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Abertura das Atividades da SLOf em 03 de março de 2020.

Boa noite a todos,

Primeiramente, para quem não me conhece, meu nome é Rômulo Ferreira da Silva e estou exercendo a função de diretor Geral da Seção Leste-Oeste da EBP, em formação.

Quero esclarecer o funcionamento desse dispositivo que inauguramos hoje para que possamos trabalhar da melhor forma possível, atravessando as barreiras que ele nos coloca.

Vamos seguir a orientação da comissão de mídias da SLOf, composta por:

Goiânia: Cristina Alves Barbosa, Brasília: Daniel Camelo Rancan, Campo Grande: Amanda Soares de Vargas, Vitória: Lucas Fraga Gomes, e coordenada por Gabriela Malvezzi, associada ao Clin-a, que se apresentou como a pessoa de confiança para se responsabilizar por essa empreitada.

Tomo a palavra em nome da diretoria da SLOf composta por Ordália Junqueira, diretora secretária-tesoureira, Ary Farias, diretor de Cartéis e Intercâmbio e Bartyra Ribeiro, diretora de biblioteca.

Sigo, acompanhado pelo Conselho da Slof, Elisa Alvarenga, sua presidente, Alberto Murta, Cristiano Pimenta, Fábio Barreto, Renato Vieira e Tânia Anchite.

Temos, tanto na EBP, assim como em suas nas seções, um funcionamento bicameral conforme seu estatuto: “A Diretoria é o órgão administrativo da SEÇÃO. Cabe a ela coordenar as atividades científicas e culturais da SEÇÃO homologadas pelo Conselho;Organizar, conforme normas e objetivos da SEÇÃO, os eventos científicos regionais, incluindo-se cursos, seminários, conferências, colóquios e jornadas”. O Conselho Deliberativo “é o órgão consultivo e decisório da SEÇÃO, Ele deve zelar pelos princípios éticos, doutrinários e políticos da ESCOLA; Orientar e deliberar sobre o ensino na SEÇÃO;Receber, analisar e homologar as propostas de ensino e eventos científicos da SEÇÃO encaminhadas pela Diretoria; Elaborar Regimento Interno da SEÇÃO e submetê-lo à aprovação do Conselho Deliberativo da ESCOLA;”

Quero agradecer à Diretoria da EBP, representada por Sérgio de Castro, seu diretor Geral, e ao Conselho da EBP, representado por sua presidente, Sandra Grostein, a confiança, ao me fazerem o convite para participar desse novo passo dado pela EBP.

Como fui diretor e, posteriormente, presidente da EBP em outros tempos, acompanhei de muito perto o funcionamento das ex-delegações que compunham o panorama da EBP à época. Posso dizer que as Delegações ocuparam um espaço privilegiado em minha pauta de diretor e de presidente. Fizemos um trabalho enorme para a constituição das Associações que poderiam fornecer solidez para a existência das Delegações, tirando-as do funcionamento jurídico informal.Tivemos muitos avanços.

Ocorria uma certa autonomia de cada localidade em suas propostas de trabalho, já que as Associações gozavam de independência financeira e estatutária em relação à Escola, mas, ao mesmo tempo, nos momentos de crise, a Escola era convocada, abolindo a autonomia e independência.

Hoje entendo, e estou de pleno acordo com a proposição da Escola em tentar fundar uma nova Seção que inclua três ex-delegações, ou quem sabe, quatro localidades, que há muito tempo estão inseridas na Escola através do trabalho de seus membros, aderentes, participantes etc.

Trata-se das extintas Delegações ES, MT/MS e GO/DF.

A invenção de tais dispositivos de trabalho, as Delegações, delimitou, à época, espaços que reuniam analistas interessados em fundar ou aprofundar o trabalho em torno da psicanálise da Orientação Lacaniana. Laços locais já existentes puderam encontrar um lugar simbolicamente instaurado pela EBP, a partir da proximidade geográfica.

No entanto, com o passar do tempo, tornou-se importante retomar os princípios do funcionamento da Escola de Lacan que prevê, por exemplo, a permutação dos cargos ocupados. Se temos um pequeno grupo em torno da causa analítica, é preciso contar com a diversidade e diferenças de posições.

As Delegações cresceram, mas não o suficiente para organizarem o coletivo desses analistas em um funcionamento entendido dentro da lógica da Escola. Sabemos que a presença de um líder é importante no exercício centrípeto em torno de um tema, mas é necessário que esse líder esteja aberto às forças centrífugas que a formação de um grupo instaura.

Coloca-se um dilema: se o líder local é forte e consegue fazer um trabalho sem grandes desvios da Orientação original, constitui-se um grupo homogêneo, que segue a norma do líder, ou seja, tudo o que Lacan criticou nas formações dos grupos da IPA.

Se por outro lado, o líder é fraco e não consegue fazer com que os princípios da psicanálise prevaleçam, o grupo tende à errância, pautada nas paixões de cada candidato à novo líder.

Observa-se muitos trabalhadores em torno da psicanálise nos laços instituídos pela aproximação geográfica, que se dedicam enormemente à sustentação de suas posições locais.

Trata-se da lógica de grupo, que é inevitável em qualquer proposta de associação!

Estou aqui, diante de vocês para tentar cumprir uma proposta que não fui autor.

Coloco-me com muito orgulho, como um dos atores que protagonizam mais um episódio da EBP/AMP.

Sabemos, desde Freud, da importância da presença dos corpos na experiência analítica. Essa recomendação se estende para os muitos mecanismos de formação do analista, seja a supervisão, o cartel, e à transmissão teórica da psicanálise.

Porém, seguindo também a orientação de Freud e de Lacan, de que o psicanalista deve estar à altura de sua época, é preciso avaliaras barreiras impostas pelo espaço e pelo tempo.

O mundo contemporâneo inventou mecanismos de transpô-las, e não devemos, ao menos, nos furtar a testa-las.

Com a aposta de colocar uma nova Seção da Escola, em funcionamento, a EBPsubverte os laços de trabalho estabelecidos de longa data, baseados nos lugaresnos quais as iniciativas pró-Escola foram fundados, ou seja, as três ex-delegações.

Ao dispersar o grupo, a Escola amplia a experiência de espaço e de tempo de seus participantes, e ainda, possibilita a abertura dos laços. É sempre a oportunidade de respirar!

Podemos testemunhar essa experiência se nos pautarmos nos trabalhos de cartel que já participamos.

É nesse sentido que o Cartel é a célula da Escola. Primeiro ponto: o cartel é da Escola, não é do grupo local. Segundo ponto: o Mais um é um líder, mas é um líder fraco. Ele sabe não saber, sabe instigar o trabalho em torno de um tema e não dele mesmo. O mais um pode fazer circular os discursos dentro do cartel impedindo as sedimentações de espaços ocupados. Ele dura dois anos no máximo. Depois é dissolvido e é preciso permutar. Permutar os participantes, os temas e os lugares ocupados.

Seria importante podermos trabalhar o texto de Lacan D’Écolage, um texto curto que nos dá as orientações sobre o Cartel, e consequentemente, sobre a Escola.

É preciso fazer valer esse funcionamento do cartel no universo de cada Seção. Por mais consistente que seja o trabalho aí constituído, a Escola o desarranja, incomoda, faz circular.

Essa é a função da Escola que, de certa maneira, se viu inoperante nas Delegações.

Essa é também a função da AMP em relação às Escolas que a compõem. É a função da Escola UNA! É a função dos Cartéis do Passe que se organizam de tempos em tempos no Colégio do Passe, é a função das Comissões da Garantia, Europeia e Americana, dos Encontros, dos Congressos etc.

Podemos dizer que nunca estamos fora do risco de nos desviarmos do que é a psicanálise, por mais profícuo que seja o trabalho realizado.

Foi por essa via que o Conselho da EBPdeterminou a extinção das Delegações, e me convenceu a aceitar o convite de estar aqui com vocês.

A SLOf reúne um Brasil diversificado. Vamos enfrentar no dia a dia, da Seção o que se enfrenta no âmbito nacional: as diferenças dos hábitos, dos sotaques, do clima. Circularemos pelo cerrado , pelo pantanal e pela praia.Modos de vida e de laços sociais que nos colocarão em desafio em fazer valer a cega cortante da verdade freudiana onde quer que ela tenha de incidir.

A minha aposta é na construção do Um dessa Seção em formação. As atividades das terças-feiras que hoje se inauguram, podem nos colocar diante das diferenças que antes nos distanciavam, sem eliminá-las por completo.

Quando fazemos uma aposta, deixamos cair o que antes era a nossa garantia. Convido a todos que joguem seus dados.

Seguindo Lacan, vamos apostar no funcionamento.

Por enquanto, nenhum de nós está à altura de declarar: “Eu fundo a SLOf”.

Apostando no funcionamento, estamos propondo:

As I Jornadas da SLOf

  • Data: 09 e 10 de outubro de 2020
  • Local: Aliança francesa em Brasíla- DF
  • Convidado: Romildo do Rêgo Barros
  • Tema: a ser definido

As Jornadas terão como ponto de partida para a apresentação de trabalhos os produtos de cartéis da SLOf.

Em breve vocês receberão notícias!

PROGRAMAÇÃO

Sobre a programação podemos observar a lógica bicameral que a EBP segue em seu funcionamento: Diretoria e Conselho, como dito acima.

À Diretoria cabem as orientações epistêmicas sobre o funcionamento do dia-a-dia de uma Seção. Faremos atividades de Cartéis e de Bibliotecas que sustentam a vida de uma Seção.

Na atividade de Cartéis abordaremos tanto o fundamento do Cartel como célula da Escola, como colocaremos a céu aberto o que ocorre no âmbito de nossa Seção.

