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Empenhar a própria pele

Paula Nathalie Nocquet

Queria compartilhar hoje algumas considerações em torno do saber na experiência do cartel. E primeiramente ressoa já há algum tempo para mim uma frase de Jacques Lacan[1], ao dizer que: “o saber é custoso ou gustoso, pelo que é preciso, para tê-lo, empenhar a própria pele”.  O que quer dizer que o saber implica empenhar a própria pele?

Para continuar a tentar responder isso, me apoio num texto de Mauricio Tarrab, cujo título é bastante curioso: No cartel se pode obter um camelo[2]. Ali, retoma uma história do livro O homem que calculava, de Malba Tahan.

Nessa história, três irmãos precisam repartir a herança do pai: 35 camelos. O testamento determinava que a metade corresponderia ao irmão mais velho, um terço para o segundo irmão e um nono para o mais novo. Mas havia um problema: as contas não fechavam. A metade de 35 é 17,5, um terço disso também não é um número inteiro, e o terceiro irmão teria que receber algo próximo de quase 4 camelos. Evidentemente, não era possível cortar um camelo ao meio. Eles estavam presos a um cálculo impossível. Até que o homem que calculava propõe uma solução inesperada: acrescenta à conta o único camelo que ele e seu companheiro tinham, para que o total ficasse par. Não foi fácil de convencer o colega, já que era o único camelo que tinham para seguir pelo deserto.

Agora são 36 camelos. Como resultado, o mais velho recebe 18; o segundo irmão recebe 12; o terceiro recebe 4. Todos recebem um pouco mais do que estava previsto! E depois da divisão, ainda sobram dois camelos: um é devolvido ao comerciante que o havia cedido anteriormente e o outro fica como um ganho para o homem que calculava de modo que, finalmente cada um pode seguir o caminho pelo deserto com um camelo.

O que essa pequena história ensina? Que, às vezes é preciso colocar algo em jogo para que uma solução possa aparecer, arriscar algo.

No caso do companheiro, aquele era o único camelo que eles dispunham para continuar a viagem, e ainda assim foi esse empenho que abriu a possibilidade de um ganho com um camelo que antes não tinham. Talvez seja isso que Lacan indica quando diz que o saber implica empenhar a própria pele. Ou, dito de outro modo, que é preciso ceder algo de si — uma espécie de libra de carne — para que algo de um saber inédito possa surgir.

Obter um camelo num cartel. Não seria isso que está em jogo quando alguém se propõe a fazer parte de um cartel? Que do trabalho do cartel sobre algo possa surgir um pequeno achado, uma invenção que não estava prevista de antemão.

Isso pode aparecer justamente quando algo do saber já constituído falha, quando tropeçamos num ponto. Escrever não é simplesmente relatar o que já se sabe, Miller[3] assinala que um escrito com automatismo, podemos dizer que caminha sozinho, mas um escrito que não é com automatismo, tropeça.

Talvez seja justamente isso que acontece num cartel. Tropeçamos. Tropeçamos com um ponto de não-saber, algo que nos surpreende, que aparece como um encontro contingente, que nos tira do automático e nos provoca. É nesse ponto que surge uma pergunta, aquilo que chamamos de questão de cartel. Uma pergunta que fura o saber que já temos e que nos causa a trabalhar.

Escrever, muitas vezes, começa justamente por um tropeço. Não se trata de chegar a um saber completo, trata-se, talvez, de produzir um pequeno achado, algo que represente uma novidade para aquele sujeito. Claro que contamos com o saber prévio: as referências, as citações, os textos que de certa forma orientam. Mas se ficamos apenas nisso, é um saber que se sustenta no idêntico, um saber que, como disse Miller, anda sozinho. Talvez o cartel funcione justamente como um dispositivo para interromper esse automatismo,

Talvez o cartel funcione justamente como um dispositivo para interromper esse automatismo. E é por isso que toca a formação do analista, considerando que não se trata simplesmente de uma aquisição de saberes, mas também da possibilidade de uma elaboração própria, “uma transformação no ser do sujeito”.[4]

O saber que a psicanálise produz não está pronto, como diz Tarrab. Há um ponto em que ele não se descobre, ele se inventa. E essa invenção tem lugar numa experiência. Uma experiência que se faz entre a elaboração coletiva e a enunciação singular de cada um.

Talvez possamos dizer então que, em um cartel, também se aposta a isso: colocar algo próprio em jogo, arriscar a uma pergunta própria, permitir-se tropeçar com o não saber. Ceder algo de si para que algo novo possa aparecer — ao empenhar um pouco da própria pele — que seja possível extrair dessa experiência algo que antes não estava ali previsto. Quem sabe…até um camelo.

Que isto sirva também de convite para quem estiver procurando um cartel: permitir-se tropeçar, e colocar algo próprio em jogo para ver o que pode surgir daí.

 


[1] Lacan, J. O seminário livro 20: mais, ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., p.130

[2] Tarrab, M. En el cartel se puede obtener un camello. Cuatromásuno, EOL.

[3] Miller, J-A. El ultimissimo Lacan. Buenos Aires: Paidós, 2014, p.23

[4] Miller, J-A. “De la formación a la transformación”. Em: Cómo terminan los análisis. Buenos Aires: Paidós, 2023, p.355.

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