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#03

Editorial

Vamos puxar a cadeira para leitura do BOLETIM #3. Apresentamos na rubrica “Textos de Orientação” dois preciosos textos. O primeiro é de nosso convidado à escrita Marcus André Vieira (AME – EBP/AMP) que nos apresenta os “Objetos em análise” com algumas curiosidades advindas do processo analítico. Traz uma lista de erótica – oral, anal, do olhar e da voz – que de início está submetida à erótica fálica, mas à medida que a análise segue em direção ao atravessamento da fantasia, uma nova relação promove “o esvaziamento do valor de real do falo e dos objetos a.” Contemplando o Eixo 4, o autor continua trazendo a invenção, a arte (e o artista), propondo, ao final, chamar as invenções de soluções sinthomáticas a partir da ideia de que é possível aproximar a invenção do trabalho de Lacan com Joyce.

Nessamesma rubrica “Textos de orientação”, também apresentaremos a parte II do texto de nosso ilustre convidado internacional Pierre Sidon (ECF/AMP): “O real é nossa aspiração.” O autor, contemplando o Eixo 3, pergunta: “O que é o Um que a experiência da adicção revela?” Destaca as fórmulas do discurso teorizadas por Lacan, que sucedem ao par alienação-separação, e finaliza trazendo a questão: “Será que estamos à altura do real que nos aspira?”

Em sequência, na rubrica “Corda Bamba”, encontraremos a resposta de Camilla Costa (EBP/AMP) à questão sobre o masoquismo na parceria amorosa.

Uma novidade nesse Boletim #3 será a nova rubrica “Cartéis fulgurantes”. Nesta edição, encontrarão os textos dos cartelizantes Fernanda Marra e Henrique Lopes.

Para finalizar, além de conferirem as indicações da comissão de acolhimento para hospedagem e alimentação, terão também uma segunda novidade: no trilho dos Encontros, estará o convite e as orientações para participarem de nossa festa, “Deu Match”.

Vamos nos (des)equilibrar nessa leitura?

Juliana Melo
Ordália A Junqueira

TEXTOS DE ORIENTAÇÃO

“Objetos em análise”
MARCUS ANDRÉ VIEIRA- (AME-EBP/AMP):

Como é curiosa uma análise: buscamos o segredo de nossa existência como sujeitos, só que a cada vez que encontramos uma lembrança em que vibra a certeza de que ali mais que nunca estávamos vivos, estamos em cena como objeto – cuidados, abusados ou desprezados pelos próximos.

Como nada há que não passe pelo Outro, em vez nos guiarmos por ideais de autonomia e separação, uma análise pode levar a nos apropriarmos de nossa posição viva e concreta de objeto. Para isso, serão fundamentais não apenas os momentos em que fomos objeto, mas igualmente os objetos que pudemos extrair do Outro, tornando-os especiais: um travesseiro sujo, um bichinho de pelúcia etc. Quanto mais inúteis ou desconsiderados, melhor por parecem escapar do Outro – a ponto de Lacan delimitar como resto a figuração maior do real dos objetos de uma análise.1

Esses nossos objetos a instauram um espaço ambíguo, de extimidade: nem meu, nem do Outro, seguindo coordenadas fantasmáticas definidas pelo modo como são decaídos. Declinam verdadeiras eróticas distintas. À erótica oral (cospe-engole, tudo ou nada) e à erótica anal (do prazer em reter, circunscrever, colecionar), Lacan acrescenta a do olhar e a da voz. A primeira não é a da visão, mas do arrebatamento por um olhar que toma o corpo. Já a voz, por não respeitar os limites corporais, delimita uma erótica de dissolução subjetiva num uníssono sonoro, por exemplo.

Essa lista de eróticas era, até ontem, submetida à erótica fálica, dita genital – de dois sexos supostamente complementares. Em tempos de ocaso do pai, os objetos ditos pré-genitais se espalham de modo independente e novos objetos vêm ganhar a cena, na qual o falo é apenas um entre outros, não mais o significante do desejo e da partilha sexual.
As análises parecem se mover num campo clássico delimitado pela estrutura da fantasia coordenada ao falo. Ao mesmo tempo, cada análise segue em direção ao atravessamento da fantasia – em nova relação que promova a contingência por esvaziamento do valor de real do falo e dos objetos a.