Essa atividade ocorrerá em duas ocasiões nesse semestre e estará a cargo de Ary farias.

As atividades de Biblioteca nos trarão o que há de mais interessante para a leitura, interpretação e crítica das conexões com a psicanálise no contexto atual, sob a responsabilidade de Bartyra Ribeiro de Castro.

A Diretoria abordará os pontos de encontros que temos pela frente no âmbito da EBP e da AMP. Para o Congresso da AMP em Buenos Aires, que ocorrerá de 13 a 16 de abril de 2020, Sandra Grostein, nossa presidente, fará uma preparatória.

Ordália Junqueira nos apresentará o Encontro Brasileiro, e Sérgio de Castro, nosso Diretor Geral, fará o aquecimento desse Encontro que ocorrerá em novembro de 2020, em Salvador!

Abordaremos também a Escola de Lacan!

Tema já muito visitado por todos, mas inesgotável! A Lógica da Escola está entranhada em nossas experiências de análise pessoal, da clínica supervisionada e do estudo teórico. Entendemos que é fundamental retomarmos essa invenção de Lacan no momento em que estamos juntando três polos de trabalho há muito tempo existente para que possamos discutir os princípios da formalização lacaniana que sustentam uma instituição singular como essa.

Ao Conselho da SLOf caberá a tarefa mais propriamente epistêmica. Trabalharemos o curso de Jacques-Alain Miller “O Lugar e o laço”, nada mais indicado para nos depararmos com os desafios que certamente encontraremos em nossa empreitada.

O Conselho abordará também o Passe, invenção lacaniana que nos é extremamente cara e que redefine a formação do analista de Orientação Lacaniana.

A supervisão e a Garantia também estão na pauta do Conselho.

Preparem-se!

Reportando a abertura das atividades da Seção Leste-Oeste, em formação

Nesta última terça-feira, dia 03 de março de 2020, começaram as atividades da Seção Leste-Oeste, em formação (SLOf).

Interligados pela tecnologia que nos permite transpor os limites geográficos e vencer obstáculos jamais imaginados, os quatro territórios desta nova Seção da EBP se conectou em torno da fala de abertura e de boas vindas de Romulo Ferreira da Silva – Diretor da SLOf.

Romulo teve a oportunidade de apresentar a configuração estatutária da EBP e justificar a criação desta Seção de acordo com o funcionamento bicameral da EBP. Nesta fala inicial, houve espaço para a descrição dos cargos dos Membros de Escola ligados, tanto à SLOf, quanto à Diretoria Geral da EBP, quanto ao seu Conselho Deliberativo e suas funções coordenação as atividades que a nova Seção levará a cabo no primeiro semestre deste ano.

Foi uma noite bastante concorrida nos quatro lugares da SLOf – Espírito Santo, Goiás, Mato Grosso do Sul e Distrito Federal, onde se localiza a nossa sede jurídica.

E torno de 100 participantes, distribuídos pelos diferentes locais, puderam assistir a este lançar de dados numa aposta no desejo decidido dos membros da EBP que se colocam ao trabalho para fazer funcionar efetivamente a Escola de Lacan e suas localidades.

Desejamos ótimo trabalho a todos.

1ª Noite do Conselho na SLOf

Sandra Grostein, Presidente do Conselho da EBP, apresentou o tema do Congresso da AMP – O sonho, sua interpretação e seu uso na clínica lacaniana, para questionar se o sonho se presta como via régia para o inconsciente real.

Antes de iniciar propriamente o tema, Sandra nos convidou a todos para o Fórum Zadig que acontecerá em SP, dia 19 de março.

Para abordar o tema do sonho, Sandra se valeu de seu texto publicado no papéis II, lendo-o para nós, a fim de que pudéssemos detalha-lo.

Neste texto, Sandra ressalta que Lacan afirma que o sonho tem a mesma estrutura do desejo, nos lembra que a função do sonho é proteger nosso sono das perturbações e que nada além de um desejo pode colocar nosso aparelho psíquico a trabalhar.
Sandra retoma Lacan em dois momentos outros: Seminários 17 e 8 para trabalhar o despertar. O despertar para continuar sonhando e não nos aproximarmos da verdade, e o despertar pela aproximação do sonho ao real.
Tratar-se-ia de despertar o analisante? Nos pergunta Sandra em seu texto como ponto relevante onde sonho e sintoma se articulariam.
Sandra recorre a Miller em O Ultrapasse, quando coloca duas possibilidades de orientação para a clínica: orientar-se pelo sintoma ou pela fantasia, articulando pela diferença entre ser e existir.
O sintoma é tomado como uma função diferente do sonho, dos lapsos, dos atos falhos e dos chistes.
Assim, mais uma pergunta surge na proposta de Sandra: como avançar para além da fala numa análise?

Assim, Sandra Grostein nos convocou, mais uma vez, a ir em direção à articulação da interpretação do sonho distinta do sintoma, quando do Congresso da AMP em Buenos Aires, em abril próximo.

Agradecemos muito a Sandra pela sua disposição generosa em nós colocar a trabalho.

Reportando a 3ª terca da Slof

Nesta terceira terça da Seção Leste-Oeste (em formação), Elisa Alvarenga – Presidente do Conselho da SLOf, iniciou a leitura do Seminário de Jacques-Alan Miller – O Lugar e o Laço, de 2000 – como um tema a ser trabalhado rumo ao Um desta nova seção da EBP.

Elisa começa nos lembrando Lacan quando nos ensina que deve renunciar a ser psicanalista quem não alcançar a subjetividade de sua época.

Elisa comentou o primeiro capítulo do texto estabelecido por Graciela Brodsky, intitulado La tentación del psicoanalista, partindo da aposta no passe, na Escola de Lacan. A tentação do psicanalista, conforme Miller nos traz, é a de tornar-se um clínico. Clínico é aquele que se separa do que ele é.

Elisa ressalta que ‘o lugar e o laço’ pode ser tomado igualmente como ‘o lugar é o laço’, o que coloca cada um no lugar de analisante. A assonância sonora entre lien (lugar) e lieu (laço) nos remete ao fato de que, por um lado está o laço e por outro, o lugar, e que o analista, em sua prática, está em dois lugares. O psicanalista faz parte do conceito do inconsciente fazendo parte da clínica da qual ele é causa.

Elisa segue com Lacan para nos dizer que o ensino só acontece verdadeiramente quando acontece algo novo.

No que tange ao controle, Miller dedica parte deste capítulo ressaltando que o que se controla é a relação entre o lugar e o laço. Da mesma forma que há uma relação entre controle e passe, pois, no passe, o passante vem contar a um outro, algo sobre um terceiro.

Elisa lembra Miller em O Banquete dos Psicanalistas quando diz que Lacan usou algo do controle para formular sobre o passe, como um encontro com o lugar da experiência, como uma subjetividade secundária. Uma questão sobre que consequências o analista extrai quando não cede à tentação de se tornar um clínico. Disso depende o laço entre a psicanálise e o psicanalista. Existem análises e analistas.

Igualmente nos foi lembrado na explanação de Elisa, que Freud inventou a psicanálise e uma instituição para protegê-la. Desta, Lacan foi excomungado – assim ele dizia para enfatizar o caráter religioso que tomou a IPA, quando deixa de fora alguém que causa problemas.

Desta excomunhão, Lacan funda a sua Escola com a pergunta sobre o que é um psicanalista em seu cerne. Neste sentido, a Escola de Lacan faz uma aposta naquele que se autoriza como psicanalista e coloca o passe como um de seus pilares onde se verifica a articulação da psicanálise do praticante à terapêutica. Esta seria a própria reinvenção da psicanálise.

Reinventar a psicanálise é a própria condição de que a psicanálise continue a existir a partir da experiência de cada um.

Elisa termina enfatizando sobre a dificuldade que temos tido de transmitir a psicanálise nas bases do último ensino de Lacan.

NOITE PREPARATÓRIA PARA O 23º ENCONTRO BRASILEIRO DO CAMPO FREUDIANO
O feminino infamiliar – Dizer o indizível

Por Ordália Junqueira – Diretora Secretária Tesoureira da SLOf

Ordália começa dizendo que o feminino interessa à psicanálise e nos lembra que a causa analítica não entra em quarentena. O real se impõe ao subjetivo determinando um antes e um depois, rompendo barreiras e inventando novas formas de trabalho.

Nada está e nada será como antes.

Ordália se serve de textos de Miquel Bassols,  Jésus Santiago e de Eric Laurent para referenciar seu relato.

Ordália nos traz que o deslocamento da tradução de unheimlich como estranho, inquietante, para infamiliar exige uma mudança de foco, pois o coloca como mais familiar que se gostaria de admitir. Algo do inconsciente se apresenta no familiar que se torna estranho. Estes fenômenos implicam o sujeito deixando-o perplexo e o interroga.

Para trabalhar o mais familiar e o mais estranho, Ordália nos lembra uma anedota de Freud quando este encontra um velho saindo de sua cabine, enquanto ele entrava, e el, somente depois de se questionar sobre quem seria aquele velho, se dá conta de que estava diante do espelho. Aquela era a sua imagem refletida.

Ordália anuncia que trabalhará os eixos teóricos do 23º Encontro Brasileiro ao longo destas Noites Preparatórias e que hoje, se deterá sobre o Eixo I – O REAL SEM LEI.

Ela aproveita a contingência na qual nos encontramos – isolamento doméstico por causa da pandemia de coronavírus, para dizer que há um tempo de compreender em jogo quanto a este real. Como uma sombra, citando Laurent. E aproxima o unheimlichI freudiano – um impossível de dizer, e o lacaniano – a extimidade.

