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Por onde andará nosso desejo

by secao_rj in Aconteceu na Seção RJ

Breve comentário tecido, a convite da Diretoria da Seção-Rio, sobre os textos de Romildo do Rêgo Barros e de Marcus André Vieira publicados, nos números extras 04 e 09, da Correio Express.
Por Maricia Ciscato

“Qual o desejo de um vírus?” “um vírus não deseja…, se espalha”, afirma Romildo do Rêgo Barros em um breve texto[1] publicado no quarto número extra da Correio Express, revista eletrônica da EBP que tem circulado nas últimas semanas com uma série dedicada a recolher decantações dos colegas neste momento em que a pandemia causada pela COVID-19 desmonta nosso modo conhecido de trabalho.

O texto de Romildo conversa diretamente com o publicado por Marcus André Vieira, alguns números depois.[2] É tentador colocar o SARS-COV-2 no lugar de um Outro enigmático. Mas, como afirma Marcus, “o vírus não é um Louva-a-deus” e, portanto, não servirá como os vivos olhos fractais diante do qual nos perguntaríamos, sustentados pela opacidade de seu olhar, o que quer de nós. Nas palavras de Marcus: “em sua expressão generalizada, a do real da pandemia, não há encontro com alteridade alguma, apenas a certeza de um real mortífero sem localização.” Não será apoiando-se no vírus, portanto, que, cada um, poderá criar a passagem que vai da angústia ao desejo.

Marcus aponta aí uma via de trabalho: “Não é a vontade do vírus que é decisiva, mas o desejo de quem é nosso Outro.” A pergunta sobre “nosso Outro” e o desejo é um trabalho definitivamente singular, como também destaca Romildo em seu texto – e que não se fará sem estar tecido no coletivo. Diz Romildo: “A psicanálise tem um trabalho a fazer, e nisto ela é insubstituível. Esse trabalho se situa entre a possibilidade de construir uma nova experiência do singular, ou se contentar com formas sinistras de individualismo (…)”.

É também na costura entre singular e coletivo que Marcus finaliza seu texto tocando na pulsação do desejo: “Que mundo nos aguarda? Olhando para uma rua vazia, mas sabendo que as ruas da periferia estão cheias, assumo que terá que ser aquele em que caiba o desejo como abertura, aquele em que a política do inconsciente terá seu papel a desempenhar, sempre coletivo, pois não há desejo de alguém sem o do Outro.”

Que sigamos neste desafio, podendo fazer também da Escola um Outro a impulsionar a circulação do desejo de cada um diante da responsabilidade de seguirmos fazendo da psicanálise uma via de abertura para a singularidade e para o laço.


[1] Rêgo-Barros, R. “Nós e o vírus”, https://www.ebp.org.br/correio_express/2020/03/22/nos-e-o-virus/
[2]  Vieira, M. A. “Notas sobre o desejo no isolamento”, https://www.ebp.org.br/correio_express/2020/04/18/notas-sobre-o-desejo-e-o-isolamento/
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Algumas reflexões sobre a psicanálise no trabalho online.

by secao_rj in Aconteceu na Seção RJ

Por Heloisa Caldas

A experiência online, seja a específica da sessão de análise, seja a da Escola nas discussões teóricas e clínicas, ainda tem muito a nos ensinar. Para começar porque é muito precário se valer do mínimo do corpo, olhar e voz, que as telas e áudios transmitem, para fazer operar alguma transferência.

No espaço virtual perdemos, ou não sabemos bem como manejar, as sutilezas de cada falasser no que ele se configura, um a um, como um nó borromeano. Quando há vários participantes, não podemos nos entreolhar, não observamos as pequenas manifestações de humor nos rostos dos presentes e talvez percamos algo do tom de voz que o som metálico dos aparelhos distorce.

Um fato rapidamente observável é que o trabalho online cansa mais do que o presencial. Perde-se muito tempo testando o canal num exercício cansativo da função fática no seu estrito senso… câmbio! Ainda mais quando o melhor da escuta silenciosa do analista, que tanto contribui para dar peso e valor às suas palavras, perde a força pela pergunta prosaica do paciente: “você está me ouvindo?”, interpretando o silêncio como uma mera falha no dispositivo.

Para uma experiência psicanalítica, seja clínica ou de transmissão, apostar apenas nos ditos implica em deixar de lado justamente o que mais importa: um dizer que nunca se transfere integralmente e menos ainda quando o corpo, seu maior suporte, não pode estar presente.

No que diz respeito ao olhar pode-se observar que o rosto, persona por excelência, toma muito mais a cena do que nos encontros presenciais em que a face é apenas uma parte do corpo dentro das três dimensões do local onde está – uma sala, digamos. Na tela, os rostos ocupam quase toda a moldura.

Não por acaso, Freud comenta que o fato do paciente observar o ambiente ao seu redor pode ser um sinal de resistência. No entanto, transferência e resistência são verso e anverso do real na transmissão. Se o ambiente ao redor oferece refúgio ao impossível dizer, também parece que o face a face compulsório das telas, por impedir o olhar oblíquo, não favorece um campo para a fala êxtima ao sujeito, nas quais gozo e objeto são entreditos.

