BIBLIOTECA EM TEMPO REAL
Milena Vicari Crastelo – EBP/AMP (Diretora de Biblioteca EBP-SP 2019-2021)
Como pensar o tempo em tempos do Coronavírus? Como manter o laço mesmo em isolamento? Como se servir do virtual sem que ele substitua o encontro dos corpos?
Muitas questões se colocaram desde que fomos invadidos pelo COVID-19 – inimigo invisível, que chegou sem pedir licença, operando uma mudança radical em nossas vidas. Fazendo referência ao texto de Lacan de 1945: “O tempo lógico e a asserção de certeza antecipada”[1], o instante de ver foi como um relâmpago que imediatamente nos arremessou ao tempo para compreender.
Marie-Hélène Brousse em seu texto Os tempos do vírus se pergunta: Diante do vírus, o que se passa? E nos dirá: “Não se trata, portanto, de uma sucessão cronológica que nivela o tempo como um continuum. A ênfase é colocada sobre o que Lacan chama, então, uma “descontinuidade tonal” ou uma “sucessão real”, cada momento podendo ter ou não ter lugar, se resolver ou não, no seguinte. […] O tempo para compreender, de fato, exige uma reconfiguração de enquadres extremamente estreitos da realidade psíquica. Estes últimos permitem, em tempos normais, que os corpos falantes organizem sua vida cotidiana pela rotina de automatismos adquiridos a partir dos discursos que os constituem.” [2]
Essa rotina foi abruptamente interrompida, quebrada, o Real mostrou sua face de maneira devastadora, não temos mais esse tempo para organizar nossa vida cotidiana, mas seguimos – operando com as invenções – fazendo uso da tecnologia, que pode nos aproximar, mesmo em isolamento, e permitir que algum laço se faça, vamos inventando modos inéditos e inusitados de fazer laço.
Nesses tempos que correm sem o encontro dos corpos, nossa biblioteca se coloca a trabalho, a partir do desejo de cada um dos que compõem a comissão, trazendo suas elaborações e contribuições da leitura de textos de Freud, Lacan, de psicanalistas e também de outros campos do saber.
Os textos circularão na nossa Biblioteca em Tempo Real através das mídias digitais. Boa leitura!
[1] Lacan, Jacques. “O tempo lógico e a asserção de certeza antecipada. Um novo sofisma. In: Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 1998, p. 197-213.
[2] Brousse, Marie-Hélène. “Os tempos do vírus. In: Correio Express Extra n° 07, Abril de 2020, disponível em: https://www.ebp.org.br/correio_express/2020/04/04/os-tempos-do-virus/
Reinventar a ideia de contágio: uma convocação ética
Bianca Dias[*]
Diante das imagens de horror que nos são arremessadas cotidianamente desde o início da pandemia, cabe uma pergunta que é um chamado e um desvio: invocar o que há de silêncio nessas imagens e recuar frente ao excesso que delas provém, de forma a não sermos por elas destruídos.
No ensaio “Sideração”, Marie-José Mondzain localiza o que ela chama de uma indústria do espetáculo que anuncia e teatraliza o apocalipse. Como resistir estando diante do terror do inominável ao que a autora denomina uma espécie de imagem epiléptica da própria sociedade?
5 CENTÍMETROS POR SEGUNDO
Niraldo de Oliveira Santos – EBP/AMP
A Comissão de Biblioteca da Escola Brasileira de Psicanálise, Seção São Paulo, determinada a manter palpitante nossa relação com os livros em tempos de isolamento social decorrente do Covid-19, lançou a tarefa de escolhermos um texto e comentá-lo a partir do momento atual. Prontamente, escolhi o texto “Transitoriedade” (Freud, 1916), inserido no volume “Arte, literatura e os artistas”, da editora Autêntica[1].
Trata-se de um pequeno texto no qual Freud descreve um passeio “em meio a uma florescente paisagem de verão”, na companhia de um conhecido poeta e de um amigo. Hoje sabemos que se tratava do poeta Rainer Maria Rilke, e que o amigo “taciturno” era, na verdade, Lou Andreas Salomé, a companheira de Rilke, que tempos depois se tornou psicanalista. Este acontecimento se dá em agosto de 1913, um ano antes da eclosão da primeira guerra mundial.
PERGUNTAS PARA OS TEMPOS DO VÍRUS – O QUE PODEMOS EXTRAIR DE “REFLEXÕES PARA OS TEMPOS DE GUERRA E MORTE”, DE FREUD
Fabiola Ramon – EBP/AMP
Esse tempo de compreender sobre o impacto do coronavírus, experimentado por nossa comunidade analítica, nos leva até alguns textos de Freud. Um deles é “Reflexões para os tempos de guerra e morte” (1915), composto por dois ensaios: “A desilusão da guerra” e “ Nossa atitude para com a morte”, escritos seis meses após o início da primeira guerra mundial (1914-1918), certamente também em um tempo de compreensão da ruptura ocasionada pelo acontecimento mais brutal e mortífero vivido pela civilização ocidental desde o início da revolução industrial até aquele momento.
Nesses ensaios, Freud faz uma leitura inicial atenta dos impactos da guerra e da presença ostensiva da morte advinda disso. Apesar de mostrar-se impactado pela devastação de tal acontecimento, Freud se apresenta extremamente implicado em extrair consequências para a psicanálise. Sabemos a importância dessas consequências para suas formulações psicanalíticas, que seguiram sendo extraídas ao longo de muitos anos, uma delas é o conceito de pulsão de morte.
DO CONFINAMENTO DOS CORPOS AO DESCONFINAMENTO DA PULSÃO
Camila Popadiuk
Associada ao CLIN-a
Em certo tom chistoso, essa música poderia atualizar-se assim: O pulso ainda pulsa/E o corpo ainda é pouco/Ainda pulsa/Ainda é pouco/ “histeria”, “gripezinha”, Covid e pandemia.
Desde que iniciamos o distanciamento social como saída necessária à crise sanitária atual, esta música cantada pela voz pulsante de Arnaldo Antunes se apresenta frequentemente em minha cabeça. Lembro-me que ela também se fez presente em uma das questões de biologia na ocasião do vestibular.
AND YET, AND YET…
Silvia Jacobo
Associada ao CLIN-a
Borges sonhava o seu Paraíso como uma espécie de biblioteca, mas não como uma biblioteca infinita, já que considerava que havia algo incômodo e enigmático em todo infinito, ele a imaginava feita “sob medida do homem, uma biblioteca que permitisse o prazer da releitura, o sereno e fiel prazer do clássico e as agradáveis surpresas do achado e do imprevisto”.
