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Transferência na Prática:
Corpos e discursos nas paixões em análise

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Andréa Reis Santos

Editorial

ANDRÉA REIS SANTOS1
DANIELE MENEZES2
RENATA GOMES MARTINEZ3

O número 27 de Latusa, Transferência na prática: corpos e discursos nas paixões em análise, está alinhado não apenas ao tema de trabalho que movimentou a Seção Rio rumo às Jornadas Clínicas de 2025, mas também ao que o antecedeu – fruto de uma construção coletiva e de múltiplas ressonâncias. Nossa proposta, aqui, é apresentar a delicada articulação entre os conceitos e a clínica, mostrando a força orientadora do passe desde o início. Os textos trazem o trabalho em torno do que atravessa os corpos e os discursos nas paixões em análise, tratado por cada autor a partir de sua posição singular na relação que estabelece com a clínica que exerce e com a Escola, que orienta a formação. À primeira vista, a transferência pode parecer um tema já muito explorado entre nós. No entanto, as ressonâncias das Jornadas da Seção Rio em 2024 – A palavra e a pedra: interpretação em análise – deixaram evidente que, tanto a interpretação quanto sua articulação com o fenômeno da transferência, longe de serem temas esgotados, continuam sendo assuntos da maior relevância e atualidade. São temas fundamentais para ressituar o lugar que uma experiência de análise pode ocupar na vida de alguém, especialmente num tempo em que as mudanças na civilização se aceleram como nunca, tumultuando a relação entre o sujeito – ou melhor, o falasser –, o objeto e o Outro da época.

Essas mudanças – e o tumulto que delas resulta – estavam no coração da proposta inicial deste número de Latusa, que nasceu da ideia de criar uma série em torno dos impasses do momento atual. O primeiro projeto consistia em colocar em sequência certos binarismos que pareciam se impor como questões da época a demandar de nós uma elaboração. Homem/mulher; preto/branco; velho/novo foram as duplas que, a partir de uma provocação inicial, se alinharam como ponto de partida. Naquele momento, o que nos movia eram “temas que desacomodam” – que não necessariamente pertencem ao enclave teórico da psicanálise, mas que cada vez mais se apresentam na vida e na clínica, convocando-nos a um trabalho de investigação.

Foi assim com o primeiro binarismo – projeto-piloto que inaugurou a série com Latusa 26, Binarismo em crise: gênero e sexo nos tempos que correm. O trabalho de elaboração coletiva que orientou a construção dessa edição foi fruto de uma série de interrogações em torno da fluidez dos gêneros e de suas consequências para os modos de ser homem e ser mulher na atualidade.

Ao iniciar o trabalho com a Comissão formada especialmente para a Latusa seguinte – cuja proposta era investigar as questões que o binarismo branco/preto trazia ao nosso campo –, adentramos um território bastante distinto e muito mais complexo. Esse percurso reuniu a Comissão em torno dos impasses e das incidências, na clínica, de temas vivos e atuais para a psicanálise, especialmente a segregação e o racismo. No lugar das perguntas, o que prevaleceu nos encontros, como não poderia deixar de ser, foram a importância e a urgência da afirmação do antirracismo. Como lembraram vários colegas da Comissão, parafraseando a filósofa e ativista estadunidense Angela Davis: “Quando se trata de racismo, não basta não ser racista – é preciso ser antirracista!” O Brasil carrega as marcas, o ranço vergonhoso, de uma história colonial e escravocrata. São restos que fazem do corpo negro o principal suporte do que Laurent chama de “objeto rejeitado”. No texto “Racismo 2.0”, ele afirma que “o racismo muda seus objetos à medida que as formas sociais se modificam”4.

O nosso racismo pós-colonial é responsável pela barbárie contra o corpo negro, pois inclui, naquilo que é segregação, uma dissimetria radical fundada em uma relação de poder. O privilégio branco e a violência brutal contra os corpos negros nos convocam a tomar posição em uma luta pela vida.

Essa realidade, com a qual esbarrávamos a cada encontro, acabou por nos impor algumas perguntas: como fazer conversar esse imperativo com o campo da psicanálise? Como incluir o tema do racismo, da branquitude e da luta antirracista em uma revista que tem por função discutir e levar ao público o que pensa a Seção Rio da EBP sobre algum tema candente da psicanálise? Seria possível conceber uma revista sobre o racismo na qual pudéssemos transmitir algo mais além da denúncia dos horrores que o atravessam?

