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NOTA DA DIRETORIA

by secao_rj in Aconteceu na Seção RJ

Caros colegas,

Há duas semanas vocês receberam uma edição extra do Letrear com o calendário completo das atividades da diretoria e dos seminários por conta e risco que vão acontecer em 2019. Agora, no primeiro número do nosso boletim, estamos trazendo notícias mais detalhadas sobre cada atividade e um breve resumo de como cada participante da nova diretoria (Renata Martinez, Ana Tereza Groisman e Andréa Vilanova), pretende conduzir seus trabalhos. Logo abaixo, o texto de apresentação da diretoria geral que foi lido na assembleia de membros da Seção Rio na última sexta feira, dia 29 de março:

Apresentação da diretoria geral da Seção Rio 2019/2020

Quero apresentar em linhas gerais um projeto de trabalho que de certa forma já começou há algum tempo. É assim que fazemos na Escola: a permutação acontece a cada dois anos e o segundo ano de cada gestão é compartilhado com a gestão seguinte. Por isso, durante o ano de 2018, estivemos acompanhando de perto o dia a dia da diretoria e aprendendo muito com essa parceria. Agradeço à Angela Bernardes, Ana Tereza Groisman, Elisa Monteiro e Rachel Amin pela acolhida e por tudo o que nos ensinaram ao longo desse período. Agradeço especialmente a Ana Tereza que aceitou continuar por mais dois anos, desta vez na diretoria de cartéis, e que tem sido uma presença que faz muita diferença no processo de transição entre as duas gestões. Agradeço muito à Sandra Landim que em parceria com a diretoria de secretaria e tesouraria, coordena o amplo trabalho da comissão de divulgação, mídias e audiovisual da Seção Rio. [Leia +]

Em paralelo a esse trabalho, formamos um cartel com as participantes da nova diretoria e com Paulo Vidal como mais-um. É um cartel dedicado à leitura de textos institucionais de Lacan, que busca neles uma orientação para lidar com as novas funções que estamos assumindo, levando em conta o que de seu ensino está em jogo nesse funcionamento institucional.  Isso não é uma novidade, já foi feito em outras diretorias, e tem a função de evitar que sejamos absorvidas pela rotina do trabalho esquecendo a causa que está no horizonte da Escola.

Uma Escola de psicanálise de orientação lacaniana não é uma instituição como outras porque busca funcionar a partir de uma lógica coletiva muito peculiar. No texto sobre a teoria de Turim[1], (com o qual abrimos os trabalhos da Seção em fevereiro desse ano na conversação de membros organizada em uma parceria entre as duas diretorias) Miller fala da Escola como uma invenção de Lacan para se arranjar com o grupo dos analistas de uma forma muito diferente daquela que Freud criou e insiste no seu caráter paradoxal: ela é um jeito de funcionar em grupo, é uma formação coletiva, no entanto, o que está em primeiro plano, o que deve prevalecer é a solidão subjetiva. Ele fala de um jeito bonito da Escola, como algo muito diferente de uma associação profissional, onde todos se reúnem em torno de uma prática comum, de um modelo de profissional a ser compartilhado. Fala da Escola como um conjunto logicamente inconsistente porque apesar de não dispensar o ideal, o que o seu coração abriga não são os ideais, e sim o que ele chama de “solidões incomparáveis”. Fala disso usando expressões contundentes como invenção, experiência inaugural, ruptura.

Nesse mundo onde tudo tende a coletivizar, burocratizar, uniformizar, a escola é um lugar onde essa tendência deve ser reduzida ao mínimo e onde o que deve prevalecer é a ordem do analítico, do que dá lugar à solidão incomparável.  Miller retoma o termo enclave, ou refúgio, usado por Lacan pra falar desse talento da Escola de conseguir articular coletivo e singular. A Escola como refúgio é um lugar ao mesmo tempo dentro e fora do mundo.

É justamente esse caráter da Escola que lhe permite abrigar um tipo muito especial de relação com o saber, que não se pretende completo, que inclui o furo, que não pode ser coletivizável. É um saber que se transmite entre uns e outros, porém, somente a partir da relação única e singular que cada um estabelece com a Escola. É algo semelhante ao que acontece em uma análise, quando o mais íntimo e o mais estranho se apresentam ao mesmo tempo na figura do analista. É o que chamamos transferência, condição da análise e também da transmissão que buscamos fazer na Escola.

O exemplo mais vivo desse tipo de transmissão é o passe. Não é fácil explicar como acontece, mas todos os que assistiram testemunhos de passe provavelmente experimentaram as consequências dessa presença da solidão no meio do universal. Não é por acaso que Miller destaca o efeito radical do lugar que Lacan deu ao dispositivo do passe na sua Escola. Fala disso usando outra imagem forte: a da Escola morcego, Escola como um ser ambíguo, que tem asas analíticas como um pássaro, e patas sociais como um mamífero, e que constitui uma dupla postulação, uma para o discurso analítico e outra para o discurso do mestre [2].

Ele diz que a presença do passe faz da escola uma comunidade muito especial em que o mal- estar é coisa natural[3]. Entendo o mal estar como essa tensão permanente entre coletivo e singular, que no passe ganha toda a sua potência, mas que também habita a Escola desde seu órgão de base, o cartel, assim como em outros dispositivos.

