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Comissões das VII Jornadas da EBP-LO

Comissões das VII Jornadas da EBP-LO

Ponto 3 – A Escola de Lacan: o real na formação do analista

Gabriel Caxeita

O argumento das VII Jornadas da EBP-LO[1] nos lembra que foi uma questão central para Lacan que o analista de sua Escola, para ser digno da transferência, estivesse à altura de seu tempo e “ter como suporte aquele saber que, por estar no lugar da verdade, pode interrogar-se como tal sobre o que é, desde sempre, a estrutura dos saberes”. Como observa Ary Farias, Lacan nunca escondeu a necessidade de ter “pessoas consideradas cultas” entre aquelas em condições de segui-lo. Isso, porém, não dispensava seus seguidores de sustentar, na condução da experiência analítica, o princípio de que o analista não deve, de modo algum, dirigir o paciente. Não se trata de direção de consciência, pois o analista paga com a palavra, com sua pessoa e com o que há de mais essencial em seu juízo íntimo para intervir numa ação que toca o cerne do ser.

Diante disso, o argumento nos conduz a uma questão decisiva: não se inscreve, também na proposição de Lacan, a exigência de superar eventuais limitações de leitura e de sensibilidade estética por parte do analista?

Nessa perspectiva, como afirma Ary Farias, impõe-se a necessidade de que o analista esteja informado das estéticas operantes de seu tempo e de seu contexto sem aderir com ativismo a elas. É preciso que disponha de acuidade crítica para identificar a arquitetura imagética, as linhas tácitas e os cabrestos simbólicos que sustentam a realidade na qual sua prática clínica se insere.

O analista lacaniano deve estar advertido de que alcançar a “douta ignorância” exige uma rotina de prática e uma ambição intelectual à altura dessa formação.

No Ato de fundação[2], Lacan nos orienta tomar a Escola como refúgio na medida que nos endereçamos a ela a partir do real em jogo em nossa formação. Fazemos dela, nossa base, lugar privilegiado para produzir invenções e torções quanto ao saber fazer com nossa prática – tal como esperamos recolher em nossas Jornadas. Nós nos constituímos como um “contra-lobby”[3], assumindo a tarefa de elaboração do real, produzindo um novo saber que tem como pivô a causa analítica.

Desta forma, neste eixo, é desejável que os trabalhos abordem a Escola de Lacan como esse possível refúgio diante do mal-estar na civilização, e como base de operações onde o praticante da psicanálise, em sua solidão, mas não sozinho, pode elaborar e dar testemunho de sua invenção, construindo a sobrevivência da psicanálise em nosso tempo.

Convém ainda recordar que a abertura das VII Jornadas ocorrerá em 9 de outubro de 2026, precisamente 59 anos após o texto de Lacan “Proposição de 9 de outubro de 1967 sobre o psicanalista da Escola”. Nesse texto, Lacan afirma que há um real em jogo na própria formação do analista e, de modo não menos evidente, que esse real suscita desconhecimento ou mesmo produz sua negação sistemática.[4]

Espera-se que os trabalhos neste eixo possam representar relatos da experiência da formação do analista que passam pela análise, supervisão e investimento com a causa analítica, que se distingue do desejo estético de reconhecimento.

 


[1] FARIAS, Ary. A psicanálise e a estética do real. Escombros, Boletim das VII Jornadas Seção Leste-Oeste da EBP, Campo Grande, n. 0, p. 14, 2026. Disponível em: https://ebp.org.br/slo/jornadas/vii-jornadas-ebp-secao-lo-a-psicanalise-e-a-estetica-do-real/vii-jornadas-ebp-secao-lo-a-psicanalise-e-a-estetica-do-real-boletim/. Acesso em: 16 maio 2026.

[2] LACAN, J. (1964/2003). Ato de fundação. Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, p.244.

[3] MILLER, J. A (2017). Questão de Escola: Proposta sobre a garantia, Opção Lacaniana online, 23. p. 2

[4] LACAN, J. (1967/2003). Proposição de 9 de Outubro de 1967 sobre o psicanalista da Escola. Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, p.249.

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