Seminário Clínico da EBP-Rio
Coord. Marcus André Vieira
“O chão da clínica”
A clínica psicanalítica não segmenta a realidade, não setoriza. A partir de um problema, o sintoma, colocamos tudo em jogo. Por isso, “Fale de tudo e mais um pouco” é a regra fundamental.
Parece um nada, mas é uma decisão instrumental. A aposta na associação livre faz efeito: navegando-se, na sessão em tudo o que vier, aparecem fragmentos de lembranças e outros elementos que até então ficavam fora de cena. São falas inconscientes que perturbam e mudam o rumo da prosa – o que, de quebra, trata. O dispositivo analítico faz o sintoma falar, sem diretamente visar eliminar o incômodo, mas mudar a vida. Apostar nessa premissa e em algumas outras, como a do recalque, da pulsão e da repetição é o que faz acontecer a clínica psicanalítica (sem contar com outras premissas que vieram se incorporar a essas: significante, Outro, mas também falasser e lalíngua).
Dito de outra forma, esses conceitos uma vez assumidos pelo praticante, tornam-se ferramentas. Na sessão, porém, elas serão mobilizadas por alguém bem concreto, o analista.
Lacan dirá, então, que as ferramentas da análise podem ser entendidas, cada uma, como modos de querer do praticante, querer ouvir, por exemplo segundo a associação livre. Esses quereres constituem o desejo do analista. A expressão seria melhor traduzida por desejo psicanalítico porque não é o desejo de alguém, mas um modo de querer que, quando dá certo, produz análise.
O conceito, uma vez assumido pelo praticante, torna-se ferramenta. Esse “assumido” não é uma decisão intelectual, exige uma verdadeira mutação subjetiva. É preciso ter vivido a surpresa de ser atravessado pelas estranhas falas inconscientes e a subversão que provocam.
Por isso, a formação analítica às vezes parece conversão espiritual. Como se só os iniciados nos mistérios da psicanálise pudessem ser analistas. Atenção, não é uma questão de crença, crer atrapalha. A crença nos leva para o plano das transcendências quando basta, por um lado, experimentar os efeitos das falas inconscientes no próprio discurso e, por outro, aprender a trabalhar com suas manifestações e efeitos. E isso se faz em ato, assumindo algumas premissas e apostando nelas.
Neste sentido, Freud definiu três caminhos de formação, ou de apreensão do baú de ferramentas de uma análise: análise pessoal, supervisão e apropriação dos conceitos. Não vale um sem outro, apenas todos ao mesmo tempo. Lacan acrescenta um quarto elemento para a formação: a Escola como espaço de investigação, trocas e ação coletiva.
Nosso roteiro
Na série de encontros que propomos, vamos apostar que é possível espalhar essas ferramentas, construindo uma base de conceitos e palavras, o chão da clínica.
14/4 Sujeito (o corte e o furo),
12/5 Transferência (os enlaces e os significantes),
09/6 Objeto (o resto e a causa),
11/08 Fantasia e Falasser (o discurso e o laço),
15/09 Repetição (a rotina e a surpresa),
13/10 Corpo e Gozo (desassossegos e prazer),
17/11 Lalíngua (ressonância e letra),
08/12 Sintoma (bricolagem e iteração)
Para não perder de vista o quanto as ferramentas em questão só funcionam no espaço do encontro analítico, partiremos de fragmentos clínicos, apresentados por convidados em vídeos pré-gravados.
Humus humano
Apostar em uma apropriação concreta das ferramentas a partir da imersão em uma discussão clínica parece vital dada a tendência à tribalização atual da civilização. Não no sentido da comunidade, da taba, mas de uma sociedade constituída de grupos relativamente fechados em si mesmo, muitas vezes uns contra os outros.
A questão que a época coloca para a psicanálise poderia se formular, então, da seguinte maneira: “suas ferramentas de fala funcionam em quais tribos?” Se apenas nos aculturados pelo dito “ocidente” em quê e do que ela poderia ser emancipatória? Dito de outro modo: só fazendo parte da tribo dos psicanalistas é possível se tornar psicanalista? Se a formação é mergulho, e sempre continuada, que língua temos que aprender para apreender as ferramentas e conceitos da psicanálise?
A psicanálise tem uma pretensão maior, suas coisas são as do “humus humano” como disse certa vez Lacan. Estão por aí nos corações e corpos, desde que haja fala, desde que se precise de palavras. São transversais às tribos e, por isso mesmo, foi possível na história da psicanálise ir muito além do atendimento individual e dos consultórios.
Trabalho
Os semblantes e ficções em torno da figura do médico, do doutor, e do intelectual, foram utilizadas tanto por Freud quanto Lacan, mesmo deixando claro que o trabalho do analista não é nem o do sábio nem o do pensador. Se partimos do fato da tribalização, assumiremos que é preciso reconhecer e se servir das aparências com que somos identificados pelo Outro. Recusá-las em nome do real informe da clínica, só nos levará à ser identificados com uma seita.
Por que não destacar o trabalho que nos reúne? Trabalho faz comunidade? Sim e não. J. A. Miller demonstra precisamente como Lacan propôs uma Escola de trabalhadores quando criou uma instituição de praticantes de psicanálise.
A melhor maneira de situar o trabalho que conta é o de destacar o trabalho de quem está em análise, dito por Lacan, analisante. Ele está às voltas com um trabalhador ideal, nos termos de Lacan, o inconsciente. O inconsciente nunca para de repor nos sonhos aquilo que teimamos em jogar fora durante o dia por impossíveis de dizer com nossas palavras, mas como disse Drummond “Lutar com palavras é a luta mais vã. Entanto lutamos mal rompe a manhã”.