Os textos de referência deste Eixo servem de base para esta apresentação: Freud, em 1919 – Das unheimlich – como o impossível de dizer; O argumento do Encontro; o texto da Comissão Científica, e o texto Das unheimlich, de Fernando Vitali (todos publicados em Boletim on line, nºs 01 e 02).

Há o sabido, o sabível e o não sabível. Há o indizível do feminino e o desejo de dizer de outra maneira os efeitos da inquietante estranheza. Há o familiar, surgindo no infamiliar; há o estranho, surgindo no familiar.

O unheimlich nos serve como bússola para a clínica e isso quer dizer que interroga a sua presença na clínica do cotidiano e na própria análise dos analistas.

O cenário imposto pelo coronavírus nos obriga a lidar com num estranho inquietante.

Ordália nos emociona ao final quando traz o desabafo de uma médica italiana, do hospital San Carlo, de Milão, frente à dor das despedidas daqueles condenados pelo coronavírus, que a solicitam que diga algo do indizível aos seus familiares.

A ESCOLA DE LACAN

Rômulo Ferreira da Silva

No último dia 12 de maio, a SLOf se encontrou online para escutar sobre a Escola de Lacan nas palavras de seu Diretor Geral, Romulo Ferreira da Silva, que começou dizendo que a Escola de Lacan não é uma sociedade de analistas, nem um conselho profissional (CRM, CRP etc.), visto que os Conselhos podem dizer sobre o que venha a ser um médico, um psicólogo, etc. No entanto, no que diz respeito à formação do psicanalista, há duas perguntas como pontos de partida: o que é a psicanálise e o que é o psicanalista?

Romulo nos lembrou Lacan em seu “Ato de Fundação” (1964), fruto de um longo percurso histórico e em consonância com a reconquista do campo freudiano, quando disse que estavam “habilitados de pleno direito aqueles que (ele mesmo formou), e que estão convidados a contribuir para introduzir, dessa formação, o bem-fundado da experiência”. Desta orientação, Lacan estabeleceu os cartéis e concebeu três Seções para a sua Escola: 1) A Seção de Psicanálise Pura; 2) A Seção de Psicanálise Aplicada; e A Seção do Recenseamento do Campo Freudiano. Neste texto, “Da Escola como experiência inaugural”, ainda extraiu, dentre outras citas, “O ensino da psicanálise só pode transmitir-se de um sujeito para outro pelas vias de uma transferência de trabalho”.

 

Em “A proposição de 9 de outubro” (1967), Lacan institui dois gradus, o Analista Membro da Escola (AME) e o Analista da Escola (AE). Entre estes dois gradus, uma tensão e uma aproximação. Retroativamente, surgem duas lógicas referentes às Seções anteriormente criadas por Lacan: Seção 1 está mais na lógica do não-todo e as outras duas, mais na lógica do todo.

Romulo tomou esta tensão para trabalhar a relação entre Instituto e Escola, uma vez que em 1968, Lacan fundou o Departamento de Psicanálise da Universidade de Paris-VIII, marcando uma diferença entre o que se transmite na Escola e o que se ensina na Universidade. Em 1976, criou os cursos e respectivos diplomas do DEA (um equivalente ao nosso Mestrado) e do Doutorado, dando consequência ao que Freud (1919) havia dito sobre o ensino da Psicanálise na Universidade, visto que é um lugar de transmissão de saber consolidado. Neste mesmo texto, Freud ressalta que, no entanto, o psicanalista não será formado ali.

Ainda em um percurso histórico, Jacques-Alain Miller (1977) faz a anexação da Seção Clínica no Departamento de Psicanálise, formalizando as Seções de Psicanálise Aplicada e do Recenseamento do Campo Freudiano, na Universidade, a fim de levar para dentro desta “uma definição lacaniana da clínica e estabelecer conexões, comportando cursos e uma prática de apresentação de pacientes.” E a criação da Fundação do Campo Freudiano (Lacan, 1979), inaugurando um espaço diferente daquele da Escola Freudiana de Psicanálise (EFP) e da Universidade, para a difusão da psicanálise e da Orientação Lacaniana. Em 1987, Jacques-Alain Miller funda o Instituto do Campo Freudiano “para desenvolver a tarefa de ensino e investigação da psicanálise, levando-a a outros países.”

Esta tensão entre Escola e Instituto se localiza e se estabiliza na manutenção de lógicas de funcionamento que se distinguem por princípios completamente distintos – trazendo de um texto de Jésus Santiago. O objetivo final é não fazer uma sociedade de psicanalistas, mas uma Escola “constituída ao redor de um ‘não saber o que é o analista’, porém, sempre buscando sabe-lo”.

ATIVIDADE DO CONSELHO

PORQUE A SUPERVISÃO

Elisa Alvarenga- Presidente da SLOf

Inaugurando o novo espaço na SLOf chamado PASSE E SUPERVISÃO, Elisa Alvarenga aborda porque a supervisão, iniciando com os pilares da Escola de Lacan – Cartel e Passe. No entanto, a Supervisão, como se coloca na formação do psicanalista?

Elisa traz Lacan e cita Miller tomando a supervisão como sendo uma forma de proteger o paciente. Numa referência a Miller, lição de 11 de maio de 2011 – o SER E O UM, lembra que o que se ensina numa supervisão não é essencialmente a arte do diagnóstico, mas transmitir ao supervisando sobre a potência de sua palavra, isto é, como interpretar.

Elisa percorreu pontos do ensino de Lacan quanto à interpretação: primeiramente criacionista, baseada no desejo, para que a fala do analista tenha importância para o analisante, é preciso que a sua fala seja rara para ter valor. No segundo ensino, não mais centrado no inconsciente e na cadeia significante, mas no gozo, diz Miller, há uma distância entre clínica estrutura e clínica acontecimento onde se aloja a prática da supervisão. Mas não podemos distinguir acontecimento de estrutura e isso dá lugar à interpretação.

Tomando Lacan em 1953, Elisa se apoia em Eric Laurent em seu livro O Avesso da Biopolítica (2016) para lembrar que Lacan teve o cuidado de ligar interpretação e supervisão na época do falasser, desde a primeira lição do Seminário 23 – O uso lógico do sinthoma.

Elisa abordou, então, a supervisão e a interpretação no primeiro e no último ensino de Lacan. Partindo do inconsciente estruturado como uma linguagem, o controle enfatizava o domínio do simbólico sobre o imaginário. A supervisão seria o lugar onde desapareceria o suposto dom clínico impenetrável postulado por alguns analistas e criticado por Lacan. Laurent utiliza o termo ‘placa sensível’, o mesmo trazido por Lacan a respeito da função dos passadores no passe, para falar do analista/supervisando, para dizer sobre a sensibilidade de colher os ditos do analisante. O supervisando, podendo ser colocado em uma posição diferente da sugerida pelo termo ‘controle’, mas em ‘supervisão’ (vantajosamente sugerido por Lacan), melhor ainda, ‘super audição’, o melhor fruto a ser colhido seria aprender a se colocar em uma posição de ‘subjetividade secundária’, de $ (posição de não saber), onde coloca imediatamente o supervisor. Nessa época, Lacan pensava a relação analisante/psicanalista como intersubjetiva – antes de elaborar a posição do psicanalista como objeto para o analisante.

Passando pelo Discurso de Roma e chegando ao Seminário 12 – Problemas cruciais para a psicanálise, Elisa cita Lacan quando diz: “A psicanálise só valerá o que você valer quando se tornar psicanalista. Ela não irá além do ponto que pode te conduzir”. Isso levará ao que Lacan propôs, mais tarde quanto ao analista se colocar como objeto causa de desejo de seus analisantes, conduzindo seus analisantes a partir do ponto em que pode alcançar sendo analista.

A partir do falasser, Lacan estrutura de forma completamente diferente a experiência da supervisão, sua relação com a transmissão das regras da interpretação. Elisa trouxe Miller (2002): “leva-se para a supervisão sua divisão, suas palpitações, supondo que, no ato analítico, o analista se abstraia disso”.

Em 1953, supunha-se que o analista operasse como sujeito até que o ato analítico foi definido em função do analista enquanto objeto a; a supervisão consistia em uma ‘ressubjetivação do psicanalista’, que comparece na supervisão como sujeito barrado que dá testemunha de sua falta-a-ser e quer saber.

“Se hoje partimos, não apenas do objeto a, mas também, do falasser, como ficam as posições do analista praticante e do analista supervisor?” Com esta pergunta, Elisa passou à segunda parte: Lacan, 1975.

Seminário 23, primeira aula, Lacan enfatiza a transmissão das regras da interpretação centrada no uso do equívoco como arma contra o sinthoma em duas etapas: 1) quando são como um rinoceronte e, 2) quando se libera algo do sinthoma. “Com efeito, é unicamente pelo equívoco que a interpretação opera. É preciso que haja alguma coisa no significante que ressoe. As pulsões são, no corpo, o eco do fato de que há um dizer. Esse dizer, para que ressoe, para que consoe, é preciso que o corpo lhe seja sensível, e ele o é. Porque o corpo tem orifícios, dos quais, o mais importante, é o ouvido, porque ele não pode se tapar, se fechar. É por esse viés que o corpo responde ao que chamei de voz” (Lacan).

Passa-se do rinoceronte ao equívoco, do ‘eles têm sempre razão (raison)’ para ‘aquilo que ressoa (reson)’. Como passar do logos como razão para o logos como o que ressoa? Como passar do rinoceronte – o analista recolhido em seu ato, devendo livrar-se de suas palpitações para estar no ato analítico? Um segundo tempo abre-se. Da interpretação como sintoma/sentido/significação à interpretação como aquela que ressoa, um escrito na fala, a única que pode liberar algo do sinthoma. Trata-se de utilizar-se de lalíngua, do equívoco pelo qual a interpretação opera.  Trata-se de utilizar o dizer de forma que, na fala, o efeito de escrito faça surgir o equívoco que toca o sinthoma por sua ressonância. No corpo falante, as pulsões são os traços, são o eco do fato de que há um dizer que tocou o corpo. Um escrito na fala – operar com o S1, equivalente à letra (Laurent: A interpretação: da verdade ao acontecimento).

