Prezados colegas, desejo disponibilizar para vocês a gravura que ofereci em homenagem à nossa querida…
Como me despeço de minha querida Stella – por Elza Marques Lisboa de Freitas
Quando Andrea me convidou para participar dessa noite de homenagens a Stella pensei imediatamente que seria para mim uma oportunidade para seguir com esse início de luto, múltiplo na verdade. Junto a essa perda temos outras duras perdas de vida próximas como a de Vicente Gaglianone por exemplo. Mas múltipla também porque estamos tendo perdas de diversas ordens pelo grave momento sanitário e político que vivemos. Uma oportunidade de incluirmos as mortes e a morte em nossas reflexões. Mas venho pedir licença para usar esse espaço para me despedir de Stella dado que a pandemia nos rouba os passos do luto que incluem missas, rituais de várias ordens e a visão do corpo da pessoa querida. Especialmente isso, estamos privados de perceber que nossa querida Stella não está lá mais. Também por razões geográficas, mas no caso isso fica irrelevante. Então vou falar diretamente com Stella que conheci na primeira reunião convocada por Quinet e que veio a dar origem à EBP Rio. Essa reunião foi na casa dela. Éramos jovens e entusiasmados. Stella, hoje cheguei aqui sem uma rosa nas mãos. Mas cheguei como uma roseira que foi (tem sido) podada depois da floração. Pós floração as flores que já vinham murchando caem e as folhas ficam amarelas. Se há um jardineiro, então, ou se vem a morte com sua foice, acontece a poda. No ponto em que o galho é podado, a roseira sangra e chora. É a seiva a escorrer. Mas eis que a seiva se cristaliza sobre a ferida aberta. Forma uma casca sobre a cicatriz. E a seiva que era vertida como lagrima vê-se empurrada a retroceder fazendo um caminho de volta. Os galhos recebem novo vigor, vemos folhas verdes e no devido tempo novos botões e seus agudos espinhos se apresentam. E as flores se abrem. Desejante a partir de sua existência você nos deixa além do conteúdo da transmissão uma afirmação ética que para nós caminha com o desejo. Da teoria que ensinou e criou, passando pela clínica fecunda, e finalmente se apresentando e nos laços pessoais do afeto. Você esteve presente em momentos de gravíssimas perdas em minha vida, jamais soltando minha mão quando necessário. Solidária em absolutamente todos os momentos. Você foi ao carnaval comigo, aos sambas, às risadas, frequentou minha casa desde que sua filha era pequena. Você acolheu meu medo meu choro e as flores que me enfeitaram quando as cicatrizes se fecharam. Estive com você também em momentos difíceis e principalmente quando festejamos a vida. Com tudo isso termino dizendo apenas que você foi uma mulher brilhante, muito livre, pequenina e forte, muito forte. Porque como é necessário também teve espinhos. A florada virá a nós e nela você estará nesse buquê que no momento nos parece exagerado. Pelo menos eu queria menos.
Obrigada amiga, por tanto