Funcionar dando lugar ao mal estar. Como isso é difícil! Todos aqui sabem o quanto. Não só os muitos que já estiveram ocupando cargos nas instâncias da Escola – quando algumas dificuldades e também um certo mal-estar se apresentam de forma mais direta, mais evidente – mas todos os que nos diferentes momentos da sua formação, participam da Escola, e que de uma maneira ou de outra precisam se arranjar com essa tensão permanente entre um ideal comum que reúne e oferece abrigo no sentimento de uma língua compartilhada, de estar entre pares, e aquele tanto de si que cada um carrega e que não tem como fazer funcionar bem no grupo. Como a relação disso com o coletivo não se arranja de uma vez por todas – precisa ser refeita a cada vez –, a Escola está em constante mutação, e é isso que lhe dá vida. É porque ela se refaz que pode existir no mundo mantendo seu vigor. Esse é o seu valor.

Em um mundo que não para de mudar e que às vezes muda tanto a ponto de não sabermos se podemos continuar a chamar de mundo o que resta disso que nos acostumamos a entender como o nosso mundo, a Escola, pelo menos como conceito, é aquela que pode trazer pra si a conversa sobre o horizonte de sua época. Cabe a nós não engessá-la demais para que isso tenha chance de acontecer. Que novas ferramentas ou que novo uso podemos fazer das ferramentas que já conhecemos para seguir em frente diante de impasses inéditos trazidos pelas constantes reconfigurações das formas de existir e de estar no mundo? Assim como não há um analista confortavelmente estabelecido de uma vez por todas, a Escola no sentido que Lacan deu a ela, habita o nosso horizonte como uma experiência radical que vivemos em seu paradoxo.

Ou seja, pensar na Escola como algo vivo, incluindo o mal-estar, soma de solidões, é o que nos dá a possibilidade de estar à altura do nosso tempo, de buscar responder à subjetividade da época. O que esse tempo exige de nós? É um desassossego, uma desacomodação permanente.

A pergunta com a qual pretendemos orientar o trabalho dessa diretoria é menos como fazer para se estabelecer de forma estável em um discurso, e sim, como, em cada atividade, em cada situação, podemos fazer prevalecer um modo de funcionamento que favoreça a psicanálise, que seja coletivo e ao mesmo tempo traga a forma singular de transmitir, é isso que creio poder produzir verdadeiramente acontecimento.

Foi a partir dessa lógica que pensamos em organizar as atividades, sempre que possível, seguindo o que estamos chamando de um “esforço de conversação”. Apesar da conversação ter sido usada inicialmente para debater casos clínicos, os efeitos desse formato ultrapassam o campo da clínica. Ela é um modo de operar com o saber que visa dar o máximo de tempo à reflexão, ao comentário, e menos à escuta passiva.   Miller compara a conversação, quando ela funciona, a um tipo de associação livre coletivizada, da qual esperamos certo efeito de saber.  Ele diz assim: “Quando a coisa acontece a mim, os significantes de outros me dão ideias, me ajudam, e finalmente, acontece, às vezes, algo novo, um ângulo novo, perspectivas inéditas”[4].

Criar perspectivas inéditas, fazer acontecer, não é pouca coisa. Precisamos muito de perspectivas inéditas para lidar com situações inéditas. Como se servir da experiência de cada um com sua análise e no trabalho da Escola de modo a “fazer acontecer”, quando algumas ferramentas que já foram tão eficientes para produzir acontecimento, hoje se mostram quase sem serventia?  A conversação é uma das que têm conseguido alcançar uma certa desacomodação produtiva, é um forçamento na direção da Escola como experiência, e certamente não é a única maneira. Esperamos sustentar alguma desacomodação que permita produzir outras experiências durante esses dois anos que passam tão rápido. A conferir.

Usar o conceito de Escola no seu sentido mais vivo depende de manter essa pergunta na ordem do dia. Recentemente dois colegas nossos, Maricia Ciscato e Paulo Vidal, trouxeram a figura do oásis, no sentido que Hanna Arendt[5] dá a ele, para pensar o nosso modo de funcionar no mundo quando ele se apresenta na sua face desértica. Eles falam de produzir e manter oásis em meio ao deserto, não como espaços que permitiriam algum tipo de adaptação, mas como fontes que permitem viver sem tomar o deserto como norma. Eles usam imagens muito potentes para falar desses espaços, como cantos que pulsam, que têm o poder de inverter a lógica mortífera, a lógica da segregação, e que conseguem “inventar vida” [6], “criar mundos nesse mundo”[7].

É demais pensar em uma Escola que cria oásis, sonhar com uma Escola que consegue sustentar acontecimentos capazes de criar mundos nesse mundo?