Além disso, nos dispositivos digitais em geral, as pessoas implicadas na conversa veem o(s) outro(s) mas a si também. Tem sido uma experiência de encontro com o infamiliar mais intensa do que a narrada por Freud, surpreendido ao olhar uma superfície que espelhava sua imagem. Nos dispositivos a experiência é um pouco diferente, a surpresa não é encontrar a imagem, já sabemos que ela estará lá. Mas é bem diferente de se olhar diante do espelho do banheiro quando a questão do ideal, ser visto pelo Outro como amável – I(A) –, é colocada num plano imaterial. Nos dispositivos, a questão se localiza na materialidade do olhar do interlocutor, plano imaginário – i(a) – mais propício ao eu e seu duplo. Diante da frase “eu me olho e me acho horrível; pior é pensar que você também está me achando horrível assim”, foi bom desligar o vídeo.

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A vingança do vírus

by secao_rj in Aconteceu na Seção RJ

Por Stella Jimenez

J-A. Miller, na aula de 25 de maio do Seminário O Ser e o Um, citando o que Lacan disse no Seminário 23 sobre Adão e a bactéria, comenta: “Tentarei dar sentido ao apólogo que ele (Lacan) apresenta no começo, quando ele evoca a criação dita divina e a história dos nomes que se teriam pedido a Adão para dar às espécies animais. E ele destaca o seguinte: a bactéria não foi nomeada. Pois bem, isso significa dizer que há existências que não têm nome, não têm significante, embora sejam igualmente reais.”

Miller conclui disto que a verdadeira importância do que postulava Lacan era de que havia uma grande distância entre nominação e real, e que, primeiro, há o real, logo, o significante. As bactérias seriam da ordem do real, até serem nomeadas.  Uma vez nomeadas, poderíamos até atribuir-lhes um gozo, como nos insinua Lacan na aula do dia 23 de abril do Seminário 22. Ele diz: “Esta pequena sujeira, que vocês olham no microscópio, e que manifestamente se mexe freneticamente, é certo que ela goza; ótimo para a bactéria. Eu me interrogo: será que a bactéria goza?” Mas, mesmo gozando, não é possível atribuir-lhe uma vontade de gozar de nós. Nunca poderíamos chamar esse gozo de gozo do Outro

Deparamo-nos atualmente, à diferença da passagem bíblica que teria ignorado a bactéria, com a súbita chegada às  nossas vidas de um pedacinho de real, infinitamente menor, ao qual foi designado um novo significante. Um real que nos ameaça com o que chamaríamos de sua implacável voracidade, se pudéssemos lhe atribuir gozos humanos. O Sars-cov-2 escreveu-se de maneira contingente nas nossas vidas — e as modificou completamente.

Como de hábito, o falasser tenta dar sentido ao acontecido, tenta transformar o contingente em necessário.  Assim, logo surgem teorias conspiratórias: foram os chineses, foram os americanos; está se tentando eliminar o custo dos idosos, dos pobres, dos inúteis, dos não lucrativos. Claro que alguns governos aproveitam a incidência da pandemia para sua necropolítica, mas isso é um uso oportunista da contingência.  Outra forma de lidar com o contingente é transformar o acaso em determinante: só morrem pessoas de determinada idade, pessoas doentes etc. Mesmo se as pessoas idosas – por terem menor imunidade e sofrerem, frequentemente, de outras patologias – tendem a contrair formas mais graves da infeção, já se sabe que podem morrer pessoas de todas as idades. Mas, novamente, a necropolítica mexe seus pauzinhos e a letalidade afeta mais aos pobres que não conseguem ser colocados a tempo em respiração assistida.

Como se fosse uma ironia do destino, num momento em que a ciência e a pesquisa científica estavam tão desprestigiadas, especialmente no Brasil, o mundo fica ameaçado e apela desesperadamente para os pesquisadores e para os cientistas.

A ciência, nos últimos tempos, pela sua aliança com o discurso capitalista, tinha tamponado sua intrínseca rejeição da verdade com o signo do dinheiro que, como o S1 dominante dos tempos, determinava todos os outros lugares dos laços sociais. Podemos pensar que essa aliança espúria contribuiu para o seu desprestígio frente à opinião geral. Se não era mais possível confiar na ciência, se ela se vendia ao que pagasse mais, se o que afirmava rapidamente era modificado de acordo com os interesses pecuniários dos cientistas, por que não esperar novamente respostas junto ao pensamento mágico e à religião?

Mas, mesmo assim, a ciência foi marcando o falasser na sua história, e não podemos negar que sempre teve “a verdade” como uma de suas causas. O problema tradicional da ciência, antes mesmo da deturpação monetária, foi o de sempre se ater à verdade formal, como explica Lacan no seu escrito sobre o tema. Isso faz com que seja sempre incompleta — o que a ciência sempre rejeitou, aspirando poder dar conta de tudo, forcluindo o impossível do saber.

Apesar disso, a verdade mentirosa da ciência sempre permitiu que algo do real aparecesse, à diferença do que acontece com a verdade final da religião e da verdade eficiente da magia. Assim, a ciência foi tocando à humanidade com algo do real da castração, e LOM foi abandonando seus preconceitos e seu desejo de supremacia — sua negação do real da falta — por conhecimentos que o desalojaram de seu lugar almejado de centro: do centro do universo, do centro da criação, da fantasia de ser dono de seus pensamentos.

Muitos governantes atuais se opõem à ciência justamente neste ponto: pretendem fazer o homem voltar a suas satisfações narcísicas, negando o real da castração. Pretendem fazê-lo se sentir novamente o centro, superestimando suas sensações e suas percepções, à diferença do que dizem os cientistas. “Você sente a terra girando sob seus pés? Você vê o horizonte redondo ou plano? Por que você não acredita no seus olhos e sim nas mentiras dos cientistas, que hoje dizem uma coisa e amanhã outra, dependendo do que for mais conveniente para eles? Eles dizem que o planeta está aquecendo, mas, e você, não sente frio?” É por esse apelo às fantasias do ego que eles conseguem ser tão escutados. Eles próprios, os governantes,  aliam o narcisismo aos anelos neoliberais. Para o neoliberalismo, ao contrário do que parece indicar a palavra liberal, é melhor que o falasser fique preso a preconceitos e sistemas religiosos. De essa maneira é mais fácil manipulá-lo.