Ao longo desse tempo, vivemos encontros, reencontros, impasses, caminhos e descaminhos que giravam sempre em torno da prática analítica e, sobretudo, da pergunta: “A psicanálise que praticamos hoje incide sobre quais corpos?” E ainda: “O que orienta nossa prática e de que lugar escutamos aqueles que nos procuram?” Essas perguntas, compartilhadas entre nós, levaram-nos a interrogar a prática analítica nas instituições, nos consultórios, na prática entre vários, nas ruas, nos espaços públicos e também nas políticas públicas. Falávamos ainda sobre a chegada, nos consultórios, de analisantes que até pouco tempo atrás apareciam muito pouco – pessoas negras, indígenas, não brancas, trans — e como nós, analistas, os escutávamos. E também sobre a importância de uma escuta que pudesse prescindir de saberes prévios diante desses novos casos.

Sob a ótica da luta antirracista, sabemos claramente qual é a diferença entre um corpo branco e um corpo negro. Saber-se branco ou saber-se negro são pontos de partida necessários para tomar posição diante da barbárie do racismo.

Quando nos situamos do outro lado da fronteira, no campo do discurso da psicanálise, não partimos de uma certeza, mas de uma pergunta: de que corpo se trata? Podemos falar do corpo a partir de registros diferentes. Além disso, aquilo que se entende por corpo está longe de ter a mesma consistência, já que, para a psicanálise, o corpo não é um dado prévio, é corpo enquanto constituído por discursos. Esse é apenas um dos pontos em que o encontro entre lógicas distintas produz mal-entendidos e impasses, exigindo um esforço de tradução e de interpretação.

Como fazer conversar o antirracismo com a lógica dessegregativa da psicanálise? O tema da segregação é familiar ao nosso campo: a segregação faz parte da constituição do sujeito tal como é definido pela psicanálise. No entanto, a segregação não dá conta de tudo o que está em jogo no racismo, pois, nesse caso, não se trata apenas da discriminação racial, mas da segregação articulada a uma lógica de poder. E, quando o poder entra em cena, a conversa muda de tom.

Quando o poder entra em cena, demarcando campos opostos e separando oprimidos e opressores, o que a psicanálise tem a dizer? Como tratar disso com as ferramentas de que o nosso campo dispõe? Sabemos da tensão que se estabelece entre o discurso do mestre e o discurso do analista, e sabemos também que é somente sendo atravessados pelo discurso analítico que, dentro de uma lógica de Escola, podemos nos dirigir à política e ao discurso do mestre.

Essas foram apenas algumas das inúmeras questões e impasses que nos levaram – depois de muitas voltas em torno de um ponto de impossível – a concluir que uma publicação de psicanálise sobre o tema do racismo só faria sentido como resultado de um debate permanente e de um trabalho consideravelmente mais preciso sobre o assunto. Um debate que não pode estar restrito ao sempre escasso tempo de gestação de uma revista, se queremos tratá-lo com a atenção que merece. A questão do racismo, embora não seja nova em nosso campo, é uma questão que desacomoda e nos empurra para regiões de tensionamento, ao implicar uma conversa entre discursos que partem de lógicas diferentes.

Nesse primeiro momento do trabalho, contamos com a participação de Ana Beatriz Zimmermann, Angélica Bastos, Geisa de Assis, Glória Maron, Lourenço Astúa de Moraes, Marina Morena, Marina Gomara, Renata Mendonça, Sandra Landim e Vilma Dias, além de Andréa Reis Santos como editora e Daniele Menezes e Renata Martinez como coedi-toras5. A presença de muitos desses colegas que integraram a Comissão inicial se faz notar nos textos que compõem a proposta atual da revista. Nesta edição, buscamos reunir textos que nos ajudam a pensar a transferência como o tipo de laço que, ainda hoje, permite sustentar uma análise. Queremos investigar o que está em jogo nas variações das paixões – nas situações em que elas colaboram para manter esse laço e naquelas em que seus excessos o fazem se romper.