Por isso, em contraposição ao real da fantasia, podemos falar em invenção. Neste campo, bem mais geral, não há objetos êxtimos ou de exceção. Teremos apenas elementos subjetivos dispersos, “materiais preexistentes” com os quais montam-se arranjos, bricolagens, gambiarras subjetivas para localizar o real com estabilidade e laço.2

O artista, para variar, nos antecede. A arte, dita contemporânea, promove essa multiplicidade do objeto, assim como a implosão do meio, do enquadre. Há uma representatividade múltipla, que se constrói durante o processo de cada montagem. Em vez de experiências singulares pelo encontro com a obra de arte, bricolagem. O artista se esforçou para se libertar dos enquadres da cultura, em busca de um rompimento com o círculo fechado da estética representativa. A distinção entre a obra, como objeto de exposição, e o espectador ainda se mantém, mas se encontra bastante abalada. O objeto artístico torna-se mais maleável, sofre esvaziamento de seu status de excepcionalidade e estilhaça-se. Tudo pode ser arte. Muitas produções optaram por intervenções mais próximas de uma tentativa de construir uma ideia, de produzir uma experiência.3

Se vale destacar, com J. A. Miller, o termo invenção, tomando-o como gambiarra subjetiva, é porque com ele nos deslocamos na clínica psicanalítica de maneira análoga a este campo mais geral das manifestações artísticas.4 Podemos opor, por exemplo, o objeto na fantasia e na bricolagem, como faz E. Laurent ao opor obra e instalação.5 No primeiro caso, destaca-se a produção de um objeto “em torno do vazio”, segundo a definição de Lacan para a sublimação da Coisa, que encontra seu exemplo heideggeriano paradigmático no vaso e seu artífice no oleiro.6 O segundo é o da instalação. O gozo do sintoma aqui não se localiza do mesmo modo, não há centro e o real é o do acontecimento contingente mais que o do encontro.7

Chamaremos, então, as invenções de soluções sinthomáticas a partir da ideia de que é possível aproximar a invenção do trabalho de Lacan com Joyce. O modelo aqui é o da trança, base do nó borromeano.8 Ninguém inventa uma solução, ao contrário, tece uma trama que cria um sujeito, o que envolve necessariamente a produção de um lugar para si, estável, no Outro que talvez possa ser denominada uma política do sinthoma.9

1 Nossos os objetos a estabelecem todo um jogo de relações entre o eu e o Outro em que a distância não está definida, mas se define no próprio jogo. São objetos que garantem a distância mínima que permite a alguém começar a dizer “eu” e poder importar significados do Outro, que agora virão se instalar no espaço do ego (cf. Vieira, M. A. Restos, Rio de Janeiro Contra Capa, 2009, p. 35).

2 Cf. Miller, J.-A. A invenção psicótica, Opção Lacaniana, n.º 36, São Paulo, Eolia, 2003, pp. 7 – 16 e Vieira, M. A. Vieira, M. A. Com quantos elementos se faz uma invenção, Latusa, n. 25 – Impossível tirar o corpo fora: Exílios e confinamentos, EBP-Rio / Contracapa, Rio de Janeiro, 2021, disponível em https://litura.com.br/wp-content/uploads/2023/12/Com-quantos-elementos-se-faz-uma-invencao.pdf).

3 A obra “instalação” é composta de uma disposição de elementos no espaço em relação com aquele que com ela se encontra, seu acontecimento é sua vocação. Para um ensaio preciso sobre o tema, inclusive articulando “instalação” e a leitura do conto “A carta roubada” por Lacan, cf. Krauss, R. Under blue cup, Massachusetts, MIT, 2011. Outra obra indispensável: Mammi, L. O que resta – arte e crítica da arte, São Paulo, Cia das Letras, 2012.

4 Cf. Vieira. M. A. art. Cit.

5 Laurent, E. “Interpretar la psicosis em el cotidiano”, Psicoanalisis y salud mental, Buenos Aires, Tres Haches, 2001 e Laurent, E. “Interpretar a psicose no cotidiano”. In Revista Entrevários (CLIN-a) nº 2. São Paulo.

6 Cf. Regnault. F. “Três conferências sobre a arte”, Em torno do Vazio. Rio de Janeiro: Contracapa, 2001.

7 Podemos acrescentar a divisão entre finito e infinito. Na criação, o fazer é finito, já o objeto é infinito (no sentido em que ele se presta às mais variadas leituras, inesgotáveis por definição). Na invenção, o fazer é que será infinito, enquanto os materiais-objeto são finitos. Finalmente, na invenção, a ideia de laço é intrínseca, possivelmente pelo fato de ela ser sempre um meio mais que um fim, enquanto o artista típico, oleiro, é aquele cuja obra é o fim. O inventor típico é justamente aquele que faz para o mundo, seja um mundo delirado ou não.