Como disse antes, nos últimos tempos a ciência deu pé a seu desprestigio: unindo suas duas fraquezas, a rejeição do real e a aliança com o capitalismo, vinha dando suporte à destruição da natureza, ao avanço do desmatamento, à criação de animais em condições que não duvido em classificar como selvagens, paradoxalmente falando. Etc, etc.

Se o real fosse uma criatura pensante, poderíamos dizer que se vingou.

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Ecos do Enapol – Ideal e gozo no terrorismo – Por Ondina Machado

by secao_rj in Aconteceu na Seção RJ

Ondina Machado

Há um afeto envolvido no terror? A luta do terrorismo islâmico contra o Ocidente se baseia no ódio ao Ocidente? De quê se alimenta o terrorismo?

Ideal ou um gozo novo

Parto da consideração esclarecedora de Laurent, em debate com dois estudiosos sobre o Islã, durante o Pipol 7, ocorrido em Bruxelas, em 2015. Os estudiosos são Feith Benslama, psicanalista de origem tunisiana, professor em Paris-Diderot, e Rachid Benzine, economista marroquino e estudioso dos textos corânicos. Ambos desenvolvem pesquisas sobre a ascensão do terrorismo islâmico. A partir das considerações feitas pelos dois islamólogos Laurent lança a seguinte indagação: “o gozo daquele que se destrói é um retorno ao ideal, uma via rumo ao ideal ou antes uma via rumo a um novo gozo”[1].

É sobre esse recorte que quero trabalhar indagando se o que move os jihadistas é uma causa religiosa, o afeto do ódio, ou, ao contrário, um tipo de gozo inédito até os dias de hoje.

Não sem a perspectiva do sujeito

Ao longo dos séculos, inúmeras invasões e tentativas de ocidentalizar a cultura islâmica foram justificativa para o ódio ao Ocidente. Depois do 11 de setembro, o medo intensificou o preconceito e serviu de justificativa para medidas de segurança adotadas no mundo inteiro, que têm como alvo principal os jovens muçulmanos. Além disso, símbolos sagrados, como a figura de Alá e de Maomé, são alvos de profanação e blasfêmia, o véu é proibido nas escolas francesas e há dificuldade para conseguir emprego por causa das 5 orações diárias. Enfim, tudo corrobora para o mal-estar, que Miller situa no corpo: “Não há corpo de muçulmano que não trema quando o herege blasfema”, ou ainda, “a blasfêmia é uma indecência”[2].

Há também o ataque que corrói bases dessa cultura: o discurso capitalista, os ideais iluministas, a promoção do individualismo, a flexibilização da moralidade, o laicismo, a liberação sexual, a igualdade de gêneros, dentre outras. Mas, para pensarmos o terrorismo a partir da psicanálise, devemos incluir nessa análise os fatores contingentes de um gozo para além das explicações sociais e culturais, ou seja, é necessário humanizar o terrorista, como indicava Lacan[3], advertidos por Miller a não nos deixarmos “hipnotizar pela causa”[4].

Nesse sentido, a contribuição de Benslama e Benzine, tomada pela via proposta por Laurent, traz uma perspectiva particular do que costumamos chamar de “terrorismo islâmico”.

Quem são os terroristas?

Benslama insiste que não há um perfil do terrorista; no entanto, ressalta que eles são majoritariamente jovens muçulmanos entre 15 e 25 anos. Em geral são pobres, vivem em uma “precariedade subjetiva”[5] e clamam por justiça social. De 2013 para cá perceber-se a concorrência de jovens originários da classe média que, diferente dos jovens pobres, clamam por autoridade e definição clara das normas, buscando “retraçar as fronteiras entre a permissão e o proibido de uma forma explícita”[6]. Independente da classe social, têm em comum o sentimento de viverem em um mundo onde não há lugar para eles, de serem vítimas de uma ordem social e política que os exclui e os discrimina por seus hábitos, aparência e costumes. Segundo Khosrokhavar, “o islamismo radical opera uma inversão mágica que transforma o desprezo de si em desprezo do outro e a indignidade em sacralização de si, mesmo que à custa dos outros”[7]. Essa inversão parte de uma indignação da qual os imãs se aproveitam para construírem o ódio que justifica suas ações. O ódio não é consubstancial à violência, mas tem como propriedade fazer laço social, nesse caso, forjando uma identidade.

É justamente essa identidade que Benslama chama de “super-muçulmano”, aquele “que quer ser mais muçulmano do que o muçulmano que é”[8]. Para tal, exacerbam os sinais externos de lealdade nas roupas que vestem, nos rituais que executam e na obsessão pela pureza. Muitos são delinquentes que encontram na jihad uma forma de inscreverem-se no Outro de uma maneira nobre – “vingar uma vida desvalorizada, adquirir um sentimento de existência superior tornando-se heróis”[9]

Segundo Benslama, a oferta de radicalização se beneficia das “falhas subjetivas para transformá-las em um desejo furioso de sacrifício”[10] e fazer deles neo-mártires. O antigo mártir islâmico morria sem querer, como consequência de sua profissão de fé. Já o neo-mártir pratica o auto-sacrifício pelo “desejo de morrer por ódio à vida”[11]. Morrem,  paradoxalmente, em busca de “uma vida mais elevada”[12]. Esses jovens que almejam uma subjetividade heroica pela via da violência, são designados por Khosrokhavar de “heróis negativos”[13].

