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Editorial Boletim Traços #07

by secao_sp in Boletins, Jornada 2019

Imagem: Instagram @cleanbluesea

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Por Niraldo de Oliveira Santos
EBP/AMP 

“Alguns sendo singulares, se ajuntam, e podem ser colocados em série porque são, cada um, o que eles são”. Começo este editorial com esta frase de Guilherme de Ockham, filósofo e teólogo inglês, pois acredito que com ela é possível mostrar que o trabalho de organização das IX Jornadas da EBP-SP: “Solidão” tornou-se  possível em função desse ajuntamento de desejos em torno do tema e da causa analítica, condições estas que nos permitiram trabalhar em equipes, sem deixarmos de lado o traço de cada um.

É com imensa satisfação que lançamos o ultimíssimo Boletim “Traços”, a poucos dias das nossas tão aguardadas Jornadas. Neste número, os três textos que compõem a coluna “Uns traços” nos ajudam a montar esta sulcagem ímpar que a produção epistêmica em torno do tema da solidão tem favorecido. Eliane Dias, ao abordar a solidão do falasser, questiona em seu texto “qual o fazer da psicanálise com a solidão”, pergunta extremamente oportuna por implicar a ação do psicanalista, e propícia para avançamos para o momento de concluir em torno do tema. Teresinha Prado, ao abordar a solidão ‘na ponta da língua’ a partir de Pascal Quignard, trabalha a possiblidade de a literatura buscar, “com esse momento em que a palavra, ainda sem sentido, fisgara o corpo”, o ponto de incidência do acontecimento de corpo, aquilo que aponta para a solidão fundamental do ser humano. Maria Bernadette Pitteri nos brinda com um encontro entre Platão e Lacan em torno da verdade na solidão, e faz uma clara distinção: “ao indivíduo será permitido alcançar a verdade na solidão, mas não no isolamento, ele deve continuar inserido na pólis”, e conclui que, em Lacan, vemos claramente a insuficiência da linguagem para dar conta da verdade, sempre não-toda. Bernadette nos lança a pergunta:  seria louco aquele que vislumbra a verdade?

A partir destes sulcos, destes traços, os textos publicados nesse Boletim compõem uma paisagem digna de ser lida, vista, fotografada. Não se trata da planície da Sibéria, como aquela exposta em nosso cartaz, mas um cenário marcado por ravinamentos e rico de matéria preciosa, significantes destacados pelos aluviões da transferência de trabalho.

Neste número você também encontra: a programação completa das IX Jornadas, as dicas de lançamentos de livros que estarão à venda na Livraria das Jornadas, recomendações de restaurantes e serviços próximos ao local do evento e sugestões culturais e gastronômicas acontecendo em Sampa.

Boa leitura e até as Jornadas!

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A solidão e as soluções do falasser

by secao_sp in Boletins, Jornada 2019

Imagem: Edward Hopper. muddycolors.blogspot.com

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Por Eliane Costa Dias
EBP/AMP

 “Quem fala só tem a ver com a solidão” (Lacan, 1972-73)[1].

“A solidão é uma ilusão” (Brousse, 2019)[2].

Como conciliar essas duas afirmações, aparentemente contraditórias? Como falar em solidão do sujeito quando não há sujeito sem o Outro?

No trabalho clínico e epistêmico preparatório às IX Jornadas da EBP-SP nos deparamos com diversos sintagmas: solidão-queixa que se ouve na clínica, solidão-sintoma nas diferentes estruturas clínicas, solidão-posição no laço social, solidão-efeito da época, solidão-ato, solidão-desejo do analista, solidão-Escola. Como afirma Miquel Bassols, “há diversas solidões, diversas maneiras de estar só”[3].

Penso que a via de articulação entre essas diferentes perspectivas passa por deslocarmos o eixo de abordagem do par sujeito-Outro, pedra angular do primeiro ensino de Lacan, para o par falasser-gozo, introduzido em seu último ensino.

O último Lacan nos direciona a uma nova teoria da constituição subjetiva, não mais do sujeito, mas do falasser. O encontro do vivo com a linguagem é causa de um acontecimento de gozo, de uma afetação que marca a carne. A intrusão do significante faz furo e marca uma inscrição primeira – Bejahung -, mas impõe, ao mesmo tempo, uma expulsão primordial do que é insuportável – Ausstosung. O que é expulso do Eu, esse fora do corpo primordial, vai constituir o real enquanto domínio do que subsiste fora da simbolização, do que ex-siste e insiste. Desta forma, todo falasser se constitui a partir desse troumatisme e se confronta com o desafio de encontrar solução para o vazio que lhe é constituinte e para essa dimensão opaca e inominável do ser – o gozo.

Como cada falasser se vira com essa segregação estrutural?

O trabalho realizado durante o IX ENAPOL[4] mostrou que as paixões e os afetos que tomam o ser falante são efeitos, respostas a esse furo estrutural e estruturante que Miller nos propõe como foraclusão generalizada[5]. Dessa perspectiva, verificamos que a solidão é um afeto inerente ao falasser e podemos pensá-la a partir dos três registros – RSI.

No campo do Simbólico, evidencia-se que só pode haver experiência de solidão na relação com o Outro da palavra e da linguagem. A solidão como afeto resultante da experiência de separação e de castração no processo de constituição subjetiva, da experiência de presença/ausência do objeto. Na relação com o Outro, a solidão configura uma modalidade de resposta frente ao enigma do desejo do Outro e por essa via, podemos pensar em uma clínica diferencial da solidão[6]:

  • No campo da neurose, encontramos a solidão como afeto decorrente da falta-a-ser, a solidão alojada na fantasia: parceria imaginária com o falo, na fantasia obsessiva; identificação ao objeto suposto completar o desejo do Outro, na fantasia histérica. A experiência de solidão do neurótico diz da expectativa de encontrar no Outro uma completude que possa recobrir sua falta-a-ser.
  • No campo da psicose, por outro lado, a solidão apontaria à posição do sujeito em sua inexorável dor de existir, atravessado pela insistência silenciosa da pulsão.

No plano do Imaginário, a solidão remete à ausência/presença do outro, à suposição de que poderia haver uma presença ali onde algo está ausente. Solidão como afeto que emerge e move as relações de identificação e de rivalidade próprias do imaginário e nos permite pensar a solidão na subjetividade contemporânea. Em tempos de declínio do simbólico, de elevação do objeto a ao zênite social[7], na impossibilidade de identificação pelo amor ao Pai, prevalecem as identificações pelo modo de gozo. As comunidades de gozo oferecem referências e alguma nomeação (somos gays, anoréxicos, evangélicos…), mas não asseguram solução para o desamparo estrutural, posto que não se encontra lugar para o singular do gozo em grupos homogeneizantes e que resultam em movimentos segregativos. Como alerta Philippe La Sagna: “O eu isolado contemporâneo, que Lacan denunciou há mais de cinquenta anos como redução do homem ao indivíduo, hoje se constitui um eu de contorno fluido e plasticidade líquida, tão móvel e frágil quanto o mais de gozar que ele reflete”[8].

