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Com quantos elementos se faz uma invenção?

Marcus André Vieira

É preciso saber que mesmo que nenhum sujeito saiba, ainda é Real. É um depósito. É um sedimento que se produz em cada um quando começa a se aproximar daquela relação sexual que aliás nunca chegará” (J. Lacan).1

[O mundo] superpõe lixo que se acumula sem se preocupar minimamente com as contradições (…), um empilhamento, um depósito de destruição de mundos que vai acontecer, e apesar de ser incompatível, não entendo muito bem, dentro de todos nós (J. Lacan).2

Há momentos em que, abandonados de toda teoria, de toda poesia, esfaceladas humanidades, direitos, causas, acossa-nos a necessidade de inventar.

Inventar, hoje, parece vital. Só usarei, porém, o termo no sentido mais restrito que lhe dá J. A. Miller para se referir às invenções àquela condição que se costuma chamar de esquizofrenia. Partindo desse contexto bem concreto, acredito que possamos fazer da invenção uma ferramenta mais que um vago anseio.

Miller retoma o termo a partir de sua leitura de uma passagem de Lacan, em “O aturdito”, quando caracteriza a esquizofrenia como um modo radical de exílio da linguagem comum.3 A experiência corporal de base é de pura fragmentação e não há como contar com nada do que a comunidade linguística (qualquer discurso estabelecido) oferece como meio comum para se constituir algum corpo ou subjetividade. É preciso fazer sua própria construção para estabilizar um “si-mesmo” corporal e um lugar em um discurso. A isso chamaremos de invenção.

Estamos em plena clínica da psicose, mas vamos concluir no mesmo sentido da orientação de um título célebre de E. Laurent: “O que as psicoses ensinam à clínica da neurose”. Talvez possamos nos perguntar hoje: “O que as invenções esquizofrênicas ensinam sobre o tema da invenção em geral?” E mais, “Podem as invenções da psicose contribuir para decifrar a política de hoje – quando o Outro é inconsistente como o do esquizofrênico?”

Transcendência e ex-nihilo

Sabemos que Lacan empregou várias vezes o termo invenção, dizendo que definindo-o, por exemplo, como “um troço [truc] para preencher o furo do Real”.4

Nesse sentido, bem vasto, de um “todos inventamos”, há uma tendência a perder a força do conceito. O próprio Lacan, apesar da noção que se depreende dessa definição, que poderíamos chamar de invenção generalizada é muito mais preciso. Sua invenção, por exemplo, para ele, é o objeto a e nada mais.

O perigo é que tudo seja invenção e nada o seja. Talvez por isso o termo tende a ser tomado, mesmo em nosso campo, no âmbito de um tema romântico, no qual uma invenção tem a transcendência como característica fundamental. Ela traria consigo uma novidade sempre maior que aquela do conjunto de seus elementos, como se uma força dos céus tivesse vindo não apenas reuni-los, mas tornar-lhes outra coisa, radicalmente distinta do que são.

Escolhi este título como um alerta para não abordemos o tema da invenção nesse sentido. Sejamos mais materialistas e reservemos essas coordenadas de transcendência para o que chamaremos de criação, que é a oposição por onde Miller inicia seu texto.

Pensei em distinguir três registros para deixar mais claro o lugar da invenção.

A primeira é religiosa. É a ideia de que toda criação, tudo o que é criado se refere e se inclui em uma causa, e causa primeira seria Deus.

O segundo é a criação ex-nihilo, sem causa, “do nada”, um “assim é” sem que se precise perguntar sobre como veio a ser. É como Lacan a define no Seminário 7, sem Deus ou, pelo menos, sem que se precise absolutamente interessar por ele. É a melhor postura para o analista, pois, quando em uma análise surge algo novo, perguntar pela causa, pela origem, pelo criador dessa criatura, sua razão profunda, seu significado último, só nos leva a esvaziar o que acaba de acontecer e infinitizar o tratamento.