É possível perceber que, na causa jihadista, o ideal se apresenta como expressão direta do supereu lacaniano, menos uma causa e mais uma tentativa desesperada de salvar-se da indignidade. Sabemos, por  Miller, que não há salvação pelo ideal, apenas pelo dejeto[14]. Será que para esses jovens o auto-sacrifício seria uma tentativa sublimatória de elevar-se como objetos à dignidade de Coisa?

Como o ideal se torna gozo

Os jovens declaram querer “vingar o ideal islâmico ferido” através da restauração do califado, do retorno às origens e às fundações da fé. A expressão “vingar a minha vida”, presente nas cartas deixadas pelos suicidas à suas famílias, denota, segundo Laurent, um querer dar sentido à vida, propósito de toda religião. Porém, nessas cartas recolhidas por Benslama[15], também é possível verificar a emergência de um gozo paradoxal: esses jovens acreditam que ao se apresentarem a Deus em pedaços, conquistariam “um mérito real”.

Laurent identifica uma equivalência entre esse gozo e o mundo atual no qual “o Ideal do eu empalidece diante da elevação ao zênite do objeto ‘a’, do gozo”[16]. O autor demonstra a ascensão do objeto em detrimento do ideal no desinteresse pelo estudo do Corão, na submissão à uma “polícia de costumes”[17], na espetacularização das execuções e no recrutamento à profissão de fé via internet, uma espécie de califado digital. Ele evidencia “uma alteração particular dos ideais que se atém apenas a um empuxo-a-gozar, um empuxo-a-gozar de uma nova forma, que dá um novo referente ao velho nome de mártir”[18]. Assim, o mártir sai do campo do ideal e se transforma em um objeto que “não pode ser absorvido no dispositivo da civilização”[19].

Brousse ressalta a diferença da violência como forma de gozo daquela embalada por causas revolucionárias. Se antes, revolução era o S1 do discurso do mestre que movia as massas, hoje, o S1 é a violência. O que mudou foi o lugar ocupado pela violência, pois na posição de S1 ela “regula a vida social, os valores, os ideais, as instituições”[20]. O significante revolução interpretava a violência, dava-lhe sentido; hoje “a violência está descoberta, não interpretada”[21]. Quando o Édipo era a norma, suas tramas engendravam o sentido. No além do Édipo novas formas de gozo deixam de ser exceção e, como tendência, ocupam a posição de agente do discurso do mestre. Assim, o objeto a é capturado por um novo significante que toma o lugar do significante mestre: “onde havia a metáfora, há o real”[22], onde havia ideal, há gozo. Os restos do discurso do mestre antigo são hoje elevados à posição de S1, assim é com a violência.


[1] LAURENT, É. O avesso da biopolítica. RJ: Contra Capa, 2016, p. 216.
[2] MILLER, J.-A. A “common decency” de Oumma. Acessível:
encurtador.com.br/ABQZ5. Acesso: 25/06/2019.
[3] LACAN, J. “Introdução teórica às funções da psicanálise em criminologia”. Escritos. RJ: Zahar, 1998. p.137.
[4] MILLER, J.-A. “Crianças violentas”. Em: Opção Lacaniana, n. 77, p. 28.
[5] BENSLAMA, F. Entrevista. Acessível: encurtador.com.br/dhoX0. Acesso: 25/6/2019.
[6] KHOSROKHAVAR, F. “Le héros negatif”. Em: BENSLAMA, F. L’idéal et la cruauté. Éditions Lignes, 2015, p. 38
[7] Id, p. 32.
[8] BENSLAMA, F. Op.cit.
[9] Id.
[10] Id.
[11] Id.
[12] Id.
[13] KHOSROKHAVAR, F. Op. cit., p. 30.
[14] MILLER, J.-A. “A salvação pelos dejetos”. Em: Perspectivas dos Escritos e Outros escritos. RJ: Zahar, 2011, p. 227-233.
[15] BENSLAMA, F. La guerre des subjectivities en Islam. Éditions Lignes, 2014.
[16] LAURENT, É. Op. cit., p. 2016.
[17] Id.
[18] Id.
[19] Id.
[20] BROUSSE, M-H. “Violencia en la cultura”. Em: Bitácora Lacaniana, Violencia y explosión de lo real. Abril, 2017, NEL/ Grama Ediciones, p. 14.
[21] Id.
[22] Id, p. 17.
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Ecos do Enapol – O que pode brotar da indignação – Por Andrea Vilanova

by secao_rj in Aconteceu na Seção RJ

Andrea Vilanova EBP-Rio

A indignação nos interroga sobre seu lugar entre as paixões e nos coloca a trabalho em busca de um enquadre que nos permita cernir sua estrutura, bem como, sua função nos tempos que correm. Ler o tema da indignação com Miller, em “Comment se revolter?”[1] e com H. Kaufmanner, em “Indignai-vos, porém…”[2] me conduz à tentativa de leitura de uma manifestação artístico-poética que parece conversar com a ideia do que poderia ser uma boa maneira de nos indignarmos.