Elisa seguiu enriquecendo o debate sobre o rinoceronte trazendo o Teatro do Absurdo em alusão à submissão humana e à sua animalização diante de uma ideologia, a partir de uma apresentação de Elenice de Castro (EBPMG) que toma o rinoceronte como aquele que faz qualquer coisa, como o supervisando, regido por uma lógica subjetiva, que se vê alienado à lógica da fantasia. Neste momento, a escuta do analista se fecha ao contingente.

Tomando Anaëlle Lebovits-Quenehen sobre o analista-supervisor, ressalta que é também em ato que o rinoceronte rejeita o racismo e a domesticação. A aprovação de Lacan, ensina ao rinoceronte a não ser, ele mesmo, racista em sua prática. Que ele mesmo suporte, em ato, a singularidades de seus analisantes.

A segunda etapa da supervisão, mencionada por Lacan no Seminário 23, que visa jogar com o equívoco para liberar o sinthoma encontra, no Seminário 24, um contraponto entre supervisão e análise pessoal, a partir de uma intervenção de Alain Didier Weill, que permite que se compreenda melhor o dito de Lacan no seminário anterior – a supervisão como o lugar onde o analisante é convocado a responder pelo que diz, diferentemente da análise regida pela Associação Livre.

Elisa conclui com o exemplo do testemunho de passe de Domenico Consenza, apresentado por Laura Rubião, em Minas Gerais, 2019, publicado no blog da AMP: A supervisão para além da construção do caso clínico: o funcionamento sinthomático.

NOITE PREPARATÓRIA PARA O 23º ENCONTRO BRASILEIRO DO CAMPO FREUDIANO

O feminino infamiliar – Dizer o indizível – Salvador – BA

Por Sérgio de Castro – Diretor Geral da Escola Brasileira de Psicanálise

Para esta segunda noite preparatória, a SLOf teve a prazer de receber o Diretor Geral da EBP – Sérgio de Castro que trouxe um texto bastante intrigante para o debate conosco. Como nos disse Romulo Ferreira da Silva em sua apresentação, “um verdadeiro canteiro de obras”.

Sérgio de Castro começou sua fala agradecendo o convite e reiterou a todos que o Encontro Brasileiro segue sendo organizado e deverá acontecer em novembro, conforme previsto.

Sérgio nos lembra, de início, que o neologismo Infamiliar é a proposta de tradução de Ernani Chaves e Pedro Heliodoro Tavares, para a forma substantiva Das unheimliche, título do célebre ensaio de Freud de 1919.  Ressalta a dificuldade da tradução alemã também para a língua latina especialmente por ela conjugar o termo heimliche, o doméstico, o familiar, o íntimo, com seu oposto, o não familiar.

Sérgio não se deteve na questão de que Freud situa, em tal palavra, algo do que Lacan, também num neologismo, chamará de êxtimo. Deteve-se nas referências recentes de autores do Campo Freudiano como Miquel Bassols e publicada em Opção Lacaniana n.79, dirá que: “Se tivéssemos que transpor literalmente o termo em nossa língua (o espanhol, no caso, mas com os mesmos impasses e dificuldades que o português), então melhor seria falar de “O in-familiar”. Da mesma forma, trouxe também da recém publicada resposta de Lacan a Marcel Ritter[i], a observação feita por Lacan de que o UN presente em algumas palavras alemãs-como unheilimch, unbewusste- inconsciente- assim como o Unerkant, o não reconhecido, se liga e remete a um limite, um limite  do dizível. Tomando do Editorial do número 102 da Revista La Cause du désir, Sérgio de Castro lembrou “Fabian Fajnwaks que acolheu a sugestão feita pelo filósofo Jean-Luc Nancy o termo Unheimliche por inquiétante etrangeté – inquietante estranheza – seria inadequada – e que inquietante familiarité – inquietante familiaridade, seria melhor e mais próxima do sentido em alemão. Dirá Freud “O infamiliar é uma espécie do que é aterrorizante, que remete ao velho conhecido, há muito íntimo” (P. 33, O infamiliar, ed. Autêntica)”.

Após toda esta explanação sobre o termo, Sérgio de Castro tomou o ensaio de Freud, lembrou que este indica “a angústia como própria a tais acontecimentos, e ao final os indexará ao recalcado e a seu retorno”. Para Sérgio, “tais fenômenos serão sempre mais ou menos inesperados, com algo de invasivo em seu caráter de surpresa e angústia suscitada, e em maior ou menor grau, rompendo ou forçando parâmetros simbólico/imaginários previamente delimitados e supostamente estáveis. Será por tais vias que nos perguntaremos aqui, se uma certa aproximação com o gozo feminino tal como proposto no avançado de seu ensino por Lacan, não poderia ser interessante”.

Foram incluídos, fenômenos infamiliares extraídos do conto de Hofmann e elementos contemporâneos: “Refiro-me aqui aos recursos técnico-científicos da genética e da  medicina contemporânea, por exemplo, que transformam e produzem organismos vivos, que cirurgicamente criam mutações corporais inimagináveis para Freud e seu mundo, ou a internet e suas redes não hierarquizadas e sem um centro organizador, dos quais nos valemos de um hoje, aos recursos e ingerências na vida de cada um desse Outro constituído a partir dos arquivos de Big-Data que a cada dia sabem mais sobre nós mesmos e constituem todo um novo e estranho imaginário que incide sobre nós e sobre decisões que acreditávamos terem sido tomadas na intimidade e no privado”.

A partir destes pontos, Sérgio de Castro propôs uma questão: “se também, ao situarmos e nos aproximarmos do fenômeno do infamiliar em sua atualidade, o retorno do recalcado enfatizado por Freud como próprio desse fenômeno, não deverá ser pensado  numa conjuntura onde o Nome-do-Pai, como constatamos em nossa orientação,  como agente do recalcamento, não incidirá  mais de forma tão determinante sobre o falasser. Ou seja, entre a angústia e, para o Freud de então, seu correlato, o retorno do recalcado, apresentados ao longo do ensaio como elementos próprios, ainda que não exclusivos, do sentimento de infamiliaridade”.

Sérgio tomou o Seminário de Lacan, A Angústia – Seminário 10, para trabalhar esta questão, uma vez que “o XXIII Encontro Brasileiro pretende cotejar, articular, distinguir, clínica e epistemicamente, o feminino- ou, o gozo feminino, esse conjunto aberto sem uma delimitação precisa- que, adianto, não será uma prerrogativa exclusiva das mulheres, do infamilair freudiano, tal qual, o artigo de Freud, apostamos, nos permite fazer. O alcance e o resultado de tal cotejamento poderá, como creio ter indicado, nos surpreender”.

Em “O Seminário, Livro XX, mais ainda, Lacan avança de forma decisiva em suas elaborações sobre o feminino. Se, no início de seu ensino, uma posição feminina era definida a partir de sua relação com o falo […] Situar uma posição feminina apenas articulada ao falo, e portanto a uma operação de recalcamento, como o vemos, a partir da fórmula da metáfora paterna, não nos parece então uma via suficiente para o que visamos no Encontro Brasileiro. Será preciso ir mais além, como o fará Lacan”. Pois, “os momentos iniciais de Lacan, serão, segundo Miller, momentos de grande otimismo, uma vez que o simbólico, em tese, seria capaz de recobrir todo o imaginário e significantizar toda a pulsão”.

As elaborações apresentadas sobre o esforço de Lacan, no  Livro 10, para circunscrever o gozo num objeto a, como termo heterogêneo e exceção dada ao gozo em relação à linguagem, dez anos depois, no Livro 20, mais ainda, será formulada distintamente. Sérgio coloca que “tal regime de exceção, que tentava elementarizar um real, será estendido e tocará, sob a designação de “não todo fálico”, os fundamentos mesmos da linguagem. A própria ultrapassagem lacaniana de uma linguística saussureana, com suas elaborações sobre lalangue feitas ali evidenciam a direção que Lacan dava à questão. JAM chamará a atenção para a escrita do J maiúsculo proposta ali por Lacan, que o levará a pensar na estrutura do nó, mais que na estrutura da linguagem. Miller falará, em Coisas de fineza, na lição de 14/01/2009, que, “com o J (jota maiúsculo) a coisa explodiu””.

Sérgio pergunta “se a  tese desenvolvida por Miller em sua Teoria de Turim relativa à feminização do mundo não seria  compatível com tais elaborações do Seminário  livro 20. A disseminação que assistimos de um gozo não todo fálico incidindo sobre as modalidades do laço social contemporâneas poderá ser pensada a partir daí”, parece-lhe. “Aqui também podemos apontar, para nos referirmos a debates e questões atuais, ao não binarismo do regime de gozo a que chega Lacan. Como não se trata, com a fórmula lacaniana [para não todo X , fi X] , de complementariedade de gozos ou de uma simples oposição simétrica, não estamos mais regidos pelo binarismo do 1/0, presença/ausência ou falo/ castração” “ Tal gozo, não todo fálico, será generalizado por Lacan, o que permite a Miller dizer que: “Pelo viés do gozo feminino digamos que Lacan percebeu o que era o regime do gozo como tal””. (O ser e o UM, 2/3/2011.)