Um parêntese: Criação ex-nihilo diz, em outros termos, que não se pode abandonar a linguagem para falar dela, que não há metalinguagem, que não há relação sexual. Ex nihilo é ainda outro nome para nosso estruturalismo segundo o qual não supomos nenhum exterior à caverna platônica, ao discurso. O real lacaniano está na caverna, no discurso. Nossa clínica é decididamente “cavernícola”, como assinala J. C. Milner.5

O vaso e a bricolagem

O terceiro registro é o da invenção.

Mesmo em nosso campo sem Deus, sem um real transcendente, devemos opor criação ex-nihilo e invenção. Creio que podemos demonstrá-lo com relação aos elementos em jogo em cada um dos casos.

O que chamaremos de criação é feito de tal forma que o objeto produzido nos captura de tal forma que obscurece tudo. Ele ofusca os elementos de sua criação, a criatura apaga seu criador. O maior exemplo é o vaso de Heidegger retomado por Lacan no Seminário 7. Pensa-se apenas no vaso e no nada dentro dele e a seu redor. Ninguém pensa no barro, na palha, ou nas mãos do oleiro. O objeto da criação nos atrai do exterior, mas nos toca no íntimo, sempre põe em jogo alguma extimidade. A referência conceitual de Lacan para esse tipo de objeto “a’, estranho objeto da psicanálise.

Ainda assim é um objeto, mesmo que seja um desobjeto, um objeto que não se coloca exatamente diante de nós, gegenstand, mas ao lado, ou debaixo do tapete. Uma invenção, por outro lado, nunca nos deixa esquecer seus elementos. Ela se opõe a uma criação porque envolve o que Miller chama de “materiais pré-existentes”. Na montagem desses elementos que constitui a invenção eles nunca deixam de ser reconhecidos como tais.

Perdoem-me se trago a vocês definições ou exemplos aparentemente distantes da constituição de um corpo ou de uma subjetividade estável, mas acho melhor que sejamos decididamente cavernícolas, ou seja, materialistas nesse assunto. Proponho, assim, a vocês esta imagem de uma invenção.

Fig 1 - Cao Guimarães, série Gambiarras (2000-2014). Disponível em: <http://www.caoguimaraes.com/foto/gambiarras/>. Acesso em: 01 de dezembro de 2020.

Fig 1 – Cao Guimarães, série Gambiarras (2000-2014). Disponível em: &lt;http://www.caoguimaraes.com/foto/gambiarras/&gt;. Acesso em: 01 de dezembro de 2020.

Nosso ponto de partida, dessa forma, para abordar a invenção é sua aproximação, feita por Miller, pelo menos no que concerne a experiência psicótica com relação ao que Lévi-Strauss define como bricolagem.

O termo não tem tradução precisa em português, engenhoca, gambiarra,

geringonça, arranjo, todos servem, cada um com suas vantagens e desvantagens. Essa invenção da foto seria apropriadamente chamada de gambiarra, que enfatiza um aspecto essencial a toda invenção, o de que ela é feita para servir a um fim com os meios disponíveis, ela é sempre uma tecnologia da necessidade.

Como se vê, aqui destaca-se não tanto o objeto que esses materiais constituem, muito mais a trama desses múltiplos objetos. No entanto, eles são desviados de sua função original, segundo a definição de Levi-Strauss e por isso fazem parte da invenção, em que se vê claramente o que são e o que se tornaram nesse novo agenciamento.

Para fazer a passagem de uma invenção como essa, digamos, uma invenção na cidade, para invenções em que o subjetivo é mais evidente, proponho alguns pontos. Esses pontos são dogmáticos apenas na aparência, são muito mais minha maneira de reunir toda uma massa de referências do nosso campo sobre o assunto tendo ao centro minha ignorância.

São a minha bricolagem a partir de minhas leituras, mas, sobretudo, do trabalho de um seminário de pesquisa durante o ano de 2018 em um hospital do Rio de Janeiro, o Instituto Phillipe Pinel, em que discutimos casos de várias instituições cariocas.

I Uma invenção não tem inventor

Fica claro pelo que desenvolvi até aqui. Invenção, neste sentido, é uma produção de um “eu” quando se está em um radical “não há”. É assim que um corpo é definido onde antes havia apenas órgãos sem corpo. Nesse sentido, como diz Miller, ele é o oposto de Deleuze ou, como S. Zizek formula, tenta lidar com o fato de uma vida de órgãos sem corpo e não de um corpo sem órgãos. Acontece da invenção delimitar um inventor e até dar-lhe um nome, representando-o pelo Outro, mas só a posteriori.

