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Fracasso entre produtividade e produto

Diego Cervelin (EBP / AMP)

No momento da inscrição de um cartel, cada cartelizante apresenta uma questão de trabalho. Ela raramente se apresenta como tal logo nas primeiras reuniões e requer que, cada um, se empenhe em encontrar um ponto de interesse singular, algo seu e que resta além da delimitação do tema. Uma questão, sob essa perspectiva, parece ser importante para orientar não apenas um percurso de leituras, mas também aquilo que vai vir como produto do cartelizante – uma elaboração que, em vez de se restringir ao saber da resposta, também permite ressoar um tanto do vivo de cada um[1].

Nada impede que, na tentativa de formular uma resposta, alguém acabe recorrendo às formulações já conhecidas e se detenha no saber estabelecido por outros. Mas isso é, de fato, suficiente para tocar aquele interesse singular mobilizado pelo cartelizante? Pelo menos de acordo com os arranjos dos quatro discursos, “produto” parece ser algo que decorre de um funcionamento que implica lugares (agente, outro, verdade, produção) e termos (S1, S2, a, $) que se intercambiam dando margem para diferentes modos de fazer frente ao real, atrelando um tanto de saber e um tanto de gozo. Se consideramos que produto, no cartel, também é algo que decorre de um certo funcionamento ou “disfuncionamento”, é provável que ele não se confunda com aquela resposta esperada lá no início do percurso. Seria isso um fracasso?

Elisa Alvarenga recorda que “o fracasso […] é inerente à estrutura mesma do saber analítico, na medida em que é sua condição de possibilidade […] a clínica psicanalítica orienta-se pelo real, por aquilo que não funciona, extraindo daí suas possibilidades”[2]. Me parece que isso pode se aplicar até mesmo aos carteis, uma vez que seus produtos comportam uma elaboração de saber não necessariamente exaustiva. Em outros termos, isso significa que um produto de cartel aposta em um saber não produtivista, um saber diferente daquele que predomina no discurso universitário e que faz dos sujeitos seus restos. No Seminário 17, Lacan fala dos estudantes como “astudados”, justamente porque eles meio que se perdem diante de um saber totalizante, um saber que não consegue vibrar nas entranhas de quem se empenhou em produzi-lo[3].

Na contramão disso, no próprio dispositivo do cartel, abre-se um convite para que cada cartelizante também aposte em uma elaboração de saber que talvez já se satisfaça ao promover uma reorientação de perspectivas, de modos de ler. Ou melhor, na medida em que se trata de tocar uma questão singular, há algo que parece ir além do ganho epistêmico, implicando uma mutação subjetiva que se opera nas entranhas de cada um. Diante disso e considerando que há gozo até mesmo onde um desejo balança, é possível que inclusive as dificuldades experimentadas no cartel possam fazer as vezes de questão, trazendo para cada cartelizante uma nova possibilidade de elaborações.

 


[1] Partindo do escrito sobre “A psiquiatria inglesa e a guerra”, os grupos propostos por Bion interessaram Lacan antes mesmo de que ele estabelecesse uma lógica de funcionamento para seu dispositivo de cartel: no frenesi do front, pequenos grupos deveriam se organizar a fim de encontrar direcionamentos e eventuais resoluções para problemas pontuais – sem precisar recorrer às figuras de autoridade. Ou seja, diante de um problema mais ou menos coletivo, cada um dos implicados deveria colaborar colocando algo de si.

[2] Alvarenga, Elisa. O “fracasso” na medicina e na psicanálise. In: Curinga 34 – Insistência da pulsão. Belo Horizonte: EBP – MG, jun. 2012, pp. 75-76.

[3] Lacan, Jacques. O Seminário, livro 17 – o avesso da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1992, p. 99.

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