Esperamos interrogar, a partir dos textos reunidos em Latusa 27, como as paixões se encarnam nos corpos e se entrelaçam nos discursos, segundo as chaves de leitura que os diferentes momentos do ensino de Lacan possibilitam. Como manejamos o amor por aquilo que o analista vem a encarnar para um sujeito, a insistência amorosa? E o ódio, que além de sua função estruturante na constituição do sujeito, é paixão que aspira do outro seu rebaixamento e sua negação, com seus efeitos de segregação? Como nos arranjamos com a recusa de saber, encarnada na paixão da ignorância – paixão que se traduz em uma busca interminável de sentido, sustentada por uma suposição de saber no Outro? Paixão que é, ao mesmo tempo, condição da análise e resistência a ela, rejeição ativa ao saber inconsciente. E ainda: como operar, na clínica, com as paixões que não passam pelo Outro6, manifestando-se de forma mais evidente nas manias, compulsões e depressões tão frequentes em nossos dias?

A prática da análise mudou muito desde os seus primórdios. E, embora alguns princípios permaneçam firmes até hoje, tornam-se necessários novos arranjos diante das transformações que afetam o Outro da época, os discursos e o modo como eles incidem sobre os corpos.

Levando em conta que a transferência é o fio que costura cada análise, que “é o coração do dispositivo”7, buscamos, neste número, recolher seus matizes – do ensino do passe ao dia a dia da clínica, passando pela revisão dos conceitos que nos orientam. Corpos e discursos nas paixões em análise: eis o eixo que atravessa estes textos. Pois é no corpo, em seus restos pulsionais, que o discurso deixa marcas; e é no laço transferencial que essas marcas encontram a chance de se reinscrever.

O título que escolhemos – Transferência na prática: corpos e discursos nas paixões em análise – traduz a aposta de que não há teoria sem o pulsar da clínica, nem clínica sem o rigor conceitual que sustenta a direção do tratamento.

  1. O ensino do passe

A primeira seção percorre o ensino do passe, lugar em que se transmite o que uma análise produz em seu término. Carolina Koretzky aborda a separação dolorosa e o avesso do amor, revelando a solidão que sustenta o fim de análise; Mariana Gómez situa a passagem da transferência ao analista para a Escola, destacando o desejo de Escola como destino político; Ondina Machado, em seus matizes, reflete sobre os diversos modos da transferência em duas análises, articulando o amor, o gozo e a queda da suposição de saber. Esses testemunhos mostram que o fim de análise não dissolve a transferência, mas a desloca, nesses casos, convertendo-a em desejo decidido, em amor advertido e em transferência de trabalho dirigida à Escola.

II – Conceitos: ferramentas da clínica

Na segunda seção, reunimos textos que revisitam conceitos fundamentais, mostrando sua pertinência no manejo clínico. Começando pelos mais êxtimos, Miquel Bassols explora os paradoxos da transferência como condição e obstáculo; Carolina Koretzky examina a passagem das paixões do ser às paixões da alma, situando uma ética da pulsão; Fernanda Otoni Brisset reflete sobre as paixões da greta, onde o real irrompe e desestabiliza o simbólico; Carlos Augusto Nicéas interroga a contratransferência como conceito ilusório, recolocando o lugar do desejo do analista; Romildo do Rêgo Barros retoma o paradoxo do amor genuíno e do enlace falso; Ana Lucia Lutterbach articula a posição analítica ao semblante e à posição feminina; Marcus André Vieira sistematiza os elementos da transferência como ferramentas de trabalho; Maria do Rosário Collier do Rêgo Barros propõe uma leitura original da função do sujeito suposto saber, em sua articulação com tempo, repetição e invenção; e Maria Silvia Hanna nos brinda com importantes elaborações sobre o amor de transferência no campo das psicoses. Esta seção mostra como os conceitos permanecem ferramentas vivas, não apenas para a teoria, mas para sustentar a clínica em toda a sua complexidade.