Segundo parêntese: Damos muito impacto ao fato de Joyce ter se destacado por dar trabalho a estudantes universitários, mas sua invenção é anterior, se situa bem mais pelo modo como ela punha em ação seu gozo em “destruir” a língua inglesa à sua maneira.

II Uma invenção é feita com materiais pré-existentes

Fig 2 - BISPO_000274; Título atribuído: [Abajour]; No. de inventário: MBRAC.ABR.0374 – Autor: Arthur Bispo do Rosario; Data: S/d.; Dimensões: 193 x 68 x 14 cm; Técnica: Montagem, costura, bordado, escrita, carpintaria, revestimento; Coleção: Museu Bispo do Rosario Arte Contemporânea.

Fig 2 – BISPO_000274; Título atribuído: [Abajour]; No. de inventário: MBRAC.ABR.0374 – Autor: Arthur Bispo do Rosario; Data: S/d.; Dimensões: 193 x 68 x 14 cm; Técnica: Montagem, costura, bordado, escrita, carpintaria, revestimento; Coleção: Museu Bispo do Rosario Arte Contemporânea.

Já vimos. Vale apenas destacar o status desses materiais. A ideia de Levi Strauss é válida: os objetos que entram na composição de uma invenção são desviados de sua função para fazê-los funcionar fora de seu significado original e, assim, produzir um novo efeito. Nesse sentido, os objetos que entram no arranjo nunca são objetos do senso comum. Eles são elementos de um arranjo. São peças soltas, mas não independentes.

Esta imagem parece-me dizê-lo claramente. Perdemos um pouco de vista o aspecto gambiarra, de “fazer com” do “y”, da sua utilização, digamos, no mundo. Mas se aceitarmos que isso teve seu próprio uso, podemos pensar que também é uma invenção. Parece ótimo porque os materiais não são objetos em si.

É uma obra de Arthur Bispo do Rosário, grande artista brasileiro e também internado em um hospital psiquiátrico durante trinta anos quando produziu quase toda a sua obra, feita de muitas coisas, mas claramente marcada pelo que chamamos de “y” e claramente ligada à sua estabilização subjetiva.

III Os materiais entram na composição como significantes

Como são coisas que não perdem sentido, em seu novo uso, que só ganham sentido no próprio arranjo, ganham o status de significantes. Um significante para Lacan é o que não faz sentido em si mesmo, mas apenas em um jogo de diferenças. O principal, entretanto, não é compor um sentido, como nas invenções delirantes paranoicas, mas fazer funcionar uma pequena máquina

de subjetividade. Vejam que estou usando o significante muito mais próximo do que chamamos de letra, como quando às vezes fazemos oposições entre a letra e o significante.

Fig 3 - R_MG_4776; Título atribuído: [Carrinho-arquivo I]; No. de inventário: MBRAC.ABR.0420.0; Autor: Arthur Bispo do Rosario; Data: S/d.; Dimensões: 95 x 90 x 55 cm; Técnica: Montagem, carpintaria, costura, escrita, pintura, perfuração; Coleção: Museu Bispo do Rosario Arte Contemporânea.

Fig 3 – R_MG_4776; Título atribuído: [Carrinho-arquivo I]; No. de inventário: MBRAC.ABR.0420.0; Autor: Arthur Bispo do Rosario; Data: S/d.; Dimensões: 95 x 90 x 55 cm; Técnica: Montagem, carpintaria, costura, escrita, pintura, perfuração; Coleção: Museu Bispo do Rosario Arte Contemporânea.

Esse trabalho, sempre do Bispo, o materializa. O aspecto da gambiarra não volta a ser visto, é uma invenção mais pessoal, uma gambiarra subjetiva. Mas mostra muito como os materiais de uma invenção são sempre letras.