Atualmente é muito difícil encontrar lugares capazes de produzir esse efeito de refúgio paradoxal. Lugares que funcionem na lógica de ser dentro e fora do mundo ao mesmo tempo e que sirvam de abrigo, onde seja possível se instalar por um tempo. Gosto de pensar no efeito da Escola menos como espaço e sim como tempo, como momentos, momentos de respiro, um tempinho roubado, um descanso do tempo do mundo, que pode durar alguns instantes. Acho que esse já é o nosso jeito de fazer oásis. Quando uma conversação funciona, isso acontece, é uma maneira de criar oásis. Acontece também muitas vezes no cartel. Quem nunca teve o sentimento de pausar a bagunça do mundo quando vai correndo para um cartel e encontra lá um respiro? Acredito que nosso oásis de base é o cartel. Mas não como um domínio exclusivo. Esse respiro, tempo roubado, acontece muitas vezes nos testemunhos de passe, em uma ou outra conversação, em alguns dos grandes eventos que nos mobilizam tanto, que desacomodam pra valer, como no último Encontro Brasileiro, mas também no dia a dia das atividades da Escola, em um novo ângulo de leitura de um seminário já conhecido, na fala de um convidado que consegue transmitir em um dialeto que não é nosso como a arte nos ensina (como já aconteceu, por exemplo, em encontros no Raízes Literárias) e em outras tantas situações que quando funcionam assim, nos convidam a ficar um tempinho a mais na calçada em frente à casa da nossa Seção, antes de voltar pra bagunça do mundo. Conversas na calçada em uma cidade onde esse hábito caiu em desuso há tanto tempo.

Cada um experimenta esses efeitos à sua maneira e em momentos diferentes. Espero que nos próximos anos as atividades que estamos programando junto com vocês, os nossos seminários das segundas-feiras, a psicanálise no cinema, os projetos da diretoria de biblioteca: Leituras em Cena, Leituras Contemporâneas, a presença forte do cartel e também as nossas Jornadas sobre o sonho, consigam, às vezes, criar oásis, mundos no mundo, um tempinho de respiro roubado pra muitos de nós. Vamos ao trabalho e contamos com vocês.

Andréa Reis Santos

[1] MILLER, Jacques-Alain. Teoria de Turim: sobre o sujeito da Escola. Em: Opção Lacaniana Online, Ano 7, Número 21: Novembro de 2016. Disponível em: <http://www.opcaolacaniana.com.br/pdf/numero_21/teoria_de_turim.pdf>. Último acesso em: 28/03/2019.
[2] MILLER, Jacques-Alain. Questão de Escola: Proposta sobre a Garantia. Em: Opção Lacaniana Online, Ano 8, Número 23: Julho de 2017. Disponível em: <http://www.opcaolacaniana.com.br/pdf/numero_23/Questao_de_Escola.pdf>. Último acesso em: 28/03/2019.
[3] MILLER, Jacques-Alain. Política Lacaniana. Buenos Aires: Coleção Diva, 2017.
[4] MILLER, Jacques-Alain et al. La pareja e el amor: conversaciones clinicas com Jacques Alain-Miller em Barcelona. 1ª ed. Buenos Aires: Paidós, 2005.
[5] ARENDT, H. De deserto e de Oásis. Em: O que é Política? – Fragmentos das Obras Póstumas Compilados por Úrsula Ludz. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1998.
[6] CISCATO, Marícia. Os oásis nossos de cada dia. Disponível em: <https://loucuraseamores2017.wordpress.com/2017/10/31/os-oasis-nossos-de-cada-dia/>. Último acesso em: 28/03/2019.
[7] VIDAL, Paulo. Provocado pelo Corpo Elétrico. Disponível em:  <https://loucuraseamores2017.wordpress.com/2017/11/08/provocado-pelo-corpo-eletrico/>. Último acesso em: 28/03/2019.

Diretoria de secretaria e tesouraria:

Renata Martinez

Num primeiro olhar, o que se espera da diretoria de secretaria e tesouraria são de fato tarefas práticas e cotidianas: administrar o dinheiro, cuidar nos mínimos detalhes da casa e de toda a estrutura que a envolve, zelar pelo andamento e funcionamento das diversas atividades que a Seção Rio comporta. Entretanto, não deixar essa empreitada na ordem do automaton é nossa aposta! Aposta na potência do encontro, na riqueza do trabalho de Escola e, sem dúvida, no avanço da prática e da teoria – marcas da relação viva de cada um com a causa analítica.

A transferência de trabalho nos move. Aprender a proporção e o ritmo do trabalho solitário e entre pares será um exercício diário e, certamente, não sem consequências.  Vamos caminhar, dando contorno aos impasses que surgirem, para que nossa sede possa acolher Escola e Instituto, cada um a sua medida, em suas produções e sustentações do delicado laço entre clínica, política e episteme. Mãos à obra!

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Comentário sobre Introdução ao narcisismo – o amor de si

by secao_rj in Aconteceu na Seção RJ

de Carlos Augusto Nicéas

Os textos de Carlos Augusto Nicéas trouxeram desde sempre a marca de um esforço muito vivo e tenaz de resgatar a fibra dos debates que marcaram a história da psicanálise freudiana e lacaniana. Mais: de retomar em Freud, e na malha muitas vezes para nós já obscura e intrincada dos debates, controvérsias e cismas das primeiras horas da psicanálise, a razão radical de sua invenção e de sua sustentação no desejo de Freud.

Pudemos acompanhá-lo nessa tarefa que fez sua por muitos anos, através de seus diversos artigos e intervenções, de extrair dessas divergências os marcos fundamentais desse percurso da história da psicanálise, seus recuos, desvios e avanços. Seu estilo claro mas minucioso, preciso mas coloquial,  nos captura pelo encanto de seu estilo enquanto nos ensina.

