Fale Conosco: (21) 2539-0960
Viewing posts categorised under: Aconteceu na Seção RJ

Elefante

by secao_rj in Aconteceu na Seção RJ

O intrigante título do filme já nos dá uma pista do espírito do filme, não é obvio à primeira vista, ele nos intriga, sugere um enigma, e somente uma reflexão externa aos elementos do filme nos traz um fio de elucidação: elefante, este título, alude à expressão “um elefante na sala”, que não pode deixar de ser notado? Ou podemos supor que se refere à parábola chinesa em que cinco cegos de nascença apalpam, cada um, uma parte de um elefante e dessa parte ou desse somatório de elefantices não deduzem um elefante? Também no filme, e até se pensarmos heterodoxamente em outros filmes que o suplementam, como “Tiros em Columbine”, as diversas situações não perfazem um todo compreensível.Tentemos.

Partes do elefante:

1-uma inexpressiva cidade americana (Littleton, subúrbio de Denver, Colorado – cidade de origem, aliás, de um dos criadores de South Park, a melhor sátira, de animação, da mentalidade da América profunda), mergulhada até o pescoço nos valores americanos do sucesso, da popularidade, da liderança e, por outro lado, privada de maiores perspectivas culturais, condena à solidão e à segregação os diferentes, os esquisitos, os “loosers” que não se engajam na comunidade que os formam e que, ao mesmo tempo, os excluem. Os expulsos da ditadura de um ideal de normalidade “massacrante”.

2- o poderoso culto ao individualismo, essa flor do capitalismo, que sustenta a concepção tão americana de que todos têm direito a se defender, direito de defesa que se separa por um fio do direito ao ataque. Todos têm direito a armas, afinal, é um país “livre”, como se repete em muitos filmes de Hollywood.

3- a solidão e exclusão social dos meninos que se consolida no mergulho em fantasias megalômanas de morte e vingança, que encontram forma no fascínio pelo nazismo e ideologias que cultuam a força e a morte. Identificados ou encarnando os ideais de que estão justamente excluídos.

4- a solidão amorosa, a angústia sexual. A difícil transição da adolescência, a presença do corpo que se altera e de um corpo sexual que se impõe e para o qual tantos não encontram recursos.

5 – a patologia de cada um, a solidão familiar, o silêncio. O declínio do pai que se insinua já na primeira cena, em que é o filho que precisa cuidar do pai, é o filho que ordena a família, o mesmo menino que tentará em vão alertar os que chegam à escola no momento do ataque.

Etc etc etc

Somemos todas as partes desse elefante, elas não perfazem o elefante. Há um vazio a separar todas essas causas e o que resulta, num salto, desse somatório. Silêncio e imagens de uma tormenta que se aproxima. E, por fim, precipita-se a satisfação mortífera do ato. Por mais que tenha sido um ato planejado, minuciosamente arquitetado, não impediu hesitações e foi movido por uma intensa e triste satisfação de matar. Entre a causa e o ato há um salto.

Que outras motivações obscuras, nos perguntamos? Como em todo ato suicida, não obteremos a resposta definitiva, já que seus autores terminaram o trabalho, estão mortos.

Mas, por outro lado, esse acontecimento teve um caráter epidêmico. Tanto é virótico, espalha-se, trazendo o ganho secundário da celebridade, da notoriedade, como também, como fenômeno social, tem outras determinações. Assim, gera efeitos e é ele próprio também efeito.

Mas continua elefante, à semelhança do próprio filme que, ao estilo de documentário algo caseiro, acrescenta, no entanto, elementos ficcionais, trazendo as mesmas cenas, multiplicadas em diversos ângulos e do ponto de vista de cada personagem, prolongando os poucos minutos que antecederam o massacre. Interessante observar que seus atores não são todos de fato atores, muitos utilizam seu próprio nome… Assim, mesclando documentário e ficção, somos trazidos pelo filme para muito perto de algo que não podemos compreender totalmente e nem de fato prevenir…

Em outras palavras, o filme, ao reconstituir os fatos em sua versão mais plausível, retomando os simples acontecimentos que o antecederam por diversos olhares, desdobra em cenas multifacetadas o momento único em que aconteceu o ato, mas, como em toda tragédia, não recupera o sentido total do ato. Toda essa solução cinematográfica, esses recursos dramatúrgicos, obtêm êxito em nos mostrar que há então um ponto em que o sentido se esvazia, se esvái. Algo nos escapa do entendimento, algo para o qual não temos imagens nem palavras, afinal, não há o que sintetize o que foi esse acontecimento elefante. Nas cenas finais, o próprio móvel mais visível do crime, seja a solidão, o desamparo, o ressentimento, se esvái numa espécie de gozo puro e aleatório. E se algo dessa violência permanece incompreensível, isso não nos condena à impotência, principalmente porque nos interroga sobre nossa posição ao percorrer exaustivamente esse percurso, nossa posição em relação a essa violência que não se torna só exterior, não é só a violência dos outros, também está em nós, que percorremos os mesmos corredores, e cuja representação nos concerne, nos atinge e nos comove.

Cristina Duba

 

Read more

Sobre Psicanálise e Cinema

by secao_rj in Aconteceu na Seção RJ

Debate sobre o filme Elefante, de Gus Van Sant: dois adolescentes invadem a escola, disparam a esmo e morrem logo depois. Debatedores: Cristina Duba e Sergio Javier Ferreira, cientista social. O debate foi muito animado! De inicio, Cristina Duba falou sobre o título do filme e o relacionou a uma parábola chinesa. Elefante seria uma referência à frase “Tem um elefante na sala”, ou seja, algo muito grande e incômodo que todo mundo finge não ver.  E também a uma parábola chinesa que narra como diferentes cegos querem definir um elefante a partir do pedaço que tocam: nunca chegam ao elefante total. Assim, Cristina situou o papel do indefinível frente a um ato tão radical. Ambos debatedores assinalaram o papel da meritocracia nos EEUU, onde desde a infância aparece a bipartição: ser perdedor ou bem-sucedido. O público presente comentou diferentes aspectos que o filme aborda, como a facilidade de se conseguir armas, a exclusão social e os jogos de vídeo game. Houve um certo consenso em torno do fato de que existiriam certos elementos que se poderiam pautar, embora sempre ficaria algo de inconclusivo:

– Em pessoas que se sentiram excluídas, se a ideologia dominante faz apologia do uso de armas, pode surgir não só o desejo de vingança senão também a fantasia delirante de se constuir um lugar social importante, ainda que depois da morte.

– O fácil acesso à compra de armas.

– garotos que não conseguem separar realidade de jogo, por não poderem metaforizar.

Sobre a importância dos videogames não houve uma conclusão definitiva, já que alguns participantes insistiram em que os jogos e os filmes violentos teriam um papel muito importante em incitar estes atos.