IV Uma invenção é um savoir-y-faire e não un savoir-faire

É um “saber se virar” e não um know-how. Não é uma ideia, um conceito que se aplica à realidade, mas um novo instrumento para fazer concretamente algo de que a realidade necessita. É o sentido do “h” na definição de Lacan de sinthoma como a fração mais singular do gozo de um falante e que, por essa razão, não pode ser inscrito em sua fala ou em sua vida. Você só pode “fazer com” ele, e isso, sur le champ, fazer uso dele.

Geralmente é uma realidade social, mas para outros pode ser mais particular, subjetiva e pode ser uma realidade estilhaçada e fragmentada. É nestes que a invenção é mais necessária. Ela é mais um “serve a” do que um “é isso”. Ela coloca mais um “fazer” em jogo do que um novo objeto.

Fig 4 - BISPO_000136; Título atribuído: [Regador]; No. de inventário: MBRAC.ABR.0052; Autor: Arthur Bispo do Rosario; Data: S/d.; Dimensões: 15 x 19 x 8 cm; Técnica: Revestimento, costura, bordado, escrita; Coleção: Museu Bispo do Rosario Arte Contemporânea.

Fig 4 – BISPO_000136; Título atribuído: [Regador]; No. de inventário: MBRAC.ABR.0052; Autor: Arthur Bispo do Rosario; Data: S/d.; Dimensões: 15 x 19 x 8 cm; Técnica: Revestimento, costura, bordado, escrita; Coleção: Museu Bispo do Rosario Arte Contemporânea.

Um exemplo é esta montagem-objeto de Bispo em que se entrelaçam: 1) o fio de seu uniforme de manicômio, 2) um

objeto destinado ao lixo, um regador 3) uma palavra e 4) a ideia delirante de que deveria apresentar os objetos do mundo a Deus no julgamento final. Com tudo isso, ele inventou um meio de revesti-los para recriá-los com sua nomeação bordada. O efeito final é tão forte no Outro, nós por exemplo, que Bispo, com essa invenção entre outras, obtém, lugar no mundo em que vivia, renome e, suponho, estabilização.

V Uma invenção é um

A invenção resiste à transformação em mercadoria, não há tecnologia da invenção que ganhe corpo em uma fábrica porque é o que é possível em uma situação, apenas nela e com os materiais que estão a bordo.Não existe tecnologia ou manual da invenção, mas se, como hipótese, pudermos aproximar a invenção de um nó, um nó borromeano, talvez tenhamos algumas indicações fundamentais de Lacan em que nos apoiar.Caso seja um nó Borromeu, diremos que em sua multiplicidade ela amarra elementos totalmente distintos da realidade (como os três registros do nó), de uma maneira muito especial, à maneira da trança em que não há relações dois-a-dois (não há relação sexual), mas uma composição, uma montagem “coletiva” sem associações binárias.

VI Uma invenção / sinthoma tem um ponto de extimidade

Essa é uma hipótese, mas se a seguimos, veremos que uma invenção não apenas monta seus elementos de modo firme e funcional, mas produz igualmente um efeito de estranheza, de extimidade que é essencial. É um “a mais”, mais de gozar, pelo fato de sua existência. Basta comparar o prazer com um produto comprado para determinada função e o prazer de pôr em funcionamento uma gambiarra que faça o mesmo. A segunda tem um efeito singular sobre nós, parece-nos muito mais viva.6

Esta figura, difícil, que Lacan propôs no seminário RSI, o diz (Fig. 5)
Esta figura, difícil, que Lacan propôs no seminário RSI, o diz (Fig. 5)

Um nó de invenção, borromeano, produz o lugar do objeto a. Não extrai, como no trabalho analítico com a fantasia, trazendo o que estava debaixo do tapete, mas cria a sala e o tapete e, assim, estabelece a possibilidade de um lugar para o resto onde, até então, não havia.

É bom ter o objeto a de volta, porque ele é experiencial, é do campo da experiência subjetiva. É o limite do que pode ser sentido, mas é experimentado em sua estranheza, angústia euforia. O nó, por outro lado, não é uma experiência, pois é um modo criado por Lacan para pensarmos qualquer experiência. Se algo experiencial se vive do trabalho com o nó seria no máximo a certeza de que ça tient, “está amarrado”.7

Portanto, uma invenção permite que o inventor experimente a estranheza, a incerteza quanto a o que é o Outro a quem se dirige a invenção. É o que nos tira da paranoia, que define o Outro para não ter dúvida sobre ele, mas acaba, muitas vezes tendo que destruí-lo ou temer ser por ele destruído.