A insuficiência do Simbólico e do Imaginário para dar conta da solidão nos abre caminho para sua vertente real.

Na passagem do Seminário 20 de que extraímos a citação acima, Lacan nos diz que o “Eu, não é um ser, é um suposto a quem fala”[9]. Afirma que a solidão diz respeito ao que não se pode escrever – o real da não relação sexual – e a define como “ruptura do saber”. Ou seja, os momentos de ruptura que levam à solidão são momentos em que se rompe o saber do mestre e com ele, a ilusão de que esse saber poderia assegurar um sentido ao inominável do ser. A solidão implica, portanto, o que é impossível de nomear e de partilhar.

Na dimensão do real, a solidão remete ao Um do gozo, na medida que é da essência do gozo seu caráter autístico e solitário. Mesmo no encontro com o Outro do sexo, o lugar do gozo é o corpo próprio, sempre solitário, por qualquer que seja o meio de acesso. Campo do gozo como Um que não faz dois e que se impõe como coordenada central do último ensino de Lacan.

Não há relação sexual. Há gozo. Há Um. Há solidão[10].

Em sua vertente real, portanto, a solidão é uma condição subjetiva inexorável e está atrelada à angústia, outro afeto igualmente estrutural e estruturante.

Qual o fazer da psicanálise com a solidão?

Frente às paixões do ser e às intempéries da época, cabe à psicanálise persistir numa política do amor ao sintoma. O envelope formal do sintoma nos diz da armadura de significantes e de vestimentas imaginárias em que o sujeito se encontra enredado, mas seu núcleo opaco aponta ao pulsional, ao real do gozo que não cessa de percorrer a carne e de não se escrever. Como bem descreve Philippe La Sagna: “O sintoma é o traço escrito de nossa solidão, de nosso não saber fazer com o que importa: a mulher, a verdade, o gozo e o laço social que tempera os impasses do gozo”[11].

Cabe ao psicanalista sustentar uma clínica da singularidade, que possa levar um sujeito a uma relação com o sintoma que lhe permita saber-fazer-aí como o desejo e com o gozo, que lhe permita suportar uma experiência de solidão capaz de fazer laço[12].


[1] Lacan, J. Seminário 20: mais, ainda (1972-73). Rio de Janeiro: Zahar, 2008, p. 128.
[2] Brousse, M. H. Entrevista “Solidão”. Disponível no Boletim Traços #01: https://ebp.org.br/sp/jornadas/ix-jornadas/boletim-tracos-ix-jornadas/boletim-tracos-01/
[3] Bassols, M. Soledades y estructuras clínicas. Freudiana, nº 12, 1994.
[4] IX Encontro Americano de Psicanálise de Orientação Lacaniana: Ódio, Cólera, Indignação. Realizado em São Paulo, de 13 a 15 de setembro de 2019.
[5] Miller, J-A. Foraclusão generalizada. In: Batista, M. C.; Laia, S. (org.) Todo mundo delira. Belo Horizonte: Scriptum, 2010.
[6] Bassols, M. Ibid.
[7] Laurent, É. A sociedade do sintoma. A psicanálise, hoje. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2007, p. 163.
[8] La Sagna, P. Do isolamento à solidão, pela via da ironia. Curinga, nº 44, 2017, p. 74.
[9] Lacan, J. Ibid., p. 128.
[10] Darrigo, L. Uns traços – Solidão, a impossibilidade de fazer dois. Disponível no Boletim Traços #02: https://ebp.org.br/sp/uns-tracos-solidao-a-impossibilidade-de-fazer-dois/
[11] La Sagna, P. Ibid., p. 77.
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Pascal Quignard: entre o que escapa e o que não se realiza – a solidão na ponta da língua

by secao_sp in Boletins, Jornada 2019

Imagem: Carlotta Ikeda. Pinterest.com

Imagem: Carlotta Ikeda. Pinterest.com

Por Teresinha N. Meirelles do Prado
EBP/AMP

“Muitas vezes, mais vale não compreender para pensar, e é possível percorrer léguas compreendendo sem que disso resulte o menor pensamento”[1].

Pascal Quignard possui uma obra vasta. Seu procedimento é por ele identificado à linhagem da retórica especulativa, por ele definida como o resgate de uma: “tradição antiga, marginal, recalcitrante, perseguida, para a qual a letra da linguagem deve ser tomada à la littera. Essa tradição esquecida é a violência da literatura”.[2]

A ‘violência da literatura’ é também sua grande potência, que permite fazer da linguagem um uso contrário ao logos, à tradição que visa a atrelar o saber à razão. Esta concepção de literatura se aproxima em muito da psicanálise. Foi a descoberta, por Freud, de um saber inconsciente, que o levou a deslocar o predomínio da razão para ‘outra cena’, algo que se passava à revelia da vontade do sujeito e que atendia a motivações que lhe eram alheias, muitas vezes produzindo efeitos paradoxais, nem sempre prazerosos, o que permitiu a Freud desenvolver toda a teoria das pulsões e também considerar o desejo inextricavelmente relacionado a uma falta que não se extingue e impulsiona os interesses humanos.  Essa descoberta é inseparável do que constituiu para a psicanálise um escândalo em relação ao discurso corrente: a inadequação do humano em relação ao real do sexo, o que Lacan traduziu na expressão “a relação sexual não existe”.

Embora pareça enigmática, o que esta frase designa é o abismo que existe entre nossa condição de seres de linguagem e a constituição da sexualidade no humano. Não há nada que estabeleça previamente para cada um o que seja um homem, o que seja uma mulher, ou como se dará o encontro com o corpo do outro. É pela linguagem que tentamos estabelecer parâmetros, mas os sinais que nos vêm de nosso próprio corpo não encontram tradução exata em nosso universo simbólico.

