Caixa de Entrada

Imagem: Pixabay
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Como alojar de uma boa maneira, por meio de nosso Boletim TRAVESSIAS, uma transferência de trabalho, recortando os ditos espalhados pelas redes? A ideia consiste em abrir um espaço disposto à invenção, de modo a tecer uma expressão de laço entre o Boletim e a comunidade analítica.

Caixa de entrada terá como finalidade garimpar do chat do Zoom, os conteúdos produzidos durante as atividades preparatórias para as X Jornadas da EBP-SP – “Psicanálise em ato”, ali onde a palavra encontrou novas vias de circulação através de um comentário, uma questão sustentada, uma inquietação. Afinal, as palavras seguem sendo o alicerce primordial da invenção de Freud: o inconsciente participa!

Um canal de comunicação aberto à contingência que, posteriormente, poderá esclarecer sua utilidade e, talvez, algo sobre nossos tempos e sobre o laço com o Outro no terreno do discurso analítico.

Por Emelice Prado Bagnola (Associada ao CLIN-a)

06/10/2021 – Atividade preparatória das X Jornadas da EBP-SP – “Psicanálise em ato”

Cynthia Gonçalves Gindro (Associada ao CLIN-a):

Agradeço a atividade, e as ótimas questões! Queria pedir, se possível, para desenvolver um pouco mais a ideia do ato falho como uma dimensão do ato, se entendi bem. Achei interessante, e lembrei no chiste como já antecipava Freud. O chiste seria um ato falho do inconsciente, e Freud diz em A técnica dos chistes: “para descobrir a técnica desse chiste devemos submetê-lo ao processo de redução (…)”, ou seja, a partir da leitura da sua obra e da releitura que Lacan propõe poderia dizer que há no chiste todo um trabalho inconsciente do significante de condensar uma perturbação, e que nele comporta um efeito de vacilação da compreensão, assim como no ato? Acho interessante pensar nessa perspectiva do Witz, como essa tirada espirituosa sublinhada por Lacan, que existe como mensagem para estar em diferenciação com o código, e nesse caso estaria também em flagrante violação com ele.


Teresinha N. M. Prado (EBP/AMP):

Pensando aqui na questão do escrito como forma de transmissão e do que Lacan destacou dos escritos dos místicos, que de algum modo conseguem transmitir algo da sua solidão no endereçamento à falta no Outro, e me ocorreu que um AE, ao se endereçar à Escola, ensina por uma enunciação que declara amor à causa analítica e com isto libera a Escola de um lugar de identificação ao qual as formações de grupo tendem a nos levar…

Ao descompletar, o AE torna a Escola não – toda.


01/09/2021 – Atividade preparatória das X Jornadas da EBP-SP “Psicanálise em ato”

Veridiana Marucio (EBP/AMP):

 O social sempre mobiliza os afetos: seja o amor, o ódio, a angústia ou a ignorância. Isso me parece que faz com que se torne impossível uma teoria puramente lógica e/ou pragmática da política. É a partir das questões dos afetos e das paixões que podemos dizer com Lacan que o Inconsciente é a política.


04/08/2021 – Atividade preparatória das X Jornadas da EBP-SP – “Psicanálise em ato”

 Felipe Bier:

Ato analítico e tempo: a urgência subjetiva que precipita o encontro com o analista, ao contrário do amor de transferência que se desenrola numa análise, é abrupto, e muitas vezes exigente na demanda por acolhimento. O estatuto deste encontro, trata-se de um amor real, transferência em ato e que, na posição do analista, traduz-se em coragem, como sugere Lacan, no seminário 20: “Não é do defrontamento com este impasse, com essa impossibilidade de onde se define um real, que é posto à prova o amor? Do parceiro, o amor só pode realizar o que chamei, por uma espécie de poesia, a coragem, em vista deste destino fatal”, p.155. Seria possível falar em um amor em ato?


Débora Garcia (Associada à CLIPP):

O inconsciente no Seminário 11 é tomado como tropeço, desfalecimento, rachadura, lapso, assim como o conjunto dos efeitos da fala sobre um sujeito, sendo o sujeito constituído pelos efeitos dos significantes. Ao não separar a presença do analista do conceito de inconsciente, e sim articular a presença do analista à própria manifestação do inconsciente, Lacan nos mostra que é preciso um analista para viabilizar a existência do inconsciente e as consequências de se render a ele. A presença do analista, então, articulada ao inconsciente permitiria ao analista seu ato? E ainda, a entrada em análise seria um efeito do ato analítico?


30/06/2021 – Lançamento das X Jornadas da EBP-SP – “Psicanálise em ato”

Leandro Verzignassi Nunes (Associado ao CLIN-a):

No primeiro capítulo do seminário 19, Lacan diz que o que está elidido (os três pontos) no título deste seminário é “um dizer” e que este poderia exprimir-se na proposição: “não existe relação sexual”.

Poderíamos pensar então que a Psicanálise em ato parte dessa hiância, desse lugar vazio, … ou pior?

Poderíamos tomar a própria interpretação como ato, considerando que ela é da ordem do dizer do analista (e não dos ditos)?


Matheus Kunst:

Em um texto de Serge André, intitulado “Ato e interpretação”, afirma-se que o grande interesse que Lacan teve no estudo da retórica foi o que, inicialmente, o conduziu na via do ato analítico. Tanto a retórica da antiguidade, quanto a barroca, em especial a de Baltasar Gracian, tiveram importante incidência neste campo. Lacan também não dissociava a retórica da dimensão do estilo. Citando André, “Todos os que dele [Lacan] se aproximaram lembram a que ponto ele manejava a arte da pose, da mímica, da tonalidade discordante, da paródia e mesmo da bufonaria […] E é no jogo de sua comédia, no excesso aonde levava o parecer e a ficção, que devemos encontrar o poder do que ele chamou o ato do psicanalista”. Tal passagem pode vir a sugerir uma reflexão, portanto, no âmbito dos preparativos das Jornadas EBP-SP acerca do que poderia ser uma dimensão performativa da linguagem em jogo e que pode se expressar nas seguintes questões: estaria o desejo do analista, operador da prática e que põe a psicanálise em ato, necessariamente articulado a uma performance, ou melhor, a um uso retórico da linguagem? Ou a psicanálise em ato prescinde a ela?