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Conversação da Orientação Lacaniana

Camila Popadiuk

A Conversação da Orientação Lacaniana que aconteceu no dia 22/08/2018, na sede da EBP-SP, teve como eixo de discussão a relação entre o saber e a verdade, tal como ela é apresentada por Miller em suas aulas XIX e XX de seu curso “O banquete dos analistas”.

Carmen Silvia Cervelatti e Luiz Fernando Carrijo da Cunha coordenaram esta conversação que foi animada pelas contribuições de Teresinha Meirelles, Daniela de Camargo Barros Affonso e Milena Vicari. Cada uma das colegas relevou um ponto em particular destas aulas, como a despatetização da verdade por Lacan, ao tomar a lógica matemática como uma referência da verdade, reduzindo-a assim a um jogo de letras; a política da psicanálise lacaniana no que diz respeito às suas relações com a ciência, sobretudo esta ciência que, ao fazer aliança com o discurso capitalista, traz ressonâncias diretas em nossa prática clínica; a relação do saber com a verdade do inconsciente, considerando que as formações do inconsciente produzem efeitos de verdade em uma experiência analítica, e que, uma vez inscritos e depositados, estes efeitos de verdade tornam-se saber, indicando então, uma passagem da verdade para o saber, sob transferência.

Estas contribuições serviram como disparadores para levantar algumas questões, tais como:

– A diferença entre verdade e real, uma vez que, como afirma Miller, “Se confundimos verdade e real, temos então uma noção de saber absoluto. É bem a partir do momento em que Lacan definiu o inconsciente pelo saber, que implica um modo de inclusão da verdade no saber, que foi necessário distinguir e cernir o real em relação ao saber e à verdade”;

– Se há saber no real, já que isto coloca uma distância ou uma aproximação da psicanálise com a ciência;

– Onde estaria o real nas duas categorias de saber elucidadas por Miller, do lado do “eu sei” ou “daquilo que existe”?;

– A distinção do Passe logificável, cujas formulações lógicas elucidam o nome de gozo e do Passe do Parlêtre, cujo savoir-y-faire transmite algo do gozo que não é nomeável, isto é, do gozo que não é possível saber.

Na abertura desta conversação, Luiz Fernando Carrijo da Cunha enfatizou a importância deste Seminário de Miller para pensar a formação do analista, questionando o lugar ocupado pelo psicanalista tanto dentro de sua comunidade analítica quanto fora dela. Ele chamou a atenção para a mudança do estatuto da verdade no ensino de Lacan, apontando que houve uma degradação da verdade em prol do saber.

Miller afirma que quando a psicanálise reivindica pelo não-saber, a função do saber, a partir da definição do inconsciente como verdade, é colocada em questão. A partir desta noção, o saber é o retorno da verdade recalcada – ele está sobre a barra (Saber/Verdade) – e isto “faz do saber do analista o sintoma de sua ignorância, ou seja, precisamente, de sua ignorância da verdade do inconsciente”.

A definição do inconsciente como saber coloca o saber sob a barra e exige diferenciar dois tipos de saber: o que sei e o que existe. É no intervalo entre estas duas categorias de saber que se inscreve o Sujeito Suposto Saber. Trata-se de “uma outra maneira de escrever o saber em posição de verdade”.

A partir do momento em que a equivalência do inconsciente e da verdade é questionada, a definição de inconsciente sofre um deslocamento. Ele passa a ser definido como saber. Contudo, Miller afirma que “é necessário medir exatamente [este deslocamento] para ter a chance de se encontrar ali neste affaire do não-saber”. Miller sublinha que esta mudança da definição do inconsciente é fundamental para o debate que está em jogo no “Banquete dos analistas”, mas que isto não é suficiente para dizer que tenhamos saído dele. Prossigamos então com este debate.

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