VII Uma invenção / sinthoma pode ter infinitos elementos e pelo menos alguma parte

Fig. 6 - BISPO_000; Título atribuído: [Dentaduras]; No. de inventário: MBRAC.ABR.0376; Autor: Arthur Bispo do Rosario; Data: S/d.; Dimensões: 120 x 64 x 11 cm; Técnica: Montagem, carpintaria, costura; Coleção: Museu Bispo do Rosario Arte Contemporânea.

Fig. 6 – BISPO_000; Título atribuído: [Dentaduras]; No. de inventário: MBRAC.ABR.0376; Autor: Arthur Bispo do Rosario; Data: S/d.; Dimensões: 120 x 64 x 11 cm; Técnica: Montagem, carpintaria, costura; Coleção: Museu Bispo do Rosario Arte Contemporânea.

Um elemento é contabilizável, uma parte não. Os convidados de uma festa podem ser contados, mas não seus sentimentos ou o que levam em seus bolsos. Fazem parte da festa e podem torná-la uma alegria ou um horror, mas não podem ser contados. Não é o melhor exemplo porque nos faz pensar que as partes são imateriais, mas não são, só não têm nome, como na figura abaixo.

VIII Uma invenção em seu fazer serve para produzir um lugar no Outro

A questão é quem é esse Outro. Deve-se dizer que é o mais geral possível que ela produz um corpo. Isso é mais interessante do que dizer que ela produz um lugar de sujeito.

Se dizemos que uma invenção produz um sujeito, um lugar do sujeito, estamos dizendo que esse Outro é uma estrutura ordenada como numa estrutura neurótica ou edipiana. É o corpo que se estabiliza em torno de um ponto cego, o sujeito, e também dos pontos cegos na superfície corporal, as zonas erógenas como Freud as descreveu.

Você pode ter muitos tipos de corpo, não apenas o corpo neurótico. Assim, de muitas maneiras, não apenas nas zonas erógenas, uma invenção produziria um corpo em relação a alguma

alteridade, a algum Outro.

O Outro no inventorium

Essa era minha lista.

Três questões para concluir sobre o Outro da invenção, que nos abrem para a questão maior do nosso tempo no meu entendimento: O que significa produzir um Outro no contexto da alteridade de um Outro que não existe?

1.

Podemos dizer que uma invenção pode ser feita sem materiais da realidade? Uma invenção pode ser feita apenas de memórias, por exemplo, ou apenas significantes, apenas elementos da “realidade psíquica”?

Esse é o caso da neurose. Acho que é isso que mostra o passe. O que chamamos de “nomes de gozo” são invenções, ou melhor, são a ponta do iceberg de uma invenção subjetiva para ter um corpo diferente daquele da fantasia.

Os materiais pré-existentes, neste caso, são os restos da fantasia conforme foi percorrido na análise. São as marcas, as letras do trauma da língua. Acho que se pode dizer que o psicótico também faz suas invenções com as letras de gozo que pôde extrair de tudo o que pôde ouvir de si mesmo (por não ter corpo, pelo menos no caso do esquizofrênico, não teria tido a superfície sobre a qual suas letras seriam inscritas). Aqui, esses materiais não são vistos na história, como no caso do neurótico que mantém uma narrativa de si por meio da fantasia.

2.

De que Outro estamos falando quando falamos em produzir um lugar no Outro? Em ambos os casos, o do esquizofrênico e o do passante, estamos diante de um Outro inconsistente (porque, para o passante, a fantasma terá se tornado uma estrutura inconsistente). Portanto, produzir um lugar no Outro é também produzir um Outro, ou dar-lhe um pouco de estabilidade.

Aqui vemos o que poderia ser um valor político de invenção, uma política do sinthoma como uma política da invenção. Isso ocorre porque vivemos em um mundo de um Outro inconsistente, um Outro que não existe, o Outro nãotodo, o do mercado, por exemplo.

