

Comissões das VII Jornadas da EBP-LO
Ponto 2 – fato estético e a experiência analítica
Virgínia Carvalho
“A música, os estados de felicidade, a mitologia, os rostos trabalhados pelo tempo, certos crepúsculos e certos lugares querem dizer algo, ou algo disseram que não deveríamos ter perdido, ou estão prestes a dizer algo; essa iminência de uma revelação, que não se produz, é talvez o fato estético.” Borges, 1950[1].
Embora o psicanalista raramente se sinta “estimulado a investigações estéticas”, ainda “que ele não restrinja a estética à doutrina do belo, mas a descreva como a doutrina das qualidades do nosso sentir” (Freud, 1919/2020, p.29), quando o faz, ele se depara, assim como Borges, com aquilo que não é de interesse da estética clássica: o infamiliar. Para Freud (1919/2020), o psicanalista nada irá encontrar nas meticulosas exposições da estética que se ocupam do belo e dos sentimentos positivos. Já no campo do infamiliar, apresentam-se os sentimentos repugnantes, contraditórios e penosos, a angústia, o real do gozo, e isso está no coração da prática psicanalítica.
Aliás, a psicanálise foi inventada a partir dos dejetos do mental: o sonho, o lapso, o ato falho, os chistes, o sintoma (Miller, 2010). Onde até então se buscava uma salvação pelos ideais, Freud propôs uma via completamente inédita, a da “salvação pelos dejetos”. O dejeto, de acordo com Miller (2010), é o que os alquimistas chamavam de caput mortuum, aquilo que cai, que tomba, quando por outro lado algo se eleva. É o que se evacua, que é informe, um pedaço, uma peça avulsa. Em alguns tipos de arte, como o surrealismo, há o que ele nomeou de uma “esteticização do dejeto”, ou seja, um tratamento estético dado ao dejeto.
Dizer que na experiência psicanalítica há uma “salvação pelos dejetos” não corresponde à uma estetização, pois o ato analítico não visa embelezar, harmonizar ou enquadrar o dejeto para que ele caiba em algum universal. Lacan chega a demarcar, em seu Seminário 15, que o ato analítico é o que acontece exatamente quando saímos do universal.
A psicanálise não é uma Weltanchaung, não é uma visão de mundo, já dizia Freud (1933/1996). Tampouco é uma filosofia. Para o Lacan dos anos 50 (1958/1998), “a psicanálise só se aplica, em sentido próprio, como tratamento, e, portanto, a um sujeito que fala e que ouve” (p.758). Em 1977, na abertura da Seção Clínica em Vincennes – mencionada por Jacques Allain Miller ao nos contar sobre o tema do próximo Congresso da AMP – Lacan foi categórico: “O que é a clínica psicanalítica? Não é complicado, a clínica tem uma base: é o que se diz em uma psicanálise”. Além disso, a clínica psicanalítica deve consistir em interrogar não somente a análise, mas aos analistas, a fim de que prestem contas do que sua prática tem de arriscada, que justifique a existência de Freud (Lacan, 1977). É nessa perspectiva que Lacan considera a clínica psicanalítica como “o real enquanto impossível de suportar”. A palavra suportar carrega tanto a dimensão de peso, carga, sofrimento, como a de corpo, pois “para suportar, é preciso um corpo” (Brodsky, 2024). Assim, está em jogo a dimensão das urgências que o analisante suporta, mas também a experiência cotidiana do analista com o real e suas peças soltas.
Embora o real seja um termo intuitivo para cada um dos que vivem no século XXI, como propõe Miller (2014), Lacan deu um uso próprio a essa palavra e que nem sempre é o mesmo. Podemos considerar que o real é o que é desprovido de sentido e não corresponde a nenhum querer dizer: “não é um cosmo, não é um mundo, nem uma ordem; é um pedaço, um fragmento assistemático porque separado do saber ficcional produzido a partir desse encontro”(Miller, 2014). O sentido lhe escapa e os discursos não passam de defesas ao real, de modo que se há doação de sentido, ou estamos diante de uma elucubração da fantasia ou de uma construção delirante. A“iminência de uma revelação que não se produz” indicada por Borges não seria uma boa definição do real lacaniano?
Jésus Santiago (2024), nosso convidado das próximas Jornadas, nos indica que “face ao silêncio do real e da não operatividade da função significante, resta-nos o recurso do imaginário que agora se pode agregar a ele, o recurso do corpo que, segundo o ultimíssimo ensino, se constitui sob o modo do “tecido do inconsciente””. É por se endereçar a esse tecido, composto “de fios, malhas, entrelaçamentos e furos” que a experiência da análise não é uma mera abstração.
