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Exílios

sinthoma, corpo e território

XXVII Jornadas da Escola Brasileira de Psicanálise, Seção Rio e Instituto de Clínica Psicanalítica, ICP-RJ

 

Somente deportados participam da história: já que o homem tem um corpo, é pelo corpo que se o tem. Avesso do habeas corpus.
Lacan, J. [i]
…se necesita coraje para atravesar lo que Lacan llama un “agujero verdadero”, que corresponde a la falta de sentido último de la vida, para profundizarse en los sueños, para afrontar nuestros «exilios», para dar una palabra a lo que no corresponde a nuestros deseados ideales y, por fin, para encontrar la singularidad solitaria.
Jimenez, S. [ii]

 

Nossas Jornadas se orientam pelo Exílio como ponto de enlace entre clínica e cidade, a que visamos interrogar. O termo articula “ex” – fora –, e a raiz “el”, presente em um conjunto de palavras com o sentido de “ir”: ambulare, exulare, exilar. Figura presente desde a mítica queda do paraíso, o exílio é geralmente considerado como movimento fora de algo próprio, o solo natal, por exemplo – incluindo, nesse movimento, o apagamento de seus rastros em um impossível desejo de retorno. Exilado é aquele que sai, que parte, não para um lugar determinado, mas que parte absolutamente.

Queremos abordar os diversos modos de exílio em nossa cultura, deliberados ou não, e a maneira como atravessam o fazer do psicanalista. Seremos também convidados a nos perguntar, cada um de sua própria posição, sobre as fronteiras às quais nos submetemos, endossamos ou subvertemos, e sobre a possibilidade de construir passagens entre elas. Podemos questionar, inclusive, se nossa existência não teria consistência próxima do exílio. O lugar do corpo, da língua e do laço social não distribui três “ex”, três exterioridades fundamentais a requerer hospitalidade? Não estamos sempre um pouco fora do corpo que temos, daquilo que dizemos e do que somos na cidade? Nesse sentido, o exílio seria nossa propriedade; nosso próprio.

Com a Covid-19, impôs-se um corte. Temos experimentado, desde então, a radicalidade de uma experiência de mundo sustentada no isolamento, na solidão, na temporalidade difusa e desconcertante de um tempo em espera.

No real deste novo cenário, a segregação se inscreve explicitamente na pauta e nas mortíferas passagens ao ato de governos como o do nosso país. Ao mesmo tempo, a epidemia vem produzindo novas versões do panóptico pelo mundo a fora, com suas tecnologias de controle dos corpos.

Seguimos trabalhando, como sugeriu M. Bassols, sem aguardar a luz do fim do túnel, pois, como afirma Guimarães Rosa, e Freud, antes dele, o real se dispõe, não no começo ou no fim, mas na própria travessia.

Passado o primeiro impacto, pudemos começar, pouco a pouco, a situar algumas balizas. Exílios engloba, agora, um campo completamente novo, ao mesmo tempo em que, olhando para trás, parece uma escolha de tema quase profética.

Onde, na era de um Outro que não existe,[iii] encontrar sustentação? A inconsistência do Outro se torna evidente de modo radical por conta do isolamento, seja pela impossibilidade de circulação dos corpos, de cumprir a quarentena ou de enterrar os mortos. A vacância ou indeterminação de Ministérios (Saúde, Educação e Cultura) é paradigmática da insuficiência do Outro como ancoradouro e do acirramento das condições de seu apagamento em nosso país. Vivemos uma “pandemia das desigualdades”[iv], pela exacerbada segregação nas circunstâncias de isolamento.

Quais manifestações corporais, territoriais, culturais e sintomáticas desses tempos podem ensinar sobre arranjos em que o real da psicanálise encontre lugar? Exiladas de uma referência universal, que soluções vêm sendo produzidas nesses vãos, próprios à ausência de coordenadas? Como os psicanalistas podem tomar parte nessa conversa?

Apostamos que a psicanálise pode constituir, no avesso do Todo, do Pan da pandemia, um lugar discursivo que permita a interpretação; um lugar entre presenças diferentes que possa fazer ressoar o discurso analítico, produzindo equívocos, promovendo ressignificações; produzindo a abertura a partir da qual cada um é chamado a tomar posição.

Três termos balizam nosso embarque nos movimentos de exílio: “sinthoma, corpo e território”. Vamos investigar o momento a partir dos três binômios costurados por eles: corpo e território; território e sintoma; sinthoma e corpo. Serão três encontros virtuais; três momentos de parada e decantação de conversas em que convidamos colegas de outros campos de saber e práticas para a experimentação de litorais e construção de margens.

À concepção mais estrita de que o exílio é do corpo, impõe-se agora a nós a ideia de que exílio é também passagem e deslocamento. Nossa aposta é na travessia. Seguimos a trilha de corpos em trânsito, ainda que exilados.

Estamos em trânsito[v].

 

Ana Tereza Groisman
Andréa Reis Santos
Andrea Vilanova
Anna Luiza de Almeida e Silva
Cristina Frederico
Geisa de Assis
Marcus André Vieira
Marina Morena Torres
Paula Borsoi
Paulo Vidal
Renata Martinez
Ruth Cohen
Stella Maris Jimenez
Thereza De Felice

[i] Lacan, Jacques. Joyce, o Sintoma. in: Outros escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 2003. pp. 564-565.
[ii] JIMENEZ, S, E. Democracia y psicoanálisis: la vida exige coraje. Disponível em: http://lalibertaddepluma.org/stella-jimenez-gordillo-democracia/?pdf=4623
[iii] Laurent, Eric. El Uno que no existe. In: Miller, Jacques-Alain. El Otro que no existe y sus comités de ética, con colaboración de: Éric Laurent – 1a ed. -Buenos Aires: Paidós, 2005, p. 363.
[iv] Carvalho, Pâmela. Pandemia de Desigualdades. Disponível em: <https://n-1edicoes.org/060>. Acesso em 19/06/2020.
[v] Bilac, Jô. Insetos, com Cia dos Atores. . Rio de Janeiro: Cobogó | Série Dramaturgia, 2018