8 Como uma segunda teoria da sublimação no ensino de Lacan a partir do conceito de “escabelo” (cf. Miller, J. A. Piezas sueltas, Buenos Aires, Paidós, 2013, cap VI). Para a aproximação entre sinthoma, Arthur Bispo do Rosário e gambiarra cf. Vieira, M. A. art. cit. E Teixeira, A. “A aura da gambiarra”, Mosaico: Estudos em Psicologia, v. 7, n.º 1. p. 45-60, 2020.

9 Cf. Miller, J.-A. La experiencia de lo real en la cura psicoanalítica. Buenos Aires: Paidós, 2003, especialmente as aulas XXI e XXII.


“O real é nossa aspiração” – Parte II
PIERRE SIDON – (ECF/AMP)

Para J.-A. Miller, o gozo tem a estrutura da toxicomania: “A linguagem introduz neste registo de gozo […] a repetição do Um que celebra uma irrupção inesquecível de gozo. O sujeito vê-se então preso a um ciclo de repetições […] cujas experiências nada lhe ensinam. É o que chamamos hoje de adicção […] porque as experiências não se adicionam.” (20) O que é este Um que a experiência da adicção revela?

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Corda Bamba

Seria o masoquismo uma forma de fazer entrar o corpo na parceria com a devastação ou isto seria uma maneira machista (a partir do fantasma masculino) de pensar o sofrimento sem limites do gozo feminino?

Resposta de Camila COSTA (EBP/AMP)

Tomar o masoquismo feminino pela via do fantasma masculino aponta à uma posição de gozo que, em algumas mulheres ao consentir com o fantasma de um homem se dedica, sem limites, o seu ‘ter’ em ser amada. Nas mulheres, o masoquismo feminino pode ser compreendido pela via do gozo da privação; uma aproximação ao vazio, aquilo que nas mulheres aparece como experiência de corpo, uma intimidade com um não apreendido pela castração. E portanto, na parceira de amor uma mulher pode vir a sacrificar à tudo que tem em direção ao ser como uma operação de encontro com um gozo sem limites, sem o limite fálico.

CARTÉIS FULGURANTES

“A parceria sintomática por uma escrita plena”
FERNANDA MARRA

À leitura das cartas de Joyce para Nora, vem se juntar esta outra: a carta que André Gorz, escritor vienense, filho de mãe católica e pai judeu, escreveu à esposa inglesa, Dorine, após 58 anos ao seu lado.

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“Diante d’A mulher que não existe: um sintoma… ou pior!”
HENRIQUE LOPES

No Boletim 1, Elisa Alvarenga (2025) comenta um conto que “contradiz a teoria analítica” das clássicas repartições sexuais: a mulher-sintoma e o homem-devastação.

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Informes

ACOLHIMENTO

Preparamos uma primeira lista com algumas sugestões da comissão de acolhimento, sobretudo no que se refere às hospedagens. E, uma lista das opções gastronômicas e culturais da cidade.

Caros (des)equilibristas, aguardamos vocês para se (des)encontrarem por aqui!

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FESTA “Deu Match”:

As nossas VI jornadas da EBP SLO  convida você que nos acompanhou desde o início para participar da festa “Deu Match!” Uma festa preparada com muita alegria e animação e que encerra dias de trabalhos realizados com muito afinco. Nos encontraremos dia 11/10, às 20hrs, com  DJ e Drink de entrada, no melhor bar de Goiânia: Zimbro Cocktails.  Venha festejar conosco!

Localização: Alameda Ricardo Paranhos, 59, Setor Marista, Goiânia-Go.

Reserve seu ingresso, as vagas são limitadas! Para isso,  faça um pix para a chave: 43379815000136 no valor de R$ 90,00. Enviei o comprovante para o e-mail: ebpslo.info@gmail.comLembre-se de identificar no corpo do e-mail a quem se refere o (s) pagamento(s). Teremos uma lista dos nomes na recepção do Bar. Aproveitem !!

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INSCRIÇÕES

EIXOS TEMÁTICOS

COMISSÕES DE TRABALHO


Direção Geral

DIREÇÃO GERAL:  Alberto Murta (AME-EBP/AMP) – Diretor Geral da EBP-SLO
COORDENAÇÃO GERAL: Ceres Lêda F.  F . RÚBIO (EBP/AMP)
CONVIDADO INTERNACIONAL: Pierre SIDON (ECF/AMP)

Coordenadora: 
Ordália A. Junqueira (EBP/AMP). Caroline Quixabeira (NPJ/EBP); Cristina Alves/GO;

Fábio P. Barreto (EBP/AMP); Gabriel Caixeta (NPJ/EBP); Luísa Carvalho (NPJ/EBP); Melissa Fukuchi/DF; Juliana Melo/GO.

Designer: Bruno Senna

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