
Comissões das VII Jornadas da EBP-LO
INTRODUÇÃO AOS PONTOS NORTEADORES
O FATO ESTÉTICO E O REAL NA EXPERIÊNCIA ANALÍTICA
Renato Carlos Vieira
A comissão científica em sintonia com a coordenação geral e demais comissões das VII Jornadas da EBP-LO convidam a todos os interessados à elaboração em torno da expressão estética do real, formulação que reúne dois termos ligados a experiências limiares, nas quais se tensionam o corpo, a linguagem e os modos de satisfação e gozo. Trata-se de uma via fecunda para interrogar como a psicanálise aborda aquilo que insiste, irrompe e desafia a pensar a dimensão do real no século XXI e sobretudo na experiência analítica nos tempos que correm.
No Seminário 20, mais, ainda, Lacan afirma que a realidade é abordada com os aparelhos do gozo. Isso não significa que o gozo seja anterior à linguagem; ao contrário, ele é por ela aparelhado. Como assinala Lacan, não há outro aparelho senão a linguagem.[1] Com essa formulação, o gozo deixa de ser pensado apenas no registro da transgressão e passa a ocupar lugar central na vida e experiência do ser falante, abrindo caminho para a abordagem da Outra Satisfação.
A Outra Satisfação estabelece um limite para as miragens da verdade, da qual só se pode esperar a mentira. Nos termos de Lacan, a satisfação que marca o final da análise encontra seu limite na satisfação advinda do sinthoma. [2]
Para a psicanálise, o real escapa a toda tentativa de formalização e de captura simbólica. Ele não se escreve plenamente e se retrai na própria linguagem em que se supõe manejado. É nesse ponto que se pode situar a questão de uma estética do real.
Quando o real se articula à cadeia significante (S1 – S2), ele já não está disponível para ser capturado pela linguagem. Em outros termos, o real recusa simetrias e linearidades, modalidades correntes de compreensão do sujeito. Como observa Ary Farias[3], toda tentativa de formalização do real exige torções lógicas, concessões de linguagem e flexões teóricas, pois ele se apresenta em sua persistente intangibilidade.
Ary Farias destaca, contudo, que a preeminência adquirida pelo conceito de real no último ensino de Lacan permite articular, por retroação, seu lugar e sua função como conceito matricial da prática analítica. Trata-se, segundo ele, de um conceito axial, uma palavra-prima, por onde orbita toda a insônia teórica de Lacan, refundando inclusive a perspectiva do que é o inconsciente, estabelecendo o sinthoma como uma síntese esclarecida da defesa do falasser.
Nessa perspectiva, o real na psicanálise indica um arranjo singular de resposta à colonização do corpo pela língua do Outro. Esse deslocamento levou Lacan a propor outra escritura para o sintoma. Em síntese, em seu derradeiro ensino, Lacan sustenta que o sinthoma constitui uma apreensão depurada da estrutura e do funcionamento do inconsciente pela via do gozo opaco do sintoma.
Cabe ressaltar que, no Seminário 11, Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise, Lacan já indica uma inflexão na direção do tratamento. Para além da alusão ao cerne do ser mediante o desejo, que deve ser tomado ao pé da letra, é no nível da pulsão que o estado de satisfação deve ser retificado, pois o percurso do sujeito encontra o real sob a forma do impossível de negativar.[4]
No argumento elaborado para as VII Jornadas, Ary Farias destaca uma confluência decisiva entre o conceito de real e o fato estético. Esse ponto oferece uma orientação precisa e instigante para a preparação dos trabalhos, ao convocar cada participante a explorar o que, na clínica, na cultura e na experiência analítica, se produz como encontro com o insólito.
Se o real na psicanálise se apresenta sob a forma do gozo impossível de negativar, engendrando a singularidade do falasser, o fato estético, por sua vez, se marca pela dispersão do condicionamento perceptivo e pela emergência de um sentido novo, de uma ideia invulgar ou de uma imagem siderante.
A partir desse recorte do argumento proposto por Ary Farias, apresentamos os pontos norteadores para a produção dos trabalhos das VII Jornadas da Seção Leste-Oeste, que ocorrerão em Campo Grande (MS), nos dias 9 e 10 de outubro de 2026. Convidamos os participantes a tomar esses pontos norteadores como bússola para a elaboração das perspectivas clínica, epistêmica e política da psicanálise, em torno de uma possível estética do real a partir da dimensão do gozo impossível de negativar.
Os membros da comissão científica desejam e esperam que os pontos norteadores impulsionem a leitura, a conversação e a produção de trabalhos para as VII Jornadas, ampliando a presença da psicanálise diante dos impasses do nosso tempo.
[1] Lacan, J. Seminário, livro 20: mais, ainda. Rio de Janeiro: Zahar, 1985, p.61
[2] Lacan, J. Outros Escritos: Prefácio à edição inglesa do Seminário 11. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003, p. 568.
[3] FARIAS, Ary. A psicanálise e a estética do real. Escombros, Boletim das VII Jornadas Seção Leste-Oeste da EBP, Campo Grande, n. 0, p. 14, 2026. Disponível em: https://ebp.org.br/slo/jornadas/vii-jornadas-ebp-secao-lo-a-psicanalise-e-a-estetica-do-real/vii-jornadas-ebp-secao-lo-a-psicanalise-e-a-estetica-do-real-boletim/. Acesso em: 16 maio 2026.
[4] Lacan, J. Seminário, livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1988, p.158/159.