O imaginário comparece na experiência analítica, assim como sua esfoliação. Sobre esse termo, que também é caro à cosmetologia ou a medicina, no sentido de extrair as partes necrosadas, Miller (2023) indica: “esfoliar uma planta é fazer cair suas folhas”, ou seja, esfoliar-se é desprender-se folha por folha, parcela por parcela. Ex-folie também pode ser lido como extrair a loucura do imaginário, se tomamos o significante em francês. Em seu Seminário 26, Lacan indica que a esfoliação do imaginário ocorre quando ele se reduz à fantasia fundamental, esta que funciona tanto como uma tela que tampona o real, como uma janela que permite uma abertura para o real (Miller, 2011).
Construção, redução e travessia da fantasia são operadores clínicos da psicanálise, assim como a identificação ao sinthome, que inclui o saber se virar com a própria imagem e com o real do gozo, este ineliminável. E é por permitir a travessia do plano dos ideais (Lacan, 1964), em direção ao saber fazer com a vivência pulsional, isso que escapa a qualquer harmonização, que podemos localizar na psicanálise uma clínica do real.
Nessa direção, o relato de um caso clínico precisa partir da “diversidade mesma das vias na qual cada um se defronta com o real em jogo em cada caso” (Laurent, 2003, p.74). Desse modo, a estética do infamiliar se apresenta no caso clínico, já que a própria etimologia da palavra “caso” nos leva ao latim cadere, que significa “cair, declinar, perecer”. Como indica Miller (2017), o caso não existe a priori, e “expor um caso clínico como se fosse de um paciente é uma ficção; é o resultado de uma objetividade que é fingida porque estamos implicados, ainda que seja pelos efeitos da transferência”. O controle busca “lavar as escórias remanescentes que interferem no tratamento” ao tentar apagar do caso as singularidades do analista para que possa sonhar o analisante.
Escrever um caso clínico requer, portanto, uma construção. Trata-se de dar lugar à leitura do sintoma e ao modo como o analista respondeu ao caso “que é sempre, de uma certa forma, um ‘caso de urgência’”(Laurent, 2003, p.74). Nessa direção, a proposta desse eixo 2 é a de valorizar o real em jogo na clínica, dando lugar, nessas Jornadas, ao que nos ensinam os casos e suas diversas maneiras de lidar com o real, seja pela estática da fantasia ou pela estética do sinthome, nas diferentes estruturas e tipos clínicos.
Como, em sua prática, os analistas têm se defrontado com o feio, o diferente, o inquietante, o estranho, o abjeto, o indigno, o infamiliar… o dejeto e suas manifestações, tais como a angústia, a cólera, a inibição e os sintomas da vida contemporânea? Que soluções, sublimes ou não, os falasseres tem encontrado para lidar com a “iminência de uma revelação que não se produz”(Borges, 1999)?
Convidamos a todos aqueles que desejam se debruçar sobre isso que cai da experiência analítica, a formalizar suas construções e “salvações pelos dejetos”, mostrando-nos as maneiras pelas quais a psicanálise não visa o apagamento, tamponamento ou embelezamento do real, mas sim a que o falasser possa encontrar no mundo um lugar para sua maneira singular de viver a pulsão.
Referências Bibliográficas
Borges, J. L. (1999). A muralha e os livros. In Outras inquisições. Globo.
Brodsky, G. (2024). A clínica e o real. https://www.congresamp2014.com/ pt/template.php?file=Textos/La-clinica-y-lo-real_Graciela-Brodsky.html
Freud, S. (2020). Infamiliar. Autêntica. (Obra original publicada em 1919).
Freud, S. (1996). Conferência XXXV: A questão de uma Weltanschauung. In Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud (Vol. 22). Imago. (Obra original publicada em 1933)
Lacan, J. (1998). Juventude de Gide. In Escritos. Jorge Zahar. (Obra original publicada em 1958).
Lacan, J. (1998). O Seminário: livro 11. Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Jorge Zahar. (Obra original publicada em 1964).
Lacan, J. (1977). Abertura da Sessão Clínica. Ornicar?, (9), 7–14.
Lacan, J. (1977-78). Le séminaire, livre 25: Le moment de conclure. (Trabalho inédito).
Miller, J.-A. (2010). A salvação pelos dejetos. Correio: Revista da Escola Brasileira de Psicanálise, (67), 19.
Miller, J.-A. (2011). O ser e o um: Os cursos psicanalíticos de J.-A. Miller. Escola Brasileira de Psicanálise. Manuscrito inédito.
Miller, J.-A. (2012). El ultimísimo Lacan. Paidós,
Miller, J.-A. (2014). Apresentação do tema do IX Congresso da AMP. https://congresamp2014.com/pt/template.php?file=Textos/Presentation-du-theme_Jacques-Alain-Miller.html
Santiago, J. (2024). O Imaginário na clínica do sinthoma. https://www.jornadaebpmg.com.br/2024/o-imaginario-na-clinica-do-sinthoma/
[1] Borges escreve essa frase em “A muralha e os livros”, texto que escreve a partir da constatação de que o mesmo imperador que ordenou a edificação da quase infinita muralha chinesa foi que mandou queimar todos os livros anteriores a ele. Trata-se de Che Huang-ti.