É também essa inadequação que o procedimento de Quignard desnuda. Sua definição de literatura passa pelo esgarçamento desse furo, ao confrontar, através da retórica, o que a palavra alcança por fracassar, fisgando algo do corpo, que sempre escapa, contudo:

“(…) aquele que escreve é um homem com o olhar suspenso, de corpo paralisado, as mãos estendidas em súplica na direção das palavras que lhe escapam. Todos os nomes se mantêm na ponta da língua. A arte é saber convocá-los quando preciso e por uma causa que lhes revivifique os corpos minúsculos e negros. A orelha, o olho e os dedos esperam em círculo, como uma boca, essa palavra que o olhar busca ao mesmo tempo intensamente e em lugar nenhum, mais longe que o corpo, no fundo do ar. A mão que escreve é antes a mão que vasculha a linguagem que falta, que tateia em direção à linguagem sobrevivente, que se crispa, se irrita, que da ponta dos dedos a mendiga”.[3]

Quignard opõe a literatura às falas cotidianas, “sem consequências vitais”, que “são como roupas que dissimulam, enquanto a linguagem literária é a língua desnudada até o assombro”[4] . A tarefa do escritor é para ele a do retor (o retórico), que “nunca demonstra: ele mostra; e o que mostra é a janela aberta. Ele sabe que a linguagem abre a janela”.  Abre para o quê? Para um saber possível através do que escapa, que permita fisgar algo da Coisa desde sempre perdida, do real do corpo em seu gozo, alusivamente, muitas vezes através de imagens construídas pelo deslizar metafórico-metonímico das palavras, como neste belo trecho em que se conjugam bout (ponta); debout (de pé); bouter (expulsar) e bouton (espinha), algo que a tradução, infelizmente, não permite capturar:  “A agonia é que a espinha brote na ponta do rosto. Os brotos nas árvores são botões de flores. Os botões dos casacos são gemas de madrepérola”.[5]

Sua busca se dirige a um ‘antes’ que, no entanto, não se define por uma progressão cronológica, sucessiva (Chronos), mas pelo que ele denomina “l’instant qui tombe à pic”, o momento oportuno (Kairós)[6]. E para mostrar isto, Quignard se serve das imagens. Em O sexo e o assombro, a representação pictural dos afrescos romanos é descrita como representação que condensa um “instante ético” do mito que ele denomina augmentum: o momento exatamente anterior àquele em que se produzirá a catástrofe trágica, momento anterior àquele em que se dará a passagem ao ato. Essa representação aparece no vídeo em que que o autor lê seu texto enquanto a dançarina de butô Carlotta Ikeda representa o momento de desespero de Medeia, “a olhar seus filhos, prestes a assassiná-los, mas ainda entrincheirada no silêncio que precede o acesso de loucura”[7].

A literatura de Quignard parece buscar o ponto de incidência do ‘acontecimento de corpo’, momento em que o infans, ainda mergulhado em lalíngua, mistura de sons variados que não fazem sentido especial, em determinado momento, inapreensível como tal, por ser intraduzível, mas que pode ser atingido por coalescência, por meio desse Kairós, momento oportuno, que a literatura pode forjar, com esse momento em que a palavra, ainda sem sentido, fisgara o corpo, ali cristalizando algo que ao mesmo tempo se revelou traumático, um núcleo de gozo opaco e irredutível, produzido pelo encontro desse corpo com o parasita linguageiro. Nesse ponto se desenha o que da sexualidade no humano se dá necessariamente como inadequado: uma sensação no corpo se produz, mas a partir de um incorpóreo que, no entanto, comparece aí em sua materialidade (sonora, associada a algo da imagem, da cena vivida e depois construída de outros modos, em diferentes momentos), o encontro do corpo com o osso da palavra.

Algo que faz evocar parcialmente o modo como Walter Benjamin descreve a entrada da criança no uso das palavras: diante de “(…) sons a serem explorados (…) como quem entra em cavernas, entre as quais cria caminhos estranhos”[8].  É, de certo modo, o que encontramos em Quignard quando fala do “nome na ponta da língua”, a artificialidade da linguagem, do parasita linguageiro que, no entanto, nos constitui:

“É o desamparo próprio à linguagem humana. É o desamparo diante do que é adquirido. O nome na ponta da língua nos lembra que a linguagem não é em nós um ato reflexo. Que não somos animais que falam assim como veem. (…) Que uma palavra possa ser perdida, isto quer dizer: a língua não somos nós. Que a linguagem seja em nós adquirida, significa que podemos conhecer seu abandono, que a totalidade da linguagem pode refluir para a ponta da língua. Isto quer dizer que podemos reencontrar o estábulo, ou a selva, ou o antes da infância ou a morte”.[9]

Ao descrever esse desamparo inerente ao humano, Quignard nos revela também os fundamentos de sua escrita literária, que parte da solidão fundamental do ser humano na inadaptação que lhe é inerente, numa busca que se sabe fracassada, mas reconhece nesse fracasso a possibilidade, bem-sucedida, de algo desse impossível que se deixa fisgar por uma contingência.


[1] Lacan, J. (1998 [1958]). “A direção do tratamento e os princípios de seu poder”. In Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, p.621.
[2] Quignard, P. (1995). Rhétorique spéculative. Paris : Gallimard, 1995. « J’appelle rhétorique spéculative la tradition lettrée antiphilosophique qui court sur toute l’histoire occidentale dès l’invention de la philosophie. J’en date l’avènement théorique à Rome, en 139. Le théoricien en fut Fronton. § L’expression courante : “C’est un littéraire” n’est pas une insulte. Elle est dotée de sens. Elle renvoie à une tradition ancienne, marginale, récalcitrante, persécutée, pour laquelle la lettre du langage doit être prise à la littera. § Cette tradition oubliée est la violence de la littérature ».
[3] Quignard, P. (1993). Le mot sur le bout de la langue.
[4] Cf. O sexo e o assombro (fr: 1994), conferir página e termos da trad. Brasileira.
[5] Quignard, P. (1993). Le mot sur le bout de la langue, op.cit., p.12-13. “L’agonie est le bouton qu’il boute contre le bout de leur visage. Les bourgeons sur les arbres sont des boutons de fleurs. Les boutons sur les manteaux sont des bourgeons de nacre.”
[6] Cf. Irina De Herdt. (2009). « Le rôle du kairos dans les “petits traités” de Pascal Quignard ». Disponível em periodicals.narr.de/index.php/Lendemains/article/viewFile/…/18.
[7] Disponível em:  https://vimeo.com/31846123
[8] Cf. Gagnebin, J. M.  (1997). Sete aulas sobre linguagem, memória e história. Rio de Janeiro: Imago, p.99.
[9] Quignard, P. (1993). « Petit traité sur Méduse ». In Le mot sur le bout de la langue, op.cit., p.59-60
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Platão e Lacan: encontro da verdade na solidão

by secao_sp in Boletins, Jornada 2019

Imagem: Instagram @yoriyas

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Maria Bernadette Soares de Sant´Ana Pitteri
EBP/AMP

Solidão, enquanto conceito, está mais para a filosofia (desde seus primórdios), do que para a psicanálise, embora queixas constantes não deixem de pulular nos consultórios psicanalíticos. Do que se queixa aquele que se diz solitário?

