Valéria Beatriz Araujo “Assim, de supetão, qualquer recém-chegado pode fazer avançar a psicanálise? Sim, é…
Cartel: elaboração sustentada num pequeno grupo
Maria Teresa Wendhausen (Membro EBP/AMP)
Recentemente, em 11/6, tivemos uma atividade de “Noite de cartéis”, com Beatriz Udenio, da Escuela de la Orientacion Lacaniana (EOL). Ela deu ao título de sua fala “O cartel e seus possíveis efeitos de formação”.
Dentre tantos pontos fundamentais que trouxe nesta conversa que tivemos, que me tocaram, elegi um deles para trazer hoje nesta atividade de procura-se cartéis, pois a meu ver é um convite ao trabalho e me pareceu transmitir um ponto crucial a respeito deste subversivo dispositivo criado por Lacan e que ele considerava o órgão de base para o trabalho a ser executado em sua Escola, o cartel. Vamos encontrar este lugar do cartel no “Ato de fundação da Escola”[1], que é de 1964.
Isto dá, a meu ver, a dimensão que o cartel ocupa para Lacan na relação com a Escola e com a transmissão da psicanálise, portanto o trabalho de Escola, que ele vai nomear transferência de trabalho.
Beatriz fala da importância, da delicadeza, e da amabilidade do pequeno grupo que é o cartel, para que ele produza efeitos de formação, ou seja, mutações subjetivas naqueles que dele participam. E desdobra isto “o trabalho com os outros implica em transferência de trabalho, implica um laço de confiança, amigável, onde temos a possibilidade de trocar de forma simples e genuína e também implica o imprevisível advento que faça acontecimento. A contingência também joga aí seu papel. Conversar de forma cordial, onde cada um pode ser ouvido pelos outros, sem julgamento, sem carga de hierarquia ou avaliação”[2].
Falar em laço de confiança, de delicadeza, amabilidade, num pequeno grupo, pode fazer pensar um grupo qualquer, e, até, de amigos. Então, como diferenciar este pequeno grupo, o cartel, de outras formações de pequenos grupos ou dos grupos em geral?
Beatriz fala de um cartel referindo-se a estes termos e sustenta isto a partir de um texto de Miller, “Novas reflexões sobre o cartel”, no qual dentre outros esclarecimentos ele diz da função do mais-um que é um “líder mais modesto, empobrecido”[3], ou nas palavras de Cleiton Andrade referindo-se ao mais-um, “precariedade em relação ao saber, atento ao seu lugar de elemento não homogêneo no conjunto e que por isto descompleta”[4].
Vale ressaltar que a precariedade do saber do mais-um não se refere a que não saiba, mas sim que sua função opera no sentido de preservar o furo no saber no cartel. Trata-se de desconsistir o saber, não há um saber pronto, não há Outro do Outro que saiba, então, é um saber a ser construído. Isto está para quem se aproxima da Escola, para quem dela participa, para membros, não membros, iniciantes, mais experiente, porque não há um saber acabado.
Minha hipótese é que é este afrouxamento do lugar do saber que permite a delicadeza, a amabilidade, o laço de confiança, sem hierarquia ou avaliação. Tudo isto não se dá sem que a função do mais-um esteja instalada em um cartel, um furo, um furo que amarra os 4. O mais-um aí é menos um. O mais-um encarna este furo, este menos.
Não é que não haja um saber a ser alcançado num trabalho de cartel, apenas ele não é consistente. O que entendo é que um saber furado, como na definição que Guimarães Rosa dá de rede, “uma porção de buracos amarrados por um barbante”.[5] Um furo no saber.
[1] JACQUES, Lacan. Escritos. Rio de janeiro, Zahar, 1998
[2] UDENIO, Beatriz. Atividade de Noite de cartéis, EBP-Sul, 11/6/25.
[3] MILLER, J-A. Reflexões sobre o cartel. Disponível em: https://ebp.org.br/wp-content/uploads/2024/02/22Novas-reflexoes-sobre-o-cartel22-Jacques-Alain-Miller.pdf. Acesso em 21/5/26
[4]ANDRADE, Cleyton. O lugar do Mais-Um: o que faz do cartel um grupo especial? Publicado em: Seção Sul – EBP, 20 jul.2021. Disponível em https://ebp.org.br/sul/o-lugar-do-mais-um-o-que-faz-do-cartel-um-grupo-especial/
5 ROSA, Guimarães. Tutameia. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 2017, p 32.
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