A perspectiva aberta pela orientação lacaniana nos indica que a indignação revela o estatuto reflexivo da posição do sujeito frente ao Outro da privação, como destaca Kaufmanner, de sua leitura com Miller: “Quando esta visa ao Outro, a trajetória de sua flecha retorna sobre o próprio sujeito. Se a revolta aponta o Outro, aquele que priva, o sujeito mesmo é afetado pelo retorno de sua indignação sobre si mesmo[..]”. Parece não haver escapatória. Do lado dos direitos humanos a perspectiva de fazer valer uma resposta guiada pela justiça distributiva, do lado da psicanálise, estamos às voltas com uma perspectiva advertida sobre a natureza do impossível de suportar subjacente à indignação, como próprio a cada um. A cada um seu gozo, os ônus e bônus dessa condição.

Mas como nos servirmos desta advertência sem cair na desafetação, sem nos desimplicarmos da vida política, quando não podemos simplesmente ignorar o mundo no qual tomamos parte? A indignação pode colocar em cena o imbricado jogo entre o singular do sujeito e o nó de sua posição no Outro social. Como transitar nesse movediço terreno que coloca o Um e o múltiplo em tensão? O que fazer com o gozo de cada um que não se deixa assimilar, nem neutralizar, quando estamos às voltas com outros, ao mesmo tempo em que nos contamos um a um?

A cada dia me pergunto: como metabolizar o impacto da violência de um desgoverno absolutamente desimplicado diante das atrocidades que emanam de suas arbitrariedades, seguindo em frente como cidadã e psicanalista? As palavras de Eve Miller Rose, na abertura do IX Enapol iluminaram um ponto de junção e disjunção que me ajuda a interrogar o modo de compor o que retomo a partir de um lugar onde minha resposta como cidadã não prescinde dos instrumentos de navegação que a psicanálise me oferece, ainda que não se trate de confundir meu lugar de cidadã com meu lugar de psicanalista. Recolhendo o que pude ouvir de suas palavras, trata-se de reconhecer que tomar a ética em termos de dignidade seria elevar o humano à dignidade de sujeito. É o que me orienta. Mas entre cidadã e psicanalista não há equivalência, nem superposição. Creio que, como psicanalista, estar advertida daquilo que em mim não encontra lugar na política dos bens e direitos, me permite calibrar meu lugar de cidadã, meu modo de tomar parte no mundo, nos laços a inventar com os outros. Nada disso é dado de antemão.  Na ausência de respostas prévias, sigo tentando aprender com a arte, lembrando com Freud e Lacan que o artista antecede o psicanalista. E assim, compartilho o que pude recolher de uma manifestação artística de jovens poetas das favelas do Rio de Janeiro que têm feito de certo uso da palavra uma arma potente.

Há alguns meses fui surpreendida por um ataque poético. Uma fala testemunhal ecoa pelos vagões da metrópole. Os “ataques” colocam a voz em primeiro plano. No meio de uma viagem qualquer, uma voz rompe o silêncio: “Ataque!” Imediatamente outros respondem: “poético!” De repente alguém recita: “Em nome do amor se oprime, reprime e ilude/Em nome da paz instaurada, a guerra mata um preto, dentro e fora da favela, a cada 23 minutos”.

O que haveria de poético nisso? Ainda que não seja possível um relato sem a ficção intrínseca ao que a palavra pode oferecer, o dito realismo com que alguns críticos se referem a esta produção literária contemporânea[3], tem sido marca dessas manifestações, onde o poeta grita urgências a partir de uma fala auto-biográfica que necessariamente incorpora a dimensão política das urgências sociais que enuncia. Um ataque de poetas periféricos, como eles próprios se apresentam, suscita surpresa e muitas perguntas. Seu uso da língua para despertar os transeuntes e chamar sobre si alguma atenção, traz a marca da indignação soletrada em palavras duras que retratam a violência e o abandono que marcam seu cotidiano. Impossível não ser afetado. Muitas são as vozes que se atravessam, harmoniosamente ou não, mas é interessante notar o modo como rompem com o anonimato de uma corriqueira viagem num transporte urbano. Eles nos desarmam. Sua intervenção incide sobre nós, sobre cada um que aprecia a beleza ou hostiliza os “esquerdopatas”. Uma cena se monta. Saímos do autismo hipnótico diante das telas dos smartphones.

Muitos eventos, desde o início dos anos 2000, vêm se consolidando com a marca desse uso da língua para retratar a realidade da vida nas favelas, num misto de catarse e produção artística, dita periférica, e que promove um reviramento ao interrogar onde ou qual seria o centro, já que se propõem a testemunhar o drama que se faz seminal no centro de suas vidas, entre o que toca a todos ali e a cada um. Suas palavras escancaram a inexistência do que quer que se possa chamar de sociedade, deixando expostas as valas comuns que expõem o sem-valor da vida dentro da engrenagem do sistema do qual fazemos parte.

Fazer da revolta arte, tocar o outro com suas palavras parece ser o nervo sensível desse modo de produzir com a própria voz uma audiência que lhes ateste dignidade, reconhecimento e lhe renda dinheiro para sobreviver. Fazer da indignação um ato de fala faz ecoar o princípio de que é preciso ser escutado para que o atributo de existência vigore, instaurando uma vida dentro da vida que chega a todos nós pelas manchetes. E mais ainda, ao tomar a palavra de modo performático, esses jovens fazem dela um projétil que pode furar a massa de uns e instaurar Outro possível. Colocando a voz em cena dão corpo a uma satisfação que atravessa o desalento coletivo e faz vibrar o instante.

Esses jovens não se apresentam como pobres pedintes. Passam o chapéu, de fato, mas é a reação do público que lhes retorna e liga uma chave interessante, reatando um laço, na vivacidade de um gesto que dá testemunho de um antes e um depois do happening dentro do vagão do metrô. A contingência do encontro vigora e sua efemeridade faz vibrar a vida possível no meio de um dia como outro qualquer. Marcus André me perguntou qual seria a articulação entre o que fazem esses coletivos e o que ocorre em uma análise? A produção de deslocamentos inauditos, respondi.

