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Cartel – Dispositivo que contempla o não-saber?

Marcia Stival (EBP / AMP)

Agradeço o convite de Maria Teresa, diretora de Cartéis da Seção Sul, para participar da atividade chamada “Procura-se Cartel”. Ela já existe há tempos, mas o tom proposto tem me levado a questionar: qual dimensão pode ter a expressão “Procura-se Cartel”?

Coloquei a pergunta porque o formato desta atividade não tem se restringido somente a reunir pessoas interessadas em montar cartéis. Sim, pessoas podem se conhecer, verificar quem tem interesses semelhantes e este movimento pode ser o início da inscrição de cartéis. Mas me parece que há um passo a mais. A cada encontro do “Procura-se Cartel”, convidados trazem alguns pontos para abrir a conversa com os interessados neste dispositivo proposto por Jacques Lacan. Isto me leva a apostar que tem se inscrito um lugar de investigação sobre o cartel.

Se há uma procura é porque nem tudo foi respondido, ou seja, há enigmas que nos instigam a trabalhar. Então podemos dizer que, ao nos aproximarmos desta proposta da Diretoria de Cartéis, já somos encaminhados a nos deparar com o não-saber? Uma ausência que nos leva a conversar e investigar sobre o que comporta um cartel? E pode estar aí uma brecha para trazermos experiências que digam como este não-saber já foi sustentado em encontros de cartéis?

Trago uma hipótese sobre este não-saber e sua relação com o cartel, a partir de um texto de Lacan intitulado “D’Écolage” (1980). Este escrito é contemporâneo ao período em que Lacan dissolveu a Escola Freudiana de Paris (1980) e fundou a Escola da Causa Freudiana (1981). Em “D’Écolage”, Lacan destaca que, ao dar partida para uma nova Escola (da Causa Freudiana), ele restaura o órgão de base retomado da fundação da Escola Freudiana. Assim, no momento de fundar algo novo (uma Escola), que viesse sustentar a Orientação, Lacan resgata a presença do cartel marcando a relevância de consertar um estrago. Isto é restaurar: fazer algo voltar a seu estado original.

O que há no estado original da psicanálise que Lacan sustentou até o fim, na intenção de preservar a psicanálise?

Lanço a hipótese de que sustentar o não-saber pode nos trazer inquietudes, favorecer estarmos à altura da época em que vivemos e nos colocar com possibilidades de preservar o órgão de base da Escola. Afinal, não é o não-saber que mobiliza o desejo de saber, tão valorizado num cartel?

Levo em conta algumas mudanças práticas no dispositivo, experimentados por muitos de nós, e que em algum momento nos remeteu e remete ao não-saber. Por exemplo, quando Lacan criou o dispositivo, ele não falava de cartel ampliado e fulgurante. Os cartéis eram realizados somente presencialmente. Era difícil fazer cartel com colegas de outras Escolas da Associação Mundial de Psicanálise por conta do distanciamento físico…

Com essas amostras da presença do não-saber, que podem tocar o funcionamento do cartel na atualidade, bem como frente à relevância de sustentar vivo este ponto de Orientação, trouxe estes apontamentos na aposta de podermos conversar um pouco.

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