Sérgio de Castro encerra abrindo para questões importantes que abrem para pontos candentes da contemporaneidade como:

“A lógica feminina do não todo prescindiria inteiramente de uma referência ao falo? O gozo dito “não-todo-fálico” já não o convocaria, ao falo, como um ponto a partir do qual outras delimitações poderão ser feitas? É certo que o infamiliar que nos interessa no Encontro apresenta-se, como creio ter indicado nessa apresentação do tema, num além do falo.  Mas uma referência ao falo, ainda que para indicar algo além dele, não nos permitiria estabelecer termos distintivos entre o empuxo à mulher, o objeto a no zênith social, a feminização do mundo, ou uma perspectiva do feminino que não fosse apenas superegóica?”

Logo após a explanação de Sérgio de Castro, Fábio Paes Barreto foi convidado a comentar e abrir para o debate.

Atividade do Conselho da SLOF

No último dia 15 de setembro, aconteceu mais uma atividade do Conselho da SLOF. A Conselheira Tânia Regina Anchite Martins apresentou a sexta aula do Curso de Jacques-Alain Miller O lugar e o Laço, intitulada Fora-sentido. O texto da aula foi estabelecido por Graciela Brodsky e dividido em cinco subtítulos: A psicanálise e seu duplo, Psicoterapia e pulsão, Psicoterapia e fantasia, Psicoterapia e sentido, e Série sem fim. Tânia Regina abordou os pontos centrais de cada uma dessas partes do texto.

A tônica dessa aula gira em torno da questão anunciada por Miller logo de início, a diferença entre a psicanálise e a psicoterapia, na medida em que ambas se confundem em nome da terapêutica. Segundo Miller, a psicanálise produziu e alimentou seu próprio semblante, a psicoterapia, e este a envolve, paralisa e vampiriza. O tratamento que ele propõe para abordar este problema não é o recurso à Instituição, às regras ou a tradição, ele propõe abordá-lo pela prática e pela orientação.

Para trabalhar essa questão da diferença entre a psicanálise e a psicoterapia, Miller recorre ao SENTIDO, como ele anuncia no título dessa aula, pois toma como referência a resposta dada por Lacan em 1973, em Televisão, quando ele perguntou para Lacan sobre a diferença entre psicanálise e psicoterapia.

Tânia Regina acompanhou Miller em sua proposta de escutar a resposta dada por Lacan, e de elucubrar sobre a possibilidade de Lacan ter dado outras duas respostas além da que ele deu em 1973. A primeira resposta que Lacan não deu, utiliza o grafo do desejo. Dentre os pontos abordados, destaca-se que a psicoterapia se restringiria ao primeiro nível do grafo, portanto, a questão do gozo não será colocada e a consistência do Outro será preservada. Miller destaca que o próprio da operação analítica seria o acesso ao segundo piso do grafo, admitir o gozo e a inconsistência do Outro. A segunda resposta que Lacan não deu, diz Miller, é que a psicoterapia se inscreve no discurso do mestre. Miller questiona por que Lacan não deu esta resposta já que em Televisão mesmo, ele trabalha com os matemas dos discursos. Sobre a terceira resposta, aquela dada por Lacan em Televisão, Miller destaca a simplicidade e o sarcasmo.  Lacan demarca apenas o sentido como traço distintivo entre a psicoterapia e psicanálise. Além disso, diz Miller, Lacan nos faz rir do sentido, o sentido sexual, o senso comum, a sensatez, e por fim o bem que pode conduzir ao pior.

Após um longo percurso para resituar o sentido, Lacan em 1973, o rejeita e o coloca no lado da psicoterapia, ou seja, o sentido passa a ser o que distingue a psicoterapia da psicanálise. Lacan passa da semantofilia a semantofobia. Então, Miller destaca o fato de Lacan ter dado como resposta o sentido e não as outras, e diz que isto, até então, havia passado desapercebido: este ponto de não retorno, nunca mais o sentido. Portanto, a rejeição ao sentido é radical, gerando uma mudança decisiva de orientação no ensino de Lacan.

Tânia Regina sublinha das considerações de Miller, que o FORA-SENTIDO é a aposta decisiva de Lacan no intuito de separar a psicanálise do seu semblante, a psicoterapia. O fora-sentido não só está a serviço de transmitir o saber que se pode elaborar a partir da psicanálise, mas é principalmente um investimento na prática da psicanálise. Os matemas já serviram a Lacan como uma forma de transmissão do fora-sentido, e é a partir deste ponto que Lacan começa a trabalhar com o nó borromeano, inaugurando seu último ensino.

Miller considera este último ensino não conclusivo, precisando ser explorado. Feito de pedaços e contraditórios, faltando um ponto de basta. Com a teoria dos nós a própria noção de ponto é questionada por Lacan, portanto está colocada em questão a noção de retroação, e principalmente o conceito de finitude.

Tânia Regina acompanhou Miller e apresentou os desdobramentos das mudanças inauguradas por Lacan em seu último ensino. Destacam-se as mudanças em relação à concepção de Lacan sobre o final de análise, sobre o passe, sobre o lugar do sinthoma. Segundo Tânia Regina, Miller nos mostra que psicanálise orientada pelo fora-sentido provoca uma transmutação nos valores psicanalíticos. Ele diz que se trata aqui do avesso de Lacan. O sinthoma é colocado no centro da clínica. A trajetória do mais além não orienta mais a clínica. O nó borromeano corta o mais além. O gozo não é mais uma transgressão, mas está por todos os lados: “Onde isso fala, isso goza”. Ou seja, a palavra agora se desvaloriza, torna-se tagarelice, o sentido imbecilidade e a linguagem também é atingida. A linguagem que como estrutura já teve o nível de real, com a chegada de lalingua, torna-se juntamente com a gramática, elucubrações. Nessa direção, o sujeito é sistematicamente substituído pelo falasser quando se fala da experiência clínica, considerando que o gozo e o corpo estão sempre concernidos. Bem como tudo que se relaciona com o sentido cai por terra: o conhecimento, o mundo, o todo. O privilégio passa a ser do real fora-sentido e sem lei, o real impossível de negativar.

Tânia Regina percorreu essa sexta aula de 10 de janeiro de 2001, de ponta a ponta, além disso recorreu a algumas referências do próprio Miller e de Lacan, que propiciaram um aprofundamento das questões trazidas por Miller em 2001: o Ato de Fundação escrito por Lacan em 1964 (nele recortou a contribuição sobre psicanálise pura e psicanálise aplicada à terapêutica); a contribuição feita por Miller em 1992, em um Congresso em Rennes, que foi publicado com o título Psicanálise e psicoterapia, na Revista da Escola da Causa, 22 e na Freudiana, 10 (em que destacou  o grafo do desejo, a posição do analista e o desejo do analista); o Seminário 17, O avesso da psicanálise (Tânia Regina utilizou esse texto para aprofundar as elaborações de Lacan a respeito do discurso do psicanalista e seu avesso, o discurso do mestre).

Logo após a explanação de Tânia Regina, Fábio Paes Barreto foi convidado a comentar e abrir o debate.

Resenha da atividade de 13 de outubro de 2020

A prática psicanalítica em tempos de pandemia

Rômulo Ferreira da Silva

Rômulo faz a abertura dessa atividade recordando a fala de Romildo do Rêgo Barros nas Primeiras Jornadas da Seção Leste-Oeste (em formação), retomado por Bartyra Ribeiro de Castro de que “estamos longe de podermos nos posicionar realmente quanto aos efeitos dos atendimentos virtuais”. Porém, insiste que essa reunião se dedica a recolher o que cada um vem enfrentando, debatendo e elaborando ao longo desses meses nos quais estamos praticando de forma intensa e regular os atendimentos remotos, “não nos cabe recuar diante desse desafio, pois seguimos praticando e chamando o que estamos fazendo de psicanálise. A função do controle, colocada por Lacan em um sentido mais amplo é de colocar à céu aberto se o que estamos fazendo continua sendo psicanálise.”

Rômulo lembra que o X ENAPOL já foi anunciado, ocorrerá nos dias 09 e 10 de outubro de 2021 em Santiago do Chile e o tema será O novo no amor – modalidades contemporâneas dos laços. O texto de apresentação de Lizbeth Ahumada Yanet, presidente do próximo ENAPOL, publicado na lista Aqui Fapol no dia 09 de outubro de 2020, nos conecta ao tema: “Como na imagem do cartaz que lhes apresentamos, os laços se entrecruzam, os equilibristas se sustentam no fio, percorrem a corda em seus monociclos uma e outra vez; e, no meio, se encontram com outros que por sua vez vão e vem; mas sim, advertidos de que o percurso enquanto tal traz consequências. O analista-equilibrista, por que não?

A cidade de Santiago do Chile enfeitada com a imponente Cordilheira dos Andes será o lugar do encontro. Nossos colegas da NEL Santiago, junto com as comissões científicas e de organização, já estão a postos, subiram no fio e começam os malabarismos e as cambalhotas que preparam nosso encontro.”

Foram sete os colegas que enviaram textos para animar a conversa: Alberto Murta, Renato Vieira, Denizye Zaccarias, Bartyra de Castro, Ordália Junqueira, Cristiano Pimenta e Fábio Barreto.

Alberto Murta destacou a pergunta: Qual é o estatuto desse Real na nossa época? Quando ele arremata que o futuro da Psicanálise depende do Real, considerando que a agitação deste Real em jogo é inerente à manifestação do COVID 19. Ou seja, que não podemos nos furtar em manejá-la, em testemunhar o nosso manejo.

E enfatiza “que os efeitos da nossa prática não passam pelo furor sucesso”, abrindo a discussão para a ideia de que o sucesso da psicanálise é o seu fracasso e nos remetendo às nossas jornadas, em relação à formação do analista.

Renato Carlos Vieira nos diz que “o COVID-19 chegou entre nós e, diante desse real da civilização, ficou mais evidente que há um real do corpo que se goza que também deve ser visado nas modulações das palavras via gadgets.”

