag. 267.
[7] GUIMARÃES, L. “A Escola como quarto pé da formação analítica”. In: Latusa Digital, n. 47, ano 8, dezembro de 2011.
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