Por Ana Martha Maia e Stella Jimenez
Read more

Sobre o Lançamento da Revista Desassossegos

by secao_rj in Aconteceu na Seção RJ

Numa interessante noite de intercambio de psicanalistas do Campo Freudiano via Webex aconteceu na sexta feira 28 de junho na EBP-Rio o lançamento da Revista da Antena do Campo Freudiano-Portugal. Uma iniciativa da Diretoria da EBP-Rio que contou com a organização da Biblioteca coordenada por Andrea Vilanova, sua Diretora. A noite foi aberta com a fala via Webex de Angelina Harari, Presidente da AMP quem elogiou a revista e destacou a importância das publicações nas Escolas e no Campo Freudiano, a que ela própria sempre se dedicou.

A seguir, Ondina Machado, coordenadora da mesa convidou Mirta Zbrun quem falou sobre o artigo da sua autoria nesse primeiro numero que intitulo “As peças soltas da escrita poética” onde trata de lalingua/lalangue de Pessoa, utilizando o tal neologismo lacaniano. Cristina Duba, pela sua vez fez um rigoroso e elucidativo apanhado dos artigos que formam este precioso volumem destacando o uso da língua portuguesa pelos analistas, seu valor, e as relações com a Psicanálise, em especial na escrita de Fernando Pessoa.

Logo Filipe Pereirinha, vice-presisente da ACF, desde Lisboa falou sobre a língua portuguesa e a psicanálise, a que se dedica este primeiro número, e se referiu a esta publicação como a conclusão de um desejo da psicanálise de orientação lacaniana em Portugal, agora ‘como um navio atravessando o Atlântico via Webex’. Marcelo Veras, na sua intervenção referiu-se à pertinente escolha do significante que dá nome à revista, inspirado no “Livro (s) dos Desassossegos”, um dos heterónimos de Fernando Pessoa. Por fim uma conversação animada se estabeleceu onde foi aberto ao debate temas como a poesia, o feminino, o amor pela língua que nos habita, a escrita poética, num clima de transmissão e de transferência de trabalho, ‘de um e de outro lado do Atlântico’ que separa e une os analistas lusófonos das Escolas da AMP.

http://ebp.org.br/rj/biblioteca/lancamentos/

Por Mirta Zbrun
Read more

Comentário sobre o texto de Cristina Duba “O psicanalista e as paixões: o gosto do riso e a blasfêmia”

by secao_rj in Aconteceu na Seção RJ

De cara, Cristina nos apresenta o cerne da questão: “ressurgimento do valor da blasfêmia em contraponto à tradição iluminista dos poderes da razão”. Em outras palavras, a invasão do oriente pelo ocidente, do discurso capitalista no discurso do mestre, da vacilação própria ao semblante na fixidez do sentido religioso. O choque está em desvelar o real da não relação sexual através do golpe contra o sagrado do outro que acredita na relação sexual. É um choque de civilizações em que uma tenta de se impor a outra pela via de um suposto Ideal. Como golpe não faz diferença de que lado parte.

No caso da blasfêmia, a via é a do insulto. Sempre é possível questionar se se trata de blasfêmia, de insulto, a série de charges publicada pelo Charlie Hebdo em torno de Alá, Maomé e seus seguidores. Quem decide o que é ou não insulto? Sempre vale a máxima de quem decide o sentido é quem o recebe. Os atos não tem graus que possam por si só serem classificados ou não como violentos, até mesmo a morte, que em determinadas circunstâncias ou nas mãos de bons advogados, pode virar um ato heróico.

De modo geral, é possível dizer que o insulto toca no ‘impossível de suportar’ de cada um, o ponto de real para o qual não há significação. O insulto ataca o ser do outro presentificado em sua forma de gozar.

No caso do Charlie Hebdo, devemos considerar que, mesmo decadente, se inseria numa cultura que tem como ideologia de estado a República. A dignidade da França se alicerça no ideal republicano da Liberdade, Igualdade e Fraternidade, mesmo que saibamos que a prática desse ideal torna alguns menos livres, menos iguais e pouco fraternos. As charges do Charlie confrontavam o eu ideal francês com o Ideal do eu dos radicais.

É importante dizer que o Ideal dos jovens radicais não é Alá, como nos esclarece Fethi Benslama. Para esse psicanalista francês e estudioso do Islã, o propósito desses jovens é “vingar sua vida”, dar sentido as suas vidas pela adesão ao radicalismo. O “Em nome de Alá”, pronunciado nos ataques é uma maneira, usando uma expressão da Cristina, de “fazer viver o significante” de um ideal pela via do gozo. Se fosse Ideal, esses jovens estariam mais propensos a serem alcançados pelo Iluminismo francês. Mas não é isso que se vê. Cabe então a pergunta feita por Laurent: é um Ideal ou um gozo novo?

Trata-se de uma geração atravessada pela ascensão do objeto na qual o ideal sofreu uma transformação, passando a ser sustentado por um “empuxo ao gozo”. É como se o ideal tivesse se transformado em gozo, portanto, uma nova configuração de gozo. Seria um ideal que produziria, através dos auto-sacrifícios, objetos de gozo – os mártires. São objetos que apontam o real da civilização ocidental, aquele que se quer crer livre, igual e fraterno. A originalidade desses objetos é justamente a impossibilidade de serem reciclados, de serem reabsorvidos pela razão. Nesse caso, poderia ser dito que a salvação pelos ideais se dá ao torna-los objetos, dejetos.

Assim, na radicalização encontramos o gozo do Um, o que é um paradoxo porque em nome de um Ideal, supostamente comunitário, o que impera é o gozo do Um. O que há é o Um, como diz Lacan.

Está claro que no nosso mundo capitalista, sempre tem uma empresa que se propõe a vender, e até a criar, uma demanda que faça essa transformação do ideal em gozo. Temos aí não só o Estado Islâmico mas também a indústria de armas.

Qual efeito podemos considerar que o humor, que não cede a fazer vacilar os semblantes, possa ter sobre os jovens que buscam na radicalização um sentido para suas vidas? O humor provoca o mal entendido, promove a ruptura entre significante e significado, portanto, tem efeito traumático porque levanta o véu que cobre o real e demonstra que no sentido habita um sem sentido. Lacan nos aponta dois caminhos possíveis diante da angústia pela emergência do real: o do fantasma e o da passagem ao ato. Por essas duas vias teríamos os indignados e os radicais.

Sabe-se que nem todo jovem que se radicaliza vai para o sacrifício, a maioria fica em funções de apoio. Os que vão para o auto-sacrifício são, em geral, jovens de classes populares. Os de classe média (poucos) ficam nas funções chamadas de inteligência. Nos últimos tempos tem-se constatado, e tido acesso, a cada vez mais relatos de jovens arrependidos nos quais fica clara a busca pelo gozo.

Diante da vacilação generalizada dos semblantes que caracterizam a nossa cultura sub-vem a fixação como defesa – o politicamente correto é respondido com o “talquei”. Há um franqueamento entre indignação e ódio, ou como diz Cristina, “pode despertar as paixões mais mortíferas, o próprio ódio que se abriga sob a indignação”. A indignação pode também servir como combustível ao ódio, como assistimos nas manifestações de 2013 aqui no Brasil. Foi a transformação da indignação em ódio que elegeu o atual presidente de nosso país.

