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Biênio 2019-2021

Uma nota sobre a edição de Arquivos da Biblioteca 16
Arquivos da Biblioteca nº16

Por Andrea Vilanova

Mais uma edição segue fazendo série com os números publicados desde 1997. Ao mesmo tempo, coloca-se fora da série por ser a primeira edição digital, e por ter sido construída inteiramente a partir de encontros virtuais, nesses tempos de isolamento social.

Sabemos que um trabalho de comissão é fruto de arranjos contingentes, sob a marca daqueles que se organizam coletivamente em torno de um fazer dirigido à Escola. Como um coletivo peculiar, coloca em jogo o lugar de cada um.

Como afirmou Andréa Reis, nossa diretora, na abertura dos trabalhos do biênio, em 31 de março de 2019: “Miller retoma o termo enclave, ou refúgio, usado por Lacan para falar desse talento da Escola de conseguir articular coletivo e singular. A Escola como refúgio é um lugar ao mesmo tempo dentro e fora do mundo”.

Nesses tempos em que a própria ideia de mundo parece um tanto explodida, sem contornos, como viver essa intrincada relação com a civilização, na ausência de coordenadas precisas? Como sustentar aquilo que, por um lado, nos causa coletivamente e, por outro, se encarna singularmente para cada um, diante dos impedimentos e exigências desses tempos?

Esta edição de Arquivos tentou formular-se como uma resposta possível ao desafio de transmitir nosso fazer Escola, apesar dos tempos que correm, e com o que esses tempos colocam em cena.

Nesse trabalho coletivo – especialmente o trabalho de edição deste número que se encerrou no dia do lançamento, com a presença e as palavras de muitos colegas –, aprendi um pouco mais sobre o que na memória resta imperecível porque se renova, porque pode se reescrever. Agradeço a cada colega de dentro e de fora da comissão pelo enlace criado em torno desse trabalho.

Lançamentos da Biblioteca
Arquivos da Biblioteca nº15

Foi lançada nossa revista Arquivos da Biblioteca, nº15. Este número trouxe uma novidade. Além do que se renova com os textos, fruto do trabalho de muitos, é possível experimentar uma travessia entre o plano físico e o virtual, alcançando outras margens.

Arquivos da Latusa nº24

Acordar para quê? Ainda é possível sonhar com um futuro quando a realidade atual já se apresenta distópica?  Falamos de uma visão de futuro sombrio, com apelo crescente entre os adolescentes, e que de modo especial põe em xeque tanto os limites entre ficção e realidade, quanto ao que chamamos de despertar e de adormecimento. Seguir esse fio nos interessa enquanto psicanalistas e é sobre ele, juntamente com o tema dos sonhos, que nos debruçamos neste número de Latusa.

Fernando Pessoa e as ‘peças soltas’ da escrita poética.
Um estudo psicanalítico.

Mirta Zbrun – Membro EBP/AMP
Rio de Janeiro, 28 de junho de 2019.

Agradeço o convite da Diretoria da EBP-Rio para participar deste evento de lançamento da Revista ‘Desassossego’ da Antena do Campo Freudiano – Portugal. Uma revista de Psicanálise de Orientação Lacaniana cuja inspiração veio, segundo seu diretor, Jose Martinho, do poeta Fernando Pessoa. Em esse seu famoso Livro (S) do DESASSOSSSEGOS, em plural porque são três, no primeiro deles pode-se ler “Cuidarás em nada respeitar, em nada crer, em nada. Guardarás da tua atitude ante o que não respeitas a vontade de respeitar alguma coisa; do teu desgosto ante o que não ames o desejo doloroso de amar alguém; de teu desapreço pela vida guardarás a ideia de que deve ser bom vive-la e ama-la. E assim terás construído o alicerce para o edifício de teus sonhos.”