Platão, na Academia, dedicava-se a estudar o homem inserido na pólis, na cidade[1], sua moral, sua ética, seus relacionamentos sociais, questões cruciais que culminam em A República (Politeia)[2], diálogo que faz a apologia de um governo que estaria muito longe da democracia, do regime ateniense como nenhum outro depois dele, período no qual viveram Platão (*428/427 – +348/347 a.C) seu mestre Sócrates (* 469/470 – +399) e seu discípulo Aristóteles (*384 – +322) [3].

A República figura uma sociedade estratificada, com papeis claramente delimitados, onde cada cidadão (ou político como eram chamados, por viver na pólis) teria um lugar. Platão não deixa muito claro, no diálogo, se haveria fixidez de tais lugares, a não ser no caso dos guardiães treinados desde muito cedo para a defesa da polis, sem distinção de sexo e que deveriam casar-se entre si.

A tentativa de encontrar uma definição para o conceito de “justiça” dá início ao diálogo, que desenvolve um paralelo entre ser humano e polis, colocando ao lado de três faculdades da alma humana (apetitiva, irascível e racional), três classes de cidadãos (comerciantes, guerreiros – guardiães – e governantes – os filósofos), o que é colocado como essencial ao bom governo da cidade. Trata-se de uma proposta de harmonia entre as diferentes faculdades da alma e das diferentes classes propostas para a pólis. Há que se notar que indivíduo e estado devem dirigir-se aos aspectos racionais como orientadores de suas ações. Fazendo uso da argumentação dialética, Platão tenta apreender a realidade à luz de posições contraditórias, na busca da verdade.

A proposta de A República é a de uma ascese espiritual que, partindo do mundo empírico em direção ao mundo racional, permitiria a possibilidade de vislumbrar a Verdade, mas não de falar a respeito dela. Interessante que o paralelo supõe algo a mais, tanto para a pólis – que deverá alcançar a justiça – quanto para o indivíduo que, no auge da racionalidade poderá dar o salto em direção à Verdade. No lugar onde se aloja a Verdade, a dialética não tem mais serventia, não há mais linguagem, apenas contemplação.

O indivíduo que contemplar a Verdade (o que seria dado a poucos), num movimento claramente místico (de pura contemplação) é o filósofo, que deverá ser o governante da polis (rei-filósofo), mesmo que não o queira, ou melhor, exatamente por que não o quer. Este será o mais apto para elaborar as leis, não que as mesmas sejam perfeitas, visto que deverão converter-se em palavras, o que de imediato afasta da verdade pura.

Necessário fazer aqui uma distinção: ao indivíduo será permitido alcançar a verdade na solidão, mas não no isolamento[4], ele deve continuar inserido na pólis. A alegoria da Caverna, veiculada neste diálogo, será exemplo de busca e encontro da Verdade.

Não é abusivo pensar aqui em Lacan, quando em Televisão diz “digo sempre a verdade, não-toda, porque dizê-la toda é impossível, faltam palavras”.

Voltemos à solidão da Verdade: como alcançá-la, de qual ascese fazer uso? No caso da filosofia platônica há uma Verdade a ser contemplada na mais absoluta solidão, que deverá servir como ponto ideal para o governo dos cidadãos/políticos, dos habitantes da pólis.

No caso de Lacan vemos claramente a insuficiência da linguagem para dar conta da Verdade, sempre não-toda e, se quem fala, “só tem a ver com a solidão (…)”,  “(…) essa solidão de ruptura de saber, não somente ela pode se escrever, mas ela é mesmo o que escreve por excelência (…)”[5].

No entanto a psicanálise se vê às voltas com a linguagem, é seu instrumento. O sujeito do inconsciente (transferencial) constitui-se ao mesmo tempo que o Outro, o que faz com que nunca esteja só. A companhia do Outro provoca incômodo no neurótico, que tenta se liberar, deixar de lado a companhia constante deste Outro alienante. Há uma “doação de sentido através da elucubração fantasmática”[6], que acompanha o sujeito em sua vida, quer dizer, a fantasia sustenta o sujeito, dando a ele a ilusão de que está só.

Há necessidade do Outro para o sujeito existir, mas este é um engodo e o sujeito é o tolo do significante, tolo da linguagem, tolo do Outro.

O Outro não existe, diz Lacan, e tal constatação só ocorre depois de uma análise conduzida até seu final, o que deixa o sujeito só, frente ao pedaço de real opaco, do sinthoma, momento de “destituição subjetiva”, de separação do Outro, ato que é sem o Outro e deixa na solidão quem o faz. Momento de entrada em jogo do Inconsciente Real, do “esp d´un laps”. Mas a partir daí se pode estabelecer um novo laço com o Outro, estando advertido de sua inexistência.

No ato de Fundação da Escola, Lacan diz estar “só, como sempre estive, diante da causa analítica”, solidão fundadora que se escreve a partir de um ato, que se faz sem o Outro e que, portanto, dessubjetiva, pura solidão.

Mas é possível pensar também na solidão insuportável do rechaço do Outro. Solidão da loucura. O louco é livre, porque não precisa do Outro. Seria louco por que vislumbra a Verdade? A Verdade de que não existe o Outro, o que o remete à absoluta liberdade?


[1] Para os antigos gregos do período democrático, não parecia pensável a ideia de viver em isolamento.
[2] Uma das mais complexas obras de Platão.
[3] Percebe-se a crítica acirrada à democracia pelos filósofos, principalmente à corrupção crescente na polis. A democracia é um regime que exige constante discussão e conversações, pois tende a se autodestruir, a se fagocitar.
[4] Aristóteles dirá que o isolamento não é coisa de humanos, mas de animais ou deuses.
[5] Lacan, J. O Seminário, Livro 20, mais, ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985, p. 163.
[6] Miller, J-A, O Real no Século XXI, site da AMP – português.
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Livraria das IX Jornadas da EBP-SP

by secao_sp in Boletins, Jornada 2019

Por Kátia Ribeiro Nadeau
Comissão de Livraria

 A Livraria das IX Jornadas da EBP-SP – “Solidão” contará com títulos imperdíveis! Dentre estes, destacamos alguns lançamentos que certamente irão promover excelentes leituras.

Aguardamos sua visita!


BROUSSE, MH. “Mulheres e discursos”. Coleção Opção Lacaniana.


SILVA, RF. “A supervisão (controle) na formação do psicanalista”. Relicário ed.


BATISTA, MCD; SILVA, RF. (Orgs). “A transmissão da psicanálise no instituto: a experiência do CLIN-a”. Relicário ed.