Ondina Machado
Seminário de Orientação Lacaniana de 03/06/2019.
Read more

A epopeia de Lacan – Comentários sobre o passe clínico e o institucional

by secao_rj in Aconteceu na Seção RJ

Em primeiro lugar, chamo a atenção para o título desta segunda aula de Miller do seminário dado por ele e publicado como “política lacaniana”: a epopeia de Lacan.

Vamos nos deter um segundo no termo epopeia: ele nos indica que Lacan será tomado então como um herói. Como tal, às voltas com a solidão de seu ato, não sem as modulações com o Outro, afinal, um herói tem como Outro, no mínimo, seu destino. Um herói não recua de seu desejo, segue em direção a seu ato sem culpa, ato que só poderá ser nomeado como tal a posteriori, quando narrado na epopeia.

Não à toa, ao ver a reação contrária que provocou, ao instaurar o passe, Lacan dirá que não considerou o “tempo de compreender”.

Miller então nos apresenta os movimentos de Lacan que resultaram em atos. Um ato, nessa perspectiva, se mede por suas consequências, não por suas intenções (ética kantiana x ética hegeliana). Nesse sentido, na perspectiva lacaniana, não há como não ser consequente, ao não ceder de seu desejo, negligencia-se algo do “tempo para compreender”. Ato.

Só podemos falar de epopeia lacaniana (o que parece uma expressão muito feliz) como a narração dos feitos de Lacan, a posteriori, quando podemos reconhecer que Lacan, como herói, não terá cedido do seu desejo e, à luz de seus atos, reconhecer os passos que a posteriori, vamos repetir, o terão anunciado.

Momentos da epopeia, segundo Miller:

1 – Lacan conforme à norma, num primeiro momento. Lacan segue as normas da Sociedade Psicanalítica de Paris, filiada à IPA, analisa-se por 7 anos com Lowenstein, é supervisionado, etc. Encontra os impasses da “subjetividade” de sua época, que levarão à sua saída, com outros  que o acompanham. (Sessões curtas, principalmente, mas o que estava em questão era ferir os padrões, os standards fixados pela IPA). Podemos acompanhar desde esse momento a questão institucional que se entremeia às questões teóricas e clínicas.

2 – Lacan de normas flexíveis, em sua nova Sociedade, cujo afastamento da IPA o leva a imprimir, junto a outros, uma flexibilização, um abrandamento das regras institucionais, uma redução das normas que acompanham o seu movimento de retorno teórico à Freud, sem que isso propriamente gerasse um rigor na crítica do modelo institucional. Lacan espera seu reingresso à IPA.

Podemos dizer que sua releitura da “Psicologia das massas e análise do eu” (Freud) não tinha ainda gerado a crítica do modelo institucional baseado nas identificações e no complexo de Edipo, afetando a concepção das instituições sustentadas no modelo da Igreja e do Exército. Com a IPA, estamos diante das consequências do gesto de Freud de aceitar que a IPA reproduza o modelo da igreja e do exército, com “cooptação de sábios” e hierarquia, e todas as consequências e impasses gerados pelo modelo identificatório.  Inclusive no que será decisivo que é a concepção que se formaliza em “análise terminável e interminável”, que se sustenta numa espécie de infinitização que encontra solução só na identificação com o analista, em tomar um lugar na hierarquia, em termos institucionais. Não à toa a concepção de final de análise será decisiva para a subversão lacaniana da proposição.

(Podemos ousar dizer que a instituição IPA é depositária dos impasses freudianos, entre psicologia das massas e mal-estar na civilização?)

Miller observa que não há textos políticos de Lacan nesse período que se segue (fora, mais adiante, “situação da psicanálise… em 1956”), mas eu me pergunto se não podemos considerar “a psiquiatria inglesa e a guerra”, um texto político que aponta para a política institucional, pela maneira como assinala as soluções do realismo inglês e as experiências de Bion e  outros psiquiatras com o rebotalho da máquina de guerra, os excluídos, como fundamentais para a elaboração posterior do modelo do cartel, em que a função do líder, sua autoridade, já sofre um rebaixamento.

Este período (53-53) é marcado pelo funcionamento então do modelo do cartel. Em suma, consequências mais radicais da releitura de Freud por Lacan ainda não se formularam e a Sociedade Francesa de Psicanálise, de Lacan e alguns outros, reproduz o modelo institucional da Sociedade Psicanalítica de Paris, de maneira mais flexível.

O impasse que se dará a seguir responde ao que segue se produzindo: este funcionamento produz um impacto na estrutura de poder da análise didática que segue a hierarquia do pai, da passagem do título identificatório, semblante que Lacan subverte e que cria obstáculos a que a Sociedade seja incorporada à IPA.

3

Um segundo momento que se inaugura com a excomunhão de Lacan e a fundação da Escola, após a condição imposta pela IPA de que Lacan não conduza análises didáticas. Importante assinalar que Lacan à essa altura não cedia do seu desejo de retorno aos fundamentos de Freud e essa  posição no seu ensino nesse momento começava a produzir um impasse institucional que resulta na sua exclusão da IPA, já que não aceita essa restrição institucional de que fique no seu canto, apartado do lugar que seu ensino já lhe designa. Vale lembrar que é uma restrição institucional que resulta de seu ensino.

4

3 anos depois, a invenção do passe aparecerá então como a solução lógica e material para esse impasse que continua na Escola, solução sustentada numa concepção de final de análise que vai de encontro à lógica do modelo de igreja e exército, concerto de sábios mais hierarquia. O passe radicaliza essa subversão.

Se o passe clínico pudesse se restringir à clínica, não haveria grandes questões, o problema é que ao quebrar a hierarquia, ele gerou ou revelou no seio institucional sua própria resistência. Grosso modo, trouxe a IPA que existe em toda instituição à cena, como resistência de romper a rotina do modelo, da hierarquia, da reinstauração do conforto das identificações, revelou a contra-análise dentro da instituição.

Resumindo, com o passe, Lacan tentou reduzir o empuxo a reconstruir a máquina do pai, o funcionamento aos moldes do exército e da igreja, tentou fazer a instituição responder à política lacaniana, de ir além da identificação e dos ideais.

O passe aparece então com uma dimensão institucional fundamental, causa e conclusão política e clínica da ruptura com a IPA. Trata-se de uma dimensão política da clínica e de uma dimensão clínica da política. Há junção e disjunção, não união, logo há sempre mal-estar.

A aposta contida na invenção institucional do passe ao introduzir um corte na definição do psicanalista e propor  uma montagem, um dispositivo em que são os novos, os analistas jovens que nomeiam, em que a dimensão do prestígio e da carreira estão, portanto,  no mínimo reduzidas, coloca em jogo não só que há final de análise, como uma concepção de final de análise que se funda na diferença, no absolutamente singular, um obstáculo para a forma de funcionamento universalizante própria de uma instituição.

Trata-se de romper com análise terminável e interminável, propor uma desidentificação fálica em movimento contrário à realização da metáfora paterna que justamente institui o Outro, como demonstra Miller, e fazer entrar em cena uma outra concepção de final de análise como queda do objeto a, com desvanecimento do SSS e revelando “o Outro que não existe”. Primazia do ato sobre a experiência. Consequências se fazem sentir no nível da autoridade, logo no plano institucional. A primeira concepção institui a autoridade, a segunda a destitui.