Em recentes visitas à cidade de Lisboa tive a oportunidade de participar das atividades da ACF- Portugal, fortalecendo assim meus laços de amizade e trabalho com os colegas portugueses. É sabido que a literatura e os poetas, sempre interessaram a Freud, considerado exímio escritor, suas referencias às letras sempre estiveram presentes na sua obra; presentes também em Lacan, desde a “Carta roubada” de Edgard Alain-Poe até o Hamlet de Shakespeare. E o poeta Pessoa, sempre despertou o interesse dos psicanalistas, em especial os de língua portuguesa.

Neste 1º número de “Desassossego” participei com um escrito que intitulei “As pecas soltas da escrita poética” do qual apresentarei hoje um breve resumo. Nele trato da analise da famosa Carta de Pessoa a Casais Monteiro. Nesse estudo psicanalítico, procuro aplicar o conceito de “lalíngua” (lalangue), neologismo lacaniano pelo qual devemos entender uma língua cujo sentido é sempre um sem sentido, uma forma de satisfação que não depende da significação. Foi um desafio usar tal conceito para o estudo de uma obra universalmente conhecida e especialmente instigante como a de Pessoa, um dos nomes mais significativos da Poesia em língua portuguesa, reconhecido não só pelo extraordinário valor de sua obra poética, bem como pela singularidade de sua criação artística; materializada, esta, no fenômeno literário dos ‘heterônimos’, que caracteriza e diferencia a obra poética do autor em relação a todos os grandes nomes do modernismo português. A criação dos heterônimos foi desde sempre observada pela crítica, numa possível elucidação psicanalítica.

Destacarei brevemente quatro pontos que se encontram no meu texto nesta revista:

1º. A linguagem e a lalingua: Pessoa e uma língua do real. Entre os muitos documentos deixados à posteridade pela fortuna critica do poeta encontramos um que despertou a maior atenção pela natureza de autoanálise do processo de criação dos heterônimos e segue sendo crucial para o conhecimento da estrutura psíquica do poeta. Impressionante peça de sua correspondência, em que narra o processo de criação dos heterônimos. Quando surge o domínio da linguagem em sua tenra infância, já aparecem personagens, aos quais dá nome, e vida própria, será este um primeiro ensaio do que irá florescer na idade adulta como seus heterônimos. Trata-se da Carta a Adolfo Casais Monteiro, datada de 13 de janeiro de 1935, onde se lê: (…) desde criança tive a tendência para criar em meu torno um mundo fictício, de me cercar de amigos e conhecidos que nunca existiram. (Não sei bem entendido, se realmente não existiram, ou se sou eu que não existo. Nestas coisas, como em todas, não devemos ser dogmáticos). Desde que me conheço como sendo aquilo a que chamo eu, me lembro de precisar mentalmente, em figura, movimentos, caráter e história, várias figuras irreais que eram para mim tão visíveis e minhas como as coisas daquilo a que chamamos, porventura abusivamente, a vida real. Esta tendência, que me vem desde que me lembro de ser um eu, tem-me acompanhado sempre, mudando um pouco o tipo de música com que me encanta, mas não alterando nunca a sua maneira de encantar. A leitura desta Carta, documento único tão inspirador nos leva a considerar este escrito da linguagem poética de Pessoa como sua lalingua, pois não implica em diálogo, e sim em efeitos que são afetos, que não dizem respeito ao campo da linguagem, mas ao corpo, ao real. Narra como, desde sua mais tenra infância, seu mundo esteve povoado de personagens fantásticos, cuja fala vinda de uma língua outra, e povoaram sua língua; língua arbitrária, que acreditamos proporcionou ao poeta uma satisfação outra, um gozo a mais.