A indignação impactada pela surpresa de um encontro pode ressignificar um dia, produzir perguntas, provocar deslocamentos, instaurar brechas. Permite tornar vívida a diferenciação que Miller propõe, ao colocar a queixa do lado de uma posição de impotência e a indignação, como revelação de um impossível.


[1] La Cause Freudienne, n.75, juin, 2017.
[2] https://ix.enapol.org/es/indignai-vos-porem-2/
[3] Slans de poesia – batalhas de poesia falada
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Ecos do IX ENAPOL Por Maria Corrêa de Oliveira

by secao_rj in Aconteceu na Seção RJ

Em sincronia com essas três paixões, Ódio, Cólera e Indignação, tema do IX Enapol, é difícil pensar que, no regresso, os ecos de três dias de intensa imersão, de tanto trabalho e de tantos trabalhos, não ressoem também no modo de comparecimento alguns desses afetos. Reverberam em ondas feitas de indagações, palavras, emoções e surpresa. Atravessamentos de gozo.

São muitos os desafios para a psicanálise. Em um mundo que desvanece a importância da alteridade pela via do ódio, demonstrando que na raiz do racismo está o ódio ao próprio gozo, insistimos na palavra.  Não somente. O corpo que a sustenta também é protagonista.

Cito dois momentos especiais:

Na conferência do economista João Antonio de Paula (UFMG), nossa comunidade de psicanalistas reagiu ovacionando sua fala. Transmitiu-se com vitalidade o sentimento de indignação perante a exposição da ferocidade do capitalismo contemporâneo.

Na voz dos testemunhos de passe, o fio das paixões citadas teceu no decorrer dos relatos a presença do ódio, da cólera e da indignação nos impasses de uma análise transmitindo o mais singular de cada um, para tantos que ali estavam.

Fui especialmente tocada pela dimensão significativa de acompanhar de corpo presente a enunciação dos testemunhos. Nesse ato de ouvir, em silenciosa comunhão, a solitária experiência de uma análise pôde se aproximar de uma solidária solidão.

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Ecos do IX ENAPOL Por Maria Silvia Garcia F. Hanna

by secao_rj in Aconteceu na Seção RJ

Presidente do Conselho EBP Seção Rio de Janeiro

Tive a oportunidade de participar do IX ENAPOL que reuniu as Escolas da América, EOL, NEL e EBP e seus Institutos em São Paulo nos dias 13, 14 e 15 de setembro de 2019. Foi um encontro onde pude aprender com muitos dos colegas que fizeram suas apresentações e suas intervenções nas Mesas Plenárias e nas Mesas Simultâneas.

Posso dizer que cada um, à sua maneira, dentro da Orientação Lacaniana interpretou o tema do ENAPOL: Ódio, cólera e indignação, trazendo contribuições que permitiram abrir caminhos a partir das experiências clínicas, dos Testemunhos de Passe,  sobre o fazer da Escola, na política da psicanálise, entre outros.

A EBP Seção Rio esteve presente através dos AME, de seus membros, de seus cartelizantes, dos participantes de Núcleos de Pesquisa, que levaram suas elaborações em torno  do estatuto dos termos que compõem a tríade do título,  interrogando como eles aparecem nos dias de hoje nas diferentes experiências, e o destino possível a partir do encontro com o psicanalista. Cito aqui alguns assuntos que  foram abordados e que ficaram na minha memória: a tentativas de suicídio e sua relação com o gozo, o ódio do feminino, a indignação a revolta e o encontro com o analista, o ódio da burocracia, o terror e o gozo no fundamentalismo, entre muitos outros.

Parabenizo aos diretores, coordenadores e participantes que em todos os níveis fizeram possível este acontecimento ENAPOL.

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Ecos do IX ENAPOL Por Glória Maron

by secao_rj in Aconteceu na Seção RJ

Quando vou a um dos eventos do Campo Freudiano e/ou AMP, ao terminar sempre me pergunto como cheguei e o que trago comigo, quando volto à minha prática do dia a dia e ao trabalho institucional do ICP e EBP.

Não foi diferente em relação ao IX ENAPOL.

Destaco alguns pontos:

– o IX Enapol reuniu a comunidade analítica da EBP, EOL e NEL, que através de seus membros, convocados a responder aos desafios que constituem para a psicanálise esses três afetos – ódio, cólera e indignação – responderam à altura a proposta lançada.

– o tema escolhido, – ódio, cólera, indignação, desafios para a psicanálise – que, por sua conexão à atualidade, produziu uma gama de atividades preparatórias, colocando em marcha, um trabalho  intenso de elaborações prévias, que certamente contribuíram para a realização de um evento em que experimentamos a força e o vivo da orientação lacaniana. Mais ainda, essa vitalidade se renova a cada vez, quando nos deparamos com relatos e depoimentos no decorrer do IX Enapol, em que a enunciação de seus autores causaram um movimento de relançamento ou inovação de questões que impulsionam o trabalho epistêmico, clínico e político.

– a orientação lacaniana incidindo nos trabalhos apresentados nas atividades programadas – plenárias, ensino do passe, e múltiplas mesas simultâneas, enlaçando a psicanálise em intensão e psicanálise e extensão, merece um destaque especial.