A concepção de que o analista então só se autoriza de si mesmo se dá pela vertente da queda do objeto. Se a elaboração de saber se torna vã, o Outro não existe, não se pode ser analista por receber um título, não há ninguém para dá-lo. “O verdadeiro escândalo foi institucional”, como diz Miller. Esta concepção é incompatível com a hierarquia. Desloca-se, por exemplo, o título de “titular” para instalá-lo ao final da análise e de forma provisória.  Há um abalo no congresso de notáveis, um golpe na hierarquia, que Lacan teve que negociar, porque a nomeação passou a se fazer agora de baixo para cima, não tornar “um como nós”, mas “um adiante de nós”, nas palavras de Miller.

Quem deve ser o juiz da experiência do passe, no momento em que a experiência decresce de importância e se eleva o ato? A prática e produção importam menos que o frescor do ato e do instante. O realismo de Lacan o leva a apostar num tipo de assembleia – “não sem os outros”, novamente. Ao mesmo tempo resta o mal-estar, ninguém está totalmente de acordo com as normas, “salvo alguns”.

Voltemos novamente a esse ponto:

Há assim um consenso do ponto de vista clínico, o mal-estar se instala do ponto de vista institucional: Quando o passe desloca as linhas de prestígio ou se vê infiltrado pelas linhas de prestígio, o passe pode ser invadido pela hierarquia. O que está em jogo é sempre a balança entre a conformidade em relação às regras e à experiência e a radicalidade do ato.

O passe, do ponto de vista clínico, e do ponto de vista institucional, não se arranjam, há sempre um mal-estar. Ao se extrair as consequências institucionais do dispositivo do passe, resta sempre um desacordo.

Se o passe é um acontecimento clínico, é uma aposta a nível institucional. Lacan apostou num deslocamento de forças de quem nomeia os analistas, ao se centrar no desejo do analista e no ato, sem o acento na prática e na experiência, fazendo a enunciação prevalecer sobre o enunciado, combatendo a rotina e evitando a degradação. Esse deslocamento do poder foi o escândalo, uma consequência política da clínica do final de análise como queda de a.

Pergunta: se o escândalo do passe é institucional, hoje em dia como estamos? Mantém essa força subversiva? E como manter ativa esta potência, como se diz hoje em dia? O escândalo do passe sendo, nesse momento pregresso, escândalo institucional, nos leva a perguntar também sobre o passe do ponto de vista clínico nesse momento. Miller há um tempo atrás denunciou sua vulgarização. Pergunto como estamos quanto às consequências políticas de que a análise tem um fim, de que é preciso encaminhá-la para o esgotamento das identificações e quais as consequências políticas disso, ou seja, em que termos estamos com o Outro no momento? Barrado ou ilimitado? Continua em jogo o combate da rotina da experiência pelo ato? O passe precisa manter uma relação desconforme com a rotina e o conformismo institucional para não se esgotar num ritual.  Se apagarmos o mal-estar de que passe do ponto de vista clínico e do ponto de vista institucional estejam juntos, estes vão viver uma lua de mel mortífera? Pergunto então: se banalizarmos o passe clínico, que ele se industrialize num certo modelo burocrático ou se preste à idealização, os efeitos institucionais seriam de regresso a uma espécie de IPA? É preciso manter no horizonte o que Stella nos apontou na segunda passada: o imperativo ético leva a tocar o impossível desde o início da analise, é isso que passa. Quando perdemos de vista isso, o coração de uma análise, e é próprio do movimento de rotina e burocracia, ou de “demagogia”, como disse Lacan, que isso aconteça, voltamos à idealização excessiva do passe (não só a idealização inevitável), e abrimos espaço para sua degradação em procedimento, em  hierarquia.

Resta também a questão de como controlar a selvageria, dosar sua natureza de acontecimento, de ato, ou seja, em que dose incluir a experiência.

Cristina Duba
17.06.19
Read more

Atividade da Biblioteca – Leituras em Cena – Janelas abertas

by secao_rj in Aconteceu na Seção RJ

No dia 20/05/2019, a Seção Rio da EBP abriu a casa para o projeto Leituras em cena, em uma linda e surpreendente noite da Diretoria. Mediadas pela Diretora de Biblioteca da Seção, Andréa Vilanova, as colegas Isabel do Rêgo Barros Duarte, Maricia Ciscato e Renata Martinez falaram, cada uma à sua maneira, sobre a pesquisa e o trabalho epistêmico que embasa o projeto e deram notícias do que recolheram ao longo do trabalho que vem sendo desenvolvido há pouco mais de um ano.

Este encontro estava planejado para acontecer em seguida a um evento de abertura, que teria outro formato, de conversa entre as psicanalistas, a Cia dos Atores e a editora Cobogó, a partir da leitura de cenas selecionadas da peça Insetos, de Jô Bilac. Este encontro prévio, que contaria ainda com a presença do escritor Luiz Eduardo Soares e de Marcus André Vieira, precisou ser adiado em função de uma das enchentes sem precedentes que a cidade do Rio de Janeiro atravessou no primeiro semestre de 2019. Decidido quanto a sua presença na cidade, o Leituras em cena não poderia deixar de se posicionar, tamanho o caos que se impôs naquela sexta-feira de maio, de forma que, invertidas as datas, o encontro epistêmico saiu antes do evento cênico. A boa notícia é que já temos a confirmação da nova data: dia 5 de julho!

A mesa formada pelas psicanalistas trouxe à comunidade da Seção Rio notícias de um trabalho que vem se construindo na dobradiça entre Escola e cidade, rompendo com a dicotomia dentro x fora. Foram apresentados recortes do que tem sido esse esforço de elaboração acerca do que pode a arte ensinar à psicanálise sobre um certo modo de fazer com o real, com o que se apresenta no cenário social e político atual. Com leveza, transmitiram o que ficou, para cada uma, dos encontros quinzenais com o coletivo que compõe o projeto – formado por Dinah Kleve, Natasha Berditchevsky, Thereza De Felice e por mim –, e também do cartel formado por elas, tendo Marcelo Veras (EBP-BA) como mais um.

Os três trabalhos fazem referência ao seminário de Marcus André Vieira, A psicanálise do fim do mundo, um importante espaço de discussão e trocas sobre a prática da psicanálise hoje. Além disso, a especificidade da linguagem do teatro dentro do campo das artes, a presença do texto e dos corpos em cena, são alguns dos pontos que não deixaram de aparecer. Finalmente, o porquê de a peça Insetos ter ganhado lugar de destaque nessa pesquisa, por se tratar de uma leitura social com incrível poder de transmissão, também foi abordado, de alguma forma, em todas as falas.

