Mulheres-oráculo

Mariana Dias

“Eu me assusto e olho para ela. Parece pálida e inchada. […] Levo-a até a janela e examino sua garganta. Ela resiste um pouco, semelhante às mulheres que usam uma dentadura artificial. […] Então ela abre a boca adequadamente, e à direita descubro uma grande mancha branca; em outro lugar vejo, em estranhas formações crespas, que evidentemente tinham como modelo os ossos turbinados do nariz, extensas crostas cinzentas esbranquiçadas.”¹

E assim começa a psicanálise, não sem este belo e paradigmático sonho. Pedindo licença poética à Virginia Woolf, é despertado por ele que Freud acenderá uma tocha em um aposento vasto onde ninguém jamais esteve². Continuar dormindo mesmo no ponto máximo da angústia foi um caminho sem volta. Quando examina a garganta de Irma, que na transcrição de sua análise descreve como cavidade oral, dá de cara com o horrível do buraco.

É bastante curioso como Freud vai somando outros significantes ligeiramente distintos à cadeia associativa. De Hals, garganta, vai para cavidade oral, Mundhöhle, aglutinação de dois outros significantes, onde Mund quer dizer boca e Höhle caverna. Qualquer alusão ao órgão sexual feminino fica, logo, terminantemente autorizada, pois o inconsciente não dorme em serviço.

“Chamo rapidamente o dr. M”³. “Agora meu amigo Otto também está ao lado dela, e meu amigo Leopold a auscultava através do corpete”⁴. Vemos como o corpo clínico vai entrando em cena, enquanto Freud vai graciosamente saindo à francesa, fragmentando sua figura nos médicos substitutos e fazendo aparecer aí o sujeito dividido.

Por um lado, queria se livrar da culpa pelo fracasso no tratamento concedido à Irma. Coisa que faz dizendo que se as dores insistiam era exclusivamente culpa dela. Em troca, o ganho secundário de preservar a reputação do estimado Fliess, seu Outro do saber e amparo fundamental para aplacar um pouco da solidão, verdadeira destinatária das cartas que Freud então escrevia.

Mas o enigmático não está aí. O ponto de interrogação, Freud põe no que, num esforço de poesia, nomeia “umbigo do sonho”. Em suas palavras, “cada sonho tem pelo menos um ponto em que ele é insondável, um umbigo, […] com o qual ele se vincula ao desconhecido”⁵. Uma linda metáfora para falar de origem, e que joga luz na hipótese, aí embrionária e discretamente posta na nota de rodapé, de um extravio da origem. É que o umbigo cedo ou tarde cai do corpo do bebê. Esta é a zona onde Freud se encontra em uma exclusão interna a seu objeto.

Só um pouco mais tarde é que Emmy von N. aparece para ensiná-lo seu devido lugar e que se tratava bem mais de deixar o rio seguir seu curso. Por ora, a boca de Irma era um túmulo; sequer abria e nada revelava. Era também o enigma do desejo da mulher histérica que estava em causa.

Atualizando o oráculo de Delfos, Irma não revela nem oculta, faz signo⁶. A verdade, é que nem ela e nenhuma entre todas as outras pacientes de Freud lhe escondia nada que não estivesse, também, intimamente escondido delas. Então, que havia de tão horrível naquela cavidade que queria se dizer caverna?

Talvez se possa ler algo num deslizamento que leva do “cavernoso”, que referencia o órgão sexual feminino, aos médicos que querem saber sobre a sexualidade feminina. Eis que Freud nos chama para dar uma olhada. Se publicou este sonho foi porque era endereçado àqueles que se sentissem convocados a se inserir no conjunto que está ali sugerido a nível significante. É a enunciação de um “Nasçam, psicanalistas, deste ventre! E me ajudem nesta empreitada de saber o que querem as mulheres”.

Ante a falta do significante para escrever a mulher no inconsciente, o psicanalista brota ali para fazer uma espécie de suplência, segurar as pontas diante do buraco em que Freud se meteu. Este buraco, que Lacan chamará de real, é a mancha branca. Porque indescritível, porque não cessa de não se escrever. O diabo mora mesmo nos detalhes… E não seria detalhe um dos nomes do não-todo?

“De imediato, também sei qual a origem da infecção. Recentemente […] Otto lhe aplicou uma injeção com um preparado de propil, propileno… ácido propiônico… TRIMETILAMINA”⁷. É a voz de ninguém, voz que se ouve no que se diz, voz oracular como a que enuncia “sa Turos”, com a diferença de que onde Aristrando acredita ver um sinal do destino, a interpretação psicanalítica escuta um desejo.

Sem dúvidas, a clínica psicanalítica se deve ao enigma do feminino. E talvez Freud amasse demais seu enigma para perdê-lo. Para ele, a mulher restará como o continente negro da psicanálise. Um dark continent, exatamente em inglês, salta aos olhos – fazendo furo, não-todeando o texto escrito em alemão⁸ -, para designar uma língua estrangeira: a da ocultação, do silêncio, da desaparição, dos esquecimentos, da solidão⁹. Signos (Ø) de um modo de gozar feminino, onde a mulher é Outra para si mesma. Trimetilamina foi a solução freudiana. As cartas estavam na mesa: “Decifra-me ou te devoro”10.


Notas:
¹ Freud, S. (2019). Obras completas, volume 4: a interpretação dos sonhos (1900). São Paulo: Companhia das Letras, p. 139.
² Woolf, V. (2014). Um teto todo seu. São Paulo: Tordesilhas, p. 121-122.
³ Freud, S. (2019). Obras completas, volume 4: a interpretação dos sonhos (1900). Loc. Cit.
⁴ Ibidem.
⁵ Ibid., p. 143.
⁶ Miller, J-A. (2016). Un esfuerzo de poesía. Ciudad Autónoma de Buenos Aires: Paidós, p. 23.
⁷ Freud, S. (2019). Obras completas, volume 4: a interpretação dos sonhos (1900). Loc. Cit.
⁸ Freud. S. (1890-1939). “Die Frage der Laienanalyse”. In: Gesammelte Werke, p. 1995. Disponível em: < http://staferla.free.fr/Freud/FREUD%20Gesammelte%20Werke.pdf >. Recuperado em 05/01/2022.
⁹ Brousse, M-H. (2020). Lo femenino. Ciudad Autónoma de Buenos Aires: Tres Haches, p. 12.
10 Enunciação do enigma da Esfinge.
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