Mas, se retomar os debates clássicos  traduz certamente algo de seu estilo, Nicéas  não o fazia por um preciosismo exegético ou algum tipo de gosto obscurantista ou passadista, algum tipo de nostalgia por uma suposta pureza original da psicanálise. Tratava-se, pelo contrário, de tomar como guia nessa travessia a hipótese fundamental da psicanálise, o inconsciente. E de apontar o que nos afasta dessa trilha.

Assim, podemos acompanhar na leitura de seus textos, além de suas finezas clínicas, o apuro de suas preocupações com os destinos da psicanálise. Nesse sentido, vale lembrar alguns momentos de seu fecundo trabalho. Vale destacar, nesse sentido, sua leitura arguta e minuciosa dos caminhos que tomou o conceito de objeto desde a teoria freudiana.

Nicéas nos fez entrever como a perspectiva que se produziu a partir de Abraham e se consolidou com Melanie Klein levou a desvios teóricos que imprimiram consequências práticas e ideológicas que marcaram a história da psicanálise a partir de sua própria doutrina. Nessa mesma perspectiva, Nicéas empreendeu a leitura dos teóricos subsequentes da transferência e da contratransferência,  demonstrando como esse último conceito resultou do abandono de hipóteses de base da psicanálise, engendrando, por sua vez, consequências que afastaram os analistas do rumo radical a que a doutrina de Freud conduz. Assim, como principal exemplo, destacamos um de seus temas: a teoria do objeto e do final de análise derivadas desse desvio, que resultaram no esvaziamento da novidade radical que a psicanálise introduziu na cultura, em benefício de uma psicoterapia conveniente aos conformismos dos outrora novos tempos.

De sua reflexão, podemos assim retirar – parafraseando Lacan, “por acréscimo” – um efeito de elucidação que nos ressitua e nos faz recolocar questões contemporâneas à luz do que esteve e está em jogo na sustentação da psicanálise no mundo contemporâneo. Isso deu sempre aos seus textos uma extrema atualidade. Suas considerações permitem trazer para o presente, para o calor dos debates atuais, o que há de peste na psicanálise, sua hipótese disruptiva e algo incômoda à civilização contemporânea. Não à toa, Nicéas se interessou tão vivamente pelas questões de Escola e do passe entre nós.

Com este livro então, Nicéas, além de ter dado continuidade à sua perspectiva de trabalho, nos deu uma obra de referência para abordar a questão do narcisismo.  Situou as razões de Freud para manter o caráter sexual da libido e reparti – la em duas correntes, libido do eu e libido do objeto, pelas quais Freud sustentava com coerência, a partir do real de sua clínica, as consequências de sua hipótese do inconsciente e do dispositivo de fala: o furo que a linguagem promove na sexualidade, a ausência de objeto adequado à pulsão e as consequências para o amor dessa delicada topologia, esses vasos comunicantes da libido do eu e do objeto. Nicéas tratou disso com minúcia, apontando os impasses constitutivos, estruturais, das soluções imaginárias, para essa fenda de estrutura. Desse modo, nos permitiu entrever de que maneira para esses impasses foram traçadas as rotas de fuga, de resistência, dos neofreudianos e sua psicologia do eu e das relações de objeto, que Lacan pôde apontar. Verdadeiros desvios, Lacan nos ensinará: face a esse impasse de estrutura, o narcisismo foi tomado como fase a ser superada, na direção do encontro com o objeto total, simulacro da plenitude, de cuja impossibilidade justamente se funda a psicanálise.

A insistência de Freud sobre o dualismo pulsional, que gerou uma espécie de imprecisão na teoria do narcisisimo, como Nicéas marca bem, com a bipartição da libido, não tem assim o caráter apenas de um estágio ou momento a ser superado na teoria das pulsões, não foi apenas um erro ou uma incorreção. A imprecisão tem o valor de dar conta da natureza enganadora do eu e do amor, dessa topologia do eu e do outro e da fenda radical que o amor encobre.

Niceas nos demonstra assim como a teoria do narcisismo se mostrou necessária para dar conta do impasse erótico entre o eu e o outro, o sujeito e seus objetos. O dualismo freudiano ofereceu expressão a esse impasse que anuncia a impossibilidade da plenitude, fazer um de dois, ter um objeto adequado à pulsão. Dessa fenda, dessa solidão, Lacan tiraria outras consequências.

Por fim, gostaria de frisar que o mais importante é que o texto de Nicéas não nos permite apenas remontar a um passado tomado como funesto, um passado de desvios, que poderíamos pretender ultrapassado, como também coloca em cena, ou nos convida a colocá-las, as tentações de recuo ou desvio que podem se atualizar a cada momento em que o inconsciente pode se fechar. Acrescentaríamos: principalmente, em nossa época, por seduções da civilização capitalista, ou pós-capitalista, tecnocientífica, e também tentações institucionais que atualizam de modo terrível o que há de mortificante na psicologia dos grupos, no narcisismo que nos acompanha, nos seus restos, nos nossos racismos e segregações. Nicéas nos adverte sutilmente que essa divisão está em nós, em cada um, seja mal-estar ou impasse da civilização. Através dessa advertência, ele faz eco à perseveração de Freud onde esta justamente encontra Lacan.