Renata apresenta o Leituras em cena como um processo, um trabalho em construção, que se inicia no encontro com alguns parceiros. Aproxima a prática do analista àquela do artista, no mundo de hoje, após o fim de um mundo conhecido. Retomando a indicação de Lacan sobre a importância de o analista estar à altura da subjetividade de sua época e a expressão cunhada por Laurent, o “analista cidadão”, afirma que o Leituras é uma nova maneira de lidar com tudo o que está aí. Ele surge com essa proposta, provocado por nosso tempo, a fim de buscar na linguagem da arte outros modos de tratamento dado ao objeto – não podemos desconsiderar o fato de que esse trabalho teve início após o assassinato de Marielle Franco. Citando o crítico de arte Lorenzo Mammi, Renata aponta para o papel do artista de descobrir os espaços onde a arte poderá se exercer, espaços precários e problemáticos, e pergunta: não se trata também de construir esses espaços?

Maricia indica como os relatos de testemunhos pós Segunda Guerra trazem um novo modo de transmissão do real, a partir dos restos, fazendo importante resistência à lógica totalitária do nazismo, de eliminação dos restos. Discute a passagem das Belas artes (que apontam para o ideal) ao Ready made (o urinol, de Duchamp), nas artes plásticas. Conforme desenvolvido por Miller, em sua “Salvação pelos dejetos”, essa estetização do dejeto promove uma elevação do objeto à dignidade da Coisa. Neste sentido, Maricia indaga: com o que contamos hoje? No mundo da ciência e do capital, onde tudo se compra ou vende e, portanto, tudo é eliminável, o que resta? Como impedir que o deserto se totalize sobre nós? Resgata a noção de oásis de Hannah Arendt, indicando que o maior desafio é o de produzir e manter oásis em meio ao caos, não como espaços de descompressão, mas como “fontes vivas que nos capacitam a viver no deserto sem nos reconciliarmos com ele”. Para Maricia, um efeito pessoal das “conversas entre muitos”, que se produziram na construção da parceria com os atores e demais envolvidos na peça Insetos, foi o de repensar o lugar da obra hoje, do elevado, sublime, ao transbordamento em seu entorno, o que permitiu, como se desejava, borrar as fronteiras entre o teatro, as artes plásticas, a psicanálise e a política, num ambiente menos sublime e muito vivo.

Tanto Maricia quanto Isabel citam uma articulação feita por Marcus André Vieira em seu seminário, sobre o artivismo contemporâneo, que toma o fazer contínuo como marca do gesto artístico: “A arte, muito antes da gente, já percebeu que não vai ter grande objeto, grande arte, e que é mais um fazer e meio coletivo, que não tem nem começo nem fim”.

Em seu texto, Isabel indica que o fato de a leitura de peças de teatro ter sido o meio escolhido para o trabalho no Leituras em cena foi também em função da possibilidade de, por emprestar o corpo e a voz num esforço de aproximação do objeto artístico, evitar-se cair na lógica do psicanalista que interpreta a obra de arte. Isso foi ilustrado por seu pedido às colegas para lerem, junto com ela, a cena inicial da peça, dos gafanhotos, colocando em cena o espírito do teatro, e mostrando que as psicanalistas beberam da fonte da proposta inovadora que vêm trazer. Isabel diferencia o oásis do bunker, onde os gafanhotos poderiam se proteger até a tempestade passar. Ela indica seu interesse pessoal em pesquisar as veredas, vias de acesso entre os oásis, caminhos alternativos quando as vias principais estão impedidas. Numa aproximação com O Grande Sertão, de Guimarães Rosa, onde caminhar pelas veredas era a única forma de viver em liberdade, pensa a travessia de uma análise e a função desse processo hoje, que conta mais do que o produto. Por fim, situa o efeito de sublimação como o de fazer com que alguma coisa dure um pouquinho mais, antes que vire nada outra vez.

Como as artes e, mais especificamente, o teatro têm se virado com as questões do nosso tempo? O que fazem com esse real e como transmitem esse fazer – isso pode nos ensinar alguma coisa sobre a clínica hoje? Podemos pensar o Leituras em cena como uma forma de oásis que cria veredas, caminhos alternativos por onde transitar na cidade nos tempos atuais? São algumas das perguntas que ficaram.

O debate que se seguiu trouxe, mais uma vez, o tom da leveza e da novidade desse trabalho, com comentários sobre os “corpos angustiados”, a aproximação do projeto com a Ação Lacaniana, a imagem da capa do livro com os insetos e suas inúmeras patas, a provocação para seguir a partir do que foi dito e, sobretudo, a potência do debate lançado naquela noite. O fato desse projeto ter sido acolhido pela atual Diretoria revela uma direção de trabalho interessada em aprender com o que se inventa hoje na cidade. Pessoalmente, posso dizer que aprendi com o Leituras que, para sair da posição da crítica e da indignação, é preciso ter os dois pés dentro da Escola, no sentido de um desejo decidido a encontrar modos de fazer. É isso que permite avançar essa pesquisa, encontrando formas de abrir as janelas e promover outras relações de dentro x fora, aberto x fechado. Não se trata de olhar os insetos como objetos de estudo, mas de entender que somos todos insetos aprendendo a lidar como o que se apresenta no cenário desértico atual.

Contamos com a presença de todos no dia 5!

por Patrícia Paterson
Read more

Atividade da Biblioteca – Lançamento de livro: De um valor que ultrapassa

by secao_rj in Aconteceu na Seção RJ

Iniciamos as atividades deste ano da Biblioteca da seção Rio de Janeiro, batizada como Carlos Augusto Nicéas em uma homenagem, com o lançamento do livro “A escrita do silêncio (voz e letra em uma análise)”, de Marcus André Vieira, ocorrido na Blooks Livraria. A proposta da diretoria, apresentada por Andréa Vilanova, diretora de Biblioteca da seção Rio, foi enlaçar uma das dimensões mais caras à Escola, a política do passe, trabalhada pelo autor, à questão do lugar da psicanálise na cultura e vice-versa, marcando a direção de trabalho de nossa Biblioteca no âmbito da Federação Internacional de Bibliotecas de Orientação Lacaniana do Campo Freudiano, FIBOL, aberta à cidade.

A escrita do silêncio visa transmitir, a partir do percurso de Marcus André na função de analista da Escola, outro percurso, de uma análise. O autor situa de forma corajosa as possibilidades clínicas da psicanálise, tendo em vista as transformações na cultura, por meio das reverberações da própria análise no corpo e na vida. À maneira de um equilibrista, como ele menciona no texto, Marcus André, entre teoria e biografia, subverte a continuidade cronológica do tempo, mostrando, ao contrário, sua inventividade pelas possibilidades de edição da vida ao longo de uma análise.

O poeta e tradutor Caio Meira participou do debate como leitor convidado, em um esforço de trazer uma leitura de um lugar estrangeiro à psicanálise. Caio se deteve, então, na pergunta sobre o que o livro nos passa, ou transmite, abrindo o debate com o receio, permeado por silêncios, de não ter nada a nos dizer. Segundo ele, o livro passa algo difícil de colocar em palavras cujo enfeito é, na verdade, nos relançar na leitura.