GORENBERG, R. “Qué voz en psicoanálisis?”.


HARARI, A. “Fundamentos da prática lacaniana: risco e corpo”. Relicário ed.

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Laços em Sampa

by secao_sp in Boletins, Jornada 2019

Dicas de Restaurantes, Cafés e Serviços

Por Eliana Machado Figueiredo
Comissão de Secretaria, Infraestrutura e Acolhimento
Imagem: Instagram @theyouthquake

Imagem: Instagram @theyouthquake

Restaurantes

  • Restaurante 150 Maksoud – localizado no lobby do local do evento
  • Casinha Mineira – 51 m do local do evento – Rua São Carlos do Pinhal 445, Bela Vista
  • Trebbiano Ristorante – 0,1 km do local do evento – Alameda Campinas, 266, Jardim Paulista
  • Tatine Restaurante – 0,1 km do local do evento – Rua Batataes 558
  • Outback Steakhouse – 0,2 Km do local do evento – Avenida Paulista 1230, Bela Vista
  • Madero – 0,2 km do local do evento – Avenida Paulista 1230
  • Temakeria&Cia – 0,3 km do local do evento – Alameda Santos 1187
  • Restaurante America – 0,3 km do local do evento – Alameda santos 957
  • Rei do Filet – 0,3 km do local do evento – Alameda Santos 1105
  • The Fifties – 0,3 km do local do evento – Alameda Santos 1015
  • Restaurante Rascal – 0,4 km do local do evento – Alameda Santos 870
  • Restaurante Tarsila – 0,4 km do local do evento – Alameda Santos 1123
  • Manai Gastronomia – 0,4 km do local do evento – Alameda Santos 1219
  • Masp Restaurante – Subsolo do Museu MASP , Avenida Paulista 1578,
  • Cantina Generale – 0,5 km do local do evento – Rua Doutor Fausto Ferraz 163
  • Restaurante SPOT – 0,8 km do local do evento – Alameda Ministro Rocha Azevedo 72
  • Cantina Lazzarella – 0,8 km do local do evento – Rua Treze de Maio 589
  • 212 Burguer – 0,9 km do local do evento – Alameda Campinas 1021
  • Andiamo Restaurante – 1,0 km do local do evento – 4 piso do Shopping Cidade São Paulo na Avenida Paulista 1230
  • Super Grill Express, 1,0 km do local do evento – 4 piso do Shopping Cidade São Paulo na Avenida Paulista 1230
  • Outback Steakhouse  – 1,0 km do local do evento – 3 pavimento do Shopping Frei Caneca na Rua Frei Caneca 569
  • O Mineiro – 1,1 km do local do evento – Rua Matias Aires 74
  • Insalata – 1,3 km do local do evento – Alameda Campinas 1478
  • Almanara Restaurante – 1,1 km do local do evento – Shopping Pátio Paulista, Rua Treze de Maio 1947, loja 426 – 427
  • Salada Grill Comida Brasileira – 1,0 km do local do evento – Rua Padre João Manoel 213

Locais para pequenas reuniões, cartéis e etc.

  • Café Brasserie
    Alameda Campinas 150
  • Starbucks
    Avenida Paulista 1499
  • Starbucks
    Alameda Santos 1054
  • Fran’s Café
    Avenida Paulista 358

Farmácias 24h perto do local do evento

  • Drogaria SP
    Rua Brigadeiro Luís Antônio, 2215
    Bela Vista
    Fone: 3287.0568
    Não possui serviço de entrega
  • Drogaria SP
    Av Paulista, 1227
    Fone: 3288.8081
    Não possui serviço de entrega
  • Drogaria SP – Conjunto Nacional
    Av Paulista, 2073
    Não possui serviço de entrega
  • Drogaria Raia – Conjunto Nacional
    Av. Paulista, 2073
    Fone: 3262.4961
    Não possui serviço de entrega
  • Drogasil
    Av. Paulista, 1.257
    Fone: 96859.9194
    Possui serviço de entrega até 500 metros

Imagem: divulgação SESC

Imagem: divulgação SESC

Teatro – “Há dias que não morro” – SESC Pompeia

A companhia Academia de Palhaços dá início a uma nova fase de pesquisa e passa a se chamar ultraVioleta_s. Para marcar essa transição, o grupo estreou Há Dias Que Não Morro no dia 3 de outubro no Espaço Cênico do Sesc Pompeia.

A peça teve uma pré-estreia em maio na Turquia e é a segunda parte da Trilogia da Morte, que teve início em 2016 com a estreia de Adeus, Palhaços Mortos. Agora, com texto original de Paloma Franca Amorim e uma direção coletiva de Aline Olmos, José Roberto Jardim, Laíza Dantas e Paula Hemsi.

Inspirada na discussão sobre segurança e liberdade e na fricção dessa balança em foco na política atual, a encenação busca ampliar o debate sobre os aprisionamentos contemporâneos e corpos em paranoia. Em cena, estão três atrizes em um cubo-jardim feito para agradar. Elas acordam para seus dias sempre ensolarados, escutam sempre os mesmos pássaros, alegram-se com a mesma nuvem. As intérpretes viram figuras-bonecas exteriormente idênticas. O público acompanha dia após dia o decorrer dessas figuras.

(Texto: divulgação. SESC Pompeia).
  • SESC Pompeia. Rua Clélia, 93. São Paulo.
  • Ingressos: R$ 9,00 a R$ 30,00

Imagem: divulgação.

Imagem: divulgação.

Exposição – Batman 80, a exposição

São Paulo recebe uma exposição totalmente imersiva para comemorar os 80 anos do homem-morcego. A exposição é uma viagem por cenários famosos de Gotham City, acervo de quadrinhos e itens raros do Batman.

A exposição faz parte da programação mundial em comemoração aos 80 anos do Batman e, por ser uma exposição oficial licenciada pela Warner Bros e DC Comics, Batman 80 traz mesmo a sensação de estarmos no universo dos quadrinhos!

  • Memorial da América Latina: Av. Auro Soares de Moura Andrade, 664. Barra Funda.
  • Até 15 de dezembro.
  • Terça a sexta: R$ 35 (inteira). Sábado, domingos e feriados: R$ 45,00 (inteira).
  • Ingressos com hora marcada no site: https://batman80expo.com.br/

Imagem: divulgação.

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Gastronomia – Viva! Itália – Museu da Imigração

 O jardim do Museu da Imigração vai receber a segunda edição do Viva! Itália – uma celebração da cultura e culinária italiana em parceria com o Consulado Geral da Itália em São Paulo.