Sabemos que, em um mundo onde esse Outro é dominante, a polarização muitas vezes parece ser a única forma de estabilizar as coisas. Graças à sua rigidez imaginária, às suas polaridades mortíferas e odiosas, por exemplo, o paranoico faz seu corpo expelindo o gozo do Outro, definido, no imaginário, como o demônio, por exemplo. No nível “macro”, vemos o que pode fazer de estrago um ambiente e um discurso paranoico, no qual estamos hoje claramente mergulhados no Brasil: os velhos, os pobres, os negros são os que devem ser eliminados para a estabilidade do corpo social.

3.

Seriam as gambiarras e sua singular estranheza uma saída do discurso capitalista sem ser pela alternativa paranoica?

Por isso me interessa dizer que a verdadeira invenção deve produzir uma extimidade, não apenas porque Lacan propôs que o nó “produz” o objeto a, o objeto da estranheza, mas porque o vínculo que a extimidade sustenta é muito interessante. Talvez seja o vínculo mais adequado para descrever o que move uma análise. O amor de transferência é um amor estranho, muito mais interessante que o da fraternidade, sempre racista no dizer de Lacan.

Esse é o laço próprio da psicanálise no meu entender, o da extimidade, do objeto a, do resto como aquele que sustenta o laço e que Lacan chamou de “garantia da alteridade do Outro”.

Não poderia este ser o comum que nos apoie? Um nós que nos reúna? O do humano tomado como podendo ser outra coisa do que é? Não se trata de buscar Outra cena como realidade alternativa, mais ou menos utópica, mas sim a possibilidade das coisas, na distopia em que vivemos, sempre poderem ser Outra coisa. Na luta contra a necropolítica assim como na contramão do identitarismo rígido ao modo americano, é preciso sustentar a todo instante, como em nossa clínica, que um pobre possa ser outra coisa que não pobre, ou um negro, ou uma mulher.

Sites recomendados http://www.ernestooroza.com/tag/objects-of-necessity/
https://artemidiastec.wordpress.com/2018/06/04/gambiarra-tecnologia-da-favela/ https://museubispodorosario.com/portfolio/acervo/
¨ Este texto retoma o essencial de minha apresentação no departamento de psiquiatria e psicanálise do ICDEBA, Buenos Aires, outubro de 2020. Agradeço o convite dos amigos da diretoria deste departamento (publicado como Vieira, M. A. Com quantos elementos se faz uma invenção, Latusa, n. 25 Impossível tirar o corpo fora: Exílios e confinamentos, EBP-Rio / Contracapa, Rio de Janeiro, 2021).

1 Lacan, J. (1973-1974) O Seminário, livro 21, op. cit. Lição de 12/2/74, Inédito.
2 Lacan, J. (1964), O Seminário, livro 10: a angústia, Rio de Janeiro, Zahar, 2005, p. 43 (28/11/1962). 3 J. Lacan, “O aturdito”, Outros Escritos, Rio de Janeiro, JZE, 2003, p. 475 e Miller, J.-A. “A invenção psicótica”, Opção Lacaniana, n.º 36, São Paulo, Eolia, 2003, pp. 7 – 16.
4 “Nous sommes, tous, obligés d’inventer un truc pour combler le trou du reél”, Lacan, J. (1973-74), Le Séminaire XXI, les non-dupes errent, lição de 19/2/74, Inédito.
5 Milner, J. C. Le périple structural : figures et paradigme, Paris, Seuil, 2002 ; Lagrasse: Verdier/poche, 2008.
6 É o que Antônio Teixeira aproxima da aura de W. Benjamin, ibid. Para um desenvolvimento preciso sobre a relação entre a gambiarra e o mercado, ver Teixeira, A. “A aura da gambiarra”, Mosaico: Estudos em Psicologia, v. 7, n.º 1. p. 45-60, 2020 (disponível em: https://periodicos.ufmg.br/index.php/mosaico/ article/view/24821, acesso em setembro de 2020).
7 Vieira, M. A. “Está Amarrado – as psicoses hoje”, Opção lacaniana, n.º 80/81, p. 91-96, 2019.
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