2º. As “peças soltas” do inconsciente real: lalingua onde nascem as heteronímias; seus outros eu. A Carta: (…) A origem dos meus heterônimos é o profundo traço de histeria que existe em mi. .Não sei se sou simplesmente histérico, se sou, mais propriamente, um histero-neurasténico. Se eu fosse mulher – na mulher os fenômenos histéricos rompem em ataques e coisas parecidas – cada poema de Álvaro de Campos (o mais histericamente histérico de mim) seria um alarme para a vizinhança. Mas sou homem – e nos homens a histeria assume principalmente aspectos mentais; assim tudo acaba em silêncio e poesia… Isto explica também que mal, a origem orgânica do meu heteronimismo. Este impressionante documento de autoanálise, inspirou-me atualiza-lo à luz de uma clínica lacaniana: esses fenômenos se materializam nele, implodem, e os vivencia para si mesmo. Na continuidade da leitura vemos um primeiro despertar da heteronímia com o aparecimento de um primeiro “conhecido inexistente”. Perguntamo-nos: qual a função sintomática, para as ‘peças de reposição’ as “peças soltas do real” da escrita poética do Pessoa, uma vez que a clinica lacaniana estuda o sintoma nas contingencias do real?  Um fator suplementar? Talvez de suplência. Em Pessoa, pois, existiria na escrita tal processo de “estabilização curativa” com seu efeito de suplência, por conta da falta de Um pai real perdido temperadamente, viverá na infância com a mãe e o padrasto e mais três irmãozinhos, e depôs, só. Comprova-se como o inconsciente real trabalha na produção de uma poética tão singular como universal que vem de uma lalíngua própria rica em fantasias infantis que preservou como o tesouro da sua linguagem, a que nasce de seu fabuloso “Romance familiar”, nas idas e vindas entre Lisboa, sua cidade natal, e Durban, – África do Sul-, segundo lar da sua infância e da sua primeira juventude.

3o.  A interpretação ‘por ele mesmo’ e a psicanalítica.

A Carta (…) creio que lhe expliquei a origem dos meus heterônimos. Se há, porém qualquer ponto em que precisa de um esclarecimento mais lúcido veremos…, estou escrevendo depressa, e quando escrevo depressa não sou muito lúcido)  O poeta interpreta-se na Carta. A interpretação analítica pauta-se nas defasagens entre “o que se escuta e o que se diz”, entre “o que se escreve, e o que se lê”. Assim, se o que se comunica e se coloca como verdade apresenta-se como da ordem da Proposição, passível de se constituir Verdadeiro ou Falso, — então a “o que se Lee”, para além das encerra uma defasagem, temos ai o lugar da interpretação, podemos ler a escrita poética.

4º.O campo do gozo onde lalingua escreve: escrita da existência de mundos superiores. Carta: (…) Como escrevo em nome desses três?  Sempre que estou cansado ou sonolento, de sorte que tenha um pouco suspensas as qualidades de raciocínio e de inibição; aquela prosa é um constante devaneio.Unir poesia e psicanálise talvez não seja tão novo, antagônicas para alguns, não para aqueles analistas que sempre cultivaram as relações da psicanálise com a arte o teatro e a poesia. Assim, no cerne dos heterónimos o poeta experimenta outras vidas, algo retorna no real da sua escrita. Para concluir: Um forçamento do sentido, das palavras, para o saber do gozo: a escrita do forçamento. Carta: (…) por volta de 1912, salvo erro (que nunca pode ser grande), veio-me à ideia escrever uns poemas de índole pagã. Esboçaras-me, contudo, numa penumbra mal urdida, um vago retrato da pessoa que estava afazer aquilo. A letra, nessa carta-letra, como materialidade é a essência do significante enquanto traço, é o suporte material do discurso. Pensamos neste ensaio ter alcançado, ao menos em parte, o propósito de demonstrar não só o alto valor de uso que fez Pessoa da Língua portuguesa como o interesse real de seu estudo para a psicanálise, em especial para a psicanálise de orientação lacaniana, cujas referências foram utilizadas.

O desassossego da língua

A revista Desassossegos inicia sua série bem a gosto de seu título: em seu primeiro número, em três seções, ela homenageia a língua portuguesa, Fernando Pessoa e a própria Psicanálise, assim resumindo o enorme campo que cobre.

Desassossegos, que lhe dá nome, é palavra que designa de forma quase precisa o alvoroço, a inquietude, a balbúrdia, de que se constitui uma língua, com seu aluvião de erros, singularidades, invenções, usos, hábitos, de restos, cristais de restos, enfim, fragmentos de línguas e de vida.