No dia, haverá apresentações artísticas, gastronomia com a presença de chefs italianos, palestras, filmes, degustações e muito mais. É só no dia 20 de outubro!

 

 

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Editorial Boletim Traços #06 – Solidões

by secao_sp in Boletins, Jornada 2019

Imagem: instagram @carlbrunson

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Por Heloisa Prado Rodrigues da Silva Telles
Comissão de Orientação das IX Jornadas
EBP/AMP

Se no léxico, solidão, ou solitude, equivale a abandono, isolamento, desamparo, no campo que nos concerne há, notadamente, uma distinção entre estes termos – em psicanálise, trata-se de formalizar aquilo que se engendra a partir de uma práxis. Depois de transcorrido este lapso de tempo – entre o lançamento do tema das nossas Jornadas e a precipitação de sua realização – podemos dizer que temos muitas cartas nas mãos, mas certamente estamos no início da partida! Os textos publicados no Boletim Traços e também – como teremos oportunidade de ver – os trabalhos enviados para as mesas simultâneas evidenciam o interesse em recolher, no campo da cultura, variadas formas de expressão da solidão e suas transformações na época em que vivemos.

solidões. As solidões comuns e a solidão que concerne à experiência analítica e ao passe – este último número do Boletim Traços, série magnificamente editada por Niraldo dos Santos e sua equipe, assim nos permite elucidar.

Veridiana Marucio apresenta o livro Ô Solitude, de Catherine Millot – sugerido por Marie-Héléne Brousse na entrevista que fez parte do lançamento das Jornadas (publicada em Traços n. 01). Amante da literatura, a autora recorre a grandes nomes para “abordar este continente criador da solidão”. As palavras de Veridiana, a partir de sua leitura do livro, despertam o desejo de adentrar acerca destas solidões comuns, tais como “essa espécie de felicidade paradoxal que faz preferir sua própria companhia a companhia de outros”. Patrícia Badari, por sua vez, elege Shéhérazade, o filme de Jean-Bernard Marlin, para nos transmitir que um ato, necessariamente, é solitário e que, para o sujeito em questão, este ato engendrou o encontro com o “nome próprio ao objeto a” – localizado no corpo de uma mulher, a causa de seu desejo.

Em “Koan e a solidão do sinthoma”, Fátima Pinheiro nos escreve acerca de como a poética permite a Lacan situar o lugar e a função da interpretação analítica, e seu percurso pelo pensamento, língua e arte chinesas, onde a noção de vazio-mediano ocupará lugar central. Introduz uma nova referência – o Koan, que sustenta o vazio de sentido “a solidão de uma palavra à solidão de outra palavra” nos conduzindo a uma analogia entre esta referência e o confronto, na experiência analítica, com o “primado do Um, mais além do inconsciente”. A solidão intrínseca ao falasser é retomada por Silvia Sato, no último texto que temos o prazer de apresentar, numa interessante perspectiva: nos propõe considerar que “a ruptura do saber na solidão do falasser faz par com a noção de furo e a desordem do sentimento de vida”. Recolhe o termo “junção íntima” de modo a nos elucidar que na experiência analítica a linguagem é um órgão, parasita, fora do vivente que não só permite falar o que não existe, mas também enodar as peças soltas disjuntas.

Concluímos com estes textos que nos acrescentam mais entusiasmo para o trabalho que nos espera – agora todos juntos nas nossas Jornadas, para seguirmos neste work in progress. Deste lugar a mim concedido para escrever este editorial, agradeço os envolvidos na organização das IX Jornadas, e todos, um a um, com os quais podemos ter uma experiência de Escola.

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Ô Solitude –  Catherine Millot

by secao_sp in Boletins, Jornada 2019

Imagem: instagram @asheleyinwanderland

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Por Veridiana Marucio
EBP/AMP

“A felicidade de viver sozinha,

 quando a leveza que a acompanha vai até ao apagamento de si

 na alegria contemplativa” 

A solidão, abordada nesse livro – que se situa entre um ensaio e um romance – nos é apresentada de uma maneira única. Não se trata de uma ficção romântica, muito menos de uma simples anamnese, mas sim da relação da história da autora, do que chamamos em psicanálise de seu próprio caso, imbricada à história da solidão em suas múltiplas encarnações.

Abismos e vertigens solitárias, ausência e plenitude da ausência, a autora nos pega pela mão e nos faz acompanhar uma exploração de seu próprio isolamento e de suas vertigens.  Pergunta-se: “A solidão absoluta, não seria aquela onde estamos nós mesmos ausentes?”[1].

Com um estilo fluído e agradável, seu texto, dedicado ao amor e às formas de relações que escapam à mediação social, provoca sensações parecidas com aquela sensação de termos acabado de sair de um mergulho no mar.

Ela, amante da arte e da literatura, confessa ter descoberto o amor com Proust, e ter se inspirado em grandes nomes como Purcell (de onde ela retira o título de sua obra e que nos foi aconselhada por Marie-Hélène Brousse na entrevista publicada no primeiro boletim), Caspar Frierich, Goethe, Poe, Rilke, Barthes, entre outros, para abordar esse continente criador da solidão. Sua busca é a de tentar compreender como esses artistas e escritores percebem o mundo a partir de seus próprios abismos.

Trata-se de um retrato de uma solitária que se dirige a outros solitários cujo destino ela nos apresenta. Para Catherine, existem tantas solidões quanto estilos de existência e de nomes próprios. Pode-se ou não fazer um bom uso da solidão, inventar, criar um estilo de vida original ao se abrir para o desconhecido de si e do mundo.

Segundo ela, nem todos os sujeitos são susceptíveis à essa espécie de felicidade paradoxal que faz preferir sua própria companhia a companhia dos outros, não por medo ou por rejeição, nem por narcisismo, mas pelo abandonamento e pelo desnudamento, pré-requisitos para o sonho, a criação e a reflexão. Sem dúvida temos aqui um material rico e que pode contribuir com nossas IX Jornadas, lançando luz às questões levantadas nos eixos de trabalho, principalmente no que concerne à solidão do gozo feminino.


[1] Tradução livra da autora.
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A solidão de um ato

by secao_sp in Boletins, Jornada 2019

Imagem: variety.com

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Por Patricia Badari
EBP/AMP

Era uma vez… Era uma vez… Era uma vez… Durante mil e uma noites. Assim, um reino da lenda persa, saiu de sua maldição. Aquela que poderia ter sido mais uma esposa a ser morta após a noite de núpcias, toma a palavra e o rei Shariar deixa-se iludir; se encanta com as histórias de Sherazade, essa que toca algo da causa de seu desejo e lhe abre a possibilidade de escolher uma outra saída para si e para seu reino.