– A Conversação de Política Lacaniana, experiência Zadig – momento AMP no IX Enapol – que deixou acesa a chama do que para mim é uma questão: podemos falar de uma posição da psicanálise de orientação lacaniana a partir da participação de analistas nos debates e fóruns Zadig sobre a macro e micro politica instaurada nos diferentes países latinos, em particular o Brasil?  Como esses fóruns e seus resultados ressoam e tem tocado os analistas que fazem parte da comunidade de trabalho da AMP? Resposta que cabe a cada um responder e para mim, particularmente, renova o legado lacaniano que conserva uma dimensão de enigma: o inconsciente é a política.

– as plenárias que trouxeram testemunhos do passe, com destaque para um dos convidados das próximas Jornadas da EBP-RJ, Alejandro Reinoso, que transmitiu com rigor e sensibilidade o destino da indignação no passe e no ultrapasse, deixando-nos com um “gostinho de quero mais” quando anunciou que deixaria para um próxima vez abordar o gozo feminino (no México) e a “próxima vez” que nos toca particularmente, quando virá ao Rio de Janeiro, fazer um testemunho nas XXVI Jornadas da EBP-RJ, A vida (não) é um sonho, nos dias 29 e 30 de novembro.

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Ecos do IX ENAPOL – Por Angela Bernardes

by secao_rj in Aconteceu na Seção RJ

“Ódio, cólera, indignação”. Esse título interpreta o mal estar na cultura contemporânea e reuniu centenas de psicanalistas em São Paulo para o IX Enapol. Aí estiveram concentrados representantes das três Escolas da AMP na América– EOL, EBP e NEL– dos Institutos  do Campo Freudiano e ainda outros psicanalistas latino-americanos em transferência com a orientação lacaniana. Foram três dias de programação intensa. Entre as 15 plenárias e os debates em mesas simultâneas em 12 salas diferentes havia a alegria dos (re)encontros nos corredores, café e livraria. Colegas de muitos cantos do Brasil e da América. Uma verdadeira maratona associativista!!!

O saldo para mim é o estreitamento de alguns laços de trabalho e o reenvio ao trabalho clínico e epistêmico. Com tanta areia que se movimenta nesse turbilhão, sempre algo de novo se deposita. De novo, no duplo sentido: algumas surpresas e algumas reiterações.

Da abertura, destaco a formulação de Ève Miller-Rose: ”Elevar o humano à dignidade de sujeito poderia ser uma expressão de nossa ética”.

Da última plenária do passe, intitulada “Mais além da indignação…”, ficam ecos do depoimento de Alejandro Reinoso, para quem o mais além da indignação teria sido um passo do huir (fugir) ao Ouïr (ouvir) e um amor ao sinthome.

Aguardamos a vinda desse colega do Chile ao Rio em novembro para as nossas  XXVI Jornadas Clínicas.

Vamos em frente!

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O Tabu de um Gozo

by secao_rj in Aconteceu na Seção RJ

Angela Batista

Quando nos referimos as” Contribuições a psicologia do amor” em Freud destacamos: 1 – Sobre um tipo particular de escolha de objeto no homem (1910); 2- Sobre a depreciação da vida erótica (1912); 3- O Tabu da Virgindade (1918) [1917]).

De que trata então as Contribuições a psicologia do amor em Freud? Das questões que concernem a todos nos.  Podemos afirmar que a vida amorosa freudiana é o lugar dos impasses e do mal-entendido entre os sexos de como se relacionam e se escolhem uns aos outros. É o tema da escolha de objeto. Freud introduz na problemática da vida amorosa o complexo de castração onde destaca o princípio da depreciação do homem pela mulher e a hostilidade da mulher para com o homem.

Nessas contribuições a psicologia do amor vemos o que determina o percurso do sujeito em direção ao Outro, na perspectiva do amor, do desejo e do gozo. Escolhi trabalhar a terceira contribuição “O Tabu da virgindade”. A partir de uma frase que me pareceu preciosa; “a libido freudiana tem a cor de um vazio”[i]. Vazio que coloca no centro do amor o objeto pequeno a.  Miller em seu simpósio sobre o amor, fala que essas contribuições são contribuições à doutrina do gozo.

Nessa terceira conferência, Freud se pergunta sobre o acesso ao gozo, destacando o complexo de castração e de seus impasses. A não complementariedade entre os sexos, indica diferentes formas de amar. O objeto de amor para um homem toma a forma fetichista em sua condição de objeto a. O homem reveste a mulher como o falo para apagar o horror da castração e para deseja-la. O gozo feminino se situa do lado do amor, na valorização pelas mulheres do amor em relação ao desejo.

Do deslocamento da mãe a mulher; o que se coloca nessa terceira conferencia é que a mulher é um Tabu. O tabu da virgindade que com Lacan, se situa mais além das formulas da sexuação, no gozo, sempre outro.  Talvez puséssemos perguntar se o Tabu não seria apenas em relação à mulher, mas ao gozo feminino, ao Outro gozo. Em todas as culturas há uma forma de regular o gozo, que no caso da mulher seria uma pressa em inscrever o gozo fálico para tratar o ilimitado desse Outro gozo, do qual elas nada falam.  Esse Outro gozo não está referido ao objeto, sequer ao gozo fálico, mas a S (A) barrado, impossível de simbolizar. Essa definição vai além das posições sexuadas, que não deixam de ser identificações, que não anulam as formulas da sexuação, mas que mostram um gozo ilimitado, devastador.