Assim, Caio contou ter se surpreendido, “durante a leitura, brotaram as minhas histórias”, disse, apontando para algo que atravessa o livro, o caminho do singular ao universal, a ser percorrido em uma análise, como lembrou Andréa Reis. Assim, Caio destacou de sua leitura que o livro passa pelo outro, pela ideia de se ver como outro, seguindo o movimento do autor, de analisante a analista, de analista a escritor. Nessa lógica, a leitura do poeta situa o livro de Marcus André como uma ficção em que há sempre algo que escapa ao leitor.

Marcus André, por outro lado, mencionou o que escapa à função de analista da Escola. Segundo ele, não é possível prever, às vezes sequer alcançar, os efeitos de transmissão e ensino do próprio testemunho de passe. “É de um valor que nos ultrapassa”, lembrou Marcus André de um comentário feito a ele por Nicéas sobre o passe. Valor que ultrapassa autor, leitor, a Escola e a própria psicanálise.

É, assim, com o pontapé de um livro, e de um debate, que nos acende a coragem de lidar com o que é estranho, como colocou Renata Martinez, que a Biblioteca Carlos Augusto Nicéas abre seus trabalhos para, quem sabe, despertar mais leitores do silêncio em cada um de nós.

Por Renata Estrela
Read more

Cinema e psicanálise

by secao_rj in Aconteceu na Seção RJ

Resumo do debate sobre o filme “Capitão Fantástico”, comentado por Maria do Rosário Collier do Rêgo Barros e por Denise Jabour.

Sobre o enredo do filme, Maria do Rosário falou da percepção do furo do pai como momento chave na virada da situação. A partir deste ponto, todos os personagens mudam. Denise Jabour enfatizou que não só se aprende com professores, mas também com colegas e até com quem sabe menos, na interação.

As debatedoras mostraram a importância de o ensino das crianças não ser pensado de maneira totalitária: tudo escola, ou tudo família. Esta afirmação produziu uma discussão entusiasmada na qual foi ressaltado, com exemplos, o valor de todo tipo de aprendizado. Todos são igualmente valiosos – na escola, na casa, na vida, na rua – sem sonhar em atingir um aprendizado completo, já que o furo, a imperfeição, sempre vai estar presente.

Por Stella Jimenez e Ana Martha W. Maia
Read more

Comentários sobre o Seminário de Orientação Lacaniana

by secao_rj in Aconteceu na Seção RJ

Na segunda noite do Seminário de Orientação Lacaniana (SOL) de 2019, seguindo com o tema “O psicanalista e as Paixões”, trabalhamos o Seminário/Conversação de Miller, “La transferencia Negativa”, que aconteceu em Madrid em 28 de novembro de 1998. Stella Jimenez apresentou sua leitura desta Conversação e Paula Borsoi se encarregou dos comentários. Esta noite de trabalho aconteceu na EBP – Seção Rio no dia 6 de maio de 2019, data significativa em que se comemorava os 163 anos do nascimento de Freud. E, além disso, se celebrava os 19 anos da inauguração da Escuela Lacaniana de Psicoanalisis (ELP), Escola espanhola da AMP, cuja estruturação começou justamente na experiência de trabalho coletivo que foi este Seminário/Conversação de Miller.

Em sua apresentação, Stella sublinhou que a transferência negativa é um tema infinitamente vasto e pouco trabalhado. Partindo da frase de Lacan: “Devemos, no entanto, pôr em jogo a agressividade do sujeito a nosso respeito já que essas intenções, como sabemos, compõe a transferência negativa que é o nó inaugural do drama analítico”, destacou que dela surgem várias questões, das quais optou por trabalhar “o que é pôr em jogo a transferência negativa”?

Stella percorreu alguns momentos do ensino de Lacan onde este ainda supunha a possibilidade de se interpretar a transferência negativa. Sublinhou, no entanto, no seminário 11, que Lacan associa a transferência negativa ao fato do sujeito “não tirar o olho de cima do analista”, o que Miller modaliza, nesta conversação, como “suspeita”. A suspeita estaria na base do trabalho psicanalítico. A afirmação de Lacan que a “transferência negativa é o drama inaugural da experiência analítica” se explicita como a presença de uma intenção malévola do lado do analista, uma vez que toda interpretação supõe algum mal quando aponta a falta-a-ser do sujeito e a falta de saber também do lado do analisante.

Dentre os vários aspectos trabalhados, Stella destacou a resistência e o consequente fechamento do inconsciente como uma manifestação da transferência negativa. O objeto obturando o acesso ao inconsciente. Aí a interpretação se mostra ineficaz. A hipótese de Stella é que isto é mais compreensível se o objeto a for tomado na sua vertente de mais-de-gozar, do que como objeto causa de desejo. Para explicitá-lo, usou como exemplo o passe de Maria Cristina Giraldo.

O trajeto final de sua última análise, que conduz ao passe, se dá sob a condição de “não ser devastada pela analista”. No entanto, algumas contingências, bem como uma inevitável dose de mal-entendido, levaram-na a que se sentir devastada também por esta analista. A transferência negativa se instalou e o manejo da analista, acolhendo a tensão agressiva e esvaziando-se quanto ao saber, permitiu que a análise prosseguisse até seu final. A repetição do gozo da devastação no âmbito da transferência permitiu que a analista pudesse manejá-la (não interpretá-la) e extrair dela a positividade da continuidade da análise até seu final.

Passando ao momento dos comentários, Paula Borsoi destacou o fato da transferência negativa, além de levar ao fechamento do inconsciente, poder servir também como motor da análise. A questão de a transferência ser negativa ou positiva, para Lacan, a coloca do mesmo lado, isto é: do lado da suposição (ou dessuposição) de saber em relação ao analista. A resposta adequada será sempre a não resistência por parte do analista. Paula lembrou que o rechaço do inconsciente equivale ao fechamento do “momento de compreender”. Sublinhou ainda, que a questão fundamental é como manejar os excessos tanto da transferência negativa quanto da positiva.

A discussão foi viva e aspectos clínicos da maior relevância foram abordados: a resistência do lado do analista (Mirta Zbrum); o furo do lado do analista na demanda das associações (Ana Tereza De Faria Groisman); a retificação da consistência do Outro cruel pelo manejo da transferência negativa quando o analista sustenta o furo do seu lado (Maria Ines Lamy), a relação da preguiça e da transferência negativa com a pulsão de morte (Vicente Gaglianone); a instalação da transferência negativa quando o sujeito se vê como objeto de gozo do Outro (Maria Silvia Hanna); a disjunção entre semblante e real como fonte da transferência negativa (Paulo Vidal), dentre outras. Bela noite de trabalho que deixa frutíferos restos!