E o jovem rapaz, personagem do filme Shéhérazade[1], irá em direção ao destino muitas vezes anunciado, amaldiçoado e selado para os jovens das periferias das cidades ou escolherá outra saída, mesmo que precária e/ou temporária?

O filme inicia-se com um jovem saindo da prisão. A mãe, envolta com suas próprias impossibilidades, não pôde estar ali para recebê-lo e um abrigo é o que lhe é ofertado pela assistente social. Ele foge imediatamente e sai pelas ruas da periferia de Marselha, lugar dos imigrantes que ali chegaram e onde cresceu – sua referência para tentar encontrar um lugar, um ponto de apoio.

O chefe da turma de amigos de outrora, também, não poderá acolhê-lo, pois levaria a polícia até eles. O melhor amigo, em sua precariedade, tentará. Leva-o para fumar haxixe e para escolher uma das meninas adolescentes das ruas para transar, já que estava saindo da prisão.

E é, justamente, nestas ruas da periferia que encontra e elege seu ponto de apoio – Shéhérazade, jovem garota que se prostitui e que em um tempo anterior já havia fisgado algo da causa do desejo deste jovem. Ela é “dura na queda”, mas “não-toda”. Com suas palavras e histórias por “mil e uma noites”, lhe indica um caminho para enlaçar a pulsão e a identificação.

Cafetão é uma posição que este jovem rapaz inventa para tentar cifrar a relação sexual, que não existe; para circunscrever algo do real ao qual é confrontado. Um semblante fálico do qual se serve, ali onde o vazio da inexistência do Outro se faz presente. Com este semblante se virará nas ruas, terá um lugar perante o grupo de velhos amigos e lhe servirá para reconfigurar seu gozo e servir-se desta menina-mulher. Mas não bastará para sempre.

Um novo impasse surge. Seu melhor amigo quer transar com Shéhérazade e ela não consente. E ele, enquanto cafetão, protegerá sua puta? Uma puta tem o direito de aceitar ou não alguns clientes. Ela é uma prostituta para ele? Ou mulher-menina sintoma? Ela o convoca enquanto homem e não como cafetão? O que sou para você? Ele insistirá no rebaixamento do valor erótico do que roça o seu desejo?

Este jovem titubeia, nem cafetão, nem menino-homem para ela – procrastina sua decisão e o estupro é consumado. E agora meu jovem rapaz?

Na exigência por uma decisão, insiste na saída fálica. Do lugar de cafetão desrespeitado e de macho ferido faz um ato tresloucado: atira no amigo que estuprou sua garota. Mas, se cafetão e macho emolduram o que se vê, vale dizer que são apenas duas das variedades da representação, que será sempre parcial. Novamente algo que diz de seu encontro com o sexo, retira seu desejo da calmaria e lhe exige um mais além das representações que eram dadas. Um encontro com o real é sempre passível de existir e a cada vez é preciso saber fazer com ele.

Haverá outra significação possível? Um S1 singular poderá advir e lhe deixar aberta a via do desejo? Ele testemunhará que foi um estupro ou seguirá no pacto silencioso com a pulsão de morte, como tantos outros jovens das periferias das cidades, aos quais muitas vezes só resta irem em direção à morte precocemente?

Sua mãe demanda seu silêncio, que tudo continue como sempre esteve. Estas são as regras de sobrevivência. No entanto, ele sairá do lugar de falo imaginário da mãe. Mãe e puta são significantes[2] que podem se equivaler ou serem disjuntos, mas tanto um quanto outro não respondem ao impasse sobre como gozar de uma mulher. Não se trata de salvar a mãe e tampouco salvar uma mulher. “(…) para o homem, a menos que haja castração, quer dizer, alguma coisa que diga não à função fálica, não há nenhuma chance de que ele goze do corpo da mulher, ou dito de outro modo, de que ele faça amor”[3].

A solidão de um ato lhe é requerida. O ato da palavra, onde um sujeito pode advir. E ele o faz. Acede à sua própria palavra que pode lhe servir como um ponto de apoio e orientação singular para uma posição de desejo, a partir da qual poderá bascular suas escolhas.

Ele testemunha que foi um estupro e se responsabiliza pelas consequências que daí advém. Vai preso novamente, pois atirou em uma pessoa, o amigo estuprador.

No entanto, este rapaz, com seu ato de “palavra de amor” deixou entrever “um nome próprio ao a[4], algo do objeto a encontrado naquela garota – a causa de seu desejo.

Zach, Zachary é o nome deste jovem-menino-homem, que por ora pôde dar um outro destino à maldição que assolava sua vida. Um sopro de vida. A solidão de um ato “que alivia da vida, sem aliviar de viver[5].

Zachary seguirá com sua solidão subjetiva, mas não sem o laço com esta também menina- garota- mulher Shéhérazade!

Se na lenda persa um homem e um povo pôde ter outro destino, por que não o falasser? Eis a aposta! À cada um, seu era uma vez. Uma existência com nome e com um discurso. Ficções, semblantes, objeto a.


[1] MARLIN, J.-B. Shéhérazade. Filme. França. 2018.
[2] MILLER, J.-A. “Uma conversa sobre o amor”. In: Opção lacaniana online. N. 2, p. 11.
[3] LACAN, J. Seminário, livro 20, mais, ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. p. 97.
[4] MILLER, J-A. “O amor entre repetição e invenção”. Ibid. p. 16.
[5] PESSOA, F. Livro do desassossego. São Paulo: Companhia das letras.  2003, p. 53.
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O Koan e a solidão do Sinthoma

by secao_sp in Boletins, Jornada 2019

Imagem: koan. MoMa

Imagem: koan. MoMa

Por Fátima Pinheiro
EBP/AMP

A psicanálise é uma prática que implica um modo inovador de habitar a linguagem. Lacan aponta que a direção da cura requer que o analista se oriente rumo à poesia, ao situar a interpretação como poética, tendo como efeito o despertar. Na aula de 19 de abril de 1977, Lacan[1] diz: “Se vocês são analistas, verão que é o forçamento por onde um psicanalista pode fazer soar outra coisa que o sentido. O sentido é o que ressoa com a ajuda do significante, mas o que ressoa, isso não vai longe, é mais frouxo. O sentido, este obstrui. No entanto, com a ajuda do que se chama escritura poética, vocês podem ter a dimensão do que poderia ser a interpretação analítica”. Três dias após esta aula, Lacan escreve a François Cheng, em carta datada de 22 de abril de 1977: “Destaquei o seu livro em meu último seminário, dizendo que a interpretação – ou seja, o que deve fazer o analista – deve ser poética”[2]. O interesse de Lacan pelo pensamento, língua e arte chinesa, é elucidado por François Cheng (2007), que acompanhou Lacan no início dos anos setenta, percorrendo esses campos. Cheng estudou, junto com Lacan, os textos em sua escritura original, detalhe por detalhe, numa busca tenaz de investigação das práticas chinesas significantes. O que surpreendeu Lacan foi a noção de vazio-mediano, fundamental para o taoísmo, e que se equipara ao número três. Essa noção transcende a oposição do Yin e Yang (de dois elementos) da sabedoria chim, e interessa a Lacan, especialmente pelo fato de articular o vazio. O vazio mediano é uma espécie de litoral[3], separador de dois campos, que não tem como se manterem unidos, e como se misturarem. O que chamou atenção de Lacan e o fez deter-se mais expressivamente no vazio-mediano, é a maneira como a poesia chinesa lida com as metáforas. Na razão chinesa, a metáfora e a metonímia não se opõem, elas se originam uma da outra, como observa Cheng[4].