Desassossegos, com seus profusos “s” – quantas palavras abrigam tantos “s”? – é uma bela palavra que se insinua em nossos olhos e ouvidos, que sibila e corta com uma riqueza desconcertante de sons aliterados a sugerir e engendrar em nós algo da imperiosa satisfação poética a que Fernando Pessoa nos conduz . Inspirado no livro dos Desassossegos, de peças soltas, como nos diz Mirta Zbrun, é a prova mais tangível de que só há “fragmentos, fragmentos, fragmentos”, como cita José Martinho.

Uma palavra sobre as seções:

A língua portuguesa.

 Talvez uma das principais perícias na organização desse número seja abordar numa primeira seção a língua portuguesa, sua vida inquietante, sua elegância viva e múltipla, talvez algo desengonçada na sua bricolagem automática, os retalhos que resultam de suas colonizações, invasões, tantos estrangeirismos e imperfeições que  tornam a língua portuguesa  viva, capaz de produzir múltiplas geringonças linguísticas, para aproveitar o termo de Filipe Pereirinha, geringonças e engenhocas (eu acrescento) de dizer e escrever que se inventam. Tudo isso que determina o desassossego que anima a nossa língua. Sempre estrangeira.

Nessa seção Filipe Pereirinha nos traz a palavra fundamental “geringonça” para designar, ou melhor, nomear o que pode ser a melhor arte do último ensino de Lacan.

Marcus André, por sua vez, nos faz entreouvir, através do impossível de traduzir, a tradução possível e os efeitos de ressonância, recorrendo a Guimarães Rosa e o primoroso conto do onceiro-onça e sua linguonça.

Pessoa.

José Martinho aborda, em um primeiro artigo, as loucuras de Pessoa, em seus heterônimos, e, em um segundo artigo, o uso de sua poesia para apanhar o mundo moderno ao pé da letra, tomando a letra como substância de gozo, em sua exaltação futurista do mundo moderno.

Márcia Rosa, por sua vez, irá abordar a relação da poesia de Pessoa com seu uso muito próprio da psiquiatria, a seu serviço, e do autodiagnóstico, como tentativa de dar conta da multiplicação de eus como recurso para lidar com o que designava como vazio de si, e o escândalo e o perigo à ordem a que este vazio devastador conduziria.

Por fim,  Mirta Zbrun aborda minuciosamente através do fio sensível de sua correspondência, como nos demonstrou em seu texto, a relação entre a escrita poética sob seus heterônimos e a psicanálise lacaniana.

Psicanálise.

Filipe Pereirinha abre essa Seção com o primoroso texto “A cada um sua língua”, em que através de um exemplo muito preciso e sugestivo nos demonstra que a língua é feita desse aluvião de equívocos, de desordem, que é a dimensão viva e inquieta da língua quando mordida pelo inconsciente, essa língua em fuga. É essa língua aflita, desassossegada e estrangeira que produz o inconsciente e a verdade do sujeito numa análise, a língua de que se goza.

Em “O corpo, sua imagem e o resto”, Marcelo Veras tratará do corpo para a medicina e para a psicanálise, bem como o sintoma médico que rompe o silêncio dos órgãos, como assinalava Canguilhem, e sua diferença com o sintoma para a psicanálise que fala de outra coisa que não os órgãos e cuja voz não buscamos calar, mas sustentar como dizer.

Por fim, M Lídia Arraes Alencar e Cristina Duba abordamos a questão da supervisão em psicanálise buscando articulá-la às noções de responsabilidade e ato analítico, fazendo sobressair a dimensão de aposta. Isso se exemplifica num fragmento de supervisão, onde o elemento da surpresa tem valor retificador da posição do analista.

Leitura agradável, Desassossegos não nos sossega, mas nos permite gozar de suas palavras e dos efeitos que podemos extrair das ressonâncias do seu texto. Agradecemos, afinal, a oportunidade de partilhar essa experiência de escrita e leitura de desassossegos que se encontram sem, no entanto, se recobrirem, separadas e unidas por, desculpem a imagem, um oceano linguístico.

Cristina Duba
27.06.19
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