Por Marcia Zucchi
Read more

NOTA DA DIRETORIA

by secao_rj in Aconteceu na Seção RJ

Caros colegas,

Há duas semanas vocês receberam uma edição extra do Letrear com o calendário completo das atividades da diretoria e dos seminários por conta e risco que vão acontecer em 2019. Agora, no primeiro número do nosso boletim, estamos trazendo notícias mais detalhadas sobre cada atividade e um breve resumo de como cada participante da nova diretoria (Renata Martinez, Ana Tereza Groisman e Andréa Vilanova), pretende conduzir seus trabalhos. Logo abaixo, o texto de apresentação da diretoria geral que foi lido na assembleia de membros da Seção Rio na última sexta feira, dia 29 de março:

Apresentação da diretoria geral da Seção Rio 2019/2020

Quero apresentar em linhas gerais um projeto de trabalho que de certa forma já começou há algum tempo. É assim que fazemos na Escola: a permutação acontece a cada dois anos e o segundo ano de cada gestão é compartilhado com a gestão seguinte. Por isso, durante o ano de 2018, estivemos acompanhando de perto o dia a dia da diretoria e aprendendo muito com essa parceria. Agradeço à Angela Bernardes, Ana Tereza Groisman, Elisa Monteiro e Rachel Amin pela acolhida e por tudo o que nos ensinaram ao longo desse período. Agradeço especialmente a Ana Tereza que aceitou continuar por mais dois anos, desta vez na diretoria de cartéis, e que tem sido uma presença que faz muita diferença no processo de transição entre as duas gestões. Agradeço muito à Sandra Landim que em parceria com a diretoria de secretaria e tesouraria, coordena o amplo trabalho da comissão de divulgação, mídias e audiovisual da Seção Rio. [Leia +]

Em paralelo a esse trabalho, formamos um cartel com as participantes da nova diretoria e com Paulo Vidal como mais-um. É um cartel dedicado à leitura de textos institucionais de Lacan, que busca neles uma orientação para lidar com as novas funções que estamos assumindo, levando em conta o que de seu ensino está em jogo nesse funcionamento institucional.  Isso não é uma novidade, já foi feito em outras diretorias, e tem a função de evitar que sejamos absorvidas pela rotina do trabalho esquecendo a causa que está no horizonte da Escola.

Uma Escola de psicanálise de orientação lacaniana não é uma instituição como outras porque busca funcionar a partir de uma lógica coletiva muito peculiar. No texto sobre a teoria de Turim[1], (com o qual abrimos os trabalhos da Seção em fevereiro desse ano na conversação de membros organizada em uma parceria entre as duas diretorias) Miller fala da Escola como uma invenção de Lacan para se arranjar com o grupo dos analistas de uma forma muito diferente daquela que Freud criou e insiste no seu caráter paradoxal: ela é um jeito de funcionar em grupo, é uma formação coletiva, no entanto, o que está em primeiro plano, o que deve prevalecer é a solidão subjetiva. Ele fala de um jeito bonito da Escola, como algo muito diferente de uma associação profissional, onde todos se reúnem em torno de uma prática comum, de um modelo de profissional a ser compartilhado. Fala da Escola como um conjunto logicamente inconsistente porque apesar de não dispensar o ideal, o que o seu coração abriga não são os ideais, e sim o que ele chama de “solidões incomparáveis”. Fala disso usando expressões contundentes como invenção, experiência inaugural, ruptura.

Nesse mundo onde tudo tende a coletivizar, burocratizar, uniformizar, a escola é um lugar onde essa tendência deve ser reduzida ao mínimo e onde o que deve prevalecer é a ordem do analítico, do que dá lugar à solidão incomparável.  Miller retoma o termo enclave, ou refúgio, usado por Lacan pra falar desse talento da Escola de conseguir articular coletivo e singular. A Escola como refúgio é um lugar ao mesmo tempo dentro e fora do mundo.

É justamente esse caráter da Escola que lhe permite abrigar um tipo muito especial de relação com o saber, que não se pretende completo, que inclui o furo, que não pode ser coletivizável. É um saber que se transmite entre uns e outros, porém, somente a partir da relação única e singular que cada um estabelece com a Escola. É algo semelhante ao que acontece em uma análise, quando o mais íntimo e o mais estranho se apresentam ao mesmo tempo na figura do analista. É o que chamamos transferência, condição da análise e também da transmissão que buscamos fazer na Escola.

O exemplo mais vivo desse tipo de transmissão é o passe. Não é fácil explicar como acontece, mas todos os que assistiram testemunhos de passe provavelmente experimentaram as consequências dessa presença da solidão no meio do universal. Não é por acaso que Miller destaca o efeito radical do lugar que Lacan deu ao dispositivo do passe na sua Escola. Fala disso usando outra imagem forte: a da Escola morcego, Escola como um ser ambíguo, que tem asas analíticas como um pássaro, e patas sociais como um mamífero, e que constitui uma dupla postulação, uma para o discurso analítico e outra para o discurso do mestre [2].

Ele diz que a presença do passe faz da escola uma comunidade muito especial em que o mal- estar é coisa natural[3]. Entendo o mal estar como essa tensão permanente entre coletivo e singular, que no passe ganha toda a sua potência, mas que também habita a Escola desde seu órgão de base, o cartel, assim como em outros dispositivos.

Funcionar dando lugar ao mal estar. Como isso é difícil! Todos aqui sabem o quanto. Não só os muitos que já estiveram ocupando cargos nas instâncias da Escola – quando algumas dificuldades e também um certo mal-estar se apresentam de forma mais direta, mais evidente – mas todos os que nos diferentes momentos da sua formação, participam da Escola, e que de uma maneira ou de outra precisam se arranjar com essa tensão permanente entre um ideal comum que reúne e oferece abrigo no sentimento de uma língua compartilhada, de estar entre pares, e aquele tanto de si que cada um carrega e que não tem como fazer funcionar bem no grupo. Como a relação disso com o coletivo não se arranja de uma vez por todas – precisa ser refeita a cada vez –, a Escola está em constante mutação, e é isso que lhe dá vida. É porque ela se refaz que pode existir no mundo mantendo seu vigor. Esse é o seu valor.

Em um mundo que não para de mudar e que às vezes muda tanto a ponto de não sabermos se podemos continuar a chamar de mundo o que resta disso que nos acostumamos a entender como o nosso mundo, a Escola, pelo menos como conceito, é aquela que pode trazer pra si a conversa sobre o horizonte de sua época. Cabe a nós não engessá-la demais para que isso tenha chance de acontecer. Que novas ferramentas ou que novo uso podemos fazer das ferramentas que já conhecemos para seguir em frente diante de impasses inéditos trazidos pelas constantes reconfigurações das formas de existir e de estar no mundo? Assim como não há um analista confortavelmente estabelecido de uma vez por todas, a Escola no sentido que Lacan deu a ela, habita o nosso horizonte como uma experiência radical que vivemos em seu paradoxo.

Ou seja, pensar na Escola como algo vivo, incluindo o mal-estar, soma de solidões, é o que nos dá a possibilidade de estar à altura do nosso tempo, de buscar responder à subjetividade da época. O que esse tempo exige de nós? É um desassossego, uma desacomodação permanente.

A pergunta com a qual pretendemos orientar o trabalho dessa diretoria é menos como fazer para se estabelecer de forma estável em um discurso, e sim, como, em cada atividade, em cada situação, podemos fazer prevalecer um modo de funcionamento que favoreça a psicanálise, que seja coletivo e ao mesmo tempo traga a forma singular de transmitir, é isso que creio poder produzir verdadeiramente acontecimento.