Esse interesse de Lacan pelo taoismo, o fez também se voltar para a prática Zen, considerada por ele o que há de melhor no budismo, que implica na renúncia ao próprio pensamento. Esta prática Zen, a qual Lacan aproxima da prática da psicanálise, no que concerne à interpretação, consiste como disse: “Em te responder com um mugido[5], e isso é o que há de melhor quando se quer naturalmente sair desse negócio infernal, como dizia Freud”[6]. Este é o ponto que separa a poética, o mugido, a quebra de sentido – da linguística, considerada por Lacan como uma ciência mal orientada. É a poética que permite a Lacan situar o lugar e a função da interpretação psicanalítica, em que se situa a maneira de falar lalíngua do corpo. É a poética que instiga a uma ruptura na cadeia infernal do encadeamento significante, é ela que permite fazer com que o sujeito possa se desfazer do assujeitamento aos significantes mestres e isolar os significantes assemânticos moldados pelo impacto de lalíngua. Os significantes assemânticos são produto de encontros contingentes, no curso da vida, entre um dizer e um corpo. As marcas produzidas por esse encontro não se referem aos significados caídos sob a barra do recalque, nem às representações inconscientes a serem decifradas, mas aos significantes separados da cadeia, significantes primeiros sedimentados por lalíngua e abertos às modalidades de gozo. Uns-sozinhos, solitários e fora de sentido, que se recusam a serem capturados nas cadeias significantes: un aboiement, como mostra Lacan, jogando com o equívoco e o corte na interpretação. Por lalíngua ser constituída de “aluviões em que se acumulam os mal-entendidos”[7], ela se abre para o equívoco, possibilitando que a interpretação faça ressoar (réson) algo do significante, em sua dimensão fora do sentido, que afeta o corpo.

Há na prática Zen, no tocante ao que a faz “zombar” da significação, uma sabedoria, ou seja, um saber-fazer com o gozo e o sentido, que foi evidenciado por Cleyton Andrade[8], ao se utilizar do paradoxo do Koan. O “aboiement”, o mugido, é um Koan, e ele se apresenta, não como um outro significante que vem dar sequência à cadeia significante, ou como mais um significado ou sentido que contribua para o ciclo infernal e polissêmico da linguagem. O Koan é o corte, a interrupção da cadeia polissêmica, é a via que se dirige para o confronto direto com o gozo e a pulsão. Contudo, o Koan não se dirige para a absurdez, e sim para a isenção de sentido. Roland Barthes[9] marca esta diferença com precisão: “a isenção de sentido é um estado de sentido infinitamente mais difícil de realizar, é uma espécie de vazio de sentido, ou melhor, o sentido lido como vazio, o que não é o caso do absurdo”. Portanto, o que está em jogo no Koan (“enigma quase insolúvel”, em japonês) é o vazio de sentido. O Koan traz em si uma contradição: diz o que não é. O Koan apresenta a solidão de uma palavra à solidão de outra palavra[10].

O praticante desta arte tem como princípio abdicar de todo o saber prévio, assim como transcender os limites do dualismo lógico, ao despertar um processo que permite ao praticante uma visão do autêntico funcionamento das coisas. O Koan pode ser equiparado a um relâmpago, ao fazer surgir o Satori (a iluminação) que é a razão de ser do Zen, e sem a conquista do Satori, provocado pelo Koan, não se pode aceder ao Zen. O Koan, ao quebrar o sentido, tem como efeito provocar a iluminação e o despertar da vida. Na experiência da análise, a interpretação tem a função do despertar, de levar o sujeito a se defrontar com o primado do Um, mais além do inconsciente, até ao une-bévue[11] que o funda, fazendo escavar nele o vazio do Koan, o Um sozinho que reitera em seu sinthoma. O Koan permite, portanto, uma leitura diferente daquela do significante, e no exercício diário de minha escrita, experimento a partir de sua prática, algo novo que me faz habitar a linguagem, a psicanálise, e a vida como poeta.

feminino oásis

para acender o balaio de siris

a névoa lavanda da água

salta no herbário de cinzas

da rocha vítrea maré sem colo

quebra-mar de alaúdes a ver navios

na selva fugaz de tua boca

só o vigor velado do dia

saberá de quantas luas eu

vou acender até amanhã de manhã[12]


 

[1] Lacan-Seminário 24- inédito
[2] Cheng, F. Lacan: el escrito, la imagem. Buenos Aires: Ediciones del Cifrado,  2007, p.169.
[3] Laurent, E. A carta roubada e o voo da letra. Correio, São Paulo, n.65, abril de 2010, p.83.
[4] Ibidem, p.53.
[5] No lugar da palavra “mugido”, da tradução para o português, pode ser encontrada a versão em francês “aboiement”, que quer dizer “latido”, de acordo com Cleyton Sidney de Andrade em seu texto “O analista e o mestre Zen”.
[6] Lacan, J. Seminário, livro 20: mais, ainda. Rio de Janeiro: Zahar Ed, 2007, p.157.
[7] Miller, J. A. O monólogo de apparola. Opção Lacaniana, n. 23. On line: www.opcaolacaniana.com.br
[8] Andrade, C. O analista e o mestre Zen: http://pepsic.bvsalud.org/pdf/rel/v1n2/v1n2a16.pdfhttp://pepsic.bvsalud.org/pdf/rel/v1n2/v1n2a16.pd
[9] Barthes, R. (2004) Inéditos, I: teoria. São Paulo: Martins Fontes, p.117.
[10] Excerto de Fernando José Karl em sua Oficina da Palavra Selvagem para o VII Encontro Catarinense de Escritores/ setembro de 2019.
[11] http://www.radiolacan.com/pt/topic/219/2
[12] Koan de autoria de Fátima Pinheiro.
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