Retoma que “nessa época estamos a nos reinventar com as “práticas remotas” e que “a partir delas, visa-se não o comum, mas sim a singularidade do caso a caso.” Renato dá o testemunho de sua experiência particular no enfrentamento da doença, parafraseando Cazuza: “eu vi a cara da morte e ela estava viva”, o que produziu uma interpretação ao estilo che vuoi?

Ainda por outra via, Renato acrescenta que, “por ser uma realidade transindividual, a subjetividade de uma época também afeta à Escola sujeito.”

Denizye Zacharias aponta para o trabalho de rever e repensar o lugar do analista e da psicanálise, dizendo que o “isolamento, para alguns ele apazigua o modo de gozo, enquanto para outros ocorre o contrário.” Ela destaca que “o aplicar a psicanálise nas condições que cada um dos praticantes pôde recorrer, é um enveredar-se no fazer para, no posteriori, deixar-se interrogar.” Uma pergunta é colocada por Rômulo: “Você estaria propondo que estamos em tempos de psicanálise aplicada, deixando em suspenso a questão da psicanálise pura? Que também destaca o quadro de René Magritte trazido por Denizye, nos “contrastes (chiaroscuro), a obscuridade até o espaço iluminado – ou vice-versa – dão o teor do quadro”.

Bartyra Ribeiro de Castro se ancora no “não desejo de curar” na decisão de sustentar os atendimentos remotos como “uma alternativa para que o sujeito pudesse se colocar com seus impasses e angústias, onde se perdeu a crença no futuro”

Essa colocação também nos remete à separação entre psicanálise pura e aplicada, e Bartyra nos traz a questão da psicose como o tema mais delicado nessas circunstâncias. “algumas vezes se fez necessário ir presencialmente ao consultório”.

A questão colocada é se o diagnóstico pode nos orientar em relação à opção presencial/remoto quando retomarmos paulatinamente os atendimentos presenciais.

Ordália Junqueira apresenta uma excelente articulação entre a práxis analítica na vertente do controle que nos remete às elaborações sobre o funcionamento da Escola em tempos de pandemia, utilizando a referência de Miller “até a impossibilidade em se permanecer em um mesmo porto por muito tempo”. Achei precisa essa contribuição que nos convoca a renovar nossos portos, como fez Freud em relação à psiquiatria de sua época, Lacan também o fez em relação à Freud e a si mesmo. Momento precioso de Miller “quanto à forma de “conduzirmos nosso remo nesse momento de escolha forçada aos atendimentos online”.

“Como orientarmos então, nós analistas, diante da impossibilidade em continuarmos no mesmo porto?”

O controle surpreende com a localização pontual do desejo do analista. O que, certamente, tem repercussão na função que se ocupa na Escola.

Cristiano A. Pimenta avalia que a “análise remota se mostrou uma ferramenta imprescindível para ajudar o falasser a enfrentar o real próprio do seu inconsciente, aquele que “se revela na clínica como o impossível de suportar”, referindo-se à Jacques-Alain Miller, o que nos questiona também sobre a psicanálise aplicada e pura.

Cristiano avalia também que “é preciso localizar o que se perde e o que se ganha nos atendimentos remotos”, colocando questões que “necessitamos de tempo para responder: seria possível para quem faz sua análise em outra cidade, estado ou país, fazer sessões on-line até que possa viajar? Seria possível uma análise mista? Qual seria o efeito de se ter sessões on-line sobre as sessões presenciais?”

Fábio Paes Barreto apresenta o tema A Cura Psicanalítica na Pandemia: para além da contingência, dizendo que pessoalmente, nunca teve “um posicionamento francamente contrário à psicanálise online”. Mas, não sem colocar o privilégio “do encontro entre os corpos e que um corpo vivo é aquilo que dá suporte para o real do gozo”.

Fábio, assim como Alberto, aponta menos para o sucesso, no sentido de extrair maiores consequências para a psicanálise.

RESENHA

Mulher, Amor e Gozo: mistérios do feminino – Sônia Vicente (EBP/AMP)           

Esta resenha consiste na conversação estabelecida após a exposição de Sônia Vicente sobre o tema “Mulher, Amor e Gozo:  mistérios do feminino”.

Ordália Junqueira abriu o encontro agradecendo a presença e generosidade de Sônia Vicente, Coordenadora Geral do XXIII Encontro do Campo Freudiano. Ela, por sua vez, teceu seus agradecimentos e apontou ser um tema que tem sua complexidade, tanto a mulher, quanto o amor e o gozo. E nos convidou a uma conversação. Vem se ocupando destes temas para elucidar questões sobre o gozo feminino, como preparação para o XXIII Encontro, cujo título é “O Feminino Infamiliar: dizer o indizível”. Ela destacou que nos encontros preparatórios, “a questão que tem insistido tem seu foco na afirmação de Lacan, que marca o início do seu ultimíssimo ensino, que o que ele entreviu pelo viés do gozo feminino, ele o generalizou e o concebeu e fez dele o regime do gozo como tal – gozo fora da engrenagem edipiana”.

Sua exposição contemplou os seguintes subtemas: A mulher e o amor, Amor cortês, Amor e nó, Gozo e sexuação, Gozo feminino e gozo como tal. Percurso que vai de um apelo ao amor, pura devastação, ao “amor mais digno” – amor ao sinthoma.

Para finalizar sua apresentação, Sônia Vicente nos presenteou com uma vinheta clínica “esse caso eu o trouxe pelo encanto…ela petrificou no pulsional e ficou destruindo o encanto dela…não há significante que possa dizer do ser dela… ela não dá conta”. Estímulo para uma boa conversação.

 

CONVERSAÇÃO

ORDÁLIA, abrindo a conversação disse ser um trabalho para  três encontros,eu decantei três pontos principais, todos tem relação  com o mistério” .O primeiro ponto foi a constatação “Nada se pode dizer do amor”, “nada se pode dizer da mulher”, ambos estão no campo do não sabido. Algo do mistério. É uma lógica que aponta o furo e o real sem sentido e aí vem … o homem expressa-se pela poesia. A mulher escapole do homem..aí ele fica encantado … puxei essa pergunta porque vem um segundo ponto , você traz duas perguntas, o que é uma mulher para um homem? Aí, Lacan nos responde é o seu sintoma. Um homem crê numa mulher como ele crê no sintoma e vem o enigma a decifrar “o que é uma mulher?” aí , o que seria o sintoma? E a segunda questão que você traz é “o que é um homem para uma mulher?” que você diz que não é uma coisa tão clara.. uma mulher só ama um homem quando é privada daquilo que ele dá., ou seja, ela reconhece nele a sua falta e ao mesmo tempo você traz aqui algo da devastação porque você diz  o homem pra mulher é uma aflição e uma devastação, então clivando as duas, o homem se expressa pela poesia com a mulher e o homem se apresenta como uma devastação para a mulher. E isso vai desembocar no terceiro ponto, que me tocou,…quando uma mulher se dirige ao lugar de seu gozo não-todo, que é o suplementar…é o outro da falta que ela encontra, mas esse outro ele não pode ser encontrado e justamente o confronto com essa ausência dá conta do caráter louco e enigmático do amor e do gozo feminino. E aí eu vou enlaçar o iniciozinho que você destacou trazendo a mitologia e os deuses amor e loucura…que eu gostei muito. O amor e a loucura se enlaçam para sempre e aí a pergunta: o amor é louco, misterioso? a mulher é louca, misteriosa/ e o gozo é algo da loucura e misterioso? Aí eu enlaço com o título … enfim, paro por aqui”.

RÕMULO: “…eu acho que está mais ou menos no mesmo ponto que Ordália colocou e aí a gente passa para Sônia… eu queria… talvez abrir um pouco mais a questão da devastação…porque acho que é um capítulo muito difícil, pelo menos para mim, e acho que você traz alguma coisa que me elucida quando você diz que  nós podemos dar conta da forma erotomaníaca do amor, na mulher, que ela está sempre imaginando o lugar da amada. O que faz então ela repetir sempre essa demanda infinita de amor. E aí você cita que o Lacan faz um contraponto no Lacan a erotomania, dizendo que um homem é sempre para uma mulher, nessa perspectiva erotônoma, aflição e devastação...uma primeira pergunta , você considera que no amor, na mulher, naquele que se coloca do lado feminino, na fórmula da sexuação, é sempre erotomaníaco? Uma dúvida que eu tenho, porque eu achei muito interessante quando você …aborda a devastação dizendo que a mulher pode se colocar  em privação extrema, inclusive a morte, quando está na posição de devastada, quer dizer, a partir do amor erotomaníaco ela pode ficar na posição de  devastada ou no estado de deslumbramento, é quando ela pode escutar desse homem, desse conector algumas palavras de amor, então eu queria que você abrisse um pouco mais… o amor na mulher é sempre erotomaníaco?

ANA ROGÉRIA: A minha pergunta é o que temos discutido um pouco as Quartas-feiras no Seminário..é uma coisa que fico assim intrigada, eu achei muito interessante essa pesquisa que você trouxe, que a gente já tinha trabalhado essa questão que vais substituindo o gozo feminino até no gozo, nos próprios Seminários do Lacan. Mas, me parece que quando a gente vai nessa mesmo perspectiva do Lacan, não binária, fica muito difícil, … quando a gente vai trabalha nessa perspectiva…num caso clínico, quando faz uma reflexão em torno disso,  parece que sempre há uma necessidade de voltar para algo binário, não? Porque quando a gente fala, essencialmente numa posição feminina e numa masculina, mesmo que sejam posições de gozo a partir da sexuação, , me parece muito difícil articular alguma coisa, que não seja minimamente binária, porque se a gente  coloca em perspectiva a própria significação fálica já se faz algo binários, nesse sentido, …eu vejo que gente tem esse esforço de trazer essa questão fora do binarismo… que é a proposta da psicanálise, mas acho que há uma certa dificuldade, talvez pela própria impossibilidade de não fazer algo de duas posições, ou de uma posição em relação a outra.

BARTYRA: “Você estava trabalhando o devastada como o encontro com o silêncio de um homem, então a minha pergunta é se  o deslumbramento falaria do encontro com as palavras de um homem, porque diria de algo do ser dessa mulher?

SÔNIA: Eu vou começar pela da Ana Rogéria porque na verdade é tudo o que eu quis dizer com mistério. Há gozo, isso é um mistério. E isso tem a ver, para mim… quando Lacan vai no ultimíssimo, tem a ver com a repercussão do furo primordial…há gozo, há um, do um enquanto real, não mais do Um enquanto traço, mas o Um enquanto furo. Quando a gente fala há gozo… eu entendo assim, a gente tem que falar como substância gozante. Há um corpo que se goza. Eu fiz todo esse desenvolvimento prá chegar aí. Há só ressonância, ressonância de que? Não são de significantes, é desse Um. Do Um enquanto furo. Então quando Bartyra pergunta.., quando ele fala de deslumbramento não tem a ver com palavras, tem a ver muito mais com o gozo místico que é direto no corpo. É uma relação direta do corpo, nas místicas, com Deus, mas não passa pelas palavras. É um gozo mudo sem palavras…. Quando Miller dá prà gente ler o sinthoma, já não é mais da ordem do saber-fazer , é só da ordem de ler de uma outra forma…é uma subjetividade que não aparece, é só um objeto, na verdade é um corpo que goza. Então estou tentando , Ana Rogéria, não me referir mais ao binarismo que está no Seminário XX… Lacan queria tirar essa história do binarismo… E  o amor é erotomaníaco porque quando ela se dirige, o seu gozo não-todo, o que ela encontra no outro é ausência, é só isso que interessa a ela. Por mais significante qu possa vir no Outro é só  no primeiro momento, o que repercute é o vazio, por isso Ordália o homem tem que abordá-la é da ordem da poesia…mas a poesia é furo, é só furo. O poeta, ele não põe sentido na poesia, quem dá o sentido somos nós. Nós frente ao furo de uma  poesia, nós damos o sentido… Esse sentimento da mulher de se sentir sempre a amada tem a ver com, a gente sempre põe que a primeira da devastação é a relação da menina  com a mãe. Toda mulher tem um ponto de devastação. Mas eu penso que tem a ver com uma nova versão do pai, a perversíon. Essa  mulher que ele vai chamar da deusa que vai comandar o mundo, é aquela mulher que é causa de desejo desse homem e que  se apossa dele. É ela que comanda, porque o homem precisa crer que existe uma mulher, daí a importância também da referência do amor cortês… a mulher do trovador não existe, porque naquela época, Século XIII. A mulher não existia… a mulher começou a existir como dama de xadrez, Nossa Senhora, e o o trovador começou a dizer palavras de amor para uma dama inexistente.  O homem fala para uma mulher que não existe. A mulher é uma a uma. Ele fala para uma mulher que o capturou e é causa  do desejo dele. E, nesse sentido, ele faz poesia porque …mas ele fala muito mais do furo, por isso fala que a dama é o invólucro do nada. Ele ao involucrar o nada, ele cria a dama, que é nada. A mulher não existe. E sim ele crê, cria uma mulher para ser seu sintoma, prá na fantasia mantê-lo como fálico, como objeto que vai fazer a relação sexual existir. Mas, na verdade isso é sempre falho. É por isso que Lacan diz que nada se pode dizer do amor e nada se pode dizer da mulher… porque os dois tem estatuto de falta, a mulher não existe e o amor e o amor não pode ser definido…… é por isso que aí ele vai trabalhar o amuro, entre o homem e a mulher há o  muro da linguagem. E que a gente tem que ver além do muro. O que tem além do muro? O a os signos bizarros no corpo da sexualidade, porque na verdade o ser, o sexo, a gente tem asexo, o ser não é sexuado. É só quando entram as palavras de amor…Ela precisa reconhecer nele a sua falta, porque é com a falta  que se ama. Não se ama com nada consistente, porque o amor tem a ver com o desejo e não com o gozo… a falta que nos permite desejar. O gozo que se tem que abrir a mão para conceder o desejo.

ALBERTO MURTA: “…Gostei muito da sua investigação, que você está realizando e das questões que já foram arroladas aí… se você teve oportunidade de investigar,  de trabalhar um pouco mais, essa questão que você colocou se servindo do Lacan, da posição do homem na relação com a mulher, e isso você já colocou muito bem quando é a devastação, mas você usou também a aflição. Em relação à aflição você tem algum comentário mais a fazer? … a aflição que um homem  pode, digamos assim,  desencadear numa mulher…”… Do  outro lado, eu queria entrar nesse debate que me chamou muito a atenção, que foi patrocinado pela  pergunta ou comentário da Ana Rogéria., queue diz respeito  ao binarismo, ou bipartição presentes nas fórmulas da sexuação. Ela manteve uma certa posição, dizendo que no fundo, ainda, tem uma certa prevalência do binarismo em Lacan. Eu diria que sim, parcialmente, porque é interessante que assim como há um certo binarismo nas fórmulas da sexuação há também o binarismo no que Freud vai chamar de dualidade pulsional..  é verdade que Lacan no decorrer do seu ensino diluiu essa bipartição no campo da sexualidade, e também diluiu acima de tudo o conflito da dualidade no contexto da pulsão freudiana, e chegou nisso que você  muito bem pontuou, há gozo. Quando a gente chega nessa dimensão do há gozo , você fez ressonâncias no “há gozo” quer seja habitando esse “há gozo” com a questão do há Um, mas ao mesmo tempo evidenciando que o próprio há gozo é já é por ele mesmo a ressonância , que provém, disso que você colocou muito bem, do furo real.. ora, neste instante aí, já que é uma  ressonância, nós aí, encarnamos, se podemos dizer assim,  um monismo… e nesse momento aí por encarnar um monismo,  gente pode falar há um monismo no sinthoma

SÔNIA: Exatamente.

ALBERTO MURTA: “…isso me chamou muito a atenção, porque você usou um termo, dizer, há um gozo.. ora, é interessante que uma das últimas das definições das pulsões para Lacan se escreve também na ordem do dizer…de que há um dizer

SÔNIA: no corpo

ALBERTO MURTA: É… o dizer também faz ressonância, o conector do dizer é lalíngua. E lalíngua é um terreiro fértil dos equívocos, e é à luz do equívoco que ele consegue, de uma forma ou de outra, nos legar algo que diz respeito ao gozo, dizendo por exemplo, há gozo.

CLEUDES: A minha questão também passa por aí. Eu também faço parte do Seminário da Sônia, das Quartas-feiras… Pensei no deslumbramento como a outra face da própria devastação, porque pressupõe posições extremas. O deslumbramento, ao meu ver, tem a ver com a excessiva idealização do outro, e quando isso cai, e sempre cai, ela sucumbe, ela cai na devastação. Na posição do deslumbramento ela é tudo para o outro, tudo para o homem, e quando isso cai, ela é nada, então eu penso a devastação como a outra face do deslumbramento…me parece que ela se devasta porque ela se deslumbra, porque ela idealiza excessivamente o outro.

SÔNIA: “…Sobre o que o Beto  me perguntou… sobre a aflição…. são ideias, designações do pior, porque elas, aflição e devastação, são mais danosas que o sintoma. No seminário O osso de uma análise. o Lacan vai dizer que a mulher um sintoma é para o homem ,  e o homem é para a mulher uma devastação e a diferença é que o sintoma é localizável. O  gozo do sintoma é contável e a devastação , não. Então essa é uma diferença, e é uma aflição porque designa o pior, designa aquilo que é impossível de dizer… designa algo que aí…que causa horror porque é quando o falasser se submete a entregar o seu ser,  algo que é mais precioso a ele,  ao outro…e é diferente a aflição do deslumbramento, situação de êxtase.  E, eu concordo com você Cleudes que não se sustenta, quer dizer que, no fundo, uma coisa ou outra, leva realmente ao pior, de você ser objeto do gozo do outro.. isso leva a gente para o gozo, que foi a pergunta de Ana Rogéria e que o Beto complementou. Beto, Eu considero o binarismo quando tem alguma referência ao falo, então no Seminário 20, quando Lacan faz as fórmulas  da sexuação o referente dele ainda é o falo. Porque quando vai para a posição feminina , ele vai dizer não toda submetida à função fálica. Quando ele vai avançando, depois…ele vai se afastando e vai falando só, porque aí ele vai para a topologia, não a topologia dos nós, do toro, vai trabalhar o toro, trabalhar com o real, …ele vai trabalhar o toro e é esse furo que faz ressonância. O furo ressoa o tempo inteiro e esse Um  é que vai acompanhar a gente pela vida inteira. Aí tem uma fixação de gozo que todas as outras coisas que acontecem na vida é topológico, é furo, ao redor disso é que o simbólico vai fazendo os furos. O furo não existe antes, só tem furo porque o simbólico compõe esse furo…mas eu queria dizer desse monismo, porque quando Lacan vai dizer que a pulsão é um eco do dizer  corpo ele está não mais na dualidade pulsional, ele está só com, se agente pegar em termos de amódio, com o ódio, com a  pulsão de morte, com essa primeira expulsão que acontece, …algo que é um estranho familiar…. Há gozo, não há significante, há um corpo que se goza.

…Questões sobre o caso clínico…

ENCERRAMENTO

Ordália encerrou o encontro agradecendo, também em nome da Diretoria da SLOF, à Sônia pelo  trabalho e a disponibilidade em nome da Diretoria. Sônia Vicente se despediu, agradecendo aos Colegas por uma boa conversação.

Por Adriana Gonring, 17 de Novembro de 2020.

Seminário de Orientação Lacaniana “O lugar e o laço”

No dia 17 de novembro de 2020, Fabio Paes Barreto apresentou o oitavo capítulo “O último ensino de Lacan”.

Renato Carlos Vieira coordenou essa atividade e abriu a noite lembrando que há quase um ano ocorreu a primeira reunião do Conselho da Seção Leste-Oeste em Formação (SLOF), em que se decidiu por trabalhar esse Seminário de Jacques-Alain Miller. Renato sublinhou que o período nomeado por Miller como último ensino de Lacan traz uma concepção de real distinta dos momentos anteriores.

Fábio Paes Barreto percorreu o texto do oitavo capítulo e ressaltou os principais pontos de cada um dos seis subtítulos: Tradução, Dissolução, Autonomia, O fazer e o saber, Debilidade mental e Convite ao realismo.

Antes de acompanhar o percurso feito por Miller nessa aula de 24 de janeiro de 2001, Fábio indicou a leitura do texto “O último ensino de Lacan” publicado na Revista Opção Lacaniana número 35. Fábio sublinhou que as estratificações de tempos feitas por Miller: primeiro, segundo, último e ultimíssimo ensino de Lacan não é cronológica e sim lógica e que nesse oitavo capítulo essa marcação fica ainda mais clara.

Na primeira divisão do texto, nomeada como Tradução, Miller afirma que Lacan inventou uma nova língua com a finalidade de traduzir a de Freud. Segundo Miller, o último ensino de Lacan vai mais além da tradução de Freud. Situou que o marco desse período é a Conferência dada por Lacan em 1974, intitulada “A terceira”. E seu desdobramento ocorreu na sequência dos seminários: RSI, Le Sinthome, L’Insu que sait de L’Une-bévue s’aille à mourre, Moment de clonclure e, in fine, Dissolution, que se centram no nó borromeano. Lacan, assim como em seu escrito “O Atordito, irá evocar figuras topológicas, sem nunca tê-las desenhado, com o intuito de destacar no discurso as relações, os laços em questão”. Embora Miller evoque os seminários e textos escritos por Lacan nesse período do último ensino, ele mesmo diz que não há “um escrito que fixe seu sentido e que precise seu alcance”. Em outros termos, esse período “conserva um caráter aberto”, mas ao mesmo tempo possui “um aspecto aporético, como se nos topássemos com uma impossibilidade de concluir”. Esse tempo marcado pela “abertura”, pode ser “capaz de nos socorrer no presente, na qual a psicanálise pura e aplicada mantém uma relação menos nítida do que antes”. Além disso, Miller afirma que o último ensino de Lacan nos leva a “definição da psicanálise como impossível”, “muito mais real”.

Ainda sobre esse ponto da Tradução, Miller destacou que a primeira pontuação fundamental feita por Lacan em sua leitura de Freud, foi a de “especificar que a função da palavra – sustentada pelo campo da linguagem – é a única operação na prática analítica”. Lacan, em Roma, lançou sua primeira pontuação da palavra e também sua terceira pontuação, “que inaugura algo totalmente diferente, um regime de pensamento completamente distinto concernente à psicanálise”.

Na sequência do texto, no subtítulo Dissolução, Fábio acompanhou o desenvolvimento feito por Miller em torno do que ele nomeou como primeira pontuação, se referindo a um momento do ensino de Lacan em que ele distribuiu a teoria analítica nos três registros: o real, o imaginário e o simbólico. Segundo Miller, “Lacan procedeu repartindo os elementos, os conceitos e suas referências, entre três registros da experiência”. Miller explicita que esses registros são como gavetas, no sentido da leitura feita por Lacan em termos da estrutura da linguagem. Para Miller os registros são “conjuntos”, ou seja, “há alguns elementos aos quais consideramos que pertencem ao real, outros ao imaginário, e outros ao simbólico”.

No momento em que Lacan se debruçava na tradução de Freud, seu movimento correspondia em ir em direção ao ´registro do simbólico. Nos termos de Miller, “se considera que esse transporte de termos até ao simbólico, este transporte chamado simbolização, significantização reflita igualmente o que tem na experiência analítica”. Esse movimento não comparece no último ensino de Lacan, ao contrário há uma “ruptura”. Nesse sentido, Miller propôs o termo Dissolução em substituição a nomeação Tradução. Ou seja, “no último ensino de Lacan (…) já não está em jogo a tradução, a simbolização, ou a formalização dos conceitos de Freud, (…) o que constatamos é mais uma dissolução dos conceitos freudianos, uma passagem da tradução a dissolução”. Na leitura de Miller, “Lacan pretende passar pela mesma trituradora todos os conceitos de Freud”. Em outros termos, no último ensino de Lacan “há um rebaixamento do simbólico”, “no ensino de Lacan, o simbólico passa da supremacia ao rebaixamento”, o que implica na constatação de Miller de que no último ensino ocorre o contrário da ideia da “salvação pela palavra”, “a palavra tem mais o valor de parasita, até de câncer, de epidemia”. Por esta via encontramos (…) um rebaixamento do sentido”.

No terceiro subtítulo, Autonomia, o destaque continuou sendo o percurso de Lacan em termos de rebaixamento do sentido, o que segundo Miller possibilitou no segundo ensino haver lugar para o fora-sentido. Ou seja, “havia pois um lugar para o fora-sentido, para o saber em qualidade de articulação fora-sentido dos significantes, ainda que esse rebaixamento do sentido se fez em proveito do significante, dos matemas, da escritura”. Miller alerta que é preciso não confundir isso com o último ensino de Lacan, pois nesse último não apenas ocorre o rebaixamento do sentido, mas também um “rebaixamento do significante e do saber”. Lacan passou a se interessar e se interrogar sobre a fonação, isto é “Lacan contra Lacan em seu último ensino”.

Fábio destaca o exemplo dado por Lacan em seu escrito “Lituraterra”, a metáfora da chuva que faz marcas na terra, para falar sobre os dois tipos de escritura sublinhados por Miller: “Há uma escritura que se aplica a palavra e que guarda relação com o sentido, e ademais há uma escritura pura, desligada do sentido e por onde é capaz de valer como real. Lacan situa seu nó [nó borromeo] no nível desta escritura pura”.

A nomeação dada a essa parte do texto, Autonomia, pareceu colocar em questão o que Miller apresentou em termos de uma autonomia do sentido, do significante, na qual o Uno vem em direção a essa tentativa de escapar do sentido, exatamente por não fazer laço.

Em O fazer e o saber, Fábio sublinhou que no último ensino de Lacan há uma primazia do fazer em detrimento do saber, pois o saber está do lado do sentido. Lacan se dirige ao “puro real sem lei”, o que implicou em colocar em questão não somente o que tem sentido, mas também o que constitui o saber. Nesse sentido, foi preciso “separar o saber do real”, “nesta via Lacan encontra seu nó, com o qual faz de tudo para escapar do sentido e do saber”. Na leitura de Miller, Lacan toma o nó “como o paradigma do real”, na medida em que “desafia a elucubração de saber”. Segundo Miller, Lacan chegou a fazer a seguinte afirmação: “Este é meu nó, este é o real”. Em sua interpretação, “Lacan quis fazer com que o nó borromeo nos represente o que ocupa o furo de saber, e que aqui o fazer prevalece sobre o saber”.

Em seguida, no subtítulo Debilidade mental, Miller reforçou esse esforço de Lacan em seu último ensino, a ponto de se distanciar da ciência (desenvolveu uma semantofobia e epistemofobia) e, com isso, priorizou a arte. Fábio destacou a frase de Lacan “fazer-se tolo de um real”, que para ele tem conexão com o final de análise e com o “savoir y faire”. Para Miller, Lacan nos convida a “ser tolos”, visando a não introdução do sentido, ou fazê-lo o mínimo possível. Ser tolo implica em se haver com o real, com “um real entendido como exclusão do sentido, que implica um sem fim, um nada de conclusão”. Nessa visada, Miller afirmou que não se deve levar ao extremo essa proposição, mas que se trata de uma direção que leva à debilidade mental, nomeado por ele como “conceito fundamental”, que incide diretamente no conceito de inconsciente, pois “Lacan substitui o conceito freudiano de inconsciente pelo de debilidade mental: lhe dá o mesmo uso”.

Por fim, no sexto e último subtítulo Convite ao realismo, Fábio sublinhou a lógica do fantasma e o estatuto do objeto a, que ganham uma outra dimensão no último ensino de Lacan. Fábio acompanhou Miller, que apresentou mais um esforço do Lacan em seu último ensino “de desprender-se da perspectiva do simbólico [posta na lógica do fantasma]”, o que implicou rever o estatuto do objeto a, que antes era atribuído ao real, e que passa a “não ser mais que um semblante, e um semblante que não chega mais além que o ser. Neste ponto há que distinguir seriamente entre o ser e o real”. Miller explicitou essa distinção entre o ser e o real: “o ser é ter sentido. Nisso consiste a distância entre o ser e o real. As extravagâncias do ser são justamente as que invocam o real. O que aqui pode nos inspirar é um sadio convite ao realismo, quer dizer, a ser tolos frente ao real sem contarmos histórias”. Este convite abre uma série de questões para a própria psicanálise, pois como disse Miller “em psicanálise contamos histórias, nos contamos em histórias, fazemos histórias”. Essa mudança implica num redirecionamento do passe, que segundo Miller passa a ser “a última história que contamos a propósito do real”.

Ao final da exposição de Fábio foi aberto o debate. Muitas questões e contribuições foram feitas pelos presentes.

Resenha feita por Renata Tavares Imperial.
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