Cristina Duba
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Jornada de Cartéis

by secao_rj in Aconteceu na Seção RJ

29/09 – Jornada de Cartéis

Comentário de Monique Vincent

Nossa Jornada de Cartéis de 2018 contou com a presença de Ram Mandil (AME da EBP), nosso convidado, que nos falou sobre os fundamentos dos carteis e também foi o comentador das três mesas realizadas.

Inicialmente, Ram Mandil traz uma pergunta fundamental: qual o efeito das mutações sociais sobre os carteis? Lacan coloca o cartel como órgão de base da escola. Tomado desta forma, ”o acento recai mais sobre a dimensão coletiva, transindividual, do dispositivo, do que sobre a participação individual de seus membros”. Fundado sobre a teoria dos pequenos grupos, o cartel tem um número limitado de participantes, 3 +1, como articulação mínima que venha a gerar um furo e garantir o turbilhão. A partir desse furo de turbilhão, assegura-se que cada um ali esteja em nome próprio, com a singularidade de seu sintoma, numa aposta de que esta singularidade interessa aos demais participantes. O número pequeno é uma busca de romper com o ilimitado e anônimo do espirito religioso. Ressaltou também a importância de que o cartel funcione como dispositivo de conversação, contrapondo-se ao empuxo do um, ao individualismo de massas tão presente no mundo contemporâneo. O caráter democrático que se dá na tensão entre a comunidade e o lugar do Um coloca a dimensão política do cartel. Esse sendo, como exposto acima, seu diferencial e tendo na presença do mais um o elemento necessário para que não se caia “no individualismo completo” (Lacan, J. ”Religion and the Real”, in: The Lacanian Review, n.1).

As três mesas trouxeram ao debate casos clínicos que, nas construções e questões levantadas, permitiram perceber a importância do cartel.

Os trabalhos foram organizados em três eixos principais para a reflexão: o feminino, a política (racismo e terrorismo) e a psicose (e psicose ordinária).

Questões como a articulação entre falo e sexuação, perpassando o tema da identidade, tão em evidência atualmente, a busca das relações virtuais, escancarando nossa dificuldade diante da evidência da não existência da relação sexual, a posição do analista, suas intervenções, e a percepção daquilo que produz efeito, foram levantadas e debatidas. A prática analítica assegura essa tensão entre o singular e a coletividade.

O momento político atual nos traz uma reflexão sobre a prática da psicanálise quando se esvai a democracia. A democracia não é natural. O cartel, propiciando a construção de um saber atravessado pelo Outro, permite a circularidade dos discursos singulares, indicando uma prática política calcada sobre a democracia e sobre o esforço necessário para sua existência. Assim, o momento político, seja dos cartéis, seja da Escola ou do mundo, coloca a possibilidade de pensarmos essa articulação entre o singular e o coletivo. Com as modificações dos laços sociais na contemporaneidade, há uma mudança na potência disruptiva dos cartéis quanto às identificações massivas que impedem o surgimento do novo? Supondo que essas modificações possam ser sujeitas, como fenômeno do social, aos sempre presente empuxos às identificações, a resposta poderá ser “sim”. Os cartéis, se suportados em suas dificuldades, podem continuar a exercer seus benefícios de privilegiar e permitir a singularidade.

Concluo com perguntas feitas nos trabalhos e na fala de Ram Mandil: teriam ainda os cartéis força para derivar esta tendência contemporânea ao individualismo numa boa direção? Pelo menos no âmbito e alcance da psicanálise nas Escolas da AMP.

Ram Mandil nos informa que no Relatório da Secretaria de Cartéis de 2017 já se chamou a atenção para certa afinidade entre os cartéis e os laços sociais contemporâneos. Permanece, no entanto, na forma em que se estrutura o cartel e na função do mais um, a potencialidade para que prevaleça o “furo do turbilhão”.

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Seminário com Clara Holguín

by secao_rj in Aconteceu na Seção RJ

01/10 Seminário com Clara Holguín

Notícias da conversa: Thereza De Felice

No dia 1/10, contamos na Seção Rio com a presença de Clara Holguín, presidente da NEL, que intitulou sua fala como “A mãe, figura que não se adequa aos paraísos fálicos”. A ideia era articular os temas da Jornada da NEL, de 2018, “Qué madres hoy?”, e do XXII Encontro Brasileiro do Campo Freudiano, “A queda do falocentrismo: consequências para a psicanálise”. A discussão partiu das seguintes perguntas propostas por Clara Holguín: Como cada um se pensa nesta época? Como lemos as questões da atualidade e fazemos laço entre as Escolas?

Os temas da queda do falocentrismo e das mães de hoje começam a se entrelaçar quando levamos em conta as singularidades de ser mãe nos tempos atuais. Se pensarmos a queda do falo como a queda de seu lugar no centro do discurso, então, onde ele está? Ser mãe não é mais um atributo necessário para que alguém seja mulher. Estamos diante de uma variedade de mães. Poderíamos dizer, então, que, ser mãe, hoje, não passa pela lógica fálica?

A multiplicidade de tipos de mães se insere no contexto em que a ordenação do gozo pelo “ter ou não ter” está enfraquecida. No lugar do falo como referência, aparecem outros referentes, que não fornecem resposta.