As condições do amor se apresentam a partir de uma renúncia pulsional onde algo do impossível se manifesta nas parcerias amorosas.  Nesse sentido o caminho de Freud chega ao Tabu, que é da ordem do não tocar, não ir além, chegando a mulher como Tabu, dado que a mulher é do pai. Freud assim parte das condições do amor e chega ao Tabu, ao tabu de um gozo. A mulher é tabu porque é difícil seu acesso aos homens. Assim como as mulheres de outra forma não suportam também os homens. Lembrando Freud, a única esperança está no segundo matrimonio. Nesse sentido há um tabu generalizado a mulher. A mulher é outra não semelhante, inclusive para si mesma, representando o lugar de “Heteros” o Outro absoluto em sua radical alteridade. Não seria esse o segredo das regras para o amor? Manter o enigma que a mulher encarna para sustentar um laço possível entre os sexos?

Nessas três contribuições Freud fala de substituições e de metáforas e metonímias do objeto de amor.  Da mãe enquanto proibida ao gozo impossível. Por isso Lacan pode dizer no Seminário sobre a ética, que das ding, o gozo primário é a mãe. No amor freudiano só há substitutos. Nada de amável, diz Miller.  A eleição introduz o objeto da satisfação enquanto perdido.  No nível do gozo como tal há a Coisa, das ding.  Se há escolha de objeto, não há relação sexual e os divinos detalhes apontam para castração, para a mulher como tabu, fazendo da sua alteridade o princípio da degradação. Cito dois exemplos que revelam os impasses do amor, do desejo e do gozo na vida amorosa de dois personagens.

Manon Lescault é o romance citado por Miller, contado pelo abade Prévost, para falar da de como o amor feminiza na figura da mulher desleal, que encarna a mulher do desejo ( a puta)    aquela mulher sempre do Outro. Manon  e seu  seu parceiro Des Grieux é uma história de amor do tipo romance rosa. A desleal Manon signo da mulher indigna, e Des Grieux representa o pato, o enganado. O amor pela diabólica que pertence a Outros. Manon revela algo de diabólico e incivilizado quando interrogamos o  “que quer uma mulher, senão gozar do amor?

A princesa de Clèves, e também uma citação no curso de Miller sobre Os Divinos detalhes. Ao se apaixonar pelo Sr. de Nemours tem depois de muitos rodeios marca um encontro com ele e ela lhe revela sua paixão.   Por causa disso, ela diz que será o primeiro e último encontro deles. Ele fica atônito e diz: Mas você me distinguiu dos outros homens. Justamente, ela lhe responde. Esse é o obstáculo. Se eu o distingui isso pode acontecer a uma outra mulher. E se isso acontece, eu serei infeliz. Ele lhe fala de sua paixão.  Ela retruca dizendo que a paixão não dura. Ela recusa conhecer a infelicidade do ciúme. Entre suas razoes para renunciar revela a principal: Por vaidade ou por gosto, todas as mulheres lhe desejam. Outras mulheres o amarão. Você me deixara.  Os homens são inconstantes e infiéis. O único homem que teria sido fiel a mim, é o Sr. de Clèves que tinha uma única razão para isso- eu não o amava. E encerra a conversa.  Assim ela prefere se exilar do amor, onde será uma única absoluta para seu amante, uma a menos para sempre[ii].

Lacan, explicita essa impossibilidade no seminário livro 18: “de um discurso que não fosse semblante” onde mostra a conjunção e disjunção entre o gozo e o semblante. O Semblante é o falo como o significante da diferença sexual.  O homem e a mulher se encontram na interseção entre dois gozos, que mostram o desencontro estrutural.  Sendo assim a terceira contribuição de Freud revela o segredo das condições de amor. Os atrativos femininos dependem de um véu, em relação ao não ter, que se torna desejo. Essas condições do amor são diversas formas de diminuir a alteridade da mulher sem faze-la desaparecer. A erótica lacaniana seria a do homem sem rodeios (ambages), um homem que não temeria a mulher, ou que a mulher não fosse um tabu. O homem sem rodeios, seria aquele capaz de fazer parceria com a mulher como Outro. Lacan inventou um real próprio á psicanalise. Um real que se alcança através da contingencia do amor. Essa contingencia demonstra a impossível harmonia do gozo que se encontrava velada pelos semblantes do amor. 1

Trago para discussão a questão sobre as condições do amor na atualidade, onde a mulher enquanto Outro radical, se desloca do Tabu que possibilita a diferença e que permite o laço entre os sexos  para o  ódio, sem velamento da diferença,  através de actings e passagens ao ato,  a partir de uma diferença que precisa ser eliminada na nossa época do empuxo ao idêntico . Byung Chul Han[iii], o filosofo coreano, diz que O trauma é o sexual, mas que o violento é o idêntico. Laurent lembra de paradoxos do individualismo democrático de massa na autossuficiência do sujeito na atualidade no gozo que não faz laço.[iv]

Gostaria que discutíssemos a partir do texto de Miller o que pode regular o gozo das relações entre os sexos, na atualidade, pensando a solidão entre os sexos e os destinos da pulsão de morte, “ expulsão do Outro do amor” no apagamento da alteridade e de suas consequências, onde o Tabu a mulher se desloca para o ódio ilimitado  em detrimento  do enigma da” cor do vazio”, do Heteros do feminino.


[i] Miller, J Alain-“ Os divinos Detalhes – 1989- Grama Ed.  Lição V – “O tabu de um gozo”.
[ii]Naveau Pierre- Os Homens, as mulheres e os semblantes- Papers Congresso Semblantes e Sinthoma VII Congresso da AMP- Paris 2010
[iii] Byung Chul Han” A Expulsão do Outro”  Ed Vozes
[iv] Laurent Eric- El Traumatismo del final de la politica de las identidades-  XVI Jornadas DA ELP 2017 Boletim
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