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Fernanda Marra, integrante da Comissão de Arte e Cultura das V Jornadas da EBP-SLO, elaborou duas perguntas para Juliana Pessoa sobre suas obras e seu modo criativo de trabalhar.  Essa pequena conversa é capaz de inspirar àqueles que apreciam a arte e, principalmente, de suscitar a nossa curiosidade para ver mais trabalhos dessa artista na Exposição Corpo, M-E-M-Ó-R-I-A em Vitória – ES, evento ligado às nossas V Jornadas.

Logo depois, Maria Eduarda Ramos conversa com Clélia Soares, que também trará seu trabalho para compor a Exposição que ocorrerá junto as nossas V Jornadas.

SOBRE A ARTISTA JULIANA PESSOA

Comissão de Arte e Cultura das V Jornadas da EBP-SLO

Fernanda Marra: Em 2023, no Museu de Arte do Espírito Santo, você realizou, com Juliano Feijão, uma exposição intitulada “Anticorpos”. Podemos dizer que desse título ressoam, ao menos, duas possibilidades de leitura: anticorpo como o que protege o corpo contra o que é externo ao corpo; anticorpo como uma contraposição ao que foi estabelecido como corpo, a um certo padrão definido conforme circunstâncias

e interesses. Você diria que essas duas acepções aparecem no seu trabalho?  Como vê seus desenhos abrigados sob esse título?

Outra questão, no texto de apresentação do catálogo da exposição “Anticorpos”, o curador Fernando Pessoa comenta seu processo criativo dizendo que você:

[…] descobre as minúcias do detalhe no próprio processo de fazer, desfazer e refazer o desenho inteiro, o que acaba desvanecendo as delimitações dos contornos e fundindo os elementos da imagem na unidade indiferenciada do seu todo.

 Fernando complementa que:

 […] as imagens vão surgindo lentamente nos resquícios de camadas de linhas e pigmentos sobrepostos em veladuras que, simultaneamente, ocultam e fazem aparecer os contornos, os detalhes das partes, a figura, o fundo.

Essa forma de compor o desenho refazendo sobre os traços, trazendo camadas sobre o que já estava lá, quase ao modo de um palimpsesto, é uma marca de sua arte? Para você, o que são os restos em seus desenhos?

 

(Vó cabocla. Série “o sentido da terra”. Carvão, pigmento em pó, gesso em pó sobre MDF).

 Juliana Pessoa: Durante minha formação acadêmica, me aproximei de uma concepção de arte menos formal e mais ligada a um princípio de criação que fundamenta a própria vida. O artista como sendo um tipo que “retira” a poeira das coisas, no sentido de restabelecer o seu vigor. Desse modo, o desenho surgiu como uma linguagem capaz de me auxiliar nessa tarefa. A simplicidade do gesto manual, sobre a aparente pobreza do papel. A potência frágil do carvão que, ao mesmo tempo que risca, se esfarela, quebra e desvanece.

Essa pobreza e simplicidade me ajudaram a construir minha própria iconografia, a partir da compreensão de que a nossa memória nacional é um monumento à sua própria cegueira, à medida que não reconhece a grandeza de nossa gente. Assim, resolvi ir ao encontro dessas memórias cobertas pela poeira do tempo, nossas religiões de matrizes africanas, a saga de Belo Monte, o cangaço e, mais recentemente, às mestras e mestres de nossas culturas populares, que, ao incorporarem o sentido da terra e não se curvarem ao desígnio do capital, se tornam alvo desse vil Brasil oficial.

Daí, os desenhos apresentarem um aspecto meio fantasmagórico, a imagem se constrói em diferentes intensidades da linha, da mancha, do rasgo, como se estivesse disputando a sua própria presença no mundo.

(Sem título. Série ” O sentido da terra”. Carvão, pigmento em pó e gesso em pó sobre placa de Eucatex).

 

SOBRE A ARTISTA CLÉLIA SOARES

Comissão de Arte e Cultura das V Jornadas da EBP-SLO

 

              (Série ” corpo-terra”. Performance corpo/terra em papel vegetal. 30×42 – 2004).

Maria Eduarda Ramos: O que você aprende com as águas?

O que a terra te conta?