Os movimentos feministas atuais dariam notícias de um modo de resposta àquilo que, classicamente, ganharia uma significação fálica advinda do Nome do Pai. Esses movimentos não apenas reivindicam direitos, mas viralizam a palavra. Nas redes, com os algoritmos, cifras e números, os nomes se capilarizam sem um ordenador universal. O que aparece é um gozo opaco, não limitado pelo fálico. As palavras se propagam sem limites, como, por exemplo, no movimento #metoo. Clara Holguín o descreve como um movimento feminino, na medida em que, nesse caso específico, as mulheres foram tomadas pela palavra, fazendo-se escutar a partir de uma lógica que não responde ao falo como referência. Para a psicanalista, poderíamos encarar tal movimento como um tratamento atual do gozo feminino: coletiviza-se o não-todo, a partir de um sentido único.

Trata-se de uma invenção, uma solução sem medida comum, mas que, sem dúvida, vemos também operar em sua face de segregação. Restou, no encontro, a pergunta: quanto às mães, em que coletivos vão se haver com o gozo feminino, sem o tratamento do Nome do Pai?

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Seminário de Orientação Lacaniana

by secao_rj in Aconteceu na Seção RJ

8/10/18 Seminário de Orientação Lacaniana

Comentários de Maria Corrêa de Oliveira

O Seminário de Orientação Lacaniana de 08 de outubro contou com a rica apresentação feita por Marcia Zucchi do capítulo XXIII do Banquete dos Analistas, acompanhada da interlocução pontual de Rodrigo Lyra.

Marcia destacou “o estranho desejo de saber” presente na psicanálise e a articulação apresentada por Miller relativa à perspectiva do passe, levando-o a considerar duas abordagens: o passe do sujeito e o passe da psicanálise.

Da parte do sujeito, esse passe é dirigido à Escola. Já do lado da psicanálise, o endereçamento é à ciência, ao saber científico. Esse segundo direcionamento provoca muitas reflexões, já que nos vemos às voltas com diferenças e impasses em relação ao discurso científico.

A pergunta, “Quem é o Outro da psicanálise?”, apresentou-se como o cerne do debate e dos embates dessa noite de conversa.

Ressalto a ênfase de Marcia, indagando e nos permitindo indagar também a respeito da relação de Lacan com a ciência, já que, principalmente a partir do Seminário 23, ele “se serve da arte” – arte como um recurso inventivo, como artifício.

Para enriquecer essa apresentação, os dois debatedores recorreram ao texto “Intuições Milanesas”, de Miller. Nesse texto, está claro como o processo analítico se afastou da noção de tratamento, norma e ideal, para se deter na experiência, particular, onde um final de análise vai estar relacionado às transformações no regime do gozo de cada um.

No entanto, em decorrência da era globalizada, o analista é constantemente chamado a ocupar o lugar de “cuidador”, attention givers, sendo depreciado e correndo o sério risco de contribuir com o rebaixamento da psicanálise.

Esse caloroso debate pôde manter o impasse relativo ao lugar ou ao “não lugar” da psicanálise em nosso mundo.

Estaremos nós nessa direção, dos “sem lugar”, esquivando-nos desse destinatário a quem buscam “conforto”, buscando respostas para manter a vivacidade da prática analítica nesse intuito da constante reinvenção?

Embora Paulo Vidal tenha nos lembrado da presença de estudos epistemológicos e psicanalíticos em centros de estudos científicos como a Coppe/UFRJ, ainda assim, permanece a questão sobre o Outro da psicanálise parecer estar mais perto da arte do que da ciência.

Questões não nos faltam!

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Conversas sobre o passe na Escola de 17/09

by secao_rj in Aconteceu na Seção RJ

Anotações de Sandra Viola

 

Na última “Conversa sobre o Passe”, contamos com a participação de Fernando Coutinho e Andrea Reis. O primeiro, comentando o texto de Marie-Hélène Brousse, “Parear e Apostar”, no Correio 74, e Andrea comentando um outro texto da mesma autora, por ocasião da Conversação sobre o Passe, “O desejo de nomear”.

Fernando traz a diferença radical entre o procedimento da nomeação de um analista na IPA e o procedimento do Passe na Escola de Lacan, quando nomeia um AE. Na IPA, conta-se com um universal que implica análise didática, supervisão e episteme com um diploma obtido num tempo quantificado.

Seguindo com Brousse, Fernando comenta como se nomeia um AE na Escola de Lacan, o que os componentes da Comissão do Passe esperam do candidato que vão nomear (ou não)? Estarão esses componentes em sintonia com a subjetividade de suas épocas?

Refere-se a Lacan em “Função e campo da fala e da linguagem”, quando este reforça a função dos passadores: “A orientação de saber sobre a subjetividade de sua época impõe-se ao analista da Escola, mas impõe-se também, com mais forte razão, aos passadores e aos componentes da Comissão do passe, ao exercerem a função de nomear um novo analista”.

Dois significantes, Parear e Apostar, intitulam o texto de Brousse como forte orientação no trabalho dos passadores.

Parear, (próprio à lógica do significante) como o impossível de não ser feito ao trabalhar como os tratamentos transmitidos; mas igualmente impossível que fosse a partir disto, a decisão de nomeação no dispositivo do passe.

Apostar como o que implica uma perda inaugural, implica o real e está no cerne do tempo lógico. Conclui-se que, para nomear, os membros da Comissão consentem com um risco calculado, a perda de saber advindo de um saber anterior.