III. Na prática: notícias do divã

A terceira seção traz a clínica em sua diversidade e urgência. Isabel do Rêgo Barros Duarte discute a tensão entre transferência e interpretação; Maria Inês Lamy aborda a adolescência, do recurso às “tribos” até a invenção de uma fantasia singular; Paula Borsoi mostra como o ódio de si pode se transformar em trabalho transferencial; Jefferson Nascimento reflete sobre os impasses que emperram a análise e o manejo ético da resistência; Clarisse Boechat percorre os confins da transferência a partir do inconsciente real; Renata Mendonça e Marina Morena Torres situam a clínica diante do racismo estrutural, destacando como a psicanálise pode operar a passagem do universal ao singular; Vilma Dias mostra a força clínica e simbólica da trançagem como prática terapêutica e cultural; Ruth Helena Pinto Cohen apresenta a invenção de um “consultório ruth” na clínica com a psicose; e Rachel Amin interroga a transferência no autismo como experiência refratária ao Outro. Esta seção evidencia que o cotidiano da clínica é múltiplo e se escreve sempre no encontro singular entre analista e analisante, onde corpo, gozo e discurso se enlaçam de modos inéditos.

Do passe à clínica, dos conceitos às invenções, este número percorre a transferência em sua riqueza e em seus impasses. O que atravessa os textos é a insistência do real, que não se deixa domesticar, mas que encontra, na prática analítica, modos de se escrever.

 


2Membro da EBP/ AMP
2Cartelizante pela EBP Seção Rio
3Membro da EBP/AMP
4LAURENT, Éric. O racismo 0. Lacan cotidiano [português], n. 371, 26 jan. 2014. Disponível em: http://ampblog2006.blogspot.com/2014/02/lacan-cotidiano-n-371-portugues.html?m=1. Acesso em: 16 set. 2025. Ou LAURENT, Éric. O racismo 2.0. Opção Lacaniana, São Paulo, n. 67, p. 31-35, dez. 2013. ISSN 15193128.
5Agradecemos a essa Comissão e também a Aspazia Barcelos, Maira Rossi e Ana Júlia Guinle, que, junto com Marina Gomara, foram responsáveis pelas excelentes transcrições/relatorias das nossas reuniões.
6LAURENT, Éric. Segundo seminário: Paixões da alma. In: LAURENT, Éric. Paixões do parlêtre, Salvador: Escola Brasileira de Psicanálise Seção Bahia, p. 51-73.
7MILLER, Jacques-Alain. El banquete de los analistas. Los cursos psicoanalíticos de Jacques-Alain Buenos Aires: Paidós, 2010. p. 25-27. ISBN 950-12-8852-8

SUMÁRIO

Editorial

Editorial

Andréa Reis Santos
Daniele Menezes
Renata Gomes Martinez

I. Ensino do passe

Carolina Koretzky – Uma separação dolorosa

Mariana Gómez – O destino da transferência ao final: Passe e política de Escola

Ondina Machado – Matizes da transferência

II. Conceitos: ferramentas da clínica

Miquel Bassols – Os paradoxos da transferência

Carolina Koretzky – Paixões do ser, paixões da a-lma

Fernanda Otoni Brisset – As paixões da greta na prática analítica

Carlos Augusto Nicéas – Uma questão de sujeito (nota sobre a contratransferência)

Romildo do Rêgo Barros – Transferência, entre amor genuíno e enlace falso

Ana Lucia Lutterbach – Os analistas, as mulheres e o truque

Marcus André Vieira – Elementos do trabalho na transferência

Maria do Rosário Collier do Rêgo Barros – O sujeito suposto saber em questão: transferência… 

Maria Silvia Garcia Fernández Hanna – Algumas elaborações sobre o amor na psicose 

III. Na prática: notícias do divã

Isabel do Rêgo Barros Duarte – Alguns aspectos da relação entre transferência e interpretação

Maria Inês Lamy – Da ‘tribo’ à fantasia: um percurso sob transferência

Paula Borsoi – Além do ódio, a transferência

Jefferson Nascimento – Impasses na transferência: desafios e possibilidades na clínica…

Clarisse Boechat – Leituras litorâneas nos confins da transferência

Renata Lucindo Ferreira Mendonça – Racismo estrutural: do universal ao singular de cada sujeito

Marina Morena Torres – Algumas notas sobre raça

Vilma Dias – Trançar e tecer a transferência

Ruth Helena Pinto Cohen – Um lugar na transferência: consultórioruth

Rachel Amin – A transferência e o UM no autismo…

RESUMOS/ABSTRACT