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Considerações sobre o cartel e seus possíveis efeitos de formação
Valéria Beatriz Araujo
“Assim, de supetão, qualquer recém-chegado pode fazer avançar a psicanálise? Sim, é essa a aposta inicial da Escola, quando não se define como uma ‘escola de psicanalistas e candidatos’, mas de trabalhadores.” [1]
Trabalhadores, a que se refere este termo? É o que pede Lacan em 1964, no Ato de Fundação[2] de sua Escola: “Não necessito uma lista numerosa, mas de trabalhadores decididos”. Ele está apontando aí, não ao amor ao saber, mas ao desejo de saber. Trabalhadores, na perspectiva de que vão contra a ignorância, no sentido da repressão, do horror ao saber. Aliás, não há analista, a não ser que este desejo de saber surja, como nos lembra Miller[3] em El banquete de los analistas. Portanto, a posição de trabalhadores não é uma posição sacrificial, mas, sim, um lugar de satisfação. Uma experiência de Escola.
É também neste mesmo texto de referência para nós, o Ato de Fundação da Escola, que Lacan apresenta o cartel e define os seus princípios. Ali, já vemos o cartel ocupando um lugar central na formação do psicanalista:
Para a execução do trabalho, adotaremos o princípio da elaboração apoiada num pequeno grupo. Cada um deles se comporá de no mínimo três pessoas e no máximo cinco, sendo quatro a justa medida. MAIS UM, encarregado da seleção, da discussão e do destino a ser reservado ao trabalho de cada um. Após um certo tempo de funcionamento, os componentes de um grupo verão ser-lhes proposta a permuta para outro. (…) todo trabalho a ser empreendido será submetido à Escola.
Já em 1980, o cartel é nomeado por Lacan como o órgão de base da Escola em outro texto de referência, D’Ecolage[4], cuja tradução permeia algo entre decolar e descolar, texto onde ele destacará a dissolução e a permutação como tempos fundamentais do cartel, e cujas linhas principais são:
– Quatro se escolhem para prosseguirem num trabalho que deve ter um produto. Eu preciso [diz ele]: um produto próprio a cada um, e não coletivo.
– A conjunção dos quatro se faz em torno de um Mais-um, que deve zelar pelos efeitos internos e provocar a elaboração.
– Nenhum progresso deve ser esperado, a não ser uma exposição periódica dos resultados, como as crises de trabalho.
– Para prevenir o efeito de cola, deve-se fazer permutação, sendo o término fixado no final de um ano, máximo dois.
Qualquer pessoa pode participar de um cartel, sendo o que permite uma aproximação com a Escola. É um dispositivo o qual chamamos órgão de base da Escola, “ou seja, que aquilo que se elabora num cartel possa estar atravessado, nas melhores condições, por essa tensão entre o Um e o Múltiplo da Escola”[5]. O cartel permite fazer circular o desejo de saber, havendo um saber inédito que aí aparece, fruto da enunciação de cada um. De cada um, mas não sem os outros.
Todos os participantes do cartel estão em posição cartelizante, reunidos em torno de um tema comum, para estudar, fazer leituras de textos, trabalhar casos clínicos, ter interlocução com outros saberes, promover intercâmbios e extrair daí questões e elaborações, tendo, cada um, sua própria questão dentro do cartel. É um coletivo de trabalho, não pautado pela autoridade de um chefe/mestre, ou seja, o Mais-um é um membro do cartel e também se encontra em posição cartelizante, em relação aos outros e ao saber. “Não se trata de uma hierarquia do avesso, mas de uma organização circular, marcada por um igualitarismo evidente. No sistema de cartéis, todos têm o mesmo valor.” [6]
Sabemos que a formação do analista é permanente e se constitui num tripé: análise pessoal, supervisão e formação teórica. O cartel encontra-se particularmente ligado à formação teórica, mas em conexão com os outros dois pontos, produzindo seus possíveis efeitos de formação. Numa relação articulada com a experiência de Escola. Uma experiência inédita, sempre a cada vez, uma experiência de leitura e investigação, que considera que o saber que se constrói num cartel é a partir de um não saber, não está posto a priori e nem se fecha de forma conclusiva, mas, ao contrário, abre-se para novas questões e perspectivas, a partir da elaboração que cada um produziu durante o tempo de duração do cartel. Uma elaboração que é sempre uma elaboração em curso, que segue em seus efeitos de formação, causando o desejo de saber, no encontro com um próximo cartel.
Os interessados podem localizar pessoas com temas afins e reunirem-se, delimitarem suas questões para iniciar o trabalho, conversarem sobre quem poderiam convidar para ser o Mais-um do grupo, o qual, tal como Lacan colocou nos textos fundamentais que comentamos acima, não é um expert, mas alguém também interessado em trabalhar o tema e provocar a elaboração. “É um líder, mas um líder modesto, (…) podemos fazer dele uma função, e, mais ainda, permutativa. (…) De fato, (…) o cartel é uma máquina de guerra (como o diz Lacan) contra o didata e sua cambada”.[7] (Uma máquina de guerra contra o totalitarismo, podemos acrescentar.
Para concluir, em relação à escolha do tema, esta não se dá pela lógica das identidades (do tipo “todos queremos estudar a mesma coisa”). O importante são alguns pontos em comum, uma intersecção, tal qual na lógica dos conjuntos. A questão de cada um, como tal, muitas vezes só se saberá, de fato, quando o cartel termina, quando há um percurso em relação ao tema que inicialmente nos levou a um cartel.
[1] BASSOLS, Miquel. A porta do cartel. In: BROWN, N. (org.). Cartel, novas leituras. São Paulo, Escola Brasileira de Psicanálise. 2021, p.49.
[2] LACAN, J. “Ato de Fundação”. In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003
[3] MILLER, Jacques-Alain. El Banquete de los Analistas. Buenos Aires: Paidós, 2000, p. 175
[4] LACAN, J. D’Ecolage, in: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.
[5] MANDIL, Ram. O cartel repercute a lógica da Escola. In: Revista Correio, n 95. Escola Brasileira de Psicanálise, 2026.
[6] MILLER, Jacques-Alain. O cartel no centro de uma Escola de psicanálise. In: BROWN, N. (org.). Cartel, novas leituras. São Paulo, Escola Brasileira de Psicanálise, 2021, p. 24
[7] MILLER, Jacques-Alain, op. cit., p. 20-22-23.