Citando MHB: a perda do saber que resulta das nomeações anteriores e mesmo do saber institucional referente a determinadas normas identificatórias do analista…

Há que se abandonar as identificações aos pares(parear) e parir a mais estreita singularidade do Um, com todas as dificuldades e implicações que isto comporta.

Andréa fala destas dificuldades ao tomar os dois sintagmas usados por Brousse e que me parecem bem traduzir o texto da autora: desejo de nomear e ódio de nomear.

A função do cartel é ouvir e dizer sim a achados que são absolutamente singulares e fora da cadeia de significante do passante, não sendo possível se enquadrar em nenhum critério prévio.

Quanto ao ódio de nomear, este seria a expressão da dificuldade com a presença do gozo singular de cada um naquilo que há de disruptivo no campo do matemizável, porque não se articula no discurso, produzindo horror, muitas vezes.

A orientação do Passe é feita por uma outra lógica onde a coletividade psicanalítica será abordada por uma identificação não segregativa.

O passe não acontece pela via de uma demonstração, mas de uma mostração, na redução ao máximo da solução significante. Poderíamos, então, dizer que a mostração, a transmissão do gozo precisa necessariamente da escrita?

MHB propõe pensar se o escrito não seria mais dócil ao inclassificável e à inovação do que a palavra dá como exemplo a poesia.

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Seminário de Orientação Lacaniana de 03/09

by secao_rj in Aconteceu na Seção RJ

Impressões de Adylson Ennes

Apresentação de Ondina Machado

Textos de J.-A. Miller trabalhados: aula XVI de “O Banquete dos Analistas” e “Teoria de Turim: sobre o Sujeito da Escola”.

Alguns tópicos me chamaram a atenção. Dentre vários outros, foram as colocações de que “o homem sabe que é um homem mas não sabe o que é um homem”.  Foi discutido que não se sabe o que é um analista mas há o Passe e, alguns o são.

Comentamos, ainda, que um analista não faz grupo mas a experiência da Escola é correlata à experiência analítica.

Ser analista é não pertencer a nenhum conjunto.

Chamou-me a atenção, ainda, uma colocação de Lacan, procurando traduzir a ideia da Psicologia das Massas, que diz que o coletivo não é nada senão o sujeito do individual.

Essas colocações me levaram a formular uma pergunta – E a Escola Una? Seria descompletar sempre, mesmo sendo Una?  Heloisa coloca que a Escola Una é a Escola do passe, acrescentando que embora não se saiba o que é um analista, uns passam!

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Raízes Literárias da Psicanálise III: “Experiência e não-saber em George Bataille” – Conferência de Marcelo Jacques de Moraes.

by secao_rj in Aconteceu na Seção RJ

Reflexões de Sonia Carneiro Leão

“Bataille com Lacan”

 

Georges Bataille trabalha pelo avesso. Fala do informe, do impossível, do não sentido, do não saber e do êxtase que, segundo ele, é a possibilidade de transformar angústia em delícias.

Como qualificar Bataille? Um filósofo? Um santo? Um louco? Foi chamado de inqualificável.

Uma pergunta sempre ficou no ar. Por que Lacan só se referiu a ele em uma única nota de rodapé nos Escritos, apesar de ambos terem tido uma relação bem próxima?

No seminário Encore, por exemplo, Lacan trabalha questões em torno do absoluto, de Deus, do amor, do gozo, da mística, do significante que faz furo no Outro. Todas essas questões aparecem como tema principal no romance de Bataille, “Madame Edwarda”.

O próprio título do seminário, Encore, costumam dizer, pode ter sido inspirado a Lacan a partir da fala da personagem Edwarda, a mulher que não consegue pôr fim ao seu gozo e pede sempre mais, ainda.

No seminário Encore, Lacan fala assim: Eis aí o que se diz para aquilo que é do gozo quando ele é sexual. O gozo é marcado de um lado por esse buraco que não lhe assegura outra via senão a do gozo fálico. Será que do outro lado algo não pode ser atingido, algo que nos diria como aquilo que até então somente falha, abertura no gozo, seria realizado?

Bataille não se refere ao gozo. Fala em êxtase. Se o gozo é marcado pela falta, o êxtase é marcado pelo excesso. Um mais, ainda?

Para Bataille, há aquilo que ele chama de uma experiência levada ao extremo do possível. E isso tem consequências. Essa experiência se dirige ao não saber. E, segundo Bataille, o não saber comunica o êxtase.  Para ele, o não saber é antes de tudo angústia. Bataille é um defensor da angústia. Sua obra literária gira em torno da angústia. A experiência ao extremo do possível é denominada por ele de suplício. Carrega em si autoridade e promove o sujeito soberano, o sujeito não referido ao saber, já que está atrelada ao desconhecido.

E disse Bataille: “Arruíno em mim tudo o que se opõe à ruína. O homem insípido é fraco, incapaz de se dilacerar. Fugindo da angústia chegamos à pobreza vazia. Eu não sou só. Eu me sei o reflexo da multidão e o somatório de suas angústias. A experiência interior é conquista e, como tal, para outrem. Todo ser humano não indo ao extremo é servidor ou inimigo do homem. Não consigo conceber a minha vida senão ligada ao extremo do possível. O extremo é o único ponto por onde o homem escapa de sua estupidez limitada, mas ao mesmo tempo nela soçobra .Ir ao término significa pelo menos isso: que o limite, que é o conhecimento, o saber como fim, seja ultrapassado”.

