Jornada de Cartéis 2025
Data: 5 e 6 de dezembro de 2025
Cartel e transferência de trabalho: amor, dizer e acontecimento
- Convidados: Sérgio Laia (AME EBP/AMP) e Laura Rubião (Diretora de Cartéis da EBP)
- Prazo do envio de trabalhos: 03/11/25
Argumento
CARTEL E TRANSFERÊNCIA DE TRABALHO: AMOR, DIZER E ACONTECIMENTO
No ato de fundação de sua Escola[1], em 1964, o cartel é proposto por Lacan como órgão de base para o trabalho a ser nela executado e também, nos diz Miller, como uma máquina de guerra contra os didatas. Foi com o intuito de operar sobre os efeitos do grupo (de cola e inércia), para que um trabalho pudesse se dar, que ele o criou — e do qual esperava que fizesse a psicanálise avançar.
Miller propõe, no curso O banquete dos analistas[2], de 1990, a tese de que a razão que guiou Lacan na fundação de sua Escola foi a transferência de trabalho, que ela concerne ao ensino da psicanálise, à sua transmissão e, inclusive, ao modo de transmissão deste ensino. Está na base da Escola como conceito. Trata-se do psicanalista não em sua função clínica, esclarece, mas em sua relação com a Escola enquanto trabalhador.
Aí vemos se entrelaçar a relação entre cartel e transferência de trabalho, de modo que podemos tomá-lo como um dispositivo privilegiado em relação a ela.
Dito isto, podemos pensar que falar de cartel é falar de transferência de trabalho. E aqui surge uma pergunta: que ponto é este em que o cartel incide e que lhe permite ocupar tal lugar?
Talvez a função do mais-um possa nos dar uma pista, pois o mais-um tem como função, justamente, ao ser designado para este papel, não ocupar a posição esperada do líder e da suposição de saber. Isto é, para que cada componente do cartel realize um trabalho pessoal e não se deite no conforto de fazer o que o mestre mandar ou de aprender o que o mestre ensinar.
O mais-um é, portanto, aquele que aponta para o furo da função do líder, que põe a circular o saber, fazendo de cada um um mestre. A elaboração de saber de cada um é provocada pelo mais-um. Então, talvez, a própria estrutura do cartel possa ser pensada a partir da função do mais-um, como o que promove a transferência de trabalho, o que convida ao trabalho.
Miller diz que o mais-um é um provocador provocado[3]. Em D‘Ecolage[4], Lacan nos adverte que, se o mais-um é qualquer um, então deve ser alguém. Podemos dizer, ainda: alguém que encarne o furo, que preserve no cartel o furo no saber. Esta não seria também a relação do analista com a Escola, enquanto trabalhador – a de encarnar no seio mesmo da Escola o S de A barrado, o furo no saber?
Trata-se de não dar consistência ao saber, não há Outro do Outro que saiba. É um saber a ser construído. Não é que não haja um saber a ser alcançado, apenas ele não é consistente. É um saber furado. Isto está para quem se aproxima da Escola, para quem dela participa, para membros, não membros, iniciantes, mais experientes, porque não há um saber pronto e acabado. Todos estão convidados a fazer avançar a psicanálise e, justamente, a partir de que trabalhem e com isto convidem ao trabalho.
É neste ponto que o cartel incide e que dá a ele um lugar privilegiado em relação à transferência de trabalho. A elaboração provocada pelo mais-um no cartel é um dizer de cada cartelizante em nome próprio, sem o efeito de cola nem a autoproteção que a identificação oferecia aos grupos analíticos e à qual Lacan se opôs. Um dizer que é um acontecimento, que a análise propriamente extrai, mas que a função do mais-um no cartel também pode provocar, neste outro lugar que é a transferência de trabalho à Escola.
Este dizer é o amor ao qual Lacan se refere no Seminário 21, Os não tolos erram, “o amor é um dizer enquanto acontecimento”[5]. Ele é contingente, toca o corpo. Daí a importância deste dispositivo para que, na Escola, reine o vivo da psicanálise.
É este vivo que esperamos recolher nesta jornada!
Maria Teresa Wendhausen
Diretora de Cartéis da EBP-Seção Sul
[1] LACAN, J. Ato de fundação. In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003.
[2] MILLER, J.A. O banquete dos analistas. Paidós: Buenos Aires, 2011. p. 174.
[3] MILLER, J.A. Cinco variações sobre o tema da elaboração provocada. 1986. Traduzido e disponibilizado em: https://ebp.org.br/wp-content/uploads/2024/02/22Cinco-Variacoes-sobre-o-tema-da-elaboracao-provocada22-Jacques-Alain-Miller.pdf
[4] LACAN, J. D’Ecolage. 1980. Traduzido e disponibilizado em: https://ebp.org.br/wp-content/uploads/2024/02/22DEcolage22-Jacques-Lacan.pdf
[5] LACAN, J. O Seminário Livro 21: Os não-tolos erram/Os nomes do pai. 1973-1974. Inédito. Aula 4, p. 69.
Critérios para o envio dos trabalhos:
- O trabalho deve ser fruto da experiência do cartel. Recomenda-se que o trabalho tenha sido lido e discutido no cartel e revisado, antes do envio;
- Os trabalhos que pretendem abordar casos clínicos devem privilegiar a vinheta clínica, com atenção para informações sigilosas;
- Para que seja dado lugar à discussão, o limite máximo de caracteres é 5000, com espaço. Fonte Times New Roman 12, espaçamento de linhas 1,5;
- Os trabalhos devem ser enviados pelo mais-um;
- Colocar no campo do assunto do e-mail: Jornada de Cartéis da Seção Sul;
- Incluir no corpo do e-mail: tema do cartel, nome dos cartelizantes e do +1;
- No texto: título e autor
Comissão da diretoria de cartéis:
- Diego Cervelin (EBP/AMP)
- Márcia Stival (EBP/AMP)
- Maria Teresa Wendhausen (Diretora de Cartéis da Seção Sul – EBP/AMP)
- Paula Nocquet
- Priscila de Sá Santos
- Valéria Beatriz Araujo
Comissão epistêmica da jornada:
- Adriana Rodrigues
- Diego Cervelin
- Juliana Rego da Silva
- Maria Luiza Rovaris Cidade
- Márcia Stival
- Maria Teresa Wendhausen
- Mauro Agosti
- Paula Nocquet
- Priscila de Sá Santos
- Valéria Beatriz Araújo
- Em caso de dúvida envie e-mail para: equipedecarteisebpsul@gmail.com

