Valéria Beatriz Araujo “Assim, de supetão, qualquer recém-chegado pode fazer avançar a psicanálise? Sim, é…
Cartéis também fazem redes
Priscila S. de Sá Santos
A imagem de divulgação escolhida para esta noite do Procura-se Cartel foi a de uma rede. A ideia da rede surgiu a partir da fala de Beatriz Udênio na primeira Noite de Cartéis deste ano. Conversávamos sobre as ofertas de formação nas redes sociais e sobre como, em um cartel, o saber ocupava um outro lugar. “Cartéis também fazem redes”, Beatrix nos disse.
O cartel é um convite ao trabalho que se constitui num coletivo, mas que, desde o momento da busca, inclui o sujeito em seu desejo de saber. Não há anonimato, portanto, num cartel. Também não há promessas de saberes prontos, nem oferecidos como um “conhecimento-todo” a ser absorvido passivamente.
A origem da ideia surge da aposta subversiva de Lacan contra o engessamento e o didatismo da época da fundação da Escola. Miller relembra, em O cartel no centro de uma escola de psicanálise[1], que os pequenos grupos de estudantes, “sem ‘profs’ ou o menos possível com ‘profs’” eram uma resposta antiautoritária ao sistema. Estes pequenos grupos inspiraram o formato proposto por Lacan para o cartel. Uma proposta que visa reduzir o líder e a mestria ao mínimo possível: “o pequeno grupo é um ambiente de trabalho no qual trabalhamos juntos e no mesmo nível”, diz Laurent, que também lembra que a escolha por este formato foi justamente que o trabalho em pequenos grupos servisse a “lutar contra o mal-estar da identificação com o mestre”[2].
O conceito do cartel está novamente em alta, e percebemos nestes meses que há bastante movimentação e interesse pela experiência. É curioso que um dos principais meios de busca pelo trabalho de cartel passe justamente pelas redes sociais – sedes do discurso do mestre contemporâneo. As redes servem às aproximações, mas precisam ser furadas para que se saia do conceito para a efetiva experiência de escola, como nos apontou Beatriz Udênio. Será que, neste contexto, o cartel – este órgão de base de operação da escola –guarda o lugar de subverter a face massiva e autoritária do mestre, agora com suas ofertas sedutoras de consumo e identificação? O trabalho “de formiguinha” do cartel e da escola – lembrando o vídeo da nossa primeira atividade – pode ser considerado uma resposta aos discursos de “torne-se psicanalista em um ano”?
Miller, no texto Cinco variações sobre o tema da elaboração provocada[3], destaca o papel do propósito de saber de um cartel. Não a partir do fascínio, mas de um apelo ao trabalho, que produza, através das interrogações, a elaboração de um saber, mas um saber que contemple os furos e os embaraços subjetivos: uma elaboração provocada pelo coletivo do cartel e pelo papel provocador do Mais Um, que não apague, no entanto, a implicação subjetiva e a enunciação de cada cartelizante, que está ali a partir das suas insígnias e com o seu não saber como guia. Marina Recalde, convidada desta seção para a Jornada deste ano, faz uma ótima observação sobre isso quando comenta uma frase de Miller: “Nadie entra en la Escuela si no está desnudo”, trazendo-a para a experiência do cartel: “Nadie entra en un cartel si no está desnudo”[4].
Volto ainda ao significante rede lembrando da associação que um dos colegas desta comissão fez com o trecho de Guimarães Rosa que aparece no vídeo desta atividade: “rede é uma porção de buracos, amarrados com barbantes”. Os vazios são tão necessários à confecção da rede quanto os barbantes que a constroem. Assim, para concluir, dou uma volta a mais na frase de Marina: ninguém entra em um cartel se não está nu e a experiência de cartelizante não caminha se não estiverem lá os furos no saber.
[1] MILLER, J-A. “O cartel no centro de uma escola de psicanálise”, p. 21. In: BROWN, N. (org.) Cartel, novas leituras. São Paulo: Escola Brasileira de Psicanálise, 2021.
[2] LAURENT, E. “O real e o grupo”, p. 43. In: BROWN, N. (org.) Cartel, novas leituras. São Paulo: Escola Brasileira de Psicanálise, 2021.
[3] MILLER, J-A. Cinco variações sobre o tema da elaboração provocada. In:
[4] RECALDE, M. Enunciación <> Saber. Disponível em: https://cuatromasunoeol.com/edicion/005.politica-de-la-enunciacion.marina-recalde