Para Bataille, a experiência ao extremo do possível leva à fusão do objeto e do sujeito, sendo o sujeito o não saber e objeto o desconhecido.

Bataille cita São João de Cruz, aquele que caiu nas trevas do não saber numa experiência mística contemplativa que, diferente do gozo,  não demanda satisfação.

E trago aqui o poema desse religioso, “Coplas sobre um êxtase de alta contemplação” para concluir esta apresentação.

Entreme donde non supe

Y quedeme no sabendo

Toda a ciência transcendendo

Toda a ciência transcendiendo.

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Conversas sobre o passe na Escola, dia 20 de agosto

by secao_rj in Aconteceu na Seção RJ

Comentário de Marícia Ciscato

Na noite do dia 20 de agosto, Renata Martinez e Romildo do Rêgo Barros, em uma mesa coordenada por Heloísa Caldas, no Seminário “Conversas sobre o Passe”, debruçaram-se sobre duas difíceis lições (XXI e XXII) de O Banquete dos analistas, de Jacques-Alain Miller, que versam especificamente sobre o passe e o final de análise.

Romildo marcou, de modo leve e preciso, a descontinuidade radical entre a análise e o passe, destacando que não se trata de um único processo que teria início com a análise e se findaria com o passe, uma vez que o objeto em um e em outro movimento não coincide, indicando uma rica discussão a se desdobrar a partir daí.

Renata nos brindou com um lindo texto, que acompanha com cuidado o momento político deste Curso de Miller, há 28 anos, e as questões sobre o passe que ressoam de lá pra cá em nossa comunidade, articulados às transformações na teoria de Lacan e à experiência do passe na Escola. Dentre os muitos pontos levantados, pinçou a questão entre as soluções significante e subjetiva no processo analítico, articulando-a a um fragmento do testemunho de passe de Sérgio Laia. “Como se transmite o que cessa de não se escrever?”, foi sua pergunta-norte, com a qual nos fez caminhar conjuntamente em seu esforço de elaboração.

O debate foi animado, com intervenções preciosas, dentre elas, a de Stella Jimenez, que marcou a transmissão como unicamente possível a partir do impossível de cada um. Terminamos a noite com um gostinho de “quero mais”, com o próximo encontro já anunciado com a participação de Andréa Reis e Fernando Coutinho.

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Noite da Biblioteca, dia 17 de agosto

by secao_rj in Aconteceu na Seção RJ

Lançamento do livro de Maria Silvia G. F. Hanna

“A transferência no campo da psicose: uma questão”

Resenha do livro, por Adylson Ennes

 

É capital a frase de Lacan: “Não recuar diante da psicose”…

O que me chamou a atenção na abordagem da autora não foi, apenas, valer-se dos trabalhos anteriores de autores como S. Freud, J. Lacan, S. Ferenczi, Abraham, entre outros, mas o modo de sua apresentação.

Maria Silvia interroga, em seus termos, a possibilidade da transferência na psicose, a despeito da ideia que se manteve durante muito tempo de que a psicose não seria analisável, pela dificuldade de apresentar fenômenos da transferência.

É preciso acreditar em suas possibilidades para levar a frente um tratamento como esse. É preciso se dispor a “secretariar” o seu paciente.

Já em Dissolução, Lacan chama a atenção para o mal entendido a partir do fato de que o sujeito nasce entre seres falantes que não se escutam, não se entendem.  Isso daria força ao que Miller vem a colocar depois, que “todo mundo é delirante”? É bom para pensar, mas, nem por isso, seremos todos psicóticos.

Para pensar o tratamento do psicótico, a autora ressalta a pergunta: qual é o lugar em que o analista é colocado ao conduzir um tratamento no campo da psicose? E Lacan vai se orientar mantendo a primazia do simbólico sobre o imaginário. Em verdade, a psicose fica como uma estrutura que caracteriza uma relação do sujeito com a linguagem.

Mais que analisar detidamente os mecanismos da psicose, o que mais me chamou a atenção foi a frase inicial desta resenha: “Não recuar diante da psicose”.  Isso a autora nos mostra magistralmente ao analisar o caso de um analisante. Analisante que desenvolve uma transferência forte, erotômana, e que Maria Silvia trata de modo brilhante. Talvez com alguns momentos de desconforto, face à força dessa transferência. Mas foi graças a ter suportado, inclusive dizendo, a certa altura, “posso tratá-lo, mas não amá-lo”, frente aos ciúmes violentos que se apresentavam por vezes.

Durante todo o tempo, foi bastante delicado o manejo dessa transferência, visto que a transferência na psicose exige, por parte do analista, que ele abra mão de qualquer tentativa de interpretação que suporte a dificuldade de ser situado muitas vezes no lugar d’O absoluto que, em verdade, é um lugar de horror, tanto para o analista, como para o sujeito, efeito do Real que acompanha, na verdade, todo o tratamento da psicose.

Para encerrar, cito nominalmente a autora “Para responder a isso, o analista conta com o seu desejo, desprendido de sua própria experiência do inconsciente, e com sua manobra”, e finaliza afirmando que o tratamento da psicose é possível desde que o analista se ofereça como destinatário de seu trabalhos de amarração, de enlace do nó.

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