Foi a partir dessa lógica que pensamos em organizar as atividades, sempre que possível, seguindo o que estamos chamando de um “esforço de conversação”. Apesar da conversação ter sido usada inicialmente para debater casos clínicos, os efeitos desse formato ultrapassam o campo da clínica. Ela é um modo de operar com o saber que visa dar o máximo de tempo à reflexão, ao comentário, e menos à escuta passiva.   Miller compara a conversação, quando ela funciona, a um tipo de associação livre coletivizada, da qual esperamos certo efeito de saber.  Ele diz assim: “Quando a coisa acontece a mim, os significantes de outros me dão ideias, me ajudam, e finalmente, acontece, às vezes, algo novo, um ângulo novo, perspectivas inéditas”[4].

Criar perspectivas inéditas, fazer acontecer, não é pouca coisa. Precisamos muito de perspectivas inéditas para lidar com situações inéditas. Como se servir da experiência de cada um com sua análise e no trabalho da Escola de modo a “fazer acontecer”, quando algumas ferramentas que já foram tão eficientes para produzir acontecimento, hoje se mostram quase sem serventia?  A conversação é uma das que têm conseguido alcançar uma certa desacomodação produtiva, é um forçamento na direção da Escola como experiência, e certamente não é a única maneira. Esperamos sustentar alguma desacomodação que permita produzir outras experiências durante esses dois anos que passam tão rápido. A conferir.

Usar o conceito de Escola no seu sentido mais vivo depende de manter essa pergunta na ordem do dia. Recentemente dois colegas nossos, Maricia Ciscato e Paulo Vidal, trouxeram a figura do oásis, no sentido que Hanna Arendt[5] dá a ele, para pensar o nosso modo de funcionar no mundo quando ele se apresenta na sua face desértica. Eles falam de produzir e manter oásis em meio ao deserto, não como espaços que permitiriam algum tipo de adaptação, mas como fontes que permitem viver sem tomar o deserto como norma. Eles usam imagens muito potentes para falar desses espaços, como cantos que pulsam, que têm o poder de inverter a lógica mortífera, a lógica da segregação, e que conseguem “inventar vida” [6], “criar mundos nesse mundo”[7].

É demais pensar em uma Escola que cria oásis, sonhar com uma Escola que consegue sustentar acontecimentos capazes de criar mundos nesse mundo?

Atualmente é muito difícil encontrar lugares capazes de produzir esse efeito de refúgio paradoxal. Lugares que funcionem na lógica de ser dentro e fora do mundo ao mesmo tempo e que sirvam de abrigo, onde seja possível se instalar por um tempo. Gosto de pensar no efeito da Escola menos como espaço e sim como tempo, como momentos, momentos de respiro, um tempinho roubado, um descanso do tempo do mundo, que pode durar alguns instantes. Acho que esse já é o nosso jeito de fazer oásis. Quando uma conversação funciona, isso acontece, é uma maneira de criar oásis. Acontece também muitas vezes no cartel. Quem nunca teve o sentimento de pausar a bagunça do mundo quando vai correndo para um cartel e encontra lá um respiro? Acredito que nosso oásis de base é o cartel. Mas não como um domínio exclusivo. Esse respiro, tempo roubado, acontece muitas vezes nos testemunhos de passe, em uma ou outra conversação, em alguns dos grandes eventos que nos mobilizam tanto, que desacomodam pra valer, como no último Encontro Brasileiro, mas também no dia a dia das atividades da Escola, em um novo ângulo de leitura de um seminário já conhecido, na fala de um convidado que consegue transmitir em um dialeto que não é nosso como a arte nos ensina (como já aconteceu, por exemplo, em encontros no Raízes Literárias) e em outras tantas situações que quando funcionam assim, nos convidam a ficar um tempinho a mais na calçada em frente à casa da nossa Seção, antes de voltar pra bagunça do mundo. Conversas na calçada em uma cidade onde esse hábito caiu em desuso há tanto tempo.

Cada um experimenta esses efeitos à sua maneira e em momentos diferentes. Espero que nos próximos anos as atividades que estamos programando junto com vocês, os nossos seminários das segundas-feiras, a psicanálise no cinema, os projetos da diretoria de biblioteca: Leituras em Cena, Leituras Contemporâneas, a presença forte do cartel e também as nossas Jornadas sobre o sonho, consigam, às vezes, criar oásis, mundos no mundo, um tempinho de respiro roubado pra muitos de nós. Vamos ao trabalho e contamos com vocês.

Andréa Reis Santos

[1] MILLER, Jacques-Alain. Teoria de Turim: sobre o sujeito da Escola. Em: Opção Lacaniana Online, Ano 7, Número 21: Novembro de 2016. Disponível em: <http://www.opcaolacaniana.com.br/pdf/numero_21/teoria_de_turim.pdf>. Último acesso em: 28/03/2019.
[2] MILLER, Jacques-Alain. Questão de Escola: Proposta sobre a Garantia. Em: Opção Lacaniana Online, Ano 8, Número 23: Julho de 2017. Disponível em: <http://www.opcaolacaniana.com.br/pdf/numero_23/Questao_de_Escola.pdf>. Último acesso em: 28/03/2019.
[3] MILLER, Jacques-Alain. Política Lacaniana. Buenos Aires: Coleção Diva, 2017.
[4] MILLER, Jacques-Alain et al. La pareja e el amor: conversaciones clinicas com Jacques Alain-Miller em Barcelona. 1ª ed. Buenos Aires: Paidós, 2005.
[5] ARENDT, H. De deserto e de Oásis. Em: O que é Política? – Fragmentos das Obras Póstumas Compilados por Úrsula Ludz. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1998.
[6] CISCATO, Marícia. Os oásis nossos de cada dia. Disponível em: <https://loucuraseamores2017.wordpress.com/2017/10/31/os-oasis-nossos-de-cada-dia/>. Último acesso em: 28/03/2019.
[7] VIDAL, Paulo. Provocado pelo Corpo Elétrico. Disponível em:  <https://loucuraseamores2017.wordpress.com/2017/11/08/provocado-pelo-corpo-eletrico/>. Último acesso em: 28/03/2019.

Diretoria de secretaria e tesouraria:

Renata Martinez

Num primeiro olhar, o que se espera da diretoria de secretaria e tesouraria são de fato tarefas práticas e cotidianas: administrar o dinheiro, cuidar nos mínimos detalhes da casa e de toda a estrutura que a envolve, zelar pelo andamento e funcionamento das diversas atividades que a Seção Rio comporta. Entretanto, não deixar essa empreitada na ordem do automaton é nossa aposta! Aposta na potência do encontro, na riqueza do trabalho de Escola e, sem dúvida, no avanço da prática e da teoria – marcas da relação viva de cada um com a causa analítica.

A transferência de trabalho nos move. Aprender a proporção e o ritmo do trabalho solitário e entre pares será um exercício diário e, certamente, não sem consequências.  Vamos caminhar, dando contorno aos impasses que surgirem, para que nossa sede possa acolher Escola e Instituto, cada um a sua medida, em suas produções e sustentações do delicado laço entre clínica, política e episteme. Mãos à obra!

Read more