Clélia Soares: [precisei de tempo]

… precisei de tempo

e por isso andei ausente por aqui. Não estava conseguindo acessar a ‘minha criança’, seus sonhos e quereres estavam sendo esvaziados em meio a tantos ruídos produzidos nos diferentes mundos que hoje habitamos.

… precisei de tempo

e fui buscar refúgio na mata, os pés na terra, assim como fazia meu pai quando criança na pequena Medeiros Neto no sul da Bahia onde nasci. Para a mata ele levava os pios de caça que hoje estão sob minha guarda depois que se encantou. Não levei os pios, não faz sentido, pois não fui caçar. Fui me ouvir e para isso levei algumas das minhas conchas. Ando reclusa e fechada em mim mesma assim como elas, talvez por ocuparmos um lugar que não nos cabe mais. Não me recordo quando comecei a colecioná-las, estão comigo há muito tempo e ocupam todos os cantos da casa/atelier. Muitas delas vieram do lugar onde hoje moro e costumo chamar de ‘minha praia’ :- a praia de Camburi em Vitória. Foram recolhidas numa época em que foi realizado o ‘engordamento’ da área de areia da praia e para isso é necessário o uso de uma draga que retira areia do fundo do mar de uma distância considerável da praia e com ela vem também uma grande variedade de conchas que recolhi e guardo comigo com carinho. Gosto muito de tê-las por perto, é como sentir o cheiro do mar, seu ruído que me acalma e traz alegria para meu coração de elemento terra.  A água tem esse poder de me acalmar, apesar disso, penso que qualquer dia desses, irei depositá-las uma a uma no seu lugar de origem: – a imensidão do mar.

… precisei de tempo
ahh, precisei de tempo para entender!

SOBRE O ARTISTA ATTILIO COLNAGO

Comissão de Arte e Cultura das V Jornadas da EBP-SLO

Um dos eventos ligados a esta comissão será a Exposição Corpo Memória, que terá como organizador o Professor da UFES Attilio Colnago. Desta exposição participarão, além de Attilio Colnago, mais sete artistas. A Comissão de Arte e Cultura fez duas perguntas, inicialmente simples, para Attilio, no intuito de apresentá-lo aos que se interessam pelo tema das nossas V Jornadas. No entanto, as respostas de Attilio reverberam que “o artista precede o psicanalista” como nos apontou Sigmund Freud.

Quem é você?

Sou um artista com alma barroca que só sabe conviver e viver com excessos: na decoração, nos detalhes, nas escritas, nas paixões, e ainda mais maximalista. Sigo Íris Apfel ao afirmar que “more is more, less is bore” (“mais é mais, menos é chato”)… Sou um alquimista na constante pesquisa e produção das tintas tradicionais para pintura utilizadas ao longo da história da arte. Com elas produzo desenhos e pinturas, que ocorrem entre tropeços e acertos.

Persigo figuras que se despem do conforto para o olhar: cabeças raspadas, peles trincadas, mãos sem pego, olhares de horizonte. Tomadas de estranhamentos assumem e comandam os desenhos, as gravuras, as pinturas, e trazem mais dúvidas que certezas.

Não cabe a mim preencher as lacunas por elas propostas. Cabe a mim propô-las e com elas tentar conviver…

Por que escolheu a Arte?

Por sorte, acho que fui por ela escolhido.

Nasci no interior do estado, em uma família descendente de italianos, em um período que a igreja católica organizava nosso cotidiano e nosso caminho para o céu. Ainda lá, nos anos sessenta, fiz um curso de desenho artístico por correspondência que deu início ao meu caminho pela arte. Fiz o curso de Artes Plásticas na UFES, onde logo depois fui admitido como professor. Nele criei uma disciplina de produção de materiais para desenho e pintura e o Núcleo de Conservação e Restauração de Bens Culturais do Centro de Artes da UFES. Fiquei nesta instituição como professor e pesquisador por 40 anos. Em paralelo, sempre mantive um ateliê onde produzo regularmente e mantive turmas de formação não formal em arte. Tive a graça nesta vida de produzir, trabalhar, e transmitir o que fui amealhando no constante fazer, complexo e apaixonante da arte…

Conheça mais sobre o artista aqui.

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