BOLETIM ELETRÔNICO DAS XI Jornadas da EBP - Seção São Paulo Local das Jornadas: Meliá…
DESAJUSTE ENTRE A VERDADE E O REAL
Joaquín Carrasco
Membro da NEL e da AMP
A relação entre o sujeito e a verdade varia entre o começo de uma análise e uma análise que dura. Este ponto, que encontramos no argumento sob o subtítulo “O parentesco da verdade com o gozo”, causa-me especial interesse. Proponho-me, então, um pequeno desenvolvimento em torno desta variação, tomando como principal referência “Sutilezas analíticas”, curso em que Jacques-Alain Miller distingue três modalidades da análise: a análise que começa, a análise que dura e a análise que termina.
A análise que começa, essa que “se desenvolve em uma atmosfera de revelação”[1], está marcada pela formalização de algo que permanecia amorfo. Graças à regra fundamental e à suspensão de todo juízo por parte do analista, o analisante começa a dizer aquilo que se apresenta a ele. Em outras palavras, um enfraquecimento do controle egóico sobre o que se diz, para dar lugar a um deixar-se falar próprio do sujeito. Graciela Brodsky coloca da seguinte maneira: “A ideia de Lacan é que o inconsciente com o qual operamos se constrói na análise, o inconsciente é um produto da transferência, é um produto da associação livre”[2]. São as condições necessárias para o encontro com uma verdade inédita para o sujeito, uma verdade que se produz a partir da experiência do inconsciente.
Com o tempo, o analisante se depara com essas verdades que não são estáticas, mas que vão se transformando. São verdades movediças. Encontra-se com algo que se experimenta como definitivo, mas que logo cai ou muda, dando lugar a uma nova verdade. Poderíamos dizer que é o encontro com A verdade que não existe. Apesar disso, alguns sujeitos continuam suas análises. Nesse caso, quando se trata de uma análise que dura, Miller nos diz que “a revelação se faz mais escassa, se detém, inclusive desaparece. Pois, trata-se de um regime completamente distinto. A revelação é substituída, do lugar essencial, pela repetição […]. Na análise que dura, evidentemente, há revelações, mas o que se espera na verdade – tanto o analisante como o analista – é algo da ordem da cessão de libido, a retirada da libido, de alguns elementos rastreáveis, que se extraíram na época da revelação”[3]. Da dimensão da verdade à dimensão libidinal.
O gozo vai tomando um lugar de maior protagonismo à medida que o analisante se depara com a repetição sintomática. Apesar das voltas e da produção de verdades que concernem ao inconsciente, o sintoma persiste. Agora bem, é preciso dizer que a libido está desde o princípio, considerando que a entrada em análise “só é concebível com a condição de um deslocamento de investimento libidinal sobre o analista”[4]. No Seminário 8, Lacan diz do seguinte modo: “Pelo simples fato de haver transferência, estamos implicados na posição de ser aquele que contém o ágalma, o objeto fundamental que está em jogo na análise do sujeito”[5]. Se trata do momento no qual o analista se torna partenaire, entrando no programa de gozo do analisante. Esta dimensão libidinal, presente desde o início, vai se desdobrando durante a análise.
Esta substituição – não total – da verdade pela repetição que o sintoma impõe, põe em destaque a dimensão do gozo. Vai construindo o fantasma e situando o objeto que organiza a existência do parlêtre. É nesta dimensão que se joga o final de uma análise, enquanto provoca uma “mutação que muda ao sujeito o que há de mais ‘profundo’, e que é sua relação com o gozo. Esta relação, na medida em que se revela condicionando tudo o que, para um sujeito, produz sentido e significação, é chamado de fantasma fundamental. Seu desvelamento, seu atravessamento, não deixa de ter incidências na própria pulsão; a posição que dela resulta é de um ser que não é mais desavisado do seu fantasma”[6]. No horizonte da análise, não encontramos uma verdade absoluta a alcançar, mas sim uma mutação da relação entre o sujeito e seu gozo.
Diante da pergunta: quem seria analista? Miller afirma: “alguém que tenha podido legitimamente concluir uma impossibilidade de hystoricização, poderia dar testemunho da verdade mentirosa sob a forma de cingir o desajuste entre a verdade e o real”[7].