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Comissões das VII Jornadas da EBP-LO

Ponto 1 – As incidências do real na cultura e na clínica contemporânea

 Carla Serles

O real não é o mesmo de outrora; há muito deixou de ser apenas um resto do simbólico ou aquilo que retornava sempre ao mesmo lugar. A fim de sustentar essa afirmação e avançar em algumas formulações acerca do laço social e de suas incidências na clínica, optou-se por um percurso que toma como ponto de partida o Zeitgeist, o espírito da época, a leitura do contemporâneo. Isso foi feito no que concerne a certas bases conceituais da psicanálise, na tentativa de abrir perspectivas que possam repercutir como balizas capazes de orientar, de algum modo, a escrita de trabalhos que contemplem esse ponto norteador.

Dessa maneira, a lavra de um filósofo pode bem servir como um lampejo à posição que corresponde à de um analista frente ao que Freud chamou de mal-estar na cultura e Lacan, de impasses da civilização:

[…] contemporâneo é aquele que não se deixa cegar pelas luzes do século e consegue discernir, nelas mesmas, a parte da sombra, sua obscuridade mais íntima. Contemporâneo é aquele que percebe, no escuro de seu tempo, aquilo que singularmente lhe concerne e que não cessa de interpelá-lo[1].

Ainda na esteira do real, vale sublinhar um fragmento do argumento das VII Jornadas Seção Leste-Oeste da EBP, no qual Ary Farias delineia uma possível confluência entre o conceito de real e o fato estético, assinalando que “ambos decorrem do insólito, da subtração das conexões estáveis e pertencimentos ordinários, repercutindo numa desapropriação momentânea do eu”[2]. A partir desse excerto, torna-se possível retomar Miller: “o real é entendido não como um cosmos, não como um mundo, nem como uma ordem”[3]. O real é aquilo que resta do desvanecimento da natureza, ou seja, um resto desordenado por estrutura, desprovido de sentido e refratário a qualquer linearidade entre causa e efeito. Advém como um fragmento assistemático produzido no encontro traumático entre lalíngua e o corpo e, ainda, suas repercussões de gozo.

Sem correspondência com qualquer lei prévia, trata-se de “um real contingente, perverso. Um real arriscado”[4], na medida mesma em que inexiste uma equivalência natural da relação sexual entre os sexos.

Sob esse prisma, observam-se transformações significativas na vida erótica, que passa a se apresentar “desencarnada, desafetada e alinhada ao circuito mercadológico”[5]. Nesse contexto, assiste-se a um crescente desinteresse pela vida sexual, sobretudo entre os jovens, paralelamente à intensificação da busca por parceiros capazes de responder à exigência de um “gozo imediato e permanente”[6], comumente dissociado de laços mais duradouros.

No Brasil, em contrapartida, observa-se uma revalorização do par-casal-heterossexual advinda de movimentos religiosos, cujos preceitos conservadores retornam sobre os fiéis e, simultaneamente, interpenetram o campo da política por meio de pautas marcadas por acentuada precariedade discursiva. Não obstante, tais narrativas seguem produzindo efeitos de verdade e de crença sobre os corpos e os modos de gozo em uma massa cada vez mais avolumada.

Uma das insígnias mais eloquentes da erótica do nosso tempo refere-se a “cosmética e seu vasto catálogo de intervenções mobilizadas vertiginosamente, no intuito de coagular o tempo na simetria das formas e na juventude dos corpos”[7]. Comercializa-se a exaltação do amor ao corpo próprio, na mesma proporção em que o Outro resta desfalecido e o inconsciente sumariamente rechaçado.

Não sem consequências, as mutações alcançam a economia amorosa. Já se tornou lugar comum a formulação segundo a qual o mestre capitalista nada quer saber sobre as coisas do amor; a ele convém a racionalização técnica e a mercantilização dos seres. À psicanálise cabem o encontro contingente, os extravios e os tormentos amorosos, lá onde existe a aspiração “de um sentimento que carboniza antes de conhecer a finitude”[8]. Aí onde o palavrório frugal dá passagem a um vívido dizer.

Freud afirmou que ao ser humano não é dada a felicidade plena, uma vez que o ser humano “tem limitações constitutivas para realizar o programa do princípio do prazer”[9]. Tal insuficiência é resultante de três fontes: o próprio corpo, a relação com o mundo e, finalmente, a relação com o outro.

O inventor da psicanálise vivenciou as duas guerras mundiais, eventos que, segundo diversos autores, alteraram radicalmente a ética e a estética bélica. Ele próprio demonstrou como a guerra desmonta as ilusões civilizatórias. A partir do final da Primeira Guerra, ele passa a dedicar-se, mais vigorosamente, aos escritos concernentes à cultura e às suas incidências clínicas.

Os textos das décadas de 1920 e 1930 dedicados à sociedade, à cultura e à religião são, ao mesmo tempo, atravessados por uma dimensão clínica irredutível. E isso se dá pela simples razão de que a prática clínica é atravessada, de ponta a ponta, por aquilo que se precipita das formas da vida social na vida psíquica do sujeito[10].

Ao empreender uma verdadeira torção em sua teoria pulsional, Freud introduziu a noção de supereu, inclinando-se progressivamente ao que Lacan nomearia como a dimensão transindividual do inconsciente e, por conseguinte, à vertente política da experiência analítica.

Freud refina sua elaboração acerca da primariedade do recalque, conferindo menor centralidade à tese da ação nociva da moral sexual vigente. Ao mesmo tempo, ele se aproxima da concepção segundo a qual o mal-estar na cultura evidencia que as imposições superegoicas experimentadas pelo sujeito constituem-se como um operador metapsicológico decisivo para o destino de sua subjetividade.

A renúncia ao gozo pulsional, longe de apaziguar as exigências do supereu, apenas as intensifica. Freud isola essa instância que se exerce sobre as pulsões, compelindo-as a renunciar às exigências de satisfação e a separar-se de um gozo a mais, posteriormente formalizado por Lacan como mais-de-gozar. Esse gozo suplementar, contudo, é imediatamente reabsorvido pelo supereu, nutrindo sua voracidade.

Como observa Miller em “Jogar a partida”, “o funcionamento da civilização é intrinsecamente perverso, uma vez que a renúncia ao gozo que ela aparentemente prescreve constitui, na verdade, um imperativo que se alimenta do próprio gozo da renúncia”[11].

Lacan, que também “recebeu em pleno rosto o facho das trevas que provém de seu tempo”[12], demonstrou, sobretudo em “Kant com Sade”[13], as profundas consonâncias entre o imperativo categórico kantiano e a vontade de gozo sadiana.

Segundo ele, o imperativo superegoico de gozo está articulado ao discurso capitalista e à sua aliança com o discurso da ciência, através da proliferação dos objetos de consumo e de seu engodo correlato: consumidor-consumido. A adição deixa de pertencer somente à categoria das drogadições e generaliza-se ao consumo dos objetos próprios à maquinaria do objeto a em sua face de mais-de-gozo, na qual o sujeito é tapeado em seu desejo e enredado no movimento perpétuo do supereu.

Clotilde Leguil dirá que os sujeitos se encontram intoxicados:

Tóxico é o termo utilizado na linguagem para descrever a intoxicação produzida por um gozo em excesso, uma produção em excesso, uma atividade em excesso, um excesso que jamais se detém. O termo “tóxico” nomeia essa curiosa combinação de prazer e destruição, de perturbação e angústia, fragilidade e perigo, que reflete o mal-estar na cultura em sua nova versão[14].

Assim, chegam às nossas clínicas falasseres excessivamente angustiados, entediados, desvitalizados e, irremediavelmente, solitários. Estariam tais fenômenos incluídos naquilo que convencionamos chamar de novos sintomas? Ou caberia aos analistas sustentar um vínculo estético com a linguagem, “uma escuta à flor do significante, despojada dos hábitos sintáticos”[15], e, justamente por isso, capaz de ler as inflexões de sua época, que tem produzido sintomas que tangenciam a mortificação dos corpos ou uma fratura no sentimento mais íntimo de vida?

É sabido que o suposto discurso capitalista não faz barreira ao excedente de gozo, como nos quatro discursos estabelecidos por Lacan. O psicanalista, por estar imerso no discurso analítico, conta com o desejo do analista para jogar a partida contra a vontade de gozo do supereu, isto é, afrouxar seus excessos, permitindo deslocamentos.

A experiência estética poderia ser considerada como um desses deslocamentos?

 


[1] AGAMBEN, Giorgio. O que é o contemporâneo? In: AGAMBEN, Giorgio. O que é o contemporâneo? e outros ensaios. Chapecó: Argos, 2009. p. 63.

[2] FARIAS, Ary. A psicanálise e a estética do real. Escombros, Boletim das VII Jornadas Seção Leste-Oeste da EBP, Campo Grande, n. 0, p. 14, 2026. Disponível em: https://ebp.org.br/slo/jornadas/vii-jornadas-ebp-secao-lo-a-psicanalise-e-a-estetica-do-real/vii-jornadas-ebp-secao-lo-a-psicanalise-e-a-estetica-do-real-boletim/. Acesso em: 16 maio 2026.

[3] MILLER, Jacques-Alain. O real no século XXI. Apresentação do tema do IX Congresso da AMP. In: MACHADO, Ondina; RIBEIRO, Vera Lúcia Avellar (orgs.). Um real para o século XXI. Belo Horizonte: Scriptum, 2014. p. 30.

[4] Ibid.

[5] ALBERTI, Christiane. Não há relação sexual. Argumento do XV Congresso da AMP. Associação Mundial de Psicanálise (AMP). 3 fev. 2025. Disponível em: https://www.association-mondiale-psychanalyse.org/pt/nao-ha-relacao-sexual-2/. Acesso em: 16 maio 2026.

[6] Ibid.

[7] FARIAS, 2026, op. cit., p. 8.

[8] PIÑON, Nélida. Livro das horas. 3. ed. rev. Rio de Janeiro: Record, 2014. p. 14 apud SERLES, Carla. A democracia como sol do amor. In: MARTINS, Tânia Regina Anchite (coord.). Coletânea n. 2: o amor no tempo das cóleras. Brasília: Escola Brasileira de Psicanálise – Seção Leste Oeste, 2021. p. 27.

[9] Apud IANNINI, Gilson; SANTIAGO, Jésus. Mal-estar: clínica e política. In: FREUD, Sigmund. O mal-estar na cultura e outros escritos. Tradução: Maria Rita Salzano Moraes. Belo Horizonte: Autêntica, 2020. p. 7. (Obras incompletas de Sigmund Freud) (Edição Kindle, e-book)

[10] Ibid.

[11] MILLER, Jacques-Alain. Jogar a partida. Opção Lacaniana, Revista Brasileira Internacional de Psicanálise, São Paulo, n. 90, p. 17 out. 2025.

[12] AGAMBEM, 2009, op. cit., p. 64.

[13] LACAN, Jacques. Kant com Sade. In: LACAN, Jacques. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003. p. 776-805.

[14] LEGUIL, Clotilde. La era de lo tóxico: ensayo sobre el nuevo malestar en la civilización. Traducción: Alfonso Díez. Madrid: Ned ediciones, 2025. p. 78. (Tradução minha)

[15] FARIAS, 